Avalanche Tricolor: é de perder o sono

 

Direto de Abu Dhabi

 

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O gol de Everton em foto Getty Images/Fifa.com

 

Acostumar-se com a diferença de horário entre Brasil e Emirados Árabes é mais difícil que passar pela defesa do Al Jazira. Nessa quarta-feira, o descontrole foi total com a madrugada estendida após o jogo do Grêmio. Troquei a noite pelo dia e paguei caro. A quinta-feira está para amanhecer por aqui enquanto no Brasil muita gente ainda assiste ao jogo do Flamengo pela Sul-americana e eu já estou que não consigo mais ficar na cama.

 

Na cama, sem sono, comecei a pensar no que vi em campo até agora e no que pretendo ver sábado na decisão do Mundial, no estádio de Abu Dhabi. Lembrei da pergunta de Zé Elias, um dos participantes do programa Bom Dia Bate Bola, da ESPN, do qual fui convidado a participar para falar da experiência de assistir ao Grêmio, na primeira partida em Al Ain. Queria saber se eu já havia imaginado como seria o gol do título, se havia criado minha própria fantasia antes de a bola começar a efetivamente rolar.

 

Ainda tenho muito viva a imagem do gol de Everton que nos levou à final. Isso já é suficientemente forte para ocupar minha mente. Mas confesso que fiquei, sim, imaginando como seria ser campeão mundial, que momento sublime poderíamos viver em família, aqui nos Emirados. E sem nenhuma pretensão de adivinho, pensei o quanto mitológico seria ganharmos com um gol de Geromel, provavelmente resultado de uma cobrança de escanteio. A bola vindo pelo alto e um leve toque de cabeça desviando-a para o fundo das redes. É de arrepiar, mesmo que tudo ainda seja fruto da imaginação.

 

Sabemos da dimensão do adversário da final. Da qualidade técnica dos jogadores que formam o milionário time espanhol. Dos predicados daquele que é considerado o melhor do mundo na atualidade e da constelação que o acompanha. Dinheiro, muito dinheiro, estrutura e experiência são diferenciais que pesam quando saímos do campo dos sonhos para jogar bola no campo da realidade.

 

Renato e seus comandados também reconhecem essas diferenças e isso não nos diminui. Ao contrário, nos fortalece. Pois respeitar a força contrária é o primeiro passo para se estabelecer a melhor estratégia para enfrentá-lo. Entender seus movimentos e a potência de suas armas, permite uma articulação mais precisa, cirúrgica.O futebol não perdoa prepotência nem tem espaço para deslumbramentos. Exige cabeça no lugar, pé no chão, bola rolando na grama, marcação séria e jogo responsável. É lá dentro das quatro linhas que o jogo se resolve.

 

Nada disso nos impede de sonhar. E imagino que muitos dos nossos jogadores, que espero estejam dormindo no horário em que escrevo esse texto, têm sonhado no título desde que se capacitaram à final. Já demonstraram competência para realizá-lo. O que o Real revelou contra o Al Jazira é que a vitória sobre o espanhóis é possível. E nós já conquistamos muitas coisas impossíveis.

 

De minha parte – e já falei para você, caro e raro leitor desta Avalanche – o meu sonho já está sendo realizado. Vivenciar o Grêmio em um Mundial tem sido incrível. Sentir-se em casa dividido a arquibancada com milhares de gremistas em estádio tão distante da nossa terra foi emocionante. Ouvir os jornalistas estrangeiros fazendo referências ao meu time tem significado muito especial, motivo de muito orgulho. E no sábado, Senhor Amado, não quero nem imaginar o êxtase ao ver nossa camisa tricolor entrando no gramado do Zayed Sports City Stadium. Não quero imaginar, mas já posso sentir, a ponto de ter mais uma vez perdido o sono.

 

E isso, tenha certeza, não é culpa do fuso horário.

Avalanche Tricolor: emoção, sofrimento e lágrima como verdadeiros gremistas que somos

 

Grêmio 1×0 Pachuca MEX
Mundial – Estádio Haza bin Zayed/Al Ain

 

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É madrugada em Abu Dhabi! Voltei para cá depois de assistir à vitória que colocou o Grêmio na final do Mundial de Clubes, em Al Ain, que fica há cerca de uma hora e meia daqui. Temo que esta madrugada se estenda ainda mais, pois está difícil acalmar o coração e a excitação após partida tensa, disputada e sofrida como a desta estreia do Grêmio na competição.

 

Havia pedido 2 a 0 nas entrevistas que concedi para emissoras de rádio brasileiras, entre as quais duas CBNs, em Porto Alegre e São Paulo. Era muito mais um desejo de tranquilidade do que uma crença. Conhecedor das façanhas gremistas por que esperar que a classificação à final viesse com um passeio, como alguns quiseram dar a entender que seria obrigação do campeão da Libertadores? Fomos forjados no sofrimento e assim construímos nossas conquistas. Não seria diferente em um Mundial.

