Avalanche Tricolor: barba, cabelo e bigode, com toda a elegância

 

Avenida 0x3 Grêmio
Gaúcho – Estádio dos Eucaliptos – Santa Cruz/RS

 

Arthur

Arthur completou o serviço no segundo tempo

 

Barba, cabelo e bigode. No passado, era assim que se descrevia uma tarefa que havia sido realizada por completo. E assim pode-se descrever a tarefa cumprida pelo Grêmio no simpático estádio e complicado gramado de Santa Cruz do Sul, nesta tarde de domingo.

 

Desde os primeiros movimentos, percebia-se que superar o campo ruim e pesado dos Eucaliptos seria mais difícil do que vencer o adversário que jogava em casa.

 

Apesar de enfrentarmos um time que se propôs a fincar-se diante de sua área e de lá não sair, com o objetivo de não levar gols, o toque de bola do Grêmio era envolvente a ponto de encontrar espaço para jogar.

 

Com a área congestionada, preferimos arriscar de fora e tivemos sucesso nos pés de Ramiro, aos 8 minutos de partida. Aliás, no pé esquerdo de Ramiro, o que não é comum ao meio-campista destro do Grêmio que tem revelado um excelente chute, como já vimos em algumas cobranças de falta, nos últimos jogos.

 

Barba feita, fomos em busca do segundo gol que veio dois minutos depois. A fórmula foi a mesma. Ou quase. Troca de passe veloz e precisa. Deslocamento de jogadores de um lado e de outro. Jael recebeu de Luan na esquerda e ao tentar devolver a bola foi desviada na mão do marcador. Luan cobrou bem o pênalti.

 

Renato chegou a pedir serviço completo ainda no primeiro tempo. Gato escaldado tem medo de água quente, costumava dizer seu Alecir, barbeiro que me atendia nos tempos em que morei em Porto Alegre. Melhor matar o adversário quando ele ainda está tonto do que deixá-lo ir para o vestiário, se reorganizar e reagir. Não foi atendido, mas contou com Marcelo Grohe que mais uma vez fez das suas para impedir qualquer reação: que baita goleiro, heim seu Alecir?!?

 

Fomos para o vestiário com barba e cabelo feitos. E não demorou muito para aparar o bigode, também. Aos 12 do segundo tempo, após nova troca de passe bem elaborada, Arthur recebeu de Everton de frente para o gol. Havia dois marcadores em cima dele, então com a elegância que lhe é comum, Arthur puxou a bola para trás, deixou os dois zagueiros abraçados  e com o mesmo pé que fez o corte completou o serviço: 3 a 0.

 

Restou para a segunda partida, na Arena, quarta-feira à noite, apenas o banho de “aqua velva – aquele toque invisível de distinção que todos notam”, como se lia na publicidade antiga desta que foi das mais famosas águas pós-barba que já conhecemos.

 

 

Avalanche Tricolor: por Marcelo, vamos ganhar este Gauchão

 

Inter 2 (2)x(3) 0 Grêmio
Gaúcho – Beira Rio/Porto Alegre-RS

 

Grenal

Marcelo Grohe comemora a classificaçao em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

 

Sofrimento não faltou neste campeonato.

 

As escolhas no início da temporada não deram o resultado esperado. Com um time de jogadores da base, salvo alguns agregados do grupo principal, o desempenho ficou aquém da expectativa. O nome do Grêmio rondou a parte mais baixa da tabela de classificação até praticamente as últimas rodadas da primeira fase.

 

Os catastróficos estavam prevendo o pior, sem levar em consideração o potencial do time que, sob o comando de Renato, se preparava nos bastidores para a temporada longa de jogos importantes. Dois deles, inclusive, logo no início do ano quando disputamos e vencemos a Recopa Sul-Americana.

 

Houve até quem fizesse discurso, diante de algumas injustiças cometidas por árbitros, que o Grêmio deveria deixar de lado o estadual para não prejudicar a campanha nas competições que realmente interessavam no ano: Libertadores e Campeonato Brasileiro, por exemplo.

 

Os matemáticos chamados a mostrar suas contas pareciam incrédulos na possibilidade de o Grêmio impor uma sequência de vitórias que lhe tirasse da parte de trás da competição e o colocasse entre os oito classificados às finais. Preferiam falar em chances para não cair. Pobres coitados! Tão obstinados pelos números, esqueciam do poder de reação que sempre marcou a história gremista.

 

Ao fim e ao cabo, o Grêmio chegou às quartas de final não na última vaga, mas em sexto lugar e com uma vitória na casa de seu principal adversário, que lutou desesperadamente por um empate apenas para não ter o dissabor de enfrentar o tricolor já na etapa seguinte. Sabia o que teria pela frente.

 

O Grêmio chegou grande e forte no momento decisivo da competição e mostrou sua superioridade no domingo passado, na Arena quando encaminhou sua classificação à semifinal com uma goleada de 3 a 0.

 

Na noite desta quarta-feira, diante da torcida adversária e de um time que tem como sua maior pretensão no ano a conquista do estadual, o Grêmio somente precisava carimbar a passagem à próxima etapa. Fez um jogo sabendo desta missão.

 

É provável que ciente de sua superioridade e da grande vantagem que havia garantido no primeiro jogo tenha sobrado soberba. E isso sempre cobra um preço por mais talento e técnica que seu time tenha.

 

O Grêmio, como diz o lugar-comum dos jornalistas esportivos, jogou com o regulamento embaixo do braço, e se expos a riscos. Riscos calculados é verdade, pois como se viu nos momentos finais da partida, bastava colocar a bola na grama, trocar alguns passes e o talento que nos deu a Copa do Brasil, a Libertadores e a Recopa, nestes últimos anos, se revelava novamente.

 

Jogou o suficiente para se classificar e aprendeu a lição. É o que espera Marcelo Grohe, segundo se ouviu na entrevista que ele concedeu ao fim da partida. Nosso goleiro confidenciou ao repórter de campo que antes do jogo se iniciar lembrou a seus colegas que neste ciclo vitorioso que estamos vivendo ainda não havíamos vencido o Gauchão.

 

Marcelo, um dos dois únicos remanescente do último título gaúcho que o Grêmio conquistou, ainda chama o estadual no aumentativo, coisa que evito há bastante tempo, pois entendo que o campeonato perdeu importância especialmente diante dos verdadeiros desafios que temos pela frente.

 

É bom que ele alerte seus colegas e chame minha atenção, também, para a necessidade de reconquistarmos este troféu. Até porque, Marcelo sabe que o Grêmio está condenado a disputar cada jogo como uma decisão. É assim que nossas história foi forjada. E, independentemente do tamanho do campeonato, o Grêmio tem de ser grande em campo, sempre.

 

Vamos ganhar o Gauchão – e o chamarei assim, a partir de agora – por Marcelo Grohe.
 

Avalanche Tricolor: foram palavras mágicas!

 

 

Grêmio 3×0 Inter
Gaúcho – Arena Grêmio/Porto Alegre-RS

 

 

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Muitos motivos para sorrir (foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

O saudoso estádio Olímpico está a alguns passos de onde escrevo esta Avalanche, nesta noite de domingo. A Arena fica mais distante, algo em torno de 11 a 12 quilômetros. Era para lá que seguiria nessa tarde para assistir ao Gre-Nal 414. O ingresso destinado aos sócios, no setor Oeste das cadeiras gold, ficou armazenado no meu computador a espera de ser impresso. Preferi guardá-lo. Mudei meus planos.

 

Em vez do estádio, entendi que meu lugar era na sala da casa onde passei minha infância e adolescência, na Saldanha Marinho, no bairro do Menino Deus. Naquele mesmo espaço onde nossa família se reunia no passado, onde eu e meus irmãos brincávamos, onde a mãe montava a árvore de Natal, onde ligamos a nossa primeira TV a cores … Ali mesmo, onde hoje estariam meu irmão mais novo, meu filho mais velho e, especialmente, meu pai.

 

Foi ele, o pai, quem me ensinou a ser gremista desde pequenino – usou método pouco ortodoxo, é verdade, e já escrevi sobre isso em Avalanches anteriores, mas foi fundamental na minha escolha.

 

O pai me levou pela mão ao estádio Olímpico, me apresentou muitos dos meus ídolos, me fez conhecer os bastidores e corredores do time. Me fez íntimo daquele espaço e daquelas cores. Forjou minha personalidade e educação nas conversas que tínhamos diariamente, nas quais o Grêmio era nosso motivo de interação.

