A festa de Rodrigues na foto de LUCAS UEBEL/GRÊMIO FBPA
A notícia de que Geromel e Kannemann foram abatidos pela Covid-19 ecoou nas arquibancadas vazias da Arena do Grêmio e fez correr um frio na espinha do torcedor, momentos antes de a partida pela Libertadores se iniciar. Nós sabemos o que essa dupla representa no futebol sul-americano — no do Sul, então, nem se fala. Tricolores, incrédulos e crentes, olharam para o céu a se perguntar: o que acontece com o meu time? Os resultados não saem como gostaríamos (sim, nesta hora ninguém, lembra da vitória no Gre-nal), o futebol não rola a bola com o talento que conhecemos, jogadores importantes se lesionam e quando mais precisamos da nossa dupla imbatível vem esta peste fazer com nossos zagueiros o que os adversários não foram capazes.
Renato —- que conhece o grupo como ninguém —- apostou na dupla Rodrigues e David Braz para substituir os insubstituíveis. Braz é experiente, conhece os atalhos no campo, e leva o jogo na conversa. Apesar de nem sempre estar no lugar que gostaríamos quando a bola é cruzada na nossa área, gosto de vê-lo comemorando com os punhos cerrados sempre que a despacha para longe de nosso gol. Rodrigues é uma incógnita. Ou era. Foi elevado ao time titular em maio do ano passado, no Campeonato Brasileiro, em situação de emergência. Recomendação que ouviu do técnico: joga simples.
Há duas semanas, Rodrigues e Braz tinham feito uma atuação desastrada na derrota para o Universidad Católica, em Santiago do Chile. Braz saiu jogando no lugar de Kannemann e foi expulso; Rodrigues substituiu Geromel, que se lesionou durante a partida, e os dois gols do adversário passaram por ele. Assim que a escalação foi confirmada com a dupla de zagueiros, tive a impressão de ter visto os corneteiros de plantão afinarem seus instrumentos, prontos para fazê-los soar alto e forte.
Foi nesse clima que entramos na Arena para a partida decisiva na temporada —- isso mesmo, da temporada, não apenas na Libertadores. Nossos jogadores davam sinais de que desconfiavam de sua força e revelavam o sofrimento pela pressão dos desempenhos anteriores. Por mais que o DJ elevasse o som da torcida, a bola queimava no pé de cada um deles. Quando era cruzada na nossa área, contávamos mais com a sorte do que com o juízo.
Antes de o intervalo chegar, equilibramos o jogo; mas foi no vestiário que Renato ajustou as peças e convenceu a equipe de que em campo a nossa imortalidade tem de falar mais alto. Em dois minutos uma movimentação pela direita de Orejuela, Alisson e Robinho fez a bola chegar pelo alto para Diego Souza desviar e deixar Pepê em condições de marcar. Gol de Pepê, o Menino Maluquinho do Grêmio.
Maluquice mesmo foi o que vimos mais à frente.
O zagueiro que estreou no Grêmio com a recomendação ‘faça simples’ desembestou e complicou a vida do adversário. Na primeira arrancada, ergueu a cabeça, passou para Pepê e foi completar a jogada dentro da área — o goleiro defendeu. Na segunda, aos 17 minutos do segundo tempo, novamente foi ele quem levou o time ao contra-ataque, passou para Alisson, que deu uma meia-lua de cinema no defensor e entregou de bandeja para o nosso zagueiro concluir em gol. Gol de Rodrigues, o Tonhão do Grêmio.
Antônio Josenildo Rodrigues de Oliveira nasceu em Arez, no Rio Grande do Norte. Grandalhão, logo ganhou o apelido de todos os Antônios de estatura alta: Tonhão. E como Tonhão chegou ao Grêmio, em 2017, disposto a escrever sua própria história. Para escapar do estigma de zagueiro grosso e sem talento, assumiu o sobrenome da mãe e deu uma incrementada: incluiu o Z no final de Rodriguez, quase tão espanhol quanto Kannemann, apesar de ser fã mesmo de Geromel.
Da mesma forma que buscava o melhor nome para ser considerado, se esforçava em campo para se manter entre os profissionais. Desde que estreou sempre foi visto com ressalvas pelo torcedor. Tinha muito mais cara de Tonhão do que de Rodrigues —- já com o S recuperado em mais uma tentativa de ser protagonista em campo.