 

Ainda sinto o impacto da tensão provocada todas às vezes que o adversário ameaçava nosso time em desenfreados ataques. Nas bolas que Marcelo Grohe defendeu, nas que desviaram por força do destino ou nas que sequer chegaram ao nosso gol graças aos mitológicos Geromel e Kannemann. Ou às roubadas cirúrgicas de Cortez, que encarnou nessa noite Everaldo, Arce e todos os laterais que passaram por nossa história.

 

Tenho presente no corpo o resultado do sofrimento diante de ataques mal engendrados, de lances forçados e de jogadas inacabadas, que se repetiram em boa parte do jogo. Sem contar os gols desperdiçados em cobranças de faltas que chegaram a tocar a rede ou rasparam o travessão, mas sempre pelo lado de fora. Ou em lances como aquele em que Luan estava livre dentro da pequena área. Era só tocar na bola que ela entrava, gritavam na arquibancada. A gente sabe que lá dentro é tudo muito diferente, mas enquanto os nossos não conseguiam fazer a diferença só nos restava sofrer.

 

As marcas desta semifinal que me tiram o sono não estão apenas no peito e na alma. Estão na memória, também. Nas cenas que tenho vivenciado desde que desembarquei na Terra do Mundial. Na caminhada ao estádio ao lado dos filhos, na torcida cantando nosso hino e nossas cores, nos olhares que trocamos a cada minuto que se passava sem que o gol saísse. Na imagem dos guris aplaudindo, lamentando, gritando por este jogador, praguejando por aquele outro, vibrando e sofrendo como eu sempre vibrei e sofri.

 

E, claro, não me sai da cabeça o instante mágico em que Renato redivivo e incorporado em Everton disparou em velocidade pelo lado esquerdo em direção à área, balançou entres marcadores, abriu espaço e disparou com o pé direito para marcar o único e necessário gol que nos levaria à final do Mundial. Foi tudo ali, na nossa frente, diante de nossos olhos, bem pertinho de onde estávamos assistindo ao jogo. Parecia ter sido feito para nós. E tenho certeza que o foi.

 

Um momento único a ser vivido por mim que passei infância e adolescência dentro do saudoso estádio Olímpico e aqui realizo o sonho de ver meu time mais uma vez no Mundial. Um momento que pude dividir com as devidas emoção e lágrimas abraçado aos meus dois filhos, que viveram longe de Porto Alegre. Emoção e lágrimas devidamente retribuídas por eles como verdadeiros gremistas que são. Gremistas forjados por mim – sem dúvida – mas, especialmente, pela nossa história!

 

E que história experimentamos juntos nessa noite que não vai acabar tão cedo!

Avalanche Tricolor: um sonho se realiza na Terra do Mundial

 

Direto de Abu Dhabi

 

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Foram dias agitados esses últimos. Com menos de duas semanas entre a final da Libertadores e o início do Mundial, os trâmites burocráticos e a montagem da estrutura mínima para viajar ocorrem no limite do tempo. A passagem fica mais cara, o hotel com menos vagas, os ingressos desaparecem a cada dia e a concessão do visto gera ansiedade: a autorização da Embaixada dos Emirados Árabes para entrar na região chegou no fim da quinta-feira, último prazo para quem pretendia embarcar no fim de semana (soube de quem a recebeu no saguão do aeroporto).

 

Com uma viagem de cerca de nove horas até Nova Iorque e mais de 16 horas para Abu Dhabi, com direito a três fusos horários – para trás e para frente -, escala em aeroportos internacionais, despacho de malas e outros quetais, tudo que eu queria era chegar nos Emirados a tempo de ver a primeira partida.

 

Cheguei …. e não cheguei em um dia qualquer. Cheguei em um 11 de dezembro, data histórica na qual comemoramos a primeira vez que o Grêmio conquistou o Mundo ao vencer o Hamburgo da Alemanha, por 2 a 1, em Tóquio, em 1983. Quis o destino que depois de tudo certo e arranjado, eu desembarcasse na Terra do Mundial exatamente nesse dia em que lembramos um dos maiores feitos de nossa história. Pode ser um sinal, pode ser coincidência ou pode ser coisa alguma. Mas fiquei ainda mais feliz com a conspiração do calendário.

 

Lá se foram 34 anos desde que alcançamos o topo do mundo em uma competição da Fifa – sim, meu senhor, sim, minha senhora, tinha a assinatura da federação internacional, basta ver as imagens da época – que era disputada em uma só partida e sempre no Japão.

 

Eu era apenas um guri de 20 anos, universitário, jogador de basquete do Grêmio e sem um tostão no bolso para viajar até o outro lado do mundo. Estar ao lado do Grêmio era um sonho impossível de ser realizado. Assisti ao jogo em Porto Alegre mesmo. E tenho certeza que você, caro e raro leitor desta Avalanche, se gremista for, também haverá de lembrar onde estava. Eu estava ao lado do meu pai – boa parte das nossas grandes conquistas, estive na companhia dele. Estávamos junto com alguns amigos do basquete gremista no apartamento do técnico Edson Rezeznik.

 

Vibramos entre amigos cada drible e cada gol de Renato, aplaudimos a bravura (e braveza) de nossos jogadores e comemoramos a grandeza do Grêmio que fez os alemães e a Europa se renderem ao nosso futebol. Voltei para casa de carona com o pai, buzinamos no meio do caminho para cada torcedor que corria pelas ruas extravasando sua alegria na madrugada de Porto Alegre. Uma enorme festa que se estenderia até o retorno da delegação ao Brasil.

 

Tanto tempo passou e tantas coisas aconteceram na minha vida desde então. Pessoas que estavam comigo se foram, muitas outras vieram. Eu mesmo fui embora. Troquei Porto Alegre por São Paulo para construir minha própria família e carreira profissional. Cresci, chorei, amadureci, sofri, envelheci, comemorei … e sempre estive com o Grêmio onde o Grêmio estivesse.

 

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Neste 11 de dezembro, 34 anos depois de conquistamos o Mundo, desembarquei em Abu Dhabi ao lado de meus dois filhos. Por onde passamos, nos aeroportos que andamos e nos aviões que embarcamos, no Brasil e fora dele, o Grêmio esteve conosco. Torcedores enrolados em bandeiras, trapos esticados sob as mesas de bar, camisetas novas, antigas e retrôs vestidas com orgulho. Quem não se falava, trocava olhares cúmplices. De quem sabia o que carregava na mala, no que sonhava naquele momento …

 

Um sonho que é muito mais complicado hoje do que foi em 1983. As diferenças financeiras e técnicas entre o futebol da Europa e da América do Sul aumentaram desproporcionalmente. Etapas e times encardidos se meteram no meio desta disputa e entram em campo dispostos a fazer sua própria história e desconstruir a nossa.

 

Independentemente das diferenças e dificuldades impostas no nosso caminho, aconteça o que acontecer amanhã e depois, quero aqui deixar registrado: 34 anos depois de o Grêmio me dar o prazer de gritar “Campeão do Mundo”, o Grêmio volta a me dar o direito de sonhar o maior de todos os sonhos que o futebol pode proporcionar.

 

Eu estou aqui na Terra do Mundial, sonhando e orgulhoso de ser gremista!

Sou explosivamente Grêmio!

 

 

Por Cao Hering

 

 

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Acompanhe outras imagens do Grêmio no site http://www.ducker.com.br

 

 

Já me perguntaram se eu sou gaúcho. Não, não sou. Está na cara, repare no meu jeito “catarina”. Sou gremista por osmose, ou sei lá como se chamam essas coisas do futebol. Amor gratuito à primeira vista? Pode ser. Saí de Blumenau torcendo pelo Grêmio Esportivo Olímpico, quem sabe esteja aí o elo. Torcer por um time é uma caixinha de surpresas, diz a filosofia. Torcer por um time é se apegar simplesmente a um escudo, pois todo o resto é volátil. Jogadores, técnico, ídolos, estilo de jogo, o corte da gola e das mangas, o estádio, até as cores, tudo em algum momento pode se desfazer, e você fica com seu escudo providencialmente no lado esquerdo do peito.

 

 

Pus os pés em Porto Alegre quando Falcão, Batista, Figueroa e outros tantos imbatíveis colorados botaram o tricolor da Azenha na roda por longos anos. Sem TV, na companhia do radinho de pilha, no silêncio das tardes de domingo meu quarto era preenchido pela narração vibrante, quase visível, de Armindo Antônio Ranzolin, os comentários de Lauro Quadros e Ruy Carlos Ostermann. O longo grito de goooooooooool era quase sempre para o Inter.

 

 

Nas discussões, puxávamos antigas derrotas do rival que em nada adiantavam para aplacar a frustração e as gozações nos almoços e aulas da faculdade nas segundas-feiras. Mas é aí mesmo que a gente se apega ao time do peito. Virei gremista de raiz, sem me meter em loucuras, fanatismo ou descer pela avalanche no estádio. Em Blumenau, sou torcedor à distância, não pego ônibus ou avião pra ver o Grêmio jogar na Cochinchina ou no Alegrete. Não me perguntes onde fica, não sei explicar direito.

 

 

Tivemos nossas redenções no Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil, Libertadores da América e um mundial no Japão. Há uma longa lista de feitos em ambos os lados, administrada atabalhoadamente pelos deuses do futebol. Não cabem aqui. Nos últimos anos, no entanto, é nossa vez. E na quarta-feira passada o apaixonado planeta azul pôde explodir novamente, agora em hostil território argentino. E também dentro de sua própria arena frente aos telões. “Soy loco por tri, America!”, dizia a faixa na arquibancada. É orgástico, é ver de novo e de novo e de novo Cícero, Fernandinho e Luan metendo a bola na rede do Lanús. Olha o gol! Olha o gol! Olha o gol! Ah, e os milagres do Grohe! É o mundial mais uma vez na porta. E seja lá o que os deuses do futebol programarem daqui pra frente, já tá tudo de bom tamanho.

