Avalanche Tricolor: ao pai, com paixão

Grêmio 2 x 0 Athletico-PR
Brasileiro — Arena do Grêmio, Porto Alegre

Gremio x Athletico
Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Pai,

Hoje era dia de comemorar teu aniversário. Se ainda estivesses entre nós, estaríamos festejando teus 91 anos de vida. O destino te levou daqui, mas quero acreditar que, onde quer que estejas, nesta noite de quinta-feira, deste um jeito de ficar ao meu lado.

Antes mesmo de a partida começar, vi uma frase estendida no fundo do gramado. Era uma daquelas que tu dirias quando a bravura precisa falar mais alto: “Tem de deixar a alma em campo.” Tive certeza de que eras tu ali, mandando um recado. Fortalecendo-me para a batalha que estava prestes a começar.

A vitória era fundamental para quem ainda tinha alguma pretensão de evitar mais um desastre na nossa história. Precisávamos daqueles três pontos como poucas vezes precisamos nos últimos tempos.

E, como nos velhos tempos, senti tua presença ao meu lado, sentado comigo na arquibancada — travestida de sofá de casa. Seguravas minha mão quando a sofrência tomava conta do meu coração. Diante do risco de um gol do adversário, lá vinha teu vozeirão lembrar um de nossos ditos gaúchos: “Não tá morto quem peleia, guri.”

No primeiro gol, o de Marlon, mal consegui ver a bola chegar às redes. Abracei o Gregório, teu neto, gremista forjado de tanto ouvir nossas histórias. Era ele que estava comigo — assim como tu sempre estiveste ao longo da vida. Sem a certeza de que seria possível, mas sem jamais desistir.

Por curioso que pareça — e tu deves ter percebido —, à medida que a esperança da vitória crescia, aumentava também o temor de vê-la escapar. Em vez de me tranquilizar, eu sofria. Mesmo vendo o time jogar muito melhor do que havia jogado em boa parte da temporada, só acreditaria no triunfo quando o juiz apitasse o fim da partida.

Então veio o segundo gol, com Balbuena. Um cruzamento na área. Um zagueiro no ataque brigando pela bola. A defesa bloqueou a primeira tentativa. Mas, se não deu na primeira, que fosse na segunda. E, se alguém estivesse pela frente, que a bola desviasse para as redes.

Éramos nós dois outra vez. Abraçados, acolhendo a alegria um do outro. Minha cabeça no teu peito, ouvindo teu coração. E tu enxugando minhas lágrimas de emoção.

Enquanto o Grêmio deixava a alma em campo, tu reservavas a tua para estar comigo nesta noite em que nos afastamos, ao menos por enquanto, daquela zona que tu sabes qual é. Nada está resolvido. Sabemos disso. Ainda temos cinco batalhas pela frente, sem contar a Copa do Brasil.

Mas aprendi contigo que, por mais que a ansiedade esteja no nosso DNA, precisamos aproveitar as pequenas conquistas que a vida nos oferece. E que bom poder comemorar esta vitória ao teu lado. Um presente de aniversário, pai. Para ti, para mim e para todos os gremistas.

Hoje, o Grêmio deixou a alma em campo. E tu, mais uma vez, deixaste a tua aqui comigo, porque tu és Imortal.

Feliz aniversário, pai.

2 comentários sobre “Avalanche Tricolor: ao pai, com paixão”

  1. Milton, bom dia !

    lembro muito do seu pai, no velho Olímpico, onde das cadeiras azuis víamos o estádio da montanha do antigo Cruzeiro.

    seu texto, como sempre, está emocionante e te cumprimento pela data do seu saudoso pai !

    vamos Grêmio !! não está morto quem peleia !

    abraço fraternal e tricolor !

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