 

Foram-se muitos anos desde aqueles tempos de guri. Eu já estou com 54 anos e o pai com 82. Por aquelas coisas que a idade avançada vai nos tirando da memória, a conversa com ele já não tem a mesma fluidez. A gente se esforça para dialogar, dizer algumas palavras, descobrir o que queremos falar um para o outro. Às vezes, a mensagem chega por gestos, por sorrisos ou pelo olhar.

 

Com medo que essa distância aumente de maneira acelerada, acreditei que estar ao lado dele, neste domingo, era o melhor que poderia fazer, aproveitando minhas férias na cidade. Por isso nos sentamos nos sofás e poltronas novos que ocupam a nossa velha sala de televisão para assistir ao Gre-Nal.

 

Foi mágico!

 

Falamos do jogo e dos jogadores; vibramos com as primeiras defesas de Marcelo Grohe; nos incomodamos com a falta de chute do nosso time; reclamamos do árbitro e das manias dos locutores e comentaristas esportivos. Em pouco tempo, éramos novamente pai e filho daquele passado que havia se passado bem ali ao lado, no estádio Olímpico.

 

E foi ainda mais mágico, porque o Grêmio parecia entender os instantes que estávamos experimentando juntos.

 

Para nos oferecer a primeira grande alegria, fez questão de marcar um gol, através de Everton, ainda antes do intervalo, em uma troca de passes típica deste time que tem encantando a América. Apenas não corri e me joguei nos braços do pai porque achei que ele não suportaria essa extravagância. Preferi dar-lhe um abraço e um beijo enquanto falávamos da nossa satisfação.

 

Tive de me conter mais uma vez, aos 17 minutos do segundo tempo, ao ver Jael bater falta de maneira precisa e indefensável e correr em direção a Renato com o sorriso característico deste atacante que a cada partida revela seu prazer em ser feliz. Sorrimos, o pai e eu, juntos com Jael. Voltamos a nos abraçar e trocamos palavras de felicidade.

 

Aos 31, acompanhamos quase em pé a corrida de Arthur em direção ao terceiro e definitivo gol. A medida que a bola se aproximava do “fundo do poço”, nós já nos cumprimentávamos, agora batendo as mãos no alto, uma contra a outra, como se fôssemos dois adolescentes. Era o que parecíamos mesmo, narrando novamente cada momento daquela jogada, o lançamento, o toque de ombro de Jael, a escapada de Arthur e o chute por debaixo do goleiro adversário.

 

Falávamos com satisfação, felicidade e jovialidade. Falávamos do Grêmio e das alegrias que ele nos proporcionava. E a partir da nossa fala, descobri que por mais que a memória queira ir embora, as palavras que sempre nos uniram se mantém vivas. E esta foi, mais do que a goleada, a minha maior alegria deste domingo de Gre-Nal.

Avalanche Tricolor: o Gigante no Beira-Rio

 

Inter 1×2 Grêmio
Gaúcho – Beira-Rio/Porto Alegre-RS

 

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A alegria de Luan, a nossa alegria (foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA)

 

A trilha sonora no quarto de hotel em que estou é dos anos de 1980. Naquela época ainda estava em Porto Alegre. Havia uma certa excitação provocada pela chegada à universidade e a possibilidade de iniciar carreira. Mal sabia o que viria pela frente: da mesma maneira que a tristeza me importunou com a morte de minha mãe – a mais dura de todas as tristezas que vivi até hoje -, alegrias e esperanças surgiram com as transformações que se avizinhavam. Foi um tempo em que a vida e o futebol me causaram emoções incríveis. E por ser este um texto dedicado ao futebol é com ele que vou dialogar daqui pra frente.

 

Foram os anos de 1980 que fizeram o Grêmio gigante. Até lá havíamos sofrido para conquistar o domínio regional; disputávamos cada campeonato gaúcho como se fosse a maior batalha a ser vencida em campo; ganhar um clássico estadual era a conquista a ser alcançada, independentemente do que mais viesse a acontecer. Foi uma etapa importante de nossa vida, pois forjou nosso crescimento.

 

Foi quando descobrimos que o nosso futebol não caberia mais nas fronteiras do Rio Grande. Conquistamos o Brasil, a América e o Mundo. Ganhamos respeito e deixamos história por onde passamos. Revisitamos muitas dessas conquistas para orgulho de nossa torcida, nos anos seguintes.