 

 

É só futebol, mas é o Grêmio. Não sou gaúcho, assim como os flamenguistas da minha turma não são cariocas e muitos corintianos nem saberiam chegar a Itaquera. Não me acostumei à carne mal passada e o chimarrão é amargo demais. Música gauchesca, nem pensar. Não digo “tchê” e nem usaria uniforme gremista na rua. Mas sou explosivamente Grêmio! Grêmio, o Imortal!

 

O Cao Hering, que autorizou a publicação deste texto no Blog, é gremista, publicitário e colunista do Jornal de Santa Catarina.

 

Avalanche Tricolor: só havia motivos para sorrir neste domingo

 

Atlético MG 4×3 Grêmio
Brasileiro – Independência-BH/MG

 

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Guris se divertem em campo, em reprodução da SportTV

 

Estava ansioso pelo domingo. E o domingo começou com céu claro e sol agradável em São Paulo. Motivos não faltavam para minha ansiedade: era meu primeiro domingo de férias, que se estenderão até quase o fim do ano, ao lado dos filhos, da mulher e, provavelmente, com uma experiência inédita na minha vida – sobre a qual compartilharei com você assim que se realizar (e se realizar). Era ainda o primeiro domingo do advento do Natal, sempre razão de alegria para os católicos. Mas era, também, a primeira vez que encontraria o padre José Bortolini desde a conquista da Libertadores.

 

Falei dele por aqui em edições anteriores. Aos 65 anos, encara uma daquelas doenças sempre dispostas a nos tirar de ação, mas incapaz de abatê-lo. Já teve problemas de saúde durante a missa. Foi parar no hospital. Não foram suficientes para fazê-lo desistir. Coragem, fé e inteligência são suas principais fortalezas. Autor de inúmeros livros, é um intelectual a serviço da religião e como poucos padres que conheci tem uma incrível capacidade para agregar pessoas e animar a missa. Nessa segunda-feira, completará 40 anos de sacerdócio. É um vitorioso.

 

Bortolini nasceu em Bento Gonçalves, na serra gaúcha, e, principalmente, nasceu gremista – e agora você, caro e raro leitor desta Avalanche, começa a entender o fato dele ser personagem desta nossa conversa. É com ele que troco olhares, sorrisos e algumas poucas palavras antes de a missa começar ou no seu encerramento. São os únicos momentos em que permitimos que o futebol se sobreponha aos assuntos da religião. Costumam ser mensagens curtas, uma ou duas frases. Nunca mais do que isso. O suficiente para que nossas intenções e confiança em relação ao jogo transpareçam.

 

Hoje, cheguei cedo. E ele estava lá, firme e forte. Forte e faceiro. Assim que me viu, se virou para cumprimentar-me com a simpatia de sempre. Assoprou-me algumas palavras talvez para que outros fiéis não se sentissem incomodados: “a América ficou pequena para nós”. Foi o suficiente para tirar um largo sorriso deste escrevinhador e de alguns que estavam mais próximos. Disse sem medo de estar cometendo o pecado da soberba, pois tinha a favor de seu argumento o futebol superior que nos levou ao tri da Libertadores.

 

Abracei-o com o abraço que os campeões merecem e assim que entrei na Igreja mais uma cena a me lembrar da nossa conquista: Romano Pansera, um dos fiéis que sempre encontro aos domingos, estava sentado nos primeiros bancos. Seu primeiro nome aparecia em destaque gravado nas costas da camisa tricolor. Sim, ele também é gremista como eu. E pelo que percebi aproveitou o momento para agradecer pelas graças alcançadas. Fui até lá para compartilhar um abraço, afinal, ali estava outro campeão da América.

 

De minha parte, como já deixei claro em outras Avalanches, procuro não misturar os assuntos. Sempre tenho a impressão que Deus tem mais com que se preocupar do que ficar defendendo bola lá atrás e as desviando para o gol lá na frente. O futebol, dizem, tem deuses próprios que habitam os estádios e costumam intervir nos momentos mais inacreditáveis para nos provar que estão dispostos a ajudar a quem fez por merecer.

 

Assim que voltei para a casa, ainda pela manhã, o Grêmio haveria de me oferecer outro instante de satisfação: graças ao seu título, fui entrevistado no programa apresentado por Carlos Eduardo Eboli, na CBN, ao lado de Álvaro Oliveira Filho. Oportunidade para tecer elogios à gestão do futebol gremista, à perseverança e ao conhecimento de Renato e à construção desta equipe de campeões.

 

A tarde de domingo chegou e lá estava o Grêmio a me dar mais alegrias, mesmo diante de resultado desfavorável. Perdão, placar desfavorável. Porque o resultado do futebol apresentado pelos meninos que entraram em campo foi muito bom. Toque de bola, deslocamento, velocidade, dribles, coragem, paciência e persistência: todas aquelas marcas que fizeram nosso time campeão estavam naquele grupo de guris. Eles jogaram bola com sorriso no rosto. Divertiram-se diante das câmeras de televisão. Não se intimidaram com a experiência e a torcida do adversário. Sinalizaram a mim, ao Brasil e a todos que admiram um jogo bem jogado que o futebol que nos levou ao título da América não foi um acaso.

 

Realmente, a América está pequena para nós, como disse o padre Bortolino.

 

Que assim seja para todo o sempre, amém!

Avalanche Tricolor: Eu sou TRI da América, pai! Obrigado!

 

Lanús 1×2 Grêmio
Libertadores – La Fortaleza/Lanús-ARG

 

 

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Pai,

 

Mesmo distantes, eu aqui em São Paulo e você em Porto Alegre, nunca estive tão próximo de você como nesta noite de decisão. E desde que ela começou a ser escrita, semana passada, naquele gol de Cícero, na reta final da primeira partida, têm sido frequentes as lembranças de nossos muitos momentos juntos e em torno do Grêmio.

 

Você não tem ideia, pai, foi uma avalanche de emoções antes mesmo de a bola começar a rolar na Argentina. E a cada lembrança, aumentava a vontade de ligar para você e dizer muito obrigado por tudo que você fez por mim. Na louca escapada de Fernandinho; na molecagem de Luan que saçaricou com a bola dentro da área; na defesa de Marcelo Grohe; em todo momento gigante que vivemos nesta noite até o apito final, lembrei de você pai! Queria abraçar você! Porque se eu sou TRI da América, e sou TRI por sua causa!

 

Foi você que me fez gremista! E por isso eu agradeço.

 

Obrigado, pai, por sua intervenção em 1969 quando um primo engraçadinho aproveitou-se da minha ingenuidade, vestiu-me com o uniforme daquele outro time, me deu uma bandeira e me ensinou a cantar “papai é o maior”. Imaginava ser uma homenagem para você. Descobri que era uma provocação barata. Dizem os parentes que apanhei com a bandeira. Sempre pensei que essa era uma piada em família até o dia em que você confessou, constrangido, o ocorrido. Sem constrangimento, pai. Foi pedagógico e definitivo. Aprendi a lição. Comecei ali a ser forjado gremista. E eu só tenho a agradecer.

 

Obrigado, pai, por me comprar a primeira camisa do Grêmio, daquelas com um tecido meio grosseiro, que encolhia e desbotava sempre que a mãe lavava no tanque. Foi com ela que você me levou para a escolhinha de futebol em um campo de terra que ficava atrás do Olímpico. Como você sofria me vendo tentar jogar bola, despachando os atacantes a pontapé, brigando com o adversário e discutindo com o juiz. Quantas vezes você veio brigar junto comigo. Nós dois formávamos um só time. Lembra, pai?

 

Foi assim no basquete do Grêmio, também. Puxa, você aceitou até virar cartola pra sentar no banco e estar ainda mais perto de mim. E aguentava o meu choro a cada derrota, e era capaz de justificar até minha mediocridade. Obrigado, pai, era você me fazendo gremista!

 

E quantas vezes, fomos ao Olímpico assistir aos jogos do Grêmio de mãos dadas – mãos que passaram a se soltar a medida que a adolescência surgia. Mas lá estava você, ao meu lado, sempre. Comemorando gols, esbravejando as jogadas mal jogadas, justificando os erros dos nossos craques, me ensinando a ser gremista. Sendo campeão!

 

Pai, obrigado! Foi no Olímpico, que construi minha personalidade. Foi lá que você me apresentou algumas das pessoas mais marcantes da minha vida. Lembra quando eu “rodei” na escola e não tinha coragem de contar para você? Você usou o Seu Ênio Andrade para chegar até mim e me mostrar que não deveria ter medo, afinal você era meu pai, era meu amigo. E eu contei e você me acolheu com um abraço.

 

Lá dentro do Olímpico você me colocou ao lado de Telê Santana que me deu puxão de orelha porque inventei de passar a bola com o lado de fora do pé; do Seu Ênio que me fez parte do time ao me convidar para ser gandula e transmitir suas instruções à equipe; de Loivo que me mostrou como apaixonante era jogar pelo Grêmio; de Iura que chorou comigo dentro do vestiário porque perdemos um campeonato. Obrigado, pai!

 

Se sofri a pressão argentina, se levei medo quando eles reagiram e nós perdemos um jogador. Se sorri a cada gol, cada defesa, cada bola bem tocada, cada drible desconcertante;  se chorei hoje à noite abraçado nos meninos aqui em casa; se sou TRI da América;  sou porque você me fez gremista.

 

Obrigado, pai!

Avalanche Tricolor: um cara curioso, sortudo e com muito talento

 

Grêmio 1×1 Atletico-GO
Brasileiro – Arena Grêmio

 

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Renato no comando do Grêmio em foto de LUCASUEBEL/GrêmioFBPA

 

 

Éramos apenas oito mil torcedores na Arena nesta tarde de domingo. Era possível identificar alguns pais e seus filhos, mães, amigas, colegas, talvez de trabalho, de escola ou daqueles que se conhecem no estádio mesmo e têm sua amizade restrita às arquibancadas. Para todos era mais um programa de domingo, sem muitas pretensões, afinal estávamos de passeio. O Campeonato termina semana que vem e estamos apenas guardando posição.

 

Verdade que ao lado do gramado via-se Renato tentando por ordem na casa, irritado com o baixo desempenho de alguns jogadores, esbravejando pelo desperdício de passes, pelo deslocamento mal feito, pela bola mal dominada. Para ele pouco interessa que o time seja do terceiro escalão: se é Grêmio tem de suar, tem de lutar e tem de vencer.

 

Nosso técnico é uma figura curiosa, mesmo.

 

Sempre passou a imagem de um playboy que apreciava tanto a bola quanto a balada. Aprontou muito na noite. Divertiu-se o quanto pode. Falou mais do que devia. Fez galhofa. Pagou pela língua. Da mesma maneira, com suas palavras e provocações foi essencial na motivação dos colegas com que jogava ou do time que comandava.

 

Em campo, com o 7 estampado nas costas, era um gigante disposto a vencer qualquer barreira. Se uma tropa de uruguaios o prensava contra a linha lateral, não se fazia de rogado. Sem mesmo olhar para o lado, despachava a bola para o alto e a jogava dentro da área. Foi assim que marcamos o gol da vitória que nos deu o primeiro título da Libertadores, em 1983. Se uma blitz de alemães se portasse diante dele, despachava-os com uma sequência de dribles para um lado e para o outro, assim como o fez duas vezes na final do Mundial, no mesmo ano.

 

Como técnico, soube se reinventar. E o fez porque estudou muito o futebol e os adversários, ao contrário do que a afirmação polêmica feita ano passado tenha dado a transparecer. Haja vista a diferença do comandante que tivemos nas primeiras passagens pelo Grêmio (em 2010, 2011 e 2013) e deste que assumiu em 2016 para conquistar a Copa do Brasil e oferecer ao torcedor o futebol mais bonito do país, em 2017. Entendeu que não haveria mais espaço apenas para chutões, jogadas diretas e chuveirinho – apesar de ter consciência de que às vezes são recursos necessários. Que o diga o gol que nos dá vantagem nesta final de Libertadores.

 

Renato percebeu que tinha de reproduzir no time que comandava a mesma simbiose que o tornou um craque: talento no drible, velocidade na jogada, precisão no passe e um desejo incrível de se superar, suar, lutar e vencer a qualquer custo. Técnica e raça. Soma-se a isso, uma pitada de sorte, aquela que costuma acompanhar os melhores. Senão, vejamos: na quarta passada, Jael e Cícero que tinham recém-entrado foram os protagonistas do gol da vitória; hoje, em jogo que sequer valia muito, quem empatou a partida de cabeça no segundo tempo? Lucas Poletto, primeira substituição feita por Renato.

 

Que nosso técnico siga sendo esse cara curioso, sortudo e, principalmente, de muito talento e inspiração para todos nós!

Avalanche Tricolor: como nos velhos tempos

 

Grêmio 1×0 Lanus-ARG
Libertadores – Arena Grêmio

 

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Festa do gol em foto de LUCAS UEBEL/Grêmio FBPA

 

 

O destino me quis longe de Porto Alegre nesta noite memorável. Pior, me levou para distante da televisão. E o rádio voltou a ser meu companheiro de sofrimento, como nos velhos tempos em que ficava na casa do Menino Deus, bem pertinho do saudoso Olímpico Monumental. Escutava a voz daqueles incríveis narradores da Rádio Guaíba – a do pai fazia parte deste elenco – que nos levavam a enxergar cada lance, movimento, chute, defesa e emoção. A precisão na descrição dos fatos transformava palavras em imagens.

 

Hoje, Oscar Ulisses, da Globo/CBN, foi quem me levou a vivenciar esses momentos até quase os minutos finais desta primeira parte da decisão final da Libertadores. Vi o Grêmio em uma partida equilibrada no primeiro tempo, trocando passes para encontrar espaço na retranca adversária. Vi Marcelo Grohe em uma defesa espetacular salvar a lavoura em raro ataque dos argentinos. Vi a volta para o segundo tempo com o sufoco sobre a defesa deles. Chutes a longa distância. Pressão com bola aérea. Jogadas duras e ríspidas. Um árbitro leniente.  E vi Renato tirar Everton, Jael e Cícero do banco e  entrarem no time para furar o ferrolho montado por eles. 

 

Quando a preocupação com o empate já aflorava na torcida, encontrei um aparelho de televisão no meu caminho. E foi na tela da TV que assisti a Edílson lançar a bola para dentro da área, Jael saltar mais alto e escorar para Cícero que passou entre os zagueiros e resvalou na bola, em um movimento mais do que suficiente para marcar o seu primeiro gol com a camisa do Grêmio. E talvez o mais importante de sua história. Dos mais importantes da nossa história.