A poucos dias de completar 23 anos —- nasceu em 10 de outubro de 1997 —, Tonhão, ou melhor Rodriguez, digo Rodrigues, colocou o seu nome na privilegiada lista de jogadores que marcaram gols em Libertadores com a camisa do Grêmio — e sem medo do azar, vestindo a camisa 13 (da qual sou um admirador em particular).
Foi o primeiro dele desde que chegou aos profissionais. E não poderia ter sido mais importante. Porque o gol de Tonhão, ops, Rodrigues, colocou o Grêmio na próxima fase da Libertadores tanto quanto mostrou a resiliência de Renato e sua equipe. Um grupo capaz de superar as adversidades, driblar seus limites, aguentar firme as cornetas e se mostrar forte no momento em que mais precisamos na competição.
Pra que você, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, não tire conclusões precipitadas. Eu, assim como toda a torcida gremista, não ficamos satisfeito com o desempenho do time no Mineirão —- nem Renato e seus jogadores ficaram, é claro. Jogamos contra o líder, não por acaso o único dos primeiros colocados dedicado apenas ao Brasileiro, que conta com um jogador iluminado, e cometemos falhas que, se evitadas, poderiam ter tornado a disputa mais equilibrada, mesmo levando em consideração que o jogo do sábado à noite foi jogado entre duas decisões importantes da Libertadores —- a primeira, já ganhamos, na quarta-feira e você sabe de quem.
Dito isso, vamos ao tema principal desta Avalanche.
As cornetas enrustidas que estavam enfiadas no saco desde quarta à noite não precisaram mais de 10 minutos de jogo para soarem forte na janelas das redes sociais.
A primeira vítima: Paulo Victor —- goleiro que com resiliência e humildade suporta a reserva de um time que já comandou por temporadas e pelo qual conquistou títulos com defesas importantes. Tem consciência de que não fez um bom último ano e Vanderlei merece ser o titular. Foi colocado em campo, ontem, tendo a sua frente uma zaga reserva e sem a mesma qualidade daquela que admiramos com Geromel e Kannemann — que, convenhamos, facilita a vida de qualquer goleiro.
Com pouco tempo de jogo, Paulo Victor assistiu a três de seus colegas cercarem o goleador do adversário pegar a bola, se livrar da marcação e chutar com força no gol — ninguém foi capaz de travar aquele chute. Ainda evitou que a bola chegasse às redes com uma defesa que, se não fosse atrás da linha do gol, como se confirmou em seguida, era merecedora de aplausos.
Bastaram as cornetas tocarem nas redes sociais para meus colegas jornalistas esportivos começarem a repercutir e especular erros que, claramente, não ocorreram por parte do nosso goleiro. Aliás, justiça seja feita, todos os comentaristas, na emissora em que assisti ao jogo, foram afirmativos ao dar mérito para Keno e eximir Paulo Victor de responsabilidade.
Não adiantou: as cornetas seguiram em busca de um bode expiatório. E a televisão seguiu a dar voz aos insensatos como se a voz do povo fosse realmente a voz de Deus —- confesso: o velho ditado não se faz mais presente na minha biblioteca. Tive a impressão de que a insistência das críticas levou alguns dos comentaristas a ficarem mais reticentes quanto a Paulo Victor.
Mal iniciado o segundo tempo, o mesmo Keno fez 2 a 0 em uma bola que desviou na defesa e saiu do alcance goleiro. As cornetas soaram ainda mais alto e se voltaram para a lateral do gramado: a culpa é de Renato. Uma das mensagens reproduzidas na transmissão foi de alguém que identificou o que fazia diferença no placar: de um lado um time bem treinado e de outro um time que não sabia o que fazer em campo, comandado por um incapaz. Fora Renato! (se há um mérito nos corneteiros é que eles não desistem nunca).
Que o adversário estava e está jogando um futebol mais bem qualificado do que o nosso, é inegável. Seu treinador tem talento, algumas das peças de seu time são especiais, Keno está vivendo momento que sequer ele acredita e o time tem condições plenas de se preparar durante toda a semana para o adversário seguinte — não precisa poupar gente extasiada e lesionada e recorrer a reservas. Sequer Copa do Brasil tem para jogar, pois foi desclassificado lá no início. Nada disso é levado em consideração.
Ninguém foi capaz de ponderar que no meio da semana, o “time mal treinado” de Renato ganhou do seu principal adversário com uma apresentação de excelência, marcando forte e jogando bonito quando a bola era trocada de pé em pé.
Ninguém foi capaz de lembrar que aquele time do meio da semana passada —- com alguns reforços — terá de voltar ao gramado já na terça-feira pela Libertadores em jogo que se for vencido e dependendo a combinação de resultado garantirá com antecipação vaga à próxima fase da competição (curioso em saber onde os corneteiros irão enfiar o instrumento se isso ocorrer).
Ninguém foi capaz de lembrar que este é um ano atípico na preparação dos clubes devido a interrupção da temporada e uma retomada titubeante dos campeonatos, com jogadores expostos a riscos e um esforço descomunal para dar conta do recado de mais de uma competição ao mesmo tempo.
Exigir coerência de torcedores, me parece ilusão. Querer calar cornetas, é calar uma instituição do futebol. Renato e o time sabem disso. O que poderíamos fazer apenas é contrapor com fatos e opinião equilibrada essas reações insanas em lugar de termos medo de corneteiros de rede social e queremos navegar na onda populista (putz, bem que essa última frase caberia em um outro texto na editoria de política, não?).
Ferreira comemora em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA
Foram sete empates com o deste domingo —- o terceiro em casa. Alguns saímos na frente e cedemos. Outros saímos atrás e recuperamos. Fizemos bons jogos ainda no início da retomada do futebol e empatamos. Fizemos jogos medíocres e empatamos, também. Vitórias foram duas e derrotas apenas uma no Campeonato Brasileiro. Como os empates são a constância nessa competição, é deles que falo com você, caro e raro leitor desta Avalanche.
Dependendo a sequência, tem empate que é bom. Pra ter ideia, no começo do campeonato éramos dos poucos times invictos, com uma vitória e quatro empates seguidos —- muitos não gostavam do fato de sairmos de campo apenas com um pontinho conquistado, ainda assim a ideia da invencibilidade persistia. A primeira derrota veio e a conta se inverteu. O que até então era mérito —- cinco jogos sem perder —- virou fardo —- cinco jogos sem ganhar.
Dependendo o momento do campeonato, comemora-se empate, também, afinal, um ponto pode representar um pé mais próximo do título, da conquista de uma vaga ou fora da zona de rebaixamento.
Avalia-se o empate ainda de acordo com o adversário. É com quem se disputa posição? Menos mal que conseguimos segurá-lo. É com quem vem de baixo? Pode ser desperdício. É com quem está em cima? Tá valendo.
Nem sempre é o fator casa —- se é que este ainda existe desde a pandemia — que serve para a análise de quanto vale um ponto na tabela. Lembra que empatamos com o Flamengo no Maracanã? Foram dois pontos desperdiçados pela condição do jogo. No de hoje, foi um ponto conquistado, sem dúvida.
O momento na temporada, a sequência que teremos daqui para a frente —- especialmente levando em consideração a Libertadores —- a escalação e a performance do time, fizeram justo o placar.
Com jogadores baleados fisicamente e suspensos disciplinarmente, Renato mexeu na estrutura do time e montou uma equipe mais consistente atrás. Sem alguns dos seus principais nomes —- Geromel, Kannemann, Maicon, Jean Pyerre, Pepê e Everton —- fez partida equilibrada até o fim, com domínio da bola e chegando ao ataque bem mais do que o adversário
Renato teve a humildade —- há quem não consiga enxergar esta qualidade no nosso técnico —- de compreender que o momento que passamos é de altíssima responsabilidade. Depois da derrota no meio da semana, com time que não expressou sua alma de Libertadores, assistimos em campo a jogadores abnegados em suas funções, mesmo sabendo dos limites de uma equipe desfalcada. Estivemos diferentes na escalação e no ânimo —- esse foi o melhor sinal deste domingo.
O gol sofrido foi resultado da necessidade de soltar o time um pouco mais e tentar os três pontos — a fragilidade defensiva apareceu e pagamos o preço. Sair desta partida com derrota teria um custo muito grande para o Gre-nal da Libertadores. Abriria espaço para a pressão de corneteiros, críticas nas redes sociais e especulação na imprensa.
Aí, apareceu Ferreirinha: Aldemir dos Santos Ferreira, 22 anos, camisa 47, 1,73 de altura, canela fina, cara de guri e futebol de moleque. Depois de oito meses em banho maria por desacordo contratual com o Grêmio, o menino entrou em campo nos três últimos jogos, sempre no segundo tempo e por pouco tempo.
Tem-se a impressão de que a perna ainda não faz o movimento com a mesma rapidez que o cérebro imagina para se safar do adversário e correr em direção ao gol, mas, claramente, tem talento e tem estrela —- marcou o gol de empate de cabeça, da única maneira que jamais imaginaríamos sendo ele minguado diante dos marcadores. Meteu-se na área, foi rápido para se desmarcar e deslocou a bola distante do goleiro e quase no limite da trave.
Saímos de campo com mais um empate, mas esse tem um peso melhor do que a maioria dos outros. Veio com um time muito modificado; com jogadores que lutaram muito em campo; com dedicação até os minutos finais que permitiu a recuperação no placar; contra adversário que chega forte na competição; e oferecendo um pouco de tranquilidade para pensarmos no que realmente interessa no meio de semana: a Libertadores e o Gre-nal.
PS: sem contar que me livra de ter de ouvir chacota de um bando de amigos e colegas de trabalho palmeirenses, na segunda-feira.
Geromel espanta a bola em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA
Pouco antes de a partida desta noite começar, procurava um livro escrito por um gremistão de quatro costados — Léo Gerchmann — e deparei com o de um gremistão tresloucado: “Grêmio — nada pode ser maior”, de Eduardo Bueno — que de tão louco que é, foi capaz de lançar um livro inteiro recheado de paixão pelo Imortal Tricolor no mesmo ano que disputaríamos a Segunda Divisão. Parecia antever que naquele 2005 venceríamos a maior batalha de todos os tempos, a dos Aflitos.
Logo nas primeiras páginas, Peninha, dizia a que vinha. Deixava claro que o livro estava sendo escrito para gente como nós:
“…pra quem gosta de ganhar e não se conforma em perder, mesmo quando perde. E que, quando perde, sabe saborear a grandeza de uma derrota vendida caro, pois tem certeza de que o time não desistiu antes de lutar até o último minuto. …. para aqueles que sabem que não está morto quem peleia. …para que não só vibrou mas entendeu por que a Alemanha ganhou as copas de 1954 e 1974 e a Grécia levantou a Eurocopa de 2004. E, é claro, para quem não duvida que o Uruguai de 1950 foi um dos maiores campeões da história do Maracanã — e do mundo!”
“Essas outras cores e nomes, no entanto, só interessam como metáfora. O que importa é o Grêmio, Grêmio que o dicionário define como “conjunto de pessoas unidas em torno de um objetivo”. Grêmio de futebol —- e futebol de verdade, sem firula, sem vergonha sem frescura. Grêmio porto-alegrense mas que poderia ser, e foi e é, de Liverpool, de Montevideo, de Saint Louis, de Medellín, de Tóquio, da Vacaria, do Alegreta, de Bagé, de Pelotas, de Cacimbinhas, de Canela, … dos quintos dos infernos, de onde Judas perdeu as chuteiras (e o jogo, pois na hora H quis fazer uma embaixada por 30 dinheiros). Grêmio Fênix, que nunca foi Íbis, Grêmio galo de rinha. Grêmio charrua e minuano, com doses cavalares de bravura”.
Ao assistir ao Grêmio em campo no Chile, pensei no silêncio da minha desolação : haveria algum jogador gremista naquele gramado capacitado a ler esse livro? Só consegui pensar em Vanderlei e Geromel.
Que em breve, Renato recupere nosso time e o faça, novamente, merecedor da escrita de todos os gremistas.
Darlan briga pela bola em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA
O Grêmio tem jogado fora boas oportunidades de marcar três pontos, fora e dentro de casa. Lá fora, em partidas que dominava, mas nas quais não conseguiu marcar gols com a mesma frequência de anos anteriores. Cá dentro (ou na Arena), o desperdício chama ainda mais atenção: de 12 pontos disputados ganhou cinco apenas; dos seis últimos pontos, ficamos com um, conquistado no empate deste domingo.
Feitas as contas, o aproveitamento do Grêmio é melhor fora do que dentro de casa. Estranho, não?!? Talvez não!!! Talvez a ausência de público na Arena, desde a retomada do futebol, esteja sendo um dos motivos para o rendimento anormal de um time que costumava amassar o adversário com o empurrão de sua torcida — você há de convir que aqueles gritos programados na caixa de som não enganam ninguém.