 

Nessas quase quatro décadas que nos separam dos anos de 1980, o Grêmio rodou o mundo; e ao Campeonato Gaúcho ofereceu sua verdadeira dimensão, sem jamais desmerecê-lo, mesmo que esse nem sempre merecesse nossa atenção.

 

Neste ano, pensando grande, aceitou o risco de escalar times jovens ou desentrosados. Calculou o perigo que corria ciente dos objetivos que busca na temporada. Sofreu pressão, ouviu intriga e ensaiaram até mesmo uma crise: nada disso foi suficiente para tirar o Grêmio de seu rumo.

 

Neste domingo, contra seu principal competidor no Rio Grande do Sul, que dedica 100% de suas forças à competição regional, e diante de um estádio praticamente tomado pela torcida adversária, o Grêmio mostrou-se mais uma vez gigante.

 

Em campo, provou porque é o time do Rio Grande do Sul mais respeitado e temido da atualidade. Fez um primeiro tempo quase que perfeito. Colocou seu oponente nas cordas, trocou passes com precisão, desfilou talento em campo e deu oportunidade para Luan apresentar seu cartão de visita, onde se lê: Rei da América.

 

Com dois gols, domínio total da bola no pé e sorriso no rosto, Luan é a cara do Grêmio que surgiu daqueles anos de 1980.

 

Apesar de ainda se parecer com um menino, tem apenas 24 anos, é um guerreiro em campo, não tem medo de cara feia, provoca o marcador a ponto de fazê-lo perder o equilíbrio, e o desequilibra com sua desenvoltura no meio de campo. Quando chuta a gol, toca na bola com uma delicadeza como se estivesse agradecendo por ela ser tão generosa com ele. E a bola responde, dirigindo-se de maneira certeira em direção às redes. Eles se entendem como poucos.

 

No segundo tempo, surpreendido logo cedo, outra versão gremista se revelou: a do time capaz de se defender de tudo e de todos. Calejado pelo tempo, segurou a pressão daqueles que pareciam desesperados por um empate para tentar evitar o confronto direto já na próxima fase do mata-mata. Foi então que Geromel e Kannemann confirmaram o que sabemos deles há algum tempo: são bons de mais.

 

O Grêmio foi grande como tem sido desde os anos de 1980.

 

O Grêmio, sem provocação, foi o Gigante no Beira Rio.

Avalanche Tricolor: dos tempos da Semana Gre-Nal

 

Grêmio 1×0 São Paulo (RS)
Gaúcho – Arena Grêmio

 

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Maicon faz de pênalti único gol da partida

 

 

Começo essa Avalanche revelando a idade: 54 anos. E com todo orgulho. A passagem do tempo é da natureza do homem, portanto não há motivos para fugir dela. Só não passa o tempo quem já morreu. E quero viver por muitos anos ainda. Basta que tenhamos capacidade de nos adaptarmos às transformações. E esse tem sido meu esforço.

 

As confidências do primeiro parágrafo, posso garantir, não foram influenciadas pela presença, na noite de ontem, na Arena, do técnico Ernesto Guedes que, aos 68 anos e 57 clubes depois, ainda tem disposição de ficar em pé ao lado do gramado, gritando com seus jogadores na esperança de posicioná-los melhor em campo, mesmo ciente da baixa qualidade técnica do time que tem para comandar.

 

Guedes já era experiente nos tempos em que fui repórter esportivo, nas rádios Guaíba e Gaúcha, de Porto Alegre, na metade dos anos de 1980. Sempre foi dado a frases de efeito e comportamento provocativo com o objetivo de motivar seu time e seus torcedores. É daqueles entrevistados bons de conversar porque dele sempre se tira aspas de destaque  que podem render uma boa manchete (aspas é como chamamos as declarações que são transcritas palavra por palavra no jornal).

 

Não falo de minha idade por causa de Guedes, mas tenho certeza que se fossem outros os tempos e no comando de um dos times da dupla Gre-Nal, ele estaria abrilhantando o noticiário com suas afirmações, às vésperas do primeiro clássico da temporada.

 

Lembro dos meus 54 anos porque, assim como Guedes, eu também sou dos tempos em que a imprensa gaúcha dedicava enormes espaços para falar da “Semana Gre-Nal”.

 

Sim, naqueles tempos, respeitava-se uma semana inteira sem jogos para que os grandes do Rio Grande do Sul se preparassem para o clássico, os lesionados se recuperassem e – em alguns casos – os suspensos tivessem a chance de serem perdoados nos tribunais.

 

Era a oportunidade de se contar as histórias dos principais personagens de um lado e de outro: muitos dos nossos heróis tiveram sua imagem construídas dessa maneira. Alguns, inclusive, eram bem maiores na página do jornal do que dentro de campo.

 

Em reportagens que sempre traziam o selo “Semana Gre-Nal”, havia comparação do desempenho de jogadores, análise com lupa das estratégias dos técnicos e a lembrança de duelos épicos.

 

Antigamente, se andava pelo centro de Porto Alegre e se percebia um clima diferente. Um excitação que levava todos a falarem mais alto na Rua da Praia por onde ecoava uma provocação que incomodava tanto quanto era respeitada. 

 

Aqueles, porém, era outros tempos. 

 

Atualmente, joga-se sábado ou domingo, depois volta-se a jogar na segunda, na quarta ou na quinta e a rotina segue no fim de semana. Falta tempo para digerir o resultado do jogo que mal acabou e já é preciso promover a próxima partida.

 

Ontem à noite, o Grêmio ainda não havia deixado o gramado, depois de mais uma vitória no Campeonato Gaúcho, contra o time treinado por Ernesto Guedes, e o repórter já perguntava sobre o clássico. Não havia tempo a perder porque o Gre-Nal é logo ali e outros tantos podem se seguir dependendo da combinação de resultados.

 

Menos mal que deu tempo para ver Arthur voltar ao gramado, dominar a bola com a elegância que marca seu futebol, de cabeça erguida, com o corpo sempre voltado em direção ao gol e o olhar em busca de um companheiro mais bem colocado. Ter nosso volante à disposição renderia uma ótima reportagem nos tempos da Semana Gre-Nal.

 

Em forma, ele poderá ajudar e muito o Grêmio a vencer o clássico no domingo. Até porque se tem alguma coisa que não mudou com o passar do tempo foi o nosso desejo de vencer sempre o Gre-Nal.

Avalanche Tricolor: o ciclo natural das coisas

 

Juventude 0x2 Grêmio
Gaúcho – Alfredo Jaconi/Caxias do Sul-RS

 

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Espantados com o baixo rendimento nas primeiras rodadas do Campeonato, justificado pela escolha que se fez de preservar o time principal – registre-se, escolha correta -, muitos se iludiram com o desempenho gremista.

 

Falou-se de tudo um pouco, inclusive da possibilidade de rebaixamento na competição. Fez-se, também, um murmurinho na tentativa de colocar crise onde não havia espaço para tanto.

 

Quando parte dos titulares foi a campo e alguns pontos deixaram de ser conquistados, tentou-se mostrar que havia ali um padrão negativo em ciclo. Esqueceu-se que aquele time estava apenas voltando ao futebol depois da temporada vitoriosa e difícil do ano passado.

 

Vieram, então, a Recopa, com direito a mais um título sul-americano na lista, e a estreia da Libertadores. Foi quando lembraram que tínhamos diante de nós desafios muito maiores do que o Gaúcho e a esta competição daríamos a devida atenção quando necessário. Demoraram para entender isso.

 

Assim que os primeiros compromissos importantes do ano foram despachados, levamos nosso melhor futebol ao estadual. Já havíamos vencido bem em casa e agora voltamos a vencer fora dela. Nesse domingo, com toque de bola – mesmo com alguns passes errados – e muita disposição superamos o adversário que disputava diretamente com a gente a vaga na zona de classificação.

 

O Grêmio mais uma vez foi o dono da bola, dominou a partida, movimentou-se com paciência, pressionou a defesa e aproveitou-se dos erros provocados por esta pressão.

 

O gol de Jael valeu pela insistência de nosso atacante. Pela crença que demonstra em cada disputa de bola. Foi graças a esse esforço constante que conseguiu roubar a bola dos pés do goleiro adversário e chutar a gol. Seu segundo gol no Gaúcho e seu segundo cartão amarelo. Que venham outros!

 

A lição de Jael foi aprendida por Madson. O ala sabe que somente a sequência de bons jogos o colocará nos braços do torcedor. Hoje usou da velocidade para chegar a linha de fundo e cruzar; e abusou quando na troca de passes, no segundo tempo, chegou no meio da área para marcar seu primeiro gol com a camisa do Grêmio. Que venham outros!

 

Ao fim e ao cabo, o Grêmio já está entre os finalistas e ainda faltam duas rodadas para serem disputadas.

 

O ciclo natural das coisas começa a se revelar.

 

Azar de quem vem pela frente!

Avalanche Tricolor: e assim será a Libertadores!

 

Defensor(URU) 1×1 Grêmio
Libertadores – Montevidéu URU

 

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A festa do gol  (reprodução SportTV)

 

Era Libertadores, mas tinha cara de estadual.

 

Estádio de bairro, arquibancadas baixas, campo acanhado, estruturas mínimas e quase nada a oferecer para os times e torcedores além de um gramado aparentemente bem cuidado.

 

O adversário parecia ter bebido da fonte dos times do interior do Rio Grande do Sul: postou-se atrás e criou uma barreira de jogadores diante da sua área, se dispôs a segurar a partida até onde fosse possível e deixar o tempo passar. Estava feliz em não perder.

 

Nessas condições, o Grêmio jogou bola pra lá e pra cá, movimentou-se de um lado para o outro, trocou jogadores de lado e cultivou a paciência. Arriscou alguns chutes de fora da área e quando conseguiu acelerar o passe chegou ao seu gol.

 

Foi um gol marcado pela insistência, pois além de ficar com a bola nos pés a maior parte do jogo, na jogada que foi concluída por Maicon, já aos 37 do segundo tempo, tanto Jael como Everton já tinham aparecido com chances. No empurra daqui e chuta dali, sobrou para o nosso capitão estufar a rede.

 

Por descuido, fomos punidos, três minutos depois. Punição muito maior do que a que merecíamos dadas as circunstâncias da partida. Parecia mesmo alguns dos jogos que disputamos no estadual.

 

Parecia estadual, mas era Libertadores.

 

Injusto ou não e independentemente das condições oferecidas pelo adversário, teremos de nos acostumar com essa situação ao longo da competição. O Grêmio é o campeão a ser batido.

 

Sendo assim, o esforço será encontrar soluções para furar esse bloqueio e encarar todas as demais dificuldades comuns a Libertadores. O que convenhamos não será nenhuma novidade na caminhada gremista: se tem um time sempre disposto a superar adversidades, este time é o Grêmio, é o Rei de Copas!

Avalanche Tricolor: a alegria de um gol

 

Grêmio 3×0 Nova Hamburgo
Gaúcho – Arena Grêmio

 

 

Era importante a vitória na noite desse sábado, em Porto Alegre. Os três pontos tiram o Grêmio da zona de rebaixamento tanto quanto o aproxima da faixa de classificação, que está logo ali.

 

Valeram, também, porque deixa o time mais confortável para as competições que realmente interessam, especialmente a Libertadores, que começa na terça-feira. E, por tabela, afasta os muxoxos em meio a festa do título da Recopa Sul-Americana.

 

Três pontos que vieram depois de três importantes gols.

 

Um muito rápido. De tão rápido, virou recorde: 23, 24 ou 25 segundos dependendo de quem registrou no cronômetro (conta que o juiz roubou um ou dois segundos, rsrsrs). É o mais rápido já feito na Arena. E nos ajudou a descobrir Thonny Anderson, 20 anos, que atuou a altura do número que estampou sua camisa: o 10. Dribla curto, dribla bem e chuta a gol. Tem destino. Que seja no Grêmio.

 

O segundo gol, ainda no primeiro tempo, foi importante porque deu tranquilidade a um time que vinha se deixando surpreender nos últimos jogos do Gaúcho. Thonny não marcou mas brilhou dentro da área ao se desvencilhar dos adversários com mais um drible e encontrar Jael correndo por trás da defesa para dar assistência a Michel. Nosso volante chegou livre para marcar, como costumam aparecer nossos defensores neste futebol moderno que nos tem dado tantas alegrias.

 

O terceiro seria apenas para as estatísticas. Foi de pênalti e aos 39 do segundo tempo quando o adversário sinalizava estar abatido e os três importantes pontos na tabela estavam garantidos. Mas esse foi para mim e tenho certeza que para boa parte da torcida gremista o mais importante de todos.

 

Foi o gol do sorriso, da alegria, da satisfação de jogar futebol.

 

Foi gol de Jael que havia ouvido a torcida gritar seu nome mesmo quando perdeu um gol de cabeça, já no segundo tempo. Torcida que o aplaudiu apesar das cobranças de falta terem parado nas mãos do goleiro ou distante de seu destino. Que entendeu seu esforço apesar de os chutes a gol terem ido para a linha de fundo. E se fez tudo isso é porque enxerga nele o desejo de ser um vencedor. Um atacante que teima em não aceitar suas limitações e veste 110% a camisa do Grêmio.

 

Foi Jael quem deu o passe para sermos campeões da Libertadores e foi ele quem brigou pela bola que foi parar nos pés de Everton para o gol que nos levou à final do Mundial.

 

Foi Jael quem deu carrinho sempre que necessário para impedir o avanço de nossos adversários.

 

E não esqueça, foi Jael quem bateu com perfeição um dos pênaltis que nos garantiram a Recopa Sul-americana. Como foi perfeita a cobrança para o terceiro e definito gol do Grêmio na vitória desse sábado.

 

Jael comemorou seu gol, aos 29 anos, como o menino que disputa uma pelada na calçada perto de casa ou no campinho de areia lá do bairro. Alegria que contaminou todos em campo e fora dele como se viu nas imagens captadas pela televisão e na bela foto registrada por Lucas Uebel que estampa este post.

 

A alegria de Jael foi a nossa alegria. De quando conseguimos no trabalho, na família ou na vida um grande feito. A alegria de saber que independentemente daqueles que atravancam o nosso caminho estaremos sempre dispostos a lutar e acreditando que seremos maiores. A alegria de quem sabe que por mais que nos cerquem intempéries, injustiças e ignorância um dia nós faremos o nosso gol, o gol de Jael.

 

Pela alegria do gol, obrigado, Jael!

Avalanche Tricolor: boa noite, Campeão!

 

Grêmio 0 (5)x(4) 0 Independiente ARG
Recopa – Arena Grêmio

 

 

 

Lá se foram muitas horas desde a cena final da nossa saga na Recopa Sul-Americana. Somente agora à noite, consigo sentar diante do computador para registrar meu sentimento diante de mais uma conquista do Grêmio. Foi um dia intenso de trabalho, discussões e emoções, regados ao pouco tempo de sono que tive. Foi pouco mais foi feliz. Muito feliz!

 

Era início da madrugada desta quinta-feira quando o time comemorou, sob chuva de papel picado, o título conquistado na defesa de Marcelo Grohe. A imagem de nosso goleiro com os dedos apontados para o alto e um sorriso no rosto, ainda deitado na grama em que se atirou para impedir que a última das cinco cobranças de pênaltis dos argentinos fosse convertida, permanece na memória.

 

Guardo também a frase de Renato ainda em êxtase e comemorando com a torcida, diante de um insistente repórter, como aliás devem ser os repórteres: “o Grêmio aprendeu a ganhar”. Mais uma vez nosso técnico tem razão. E aprendemos a ganhar, perdendo, empatando, sofrendo, sendo injustiçado, sangrando. Aprendemos a ganhar, lutando, se superando, fazendo o impossível e trabalhando unido como aqueles jogadores abraçados ao lado do campo à espera do pênalti decisivo.

 

Muitas cenas ainda guardo da memória, a esta altura embaralhadas pela emoção e cansaço. As tentativas de Everton, o esforço do capitão Michael em sacudir seus colegas, a bola sendo carregada pelos pés de Luan e as bolas despachadas por Geromel e Kannemann, essa incrível dupla de zaga, que já merecem um capítulo só para eles na história do Imortal.

 

De todas, porém, nenhuma imagem está tão viva e me tocou tanto quanto o abraço que recebi de meu filho mais velho, o Gregório, ao fim da sequência de pênaltis. Muito mais alto do que eu, saltei sobre ele como se tivesse sido o autor de um gol e nos seus braços fiquei preso por algum tempo, enquanto compartilhávamos a alegria de mais um título que comemoramos juntos.

 

Nosso abraço foi o último ato de um fim de noite e início de madrugada que vivenciamos lado a lado. Eu, calejado pelo passado, tentei conter minha ansiedade até onde pude. Ele, sem vergonha de ser jovem, pulava sobre o sofá; praguejava nossos atacantes e suas bolas jogadas para fora do gol; descrevia em voz alta como deveria ser o chute que desperdiçamos; e clamava por Deus toda vez que nossos jogadores corriam para a bola para cobrar o penalti.

 

Sofremos juntos, como sofrem os gremistas. Vibramos juntos, como vibram os campeões. E nos abraços e nos beijamos como só pais e filhos, que se unem em torno de uma paixão, são capazes de fazer.

 

No último instante da festa, enquanto Michael dividia o troféu da Recopa com Geromel, em mais um momento que revela a dimensão do grupo formado por Renato, eu e meu filho dividimos o prazer de desejar um ao outro: boa noite, Campeão!

Avalanche Tricolor: vítima da falta de respeito do futebol brasileiro (e gaúcho)

 

Veranópolis 2×1 Grêmio
Gaúcho – Veranópolis/RS

 

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Escrever sobre o jogo um dia depois de disputado nos oferece algumas boas oportunidades de reflexão. Mais tempo para pensar costuma resultar em palavras mais equilibradas menos influenciadas pela emoção do resultado. E, mais uma vez, o resultado não foi bom. E não o foi pelos motivos que conhecemos muito bem, mas parece que alguns preferem deixar em segundo plano.

 

Sem ter tido tempo de preparação, planejando a temporada sul-americana e às vésperas de mais uma disputa de título, o da Recopa, abriu-se mão do Campeonato Gaúcho ao colocar times de transição, reservas, alternativos ou seja lá o nome queiram dar. Paga-se o preço por tal decisão, talvez mais alto do que merecêssemos: houve partidas em que seria justo termos pontuado mas bolas desviadas, árbitros atrapalhados e algumas pataquadas da nossa defesa nos levaram a somar revés atrás de revés.

 

De volta às vantagens de escrever uma dia após o jogo: dá tempo de ler o que dizem seus protagonistas, como é o caso de Renato, que durante toda a partida de ontem revelou insatisfação com o desempenho do time, entre caras e bocas registradas pela televisão. Na entrevista, admitiu erros e desentrosamento, mas fez questão também de criticar a Federação Gaúcha de Futebol. Pediu que os organizadores do campeonato “pensem um pouquinho” em relação ao sacrifício que obrigam alguns clubes a assumirem para atender o capricho do calendário da competição. E reclamou: “preferem quantidade e não qualidade”.

 

Foi na leitura dominical que encontrei na mesma página de site, naquele espaço em que destacam as mais lidas, duas manchetes que dizem muito sobre o que acontece com o Grêmio nesta altura do campeonato. Na primeira, um colunista fez o cálculo: temos quatro jogos para encerrar essa fase da competição, precisamos de três vitórias para se classificar e duas para não cair. Na segunda, estava a informação que o Grêmio é o quinto clube com mais títulos internacionais.

 

Não há como não relacionar esses fatos, mesmo que estejam escritos de maneira isolada. Somos grandes e nos comportamos como tal; e no futebol brasileiro ser grande é pecado, porque confederação e federações sobrevivem com os votos dos pequenos. E para beneficiá-los criam competições maiores do que nossa capacidade e espremem o calendário sacrificando os melhores times, aqueles que vão mais longe, que disputam títulos aqui dentro e se capacitam a jogar lá fora, como é o caso do Grêmio.

 

O Grêmio é o time gaúcho com mais presença em competições no exterior e disputou 17 vezes a Libertadores. Só nos anos 2000 participou nove vezes do principal torneio sul-americano. A lembrar: 2002, 2003, 2007, 2009, 2011, 2013, 2014, 2016 e 2017. Uma sequência de anos que o fez focar, por óbvio, na competição maior, deixando o Gaúcho para o que desse e viesse.

 

O Grêmio não é vítima de seu sucesso, como eu mesmo já devo ter escrito algumas vez nesta Avalanche. O Grêmio é vítima da falta de respeito do futebol brasileiro (e gaúcho) com seus grandes clubes.