 

Demorou mas a vitória chegou, aos 37 minutos do segundo tempo. Foi na raça, disputando cada bola, encarando o adversário, discutindo com o árbitro, brigando pelos seus direitos, lutando contra tudo e contra todos. Como nos velhos tempos. Eu vi o Grêmio Copero em campo. 

 

 

 

Avalanche Tricolor: os “Heróis de 1977” voltam a campo!

 

 

Santos 1×0 Grêmio
Brasileiro – Vila Belmiro/Santos-SP

 

 

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O gol do título de 1977 em foto de Armênio Abascal Meireles

 

 

Havia futebol no fim de semana. E quase todos os jogos estavam marcados para domingo porque o Campeonato está na reta final. Verdade seja dita: pra maioria de nós já terminou. O que esperávamos levar no Brasileiro já levamos. Daqui pra frente é envergar nossa camisa tricolor e chegar até a última rodada com dignidade e com a força que tivermos à disposição – se ficarmos com o vice campeonato, melhor, pois assim embolsaremos alguns milhões a mais. Claro que insisto em querer ganhar cada partida que disputamos e me irrito com a falta de gols quando esses não aparecem, mas enxergo com clareza a dimensão de cada momento. E nosso momento hoje é outro, distante do Brasileiro.

 

 

Além de futebol, havia um feriado estendido aqui em São Paulo, que se iniciou no sábado e se encerra nesta segunda-feira quando é comemorado o Dia da Consciência Negra. Aproveitei esses três dias, quatro se contar a sexta-feira, para ler um livro que comprei no feriado anterior, no Dia da República.

 

 

Estive em Porto Alegre e visitei a Feira do Livro por razão já suficientemente explorada nesta Avalanche. Lá o professor Paulo Ledur, ao me levar até a banca da AGE, editora que ele mantém como um competente militante da literatura, apresentou-me “Heróis de 77 – a história do maior campeonato gaúcho de todos os tempos”, escrito pelo gremistão Daniel Sperb Rubin. Dito isso, você, caro e raro leitor desta Avalanche, começa a entender porque escolhi para ilustrar este texto a imagem eternizada pelo fotógrafo Armênio Abascal Meireles, que morreu precocemente em um acidente de carro.

 

 

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Rubin foi minucioso ao contar a história daquele título regional que transformou nossa história. Pesquisou em jornais e revistas, leu cada reportagem e crônica esportiva produzida na época. Vasculhou sua memória e a de dezenas de outras testemunhas daquele feito. E como todo gremista que se preza pintou cada momento de azul, preto e branco.

 

 

O “Gaúcho de 1977” foi o primeiro título que ganhei como gremista. Ao menos o primeiro que participei como tal. Antes dele, havíamos vencido em 1968, mas eu tinha apenas cinco anos. Curiosamente, a primeira lembrança que tenho relacionada a futebol é de um ano depois, em 1969, quando meu pai protagonizou uma cena que foi definitiva para minha paixão pelo Grêmio – sobre essa, porém, falaremos em outra oportunidade se assim você quiser, caro e raro leitor.

 

 

Vínhamos de uma sequência de oito campeonatos perdidos, de uma descrença que já começava a marcar nossa alma. Vencer era preciso, contra tudo e contra todos, como nos lembra cada capítulo do livro de Rubin. A medida que folheava “Heróis de 77” fui relembrando de lances que assisti ao vivo, dos jogadores que admirava, das polêmicas que marcaram aquela conquista, dos pênaltis não sinalizados e dos clássicos disputados na bola e na porrada.

 

 

Eu estava no Olímpico, sentado ao lado de meu pai, nas cadeiras azuis e de ferro frio que formavam o anel superior do estádio, naquele diz 25 de setembro de 1977. Rubin estava como o pai dele no anel de baixo, onde ficava a social do Grêmio. Por coincidência, sentamos do lado esquerdo das cabines de rádio, ao lado da goleira em que André Catimba marcou o gol do título e protagonizou o salto “imortal” registrado por Armênio. Como se sabe, André não completou a comemoração, sentiu uma lesão e caiu ou caiu e sentiu uma lesão. Teve de ser substituído por Alcindo, mas conquistara para sempre lugar entre os titulares do nosso coração.

 

 

Diante da conquista do Mundial, das Libertadores já comemoradas, dos Brasileiros vencidos e das Copas do Brasil enfileiradas, pode causar estranheza para você, caro e raro leitor, um autor dedicar 285 páginas de um livro para o “Gaúcho de 1977”. Assim como pode parecer distante as façanhas de 40 anos atrás para ilustrarem essa última Avalanche antes da final da Libertadores de 2017, que se inicia na quarta, dia 22 de novembro.

 

 

Saiba, porém, que, como o próprio Rubin muito bem descreve na introdução do livro, não haveria Mundial, Libertadores, Brasileiros e Copas do Brasil não houvesse aqueles “Heróis de 77”: “… foi um divisor de águas, que forjou a personalidade do clube a ferro e fogo, lançando-o para o futuro cheio de glórias, conquistas e façanhas quase impossíveis”.

 

 

Só se tornou possível Marcelo Grohe, Edílson, Geromel, Kannemann e Cortez; Jailson, Arthur, Ramiro; Luan, Fernandinho e Barrios entrarem em campo, nesta quarta-feira, na Arena Grêmio, para buscar o Tri da Libertadores, porque existiram Walter Corbo, Eurico, Oberdan, Anchieta, Ladinho; Vitor Hugo, Iura e Tadeu Ricci; Tarciso, André e Éder.

 

 
Vai ser muito bom ver todos aqueles “Heróis de 77” em busca de mais uma façanha!

Avalanche Tricolor: festa para o Campeão!

 

Grêmio 1×0 São Paulo
Brasileiro – Arena Grêmio

 

 

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Fãs, admiradores, colegas e amigos na festa para o nosso Campeão!

 

Estou no caminho de volta a São Paulo, onde consta há um campeão brasileiro comemorando seu título. Daqui de onde saio, havia outra festa: a vitória na Arena garantiu a vaga na Libertadores do ano que vem, o que para quem é obcecado por esta competição não é coisa pouca. 

 

Assisti pouco da partida, especialmente do primeiro tempo quando saiu o gol, resultado de uma jogada da qual fez parte nosso setor defensivo: Edílson, Geromel e Kannemann, que empurrou a bola para dentro e marcou o único e necessário gol da partida.

 

Daqui pra frente, convenhamos, quem se importa com o Brasileiro: somos todos Libertadores!

 

Vi pouco do jogo na Arena, apesar de estar em Porto Alegre desde cedo, porque o feriado foi dedicado a outro campeão. Estivemos em família durante toda tarde e início da noite, na Feira do Livro de Porto Alegre, na praça da Alfândega, centro da cidade. Foi lá, no Pavilhão de Autógrafos, que meu pai recebeu seus amigos e admiradores ao lado da jornalista Katia Hoffman, autora do livro “Milton Ferretti Jung: Gol gol gol um grito inesquecível na voz do rádio”.

 

O livro, sobre o qual já escrevi neste blog, Katia conta várias passagens da vida do pai desde sua infância. Estão lá alguns acontecimentos da adolescência e pós-adolescência que levaram o editor, professor Paulo Ledur, a descrevê-lo como tendo sido um jovem transviado. Achei curioso, pois apesar de conhecer boa parte das artes feitas pelo pai, sempre contadas pela ótica dele, nunca as identifiquei desta maneira. Gostei de saber que o pai foi transviado, diminui a culpa de muitas das coisas que aprontei na minha juventude.

 

A versão mais conhecida dele – a de jornalista – também é relatada com detalhes interessantes.

 

Das transmissões de futebol, há histórias das viagens ao exterior, das trapalhadas que a precariedade técnica proporcionava aos profissionais da época, da paixão que sempre cultivou – e jamais escondeu – pelo Grêmio. Diante da insistência dos gestores da rádio Guaíba para que seguisse narrando futebol, em uma época em que já revelava cansaço da rotina esportiva, negociou com a emissora: só transmitiria jogos do Grêmio e no Olímpico. Proposta imediatamente aceita.

 

Do locutor de notícias, a autora destaca a maneira com que exigia dos redatores – dela inclusive – precisão no relato dos fatos e nas informações divulgadas. Os exageros na pronúncia de palavras estrangeiras, que chegaram a ser cobrados pelo então dono da Companhia Jornalística Caldas Junior, Breno Caldas. E o dia em que apesar de estar sofrendo um AVC, insistiu em ler o Correspondente até o fim. 

 

Na fila que se estendeu para fora da área coberta do pavilhão da Feira do Livro, encontramos outros pedaços e lembranças desses 60 anos dedicados ao rádio. Estiveram lá vários dos amigos que dividiam redação, estúdio e cabines de estádio de futebol com ele. Vozes que fizeram parte da minha infância, que visitavam minha casa presencialmente ou através do rádio. Como tive o prazer de compartilhar alguns momentos de minha carreira com o pai, nos amigos dele encontrei colegas de trabalho que foram importantes na minha formação.

 

Havia muitos amigos e muitos fãs, também. Ouvintes que faziam questão de lembrar alguma passagem ainda viva na memória. Um gol inesquecível descrito pelo voz do pai. Uma notícia que marcou. E todos queriam uma foto para eternizar aquele instante. Alguns vestindo a camisa do Grêmio.

 

Para cada um deles, o pai dedicou um olhar, um sorriso e uma assinatura, sempre sob supervisão da Katia, que carinhosamente cuidou dele nas muitas horas dedicadas a sessão de autógrafo. Nós, os filhos, netos, noras, assistimos a tudo de perto, orgulhosos. Emocionados. Frequentemente o pai nos procurava com os olhos como se quisesse entender por que tantas pessoas, por que tanto carinho …

 

Porque, pai, você é um Campeão!