O time troca passe, mas não com a mesma velocidade de antes. Os jogadores se movimentam em ritmo menos intenso no ataque e na defesa. A marcação sofre com tudo isso. O que só me faz ajoelhar e agradecer por termos Geromel e Kannemann na zaga. Sem eles, poderíamos estar ainda mais vulneráveis. Hoje, da dupla titular, o gringo ficou de fora. Que volte logo e em forma.
Somou-se a falta de Kannemann, a ausência de outras peças importantes como Maicon, que ficou pouco tempo em campo (saiu lesionado), e poderia com seu talento fazer a bola rolar mais rapidamente e com sua liderança fazer o time correr; e como Pepê, nosso velocista.
Luiz Fernando que teve boa atuação nos poucos minutos em campo contra o Bahia, voltou a ser escalado no segundo tempo contra o Fortaleza e dá sinais de que pode se encaixar na equipe. Tem entrado com vontade e fome de bola —- hoje com vontade além da conta e, ao ser expulso, prejudicou o time que havia feito jogar melhor.
Torcida e time (quase) sempre jogaram juntos nestes anos todos de títulos. Houve até partidas em que a torcida fez mais do que o próprio time. Hoje, essa força motriz está em falta … e tem de ser substituída por outros fatores, porque assim será para todo o ano de 2020. Mais um desafio para Renato que sempre apostou no carisma que tem com o torcedor —- além de seu conhecimento estratégico e comando de grupo —- para colocar o time no caminho das vitórias.
A perda de pontos importantes, a série de empates e os percalços em casa talvez sejam pela falta do torcedor, talvez sejam pela ausência de alguns jogadores, talvez sejam apenas por que estamos nos reconstruindo em um temporada atípica como essa que vivenciamos. Não temos como saber ao certo.
Dito isso, vamos ao que interessa.
Nessa sequência de incertezas, a única certeza que tenho é que um bom resultado na retomada da Liberadores, no meio da semana, fará toda a diferença. Que venha a vitória!
Alisson comemora o primeiro gol em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA
Renato é gênio.
Alisson é craque.
Vanderlei, nunca reclamei.
Grêmio mostra a que veio no Campeonato.
Exagerado?!? Não sou eu, não!
Exagerados eram os corneteiros que insistiam em pregar a desgraça alheia diante de resultados pouco convincentes. O desempenho estava abaixo do esperado, sem dúvida. Jamais neguei. E se o caro e raro leitor deste blog duvida do que escrevo, basta ler a Avalanche “Que toquem as cornetas”, escrita duas rodadas atrás.
O que não aceitava — e sigo não aceitando — era o exagero da crítica que usava palavras como “fracasso”, “teimosia” e “preguiça” para descrever um time que conquistou o Campeonato Gaúcho, recentemente; mantém a longa invencibilidade contra seu principal rival; vendeu o seu maior craque —- aliás, considerado até então o maior em atuação nos campos brasileiros —-; está em reconstrução porque tem de recolocar peças em lugares de jogadores consagrados; e ainda espera a recuperação física de um grupo que sentiu muito a parada provocada pela pandemia.
A vitória contra o Bahia, fora de casa, talvez amenize o toque das cornetas, pois mesmo com todos os desfalques, mostrou que o DNA do time de Renato se mantém. Saber resistir a força do ataque do adversário, apesar de desfalques em boa parte do sistema defensivo, e aproveitar com precisão a única oportunidade real de gol até aquele momento, 25 minutos do primeiro tempo, deram tranquilidade para o Grêmio colocar a bola no chão, trocar passes e se movimentar com um pouco mais de velocidade.
O curioso é que o time que insistia em não cobrar escanteios com bola cruzada dentro da área, acabou marcando seu primeiro gol na cobrança de lateral a longa distância. Na combinação do arremesso feito por Cortez e o cabeceio de Diego Souza, Alisson foi premiado com um chute certeiro da entrada da área. Merecido gol para um cara que se sacrifica em campo para sustentar o esquema de jogo de Renato — e muitas vezes não é reconhecido por sua função.
Daí pra frente, o Grêmio esboçou o futebol que gostamos e que se seguir evoluindo vai calar de vez os corneteiros. A despeito de uma série de outras boas jogadas, o segundo gol bem ilustrou este momento que estamos reconstruindo: o passe de Everton, o recém-chegado, foi especial. Olha para um lado e dá um tapa para o outro, em velocidade e com precisão. Darlan, recém-alçado ao time titular, que havia participado do inicio do lance, deslocou-se no sentido contrário e se colocou livre para receber o presente do colega de ataque. Marcou seu primeiro gol no time principal — que seja o primeiro de muitos.
O Grêmio está distante de ser o time que Renato, seu grupo e os torcedores esperam. Muito mais longe estava, porém, da imagem construída por parte daqueles que o criticam —- e incluo aqui, especialmente, torcedores insatisfeitos com a própria vida, que descontam tudo naqueles que nos representam em campo.
A retomada da vitória e a recuperação física e psicológica de alguns jogadores serão muito importantes para a sequência do calendário, com o revezamento entre Brasileiro e Libertadores, neste mês de Setembro —- o que me faz lembrar que depois do Inverno vem a Primavera.
Kannemann é gigante na área; foto de LUCAS UEBEL/GRÊMIOFBPA
Antes de o domingo acabar, convido você a fazer comigo um exercício de imaginação. Faz de conta que o time para o qual você torce tenha disputado sete partidas em um campeonato de pontos corridos e só tenha perdido uma delas. Você olha os demais adversários e descobre que apenas um deles perdeu menos; três perderam tanto quanto; e os demais 15 perderam mais do que o seu time.
Isso não seria motivo de otimismo para você?
Depende.
E depende porque no futebol não basta não perder. É preciso ganhar. Mais do que ganhar. É preciso jogar bom futebol. Especialmente se o seu time o acostumou a ver a bola sendo rolada com maestria no gramado, e os jogadores se movimentando em uma coreografia capaz de encher os olhos do torcedor e atrapalhar a visão dos marcadores.
Assim tem sido desde 2016 com o Grêmio. Nosso time entra em campo e, independentemente do resultado, o futebol jogado é de alta qualidade —- com as exceções de praxe. Muitas vezes a perfomance era capaz de nos deixar satisfeitos apesar do revés no placar. Competições foram perdidas, mas nosso time deixava o gramado com a certeza de que enfrentou o bom combate; e de cabeça erguida se preparava para o confronto seguinte.
O futebol do Grêmio pós-Covid tem se revelado muito abaixo daquilo que nos acostumamos e do que somos capazes de fazer, levando em consideração os jogadores que integram o elenco. Esse desempenho tem dado espaço a críticas, estimulado teorias de conspiração e levado a escolhas precipitadas — dentro e fora de campo.
Se a você —- caro e raro leitor desta Avalanche —-, no primeiro parágrafo deste texto, convidei a fazer um exercício de imaginação; faço agora um pedido à diretoria gremista, comissão técnica e seus jogadores: um exercício de humildade.
Deixemos as conquistas recentes em seu devido lugar —- na memória e no passado. Encaremos a realidade. Saibamos ouvir uns aos outros. Identificar as fragilidades. Corrigir nossas fraquezas. Solucionar nossa escassez. Fortalecer nossos méritos —- e se há mérito e motivo que ainda me fazem felizes quando assisto ao Grêmio em campo, é saber que Pedro Geromel e Walter Kannemann vestem nossa camisa.
Os dois seguem sendo a maior dupla de zaga do futebol latino americano. Jogadores que se diferenciam pela maneira de se portar em campo. Ao contrário da maior parte dos zagueiros brasileiros, não têm medo de atacar o adversário, de dar o bote — como se diz no jargão do futebol. E o fazem com precisão, na maior parte das vezes. Se necessário for, dão a vida pelo time. Foi o que fizeram neste domingo de futebol muito mal jogado em Goiânia.
Geromel entregou-se a uma rara expulsão em sua carreira para evitar o mal maior. Kannemann sacrificou seus músculos. Os dois foram gigantes para manter vivo o desejo de vermos o Grêmio ser o time que admirávamos — aquele Grêmio que já jogou o melhor futebol do Brasil e da América do Sul. Que um dia haverá de voltar aos estádios.
Acordei bem cedo alertado pelo incomodo som das cornetas que chegava até aqui, onde aproveito o fim da minha folga, trazido pelo vento sul que sopra na montanha, antes de o sol se aprochegar pelo leste. Conheço bem essas cornetas, seus tocadores e o que os motiva. Cinquenta e sete anos de vida e muitos deles passados nas arquibancadas do saudoso Olímpico, deixam os ouvidos calejados.
O Grêmio teve 74% de posse de bola, finalizou 30 e tantas vezes e fez 55 cruzamentos para dentro da área adversária. Fez apenas um gol e levou dois —- nos dois únicos lances de ataque do adversário, se não perdi algum.
Ninguém saiu de campo feliz. Dos gandulas —- aqueles que são gremistas, e muitos somos —- a jogador; de segurança a diretoria; do porteiro da Arena aos comentaristas. Todos viram que mesmo com todo o domínio que se pode ter, fomos incapazes de chegar à vitória, mais uma vez.
O Grêmio já havia dominado o Corinthians e o Flamengo —- dois dos grandes do Brasil —- e voltou a fazê-lo contra o Sport, que era o lanterna da competição. O resultado não foi alcançado como merecíamos ou gostaríamos em nenhuma dessas partidas. Aliás, no Brasileiro, tivemos apenas uma vitória e mantínhamos uma enganosa invencibilidade com a sequência de empates que nos deixava no meio da tabela de classificação.
Evidentemente que quem pode mudar esta situação sabe o que está acontecendo e está batendo cabeça para tentar resolver as peças em campo, engrenar o passe, ajustar o chute a gol e achar uma saída para este momento. Tem jogadores em falta e outros desconsertados pelo baixo desempenho.
No jogo da noite de ontem, as vaias não ecoaram na Arena porque o DJ era clubista (mais até do que eu) — apesar de já ter assistido à cena nos espetáculos da NBA em que acordes da marcha fúnebre soaram diante de um resultado negativo do time da casa. Houvesse torcedores presentes, haveria as vaias individuais, voltadas para um ou outro jogador; os que ofenderiam o time por inteiro; e os insanos que gritariam “Fora Renato”.
O silêncio das críticas na Arena migrou para as redes sociais, onde as hipérboles negativas sempre ganharão mais força pela forma como ecoam nos diversos perfis de gente incomodada e indignada —- tivessem esse mesmo incomodo e indignação com o que estão fazendo com o Brasil talvez as coisas melhorassem mais rapidamente por aqui.
Longe de mim reclamar de quem reclama; ou dizer que o torcedor deve aceitar o resultado ruim de boca calada. Somos assim, amamos e odiamos em questões de minutos. Aplaudimos e vaiamos quase ao mesmo tempo, conforme o resultado final do drible e do chute. E os resultados não têm sido bons especialmente após a volta da pandemia.
Eu, na frente da televisão, também faço das minhas; mas há muito tempo, abri mão do meu desejo de vaiar; prefiro sofrer calado a espera da vitória —- que, convenhamos, nos últimos anos tem aparecido com frequência. Vai ver que é meu instinto de solidariedade, pois como você — caro e raro leitor desta Avalanche —- deve saber, sou alvo de vaias, críticas e ofensas diariamente, por jornalista que sou.
Agora, acordar logo cedo nesses dias de folga e ler o que li, me deu um certo fastio. Fracasso, teimosia, preguiça, desastre e até quem já enxergue no horizonte a queda para a Segunda Divisão, como maldição do titulo Gaúcho. Fora os que acusam Renato por tudo de errado que esteja acontecendo. Temo que em breve haverá quem reivindique a derrubada da estátua dele, na Arena.
Há os que analisam de cabeça fria para entender a queda de rendimento —- e isso é importante; os que pesam na tinta por torcedores que são —- e o coração fala mais alto; e, claro, tem os inimigos de plantão, que nunca aceitaram que Renato chegasse onde chegou. E o Grêmio voltasse a ser um campeão com futebol bem jogado e elogiado pelo Brasil.
Esse coro faz parte do futebol e pode ajudar se for ouvido como um sinal de alerta.
Pelo que se conhece daqueles que lideram o Grêmio nesses últimos tempos, não tenho dúvida, o mesmo som que me acordou logo cedo, nesta sexta-feira, já passou das ruas e das redes, atravessou as arquibancadas da Arena e chegou aos ouvidos de quem está no vestiário. Experiente, criativo e talentoso, nosso maestro fará com que todos os demais instrumentos passem a tocar no mesmo ritmo e o som estridente das cornetas encontre o tom certo e se integre a harmonia de um futebol bem jogado, mais bem afinado.