Avalanche Tricolor: Brasileiro é Brasileiro, Libertadores é Libertadores

 

Grêmio 1×1 Vitoria -BA
Brasileiro – Alfredo Jaconi/Caxias-RS

 

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Luan no Alfredo Jaconi (reprodução Premier)

 

O mando era nosso, o campo não. E quem joga profissionalmente sabe que isso faz diferença. A grama é diferente; o piso, também. A distância muda. As “marcas” que são referência para o posicionamento, o lançamento e o cruzamento desaparecem. Até mesmo a infraestrutura de atendimento dos jogadores gera desconforto.

 

É bem provável que tudo isso foi o que fez Renato reclamar, às vésperas da partida, por não poder jogar na Arena, neste domingo. Nada disso, no entanto, é suficiente para justificar o empate contra um time que ainda está no sufoco para escapar do rebaixamento e jogou boa parte do segundo tempo com um a menos.

 

Eis aí uma curiosidade: segundo jogo seguido que atuamos contra 10, no Brasileiro, e encontramos dificuldades para chegar ao gol.

 

A resposta para o que aconteceu talvez esteja mesmo no fato de times retrancados se transformarem em uma encrenca para nós que preferimos jogar de igual para igual, com toque de bola rápido, movimentação intensa e deslocamentos dentro da área. Essa coisa truncada, em que cada pedaço do gramado é disputado à foice, paredões se formam na frente da área e o adversário abre mão de jogar bola, tem trazido dificuldade para o Grêmio – e já vimos isto várias vezes neste campeonato.

 

Agora, por que estou eu aqui desperdiçando linhas e parágrafos para falar de uma competição para a qual sequer temos dada a devida atenção?

 

Porque cada uma dessas partidas que antecedem a primeira decisão da Libertadores, dia 22 de novembro, é um experimento para Renato e nossos jogadores.

 

Hoje mesmo, ele trocou os laterais, devido a lesões, pois sabe que talvez tenha de usar recursos semelhante nas finais; testou dois atacantes pelo lado esquerdo para aumentar a pressão; testou outros dois dentro da área – fixando Barrios e permitindo que Jael saísse mais para buscar a bola.

 

Testes devidamente calibrados para não expor nenhum dos nossos ao risco de uma lesão que os tirem do que realmente interessa. E isso me remete a outro fator determinante para o resultado deste fim de tarde: para romper retrancas, mais do que bom futebol, é preciso esforço redobrado, dividida mais forte do que o normal, encontrão nos zagueiros … Se para o craque Didi “treino é treino e jogo é jogo”, para o Grêmio, nesta altura da temporada, “Brasileiro é Brasileiro e Libertadores é Libertadores”.

Avalanche Tricolor: haja paciência!

 

Ponte Preta 0x1 Grêmio
Brasileiro – Moisés Lucarelli/Campinas-SP

 

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foto de arquivo

 

 

Meu Deus do Céu! A coisa tá pior do que eu imaginava. A ansiedade tá matando com minha razão e me levando ao delírio. Se ontem foi dia 8 de novembro e as finais serão dias 22 e 29 de novembro, evidentemente que faltavam 14 dias e não 7 como este escriba registrou na Avalanche publicada logo após a partida da Ponte Preta. Como tenho caros, raros e bons leitores, foram eles, Nelson Zambrano e Moacir Carvalho, quem me alertaram para o absurdo da minha matemática. Diante dos fatos, além de agradecer o carinho deles e pedir desculpas, resta me internar até lá ou buscar ajuda para controlar a ansiedade da final. Vou até ali e já volto, gente ….(publicado em 9 de novembro)

 

 

1, 2, 3, 4, 5, 6, … 7 (e mais 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14) dias ainda nos faltam até o início da decisão da Libertadores. Somente daqui uma duas semanas, o Grêmio que queremos ver, voluntarioso, preciso, veloz e sufocante estará em campo. Aquele Grêmio que nos capacitou a ser o melhor time brasileiro na competição e um dos mais encantadores da temporada, na visão dos próprios críticos. Um time que é capaz de manter uma fortaleza na defesa sem abrir mão do jogo ofensivo. Firme na marcação e talentoso no ataque.

 

A espera para que esse momento se realize exige paciência de cada um dos seus torcedores. E de seus jogadores, também. Já escrevi sobre isto no domingo, após a vitória incontestável na Arena Grêmio. Não seria diferente depois do jogo desta noite, em Campinas, de onde também saímos com uma vitória, apesar de neste caso não se aplicar o mesmo adjetivo. Houve muita contestação por parte do adversário: Marcelo Grohe que o diga. O nível de exigência foi impressionante. E a performance de nosso goleiro, inquestionável.

 

Na partida desta quarta-feira, fomos apenas o esboço daquele time ideal. Nem poderia ser diferente, haja vista a escalação que Renato levou a campo. Sei que poderíamos esperar um pouco mais, afinal tinha gente ali com capacidade de se apresentar melhor. Agora confesso a você, quando comecei a perceber a força com que o adversário entrava em cada jogada, principalmente após o lance sobre Ramiro, que resultou na expulsão, já estava achando melhor terminar a partida por ali mesmo. Perder um jogador a esta altura da temporada é de tirar a tranquilidade de qualquer um. Imagine o que se passava na cabeça desses jogadores.

 

De positivo, ficou a capacidade de resistência do time e a agilidade de Grohe, diante de um adversário que se lançou de forma desesperada para o ataque. Na partida anterior já havíamos sido suficientemente maduros para buscar a vitória mesmo saindo atrás no placar. E esses serão fatores que podem desequilibrar a decisão da Libertadores a nosso favor se assim formos exigidos.

 

No fim de semana ainda teremos mais um jogo pelo Campeonato Brasileiro. Lá estarão nossos jogadores, sendo cobrados porque vestem a camisa do tricolor e porque a expectativa em torno do Grêmio é sempre grande. A vitória é sempre uma demanda. Mas tudo bem, porque agora só é preciso um pouco mais de paciência. A final está logo ali … pensando bem, ainda faltam  7  14 dias, não é mesmo? 

 

Haja paciência!

Avalanche Tricolor: Grêmio ganha de virada, segura a ansiedade e conta os dias

 

Grêmio 3×1 Flamengo
Brasileiro – Arena Grêmio

 

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Comemoração do gol na foto de LUCAS UEBEL/GREMIO FBPA

 

Ansiedade é o mal da sociedade moderna me disse ainda nessa semana Jairo Bouer, colega psicólogo que trabalha no meu programa de rádio. É resultado da maneira como encaramos nossas tarefas e desafios, profissionais ou pessoais. Queremos acelerar mais do que o tempo permite. Esperamos para agora resposta para algo que só poderá ser respondido amanhã. Impossível de ser alcançado. Pois tudo tem o seu momento certo.

 

Os torcedores gremistas, desde quarta-feira passada, temos percebido essa sensação de maneira ainda mais exarcebada. Queremos que o tempo voe, os dias se acabem, a semana passe e o 22 de novembro chegue o mais rapidamente possível. Tivéssemos esse poder, daríamos um salto no calendário para o 29 de novembro, data da última partida da Libertadores, quando esperamos (toc-toc-toc) estejamos todos comemorando o TRI.

 

O problema é que daqui até lá teremos longa espera e partidas intermináveis pelo Campeonato Brasileiro. Como a desta tarde de domingo, em Porto Alegre. Um jogo que para muitos sequer precisaria ter acontecido.

 

Dá pra deixar do jeito que dá?

 

Não, não dá!

 

E Renato está consciente disso. Até porque o tempo é seu melhor companheiro neste momento. Sabe da necessidade de decidir-se por este ou aquele jogador no time titular. Precisa recuperar fisicamente os mais desgastados e, principalmente, os lesionados, como Barrios, nosso comandante no ataque. Tem chance de testar jogadas ensaiadas, arriscar variações na forma de atacar e posicionar da melhor maneira possível nossa defesa, adaptando-se ao adversário da final.

 

Luan é o melhor exemplo. Depois de mais de 50 dias lesionado, voltou aos poucos, viu sua performance melhorar partida a partida e, como demonstrou hoje, está em plena ascensão. Voltou a marcar gol aparecendo como homem mais adiantado do time e por trás dos zagueiros. Da mesma maneira que na primeira partida da semifinal da Libertadores. Vai chegar à decisão nos trinques, expressão que costumava ouvir do Tio Ernesto, personagem que já lhe apresentei, caro e raro leitor, nesta Avalanche.

 

O tempo ajudará Renato a decidir-se, por exemplo, por Fernandinho ou Everton no time titular, apesar de eu ser adepto da ideia de que ambos foram feitos para entrar com a bola rolando – e não me pergunte porque eles têm essa característica.

 

Os dois gols da virada de hoje confirmaram o bom momento do menino que joga com sorriso no rosto e cara de “cebolinha” – perdão, já soube que ele pediu para que esquecêssemos seu apelido. Esqueceremos em breve. Quem sabe depois do dia 29. Everton dá mais velocidade, mas nem sempre mantém a performance quando sai jogando. Até para isso Renato terá tempo para testar.

 

Falei em gol da virada: eis aí mais uma boa notícia desta tarde.

 

Apesar de sairmos atrás do placar, mantivemos a mesma calma no toque de bola, na busca dos espaços e na tentativa de chegar ao gol. O que para muitos de nós às vezes é irritante, pois queremos ver aquela avalanche de chutes a gol. Somos ansiosos, eu sei. O time não foi, seguiu jogando seu futebol, dono da bola e contou com astúcia do seu técnico que encontrou no banco de reservas as duas soluções que faltavam para alcançar a vitória: Beto da Silva e Everton.

 

Disse tudo isso até aqui, elogiei a calma gremista e a tranquilidade do nosso técnico no planejamento para a final, estou consciente que devemos controlar nossa ansiedade e dar tempo ao tempo, mas, confesso, enquanto assistia à partida pelo Brasileiro, não saia da minha cabeça a festa que estamos preparando para receber o Grêmio na Arena, no dia 22 de novembro.

 

Só faltam 17 dias! Ainda faltam 17 dias!

Avalanche Tricolor: o dia em que redescobri aquele guri do Olímpico

Grêmio 0 (3) x (1) 1 Barcelona Guayaquil
Libertadores – Arena Grêmio

Escrevo de dentro do avião que me leva de volta a São Paulo. Da janela vejo do lado direito a imponência da arquitetura que dá desenho à Arena do Grêmio. Exuberante, pulsante. Imagem que dá ponto final (ou quase) a incrível experiência vivida por mim nestas últimas 24 horas.

Ainda sinto no corpo e na alma (na voz, também) as emoções as quais fui submetido desde que cheguei neste mesmo aeroporto, na tarde de quarta-feira. Do Salgado Filho, fui, acompanhado de meu irmão, até a Arena. Melhor. Nas cercanias da Arena. Fui recepcionado por uma quantidade enorme de torcedores que já se reuniam à frente da casa batizada “Largo dos Campeões”, nome do coletivo de gremistas que aluga e mantém o espaço a uma quadra do estádio.

Lá dentro, em uma pequena sala, a decoração é carregada de adereços, relíquias e memórias do Grêmio. O espaço recebe também alguns barris de chopp, devidamente gelados, e um DJ que no comando de sua picape toca rock and roll pra animar a festa.

Lá fora, embaixo de um toldo com as cores do Grêmio, do lado e ao longo da praça, um amontoado de torcedores a espera da costela que assa em fogo de chão, no mais típico dos churrascos gaúchos. A fumaça toma conta do local quando o vento bate para refrescar a turma – trago o cheiro entranhado na mala de viagem. O som alto da música se mistura a uma série de sotaques do Brasil: Mato Grosso, Santa Catarina, Ceará, Distrito Federal e São Paulo estão representados. O gauchês prevalece. Nem poderia ser diferente.

Foi no “Largo dos Campeões” – nome que relembra o espaço onde estavam os arcos dos portões de entrada do saudoso estádio Olímpico -, que participei do esquenta para a partida que garantiria a presença do Grêmio na sua quinta final de Libertadores. Fui a convite de um amigo de infância: Marcelo Quadros. Somos filhos de jornalistas, que foram colegas de rádio, e desde muito pequeno assistíamos às partidas do Grêmio no Olímpico ou por onde o Grêmio estivesse, no interior do Rio Grande do Sul.

Fazia mais de 30 anos que não nos víamos, apesar da troca constante de mensagens no último ano, desde que ele se mudou de Buenos Aires para São Paulo. Finalmente nos encontramos e o momento não poderia ser mais especial.

Cercado de gremistas. De entusiasmados gremistas. Cada um contava um pouco de sua história, todos relembravam momentos vividos, jogos inesquecíveis, jogadores memoráveis. Muitos faziam reverência ao meu pai, Milton Gol-Gol-Gol Jung, que narrava futebol com precisão e emoção e jamais escondeu sua torcida pelo Grêmio. E ao Lauro, pai do Marcelo.

Somos de uma época em que as conquistas regionais eram o ápice de nossa satisfação. Somente mais tarde passamos a nos acostumar com as vitórias nacionais. Foi, também, quando o sonho da Libertadores se iniciou. Já eram os anos de 1980.

Tanto tempo depois de nosso último encontro, lá estávamos nós de volta.

Camisa do Grêmio vestida, bandeira nas costas, sorriso no rosto, confiança exagerada. Um quase deslumbramento. Semelhante aos dos tempos em que éramos guris e, das cadeiras de ferro azuis do Olímpico, transmitíamos nossa certeza na vitória – nem sempre atendida com o desempenho em campo, o que, inevitavelmente, me levava às lágrimas. Chorei muito quando era criança, no Olímpico.

As lágrimas voltaram a correr quando entramos na Arena. Éramos, Marcelo, eu e mais 51 mil gremistas alucinados com a possibilidade de estarmos mais uma vez em uma final de Libertadores, esta competição pela qual aprendemos a jogar e nos apaixonar. O choro viria a se revelar novamente no fim da partida quando a classificação estava garantida e a torcida cantava alto seu orgulho de ser gremista.

Ao longo do jogo, sofri com o gol adversário, aplaudi o carrinho bem dado, a roubada de bola inesperada, o drible encantador e os ataques frustrados. Xinguei o juiz. Xinguei quando ele não tinha razão e muitas vezes quando ele tinha, também. Desculpe-me, seu juiz, mas estava vivendo um momento muito especial da minha vida: voltava a ser aquele guri gremista do estádio Olímpico.

Assistí à partida no círculo mais alto da Arena, nas cadeiras sobre a Geral, atrás do gol defendido por Marcelo Grohe no segundo tempo, aquele em que a bola deles tocou o poste – e eu tenho certeza que ajudei a desviá-la para fora. Ouvi torcedor reclamando de Cícero, lamentando que Cortez não chegou à linha de fundo, que o drible de Fernandinho não deu certo, que Luan poderia ter entrado mais duro, batido mais forte, feito o gol de empate, da virada, o da goleada … pô, Luan! Grande, Luan! Vi esses mesmos torcedores aplaudindo a todos eles.

A gente quando torce é assim mesmo. Distorce as coisas. Não relativiza.

Em campo, o Grêmio foi “copero” como só os grandes times sul-americanos sabem ser. Mesmo diante da pressão de um adversário precisando descontar os gols tomados no Equador, soube cadenciar, catimbar, chutar a bola para fora e segurar a bola do lado de fora quando necessário. Valorizava a trombada recebida, esticava o tempo de recuperação caído no gramado e chegava forte sempre que exigido. Deu-se o direito de fazer o jogo da desconstrução já que havia construído o resultado na casa do adversário, uma semana antes. Porque assim é a Libertadores. E poucos no Brasil sabem jogá-la tão bem quanto nós.

Retorno a São Paulo e vou ter de me recompor. Voltar a ser o adulto que deixe para trás quando desembarquei na cidade. O cara responsável que a profissão exige e a família precisa. Chego com a garganta arranhada, com dores nas costas e pernas cansadas. Essas coisas que amanhã ou depois estarão recuperadas e esquecidas. O que nunca mais sairá do meu corpo e da minha memória é a experiência vivida nessas 24 horas, em Porto Alegre.

Valeu, Marcelo! Valeu, Grêmio! Até a final!

Avalanche Tricolor: entendi o recado, Everson!

 

Avaí 2×2 Grêmio
Brasileiro – Estádio da Ressacada, Florianópolis/SC

 

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Everson Passos aqui embaixo, ao lado do Roberto Nonato, no estúdio da CBN

 

Esta Avalanche não escrevo para você, caro e raro leitor. E tenho certeza de que você entenderá. Também peço encarecidamente aos amigos que reproduzem esta Avalanche em seus blogs dedicados ao Grêmio que poupem seus leitores das minhas palavras, mesmo porque não vou falar do resultado desta noite de domingo. O que falarei aqui é algo muito particular que não gostaria de ver exposto especialmente à sanha intolerante que toma conta da sociedade contemporânea. Mas preciso escrever. Para mim sempre foi a melhor maneira de arrancar a tristeza do coração.

 

Hoje, vou dedicar esta Avalanche a um colorado. Um cara que era capaz de vestir a camisa encarnada (ou estilizada) na alegria e no sofrimento. Nos momentos extremos em que seu time vencia, especialmente quando vencia o meu, ou diante de derrotas copiosas. Ele fazia questão de mostrar-se solidário nesses instantes. Solidário a sua paixão, como muitos de nós torcedores costumamos ser.

 

Falo aqui de Everson Passos, que morreu sexta-feira, dia 27 de outubro, após ter sofrido, há três meses, um derrame cerebral que o tirou a consciência e o desconectou da vida. Foi meu colega na CBN e teimo em acreditar que chegou a trabalhar com o pai lá na Rádio Guaíba de Porto Alegre. Se não o fez, com certeza conheceu meu pai enquanto atuava como jornalista no Rio Grande do Sul, pois o pai foi nosso assunto em comum em mais de uma oportunidade.

 

Ele falava pouco, resmungava muito, dizia certas verdades e nunca nos deixava ser levado pela ilusão das vitórias. E não falo aqui das coisas do futebol, não. É dá vida mesmo. O Everson tinha os dois pés no chão (a não ser quando estava montado em uma bicicleta) e nos colocava no devido lugar sempre que nos atrevêssemos devanear.

 

Chegava a ser engraçado na maneira de se portar diante dos fatos. Olhava de revesgueio, como costumamos dizer lá no Rio Grande, tinha um ar desconfiado e nas poucas palavras que proferia dizia muito.

 

Ao meu lado apresentou algumas edições do Jornal da CBN quando se revelava ainda mais rigoroso com a leitura dos textos. O mesmo rigor que usava no momento de redigir ou editar as reportagens. Um rigor que não se voltava aos colegas, mas a ele próprio.

 

Foi esse mesmo rigor que fez com que ele decidisse voltar para o Rio Grande do Sul. Deixou a rádio e São Paulo porque acreditava que tinha uma missão muito mais importante: cuidar da mãe que vivia sozinha desde a morte do pai. O destino lhe pregou uma peça. Poucos meses depois de chegar a terra natal sofreu o derrame e a mãe ficou para lhe dar carinho e apaziguá-lo até a morte.

 

E mesmo na morte, Everson não deixou de ser Everson.

 

Ao morrer com apenas 51 anos, sem precisar dizer uma só palavra, nos manda um recado ao estilo dele. Escancara a fragilidade do ser humano e nos faz ver como desperdiçamos nossos momentos com picuinhas, desentendimentos baratos entre amigos, colegas de trabalho, torcedores e mesmo irmãos, pais e mães. É como se estivesse nos dizendo: vai cuidar da sua vida!

 

Valeu, Everson! Anotei o recado.

Avalanche Tricolor: melhor do que a encomenda

 

Barcelona-EQU 0x3 Grêmio
Libertadores – Monumental Isidro Romero Carbo, Guaiaquil

 

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Os poucos que me conhecem sabem das minhas crenças em relação ao Grêmio. Talvez a mais alucinada de todas é a certeza de que não existem placares irreversíveis. Somos capazes das maiores façanhas; e não precisamos exercitar muito a memória para entender porque é assim que penso.

 

Diante de tantas vitórias consideradas impossíveis ao longo de nossa história, forjei a máxima: “até três em casa a gente vira”. E a uso sempre que estamos frente a um mata-mata. A usei na manhã desta quarta-feira em conversa pelo Twitter com Seu Algoz, que sempre me dá uma colher de chá e publica essa Avalanche no seu blog.

 

Havia um diálogo entre gremistas, os crentes e os descrentes – sim, é incrível, eles existem. Discutiam qual o melhor resultado para esta noite. Palpitavam e se dividiam entre otimistas e pessimistas. Dentre os últimos, a maioria contaminada pela performance mais recente, uma turma que parece ainda não ter entendido o grande poder de superação do Grêmio.

 

Poucos, muito poucos, seriam capazes de arriscar um placar como o construído no Equador. Perdão, um placar construído no planejamento de Renato e comissão técnica; na paciência deste grupo que suportou a pressão dos próprios torcedores (e dos críticos, também); na humildade de um clube que entendeu ter diante de si uma missão que seria a de reconquistar a América, e para vencer esta guerra teria de ceder em algumas batalhas.

 

Cedeu até onde pode e hoje estava inteiro em campo, com o que havia de melhor e mais bem preparado. Com Marcelo Grohe, protagonista de uma das mais belas defesas já assistidas no futebol mundial; com Geromel e Kannemann, senhores da área; com o petardo de Edílson explodindo no gol adversário; e Luan, o craque que ressurge após 56 dias recuperando-se de lesão.

 

Nosso camisa 7 é raro, disse Grohe ao fim da partida. É raro, genial e goleador. Com a bola nos pés convidou os equatorianos a dançarem com ele. E levaram um baile. Diante do gol foi matador nas oportunidades que teve. Uma logo no início do jogo, contendo o ímpeto adversário. Outra, para fechar o placar no instante em que ensaiavam uma reação.

 

O 3×0 desta noite foi melhor do que a encomenda, mas para a entrega ficar completa ainda faltam os 90 minutos na Arena, semana que vem. Que estejamos todos lá, crentes e descrentes, loucos e racionais, gremistas e imortais, pois agora falta muito pouco para estarmos novamente na final da Libertadores.

Avalanche Tricolor: que faça uma ótima viagem!

 

 

 

Grêmio 1×3 Palmeiras
Brasileiro – Arena Grêmio

 

 

Luan

Luan aproveitou partida para ajustar a passada rumo a Libertadores

 

 

É quarta. É no Equador. É contra o Barcelona. É para lá que se volta o pensamento de todo o gremista que se preza. O time embarca na madrugada dessa segunda-feira para a cidade onde começa decidir a vaga à final da Libertadores da América.

 

 

E se alguém esticar o olho com desconfiança para o que pode nos acontecer lá fora, impactado pela tarde deste domingo, que me perdoe: tá na hora de rever os seus conceitos. Como dizia Tio Ernesto, que já foi personagem desta Avalanche outras vezes, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

 

 

Você acredita mesmo que algum jogador entrará cabisbaixo no Equador porque os reservas perderam aqui no Brasileiro?

 

 

Gente, os caras estão babando pelo título sul-americano, acordam e dormem pensando na possibilidade de chegar ao Mundial mais uma vez (título que muita gente grande por aí não tem, não é mesmo?). Trocam facilmente o placar de hoje, que terá lugar reservado apenas para as estatísticas, pela possibilidade de conquistarem um lugar na história do clube.

 

 

Nesta temporada, desperdicei pouco tempo para discutir as escolhas de Renato e comissão técnica na escalação de titulares, reservas ou alternativos. E prometo que não irei além de algumas linhas. Sei que tem gente que só fala disso e busca aí a explicação para este ou aquele resultado nas competições disputadas até agora. E já sabe até quem atacar se alguma frustração surgir.

 

 

Vamos pensar juntos, caro e raro leitor desta Avalanche.

 

 

Só em uma competição nós estamos pagando o preço por alternar o time: é o Brasileiro. Mesmo assim, sempre estivemos entre os quatro primeiros colocados e ocupando por boa parte do tempo a vice-liderança. Sem contar que alguns dos pontos que nos separam do líder foram perdidos quando os titulares estavam escalados.

 

 

Abrir mão de titulares não foi o motivo que nos tirou da Copa do Brasil, por exemplo. Essa Copa jogamos com que havia de melhor, ao menos com o que tínhamos de inteiro até a semi-final, quando perdemos para aquele que seria o campeão da competição.

 

 

Na Libertadores, exceção daquele jogo muito bem calculado na fase de grupos, contra o Guaraní do Paraguai, estivemos com nossos principais jogadores e somos o único time brasileiro, vou repetir, somos o único time do Brasil com chance de ser campeão. Todos esses outros que estão por aí se engalfinhando no Brasileiro ou nem se classificaram para a Libertadores ou ficaram pelo caminho.

 

 

Contra o Barcelona, o time vai com o que tiver de melhor. Renato escalará o supra-sumo do seu grupo. Terá inclusive Luan e Michel, que aproveitaram a partida deste domingo para ganhar ritmo e se preparar para o meio de semana. E ele arrancará 110% de cada um dos seus jogadores, pois é para isso que estamos jogando a temporada de 2017. É isso que sonhamos conquistar neste ano, mais uma vez. É isso que nossos jogadores sonharão em conquistar enquanto dormem no avião a caminho do Equador.

 

 

Na mala que está sendo preparada para a viagem não haverá espaço para choramingo, mimimi e rabugice de torcedor. Nossa bagagem, além do melhor futebol que já apresentamos neste ano, só tem lugar para o sonho e o desejo de cada um de nós gremistas.

 

 

Que o Grêmio faça uma ótima viagem a caminho do nosso sonho!

Avalanche Tricolor: Luan voltou!

 

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Brasileiro – Arena Corinthians SP/SP

 

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Bom te ver em campo 

 

Imagino que muitos de nós queríamos sentir o gosto da vitória, nesta noite, em São Paulo. Seria a confirmação de que o time começa a retomar o rumo, uma pressão maior sobre o adversário direto ao título e a manutenção da vice-liderança. 

 

Mas vou lhe dizer uma coisa, caro e raro leitor desta Avalanche, com toda a minha sinceridade. Independentemente do placar final da partida de hoje – e o empate está de bom tamanho, tudo levado em consideração -, eu tinha um só desejo e esse se realizou no momento em que o time entrou em campo. Ver Luan de volta. E Luan voltou.

 

A perna ainda está presa e o ritmo não é o mesmo de quando sofreu a lesão e teve de ficar afastado do Grêmio. Mas se vê claramente que ao tocar na bola, Luan modifica a forma de o time jogar.  Ela chega certa no pé do companheiro, faz um traçado diferente, driblando a burocracia e permitindo mais agilidade no ataque. Os espaços aparecem e os jogadores se aproximam. Tira a carga das costas – ou dos pés – de Arthur que tem com quem dividir o domínio da bola e pode se movimentar com mais liberdade em campo.
 

 

Para quem tem a Libertadores como obsessão e a final da Copa está a apenas dois jogos, ter o time reformatado é fundamental. E Luan é quem põe o Grêmio no eixo como mostram as estatísticas: o aproveitamento chega a 79% quando ele está jogando. Vai ficar melhor ainda até a semana que vem quando teremos pela frente a primeira decisão da semifinal.

 

Jogamos melhor do que o adversário, ficamos mais com a bola no pé, demonstramos uma consistência impressionante na defesa e provocamos os lances de maior perigo no ataque. Não foi suficiente para vencer. Mas neste treino de luxo que o Grêmio fez para Libertadores, repito o que disse no início desta Avalanche, o mais importante era ver Luan em campo. E Luan voltou.

Avalanche Tricolor: uma vitória para espantar o bode

 

 

Coritiba 0x1 Grêmio
Brasileiro – Couto Pereira-Curitiba/PR

 

 

RAMIRO

Ramiro comemora (reprodução SporTV)

 

 

Um domingo estranho esse que eu tive. Para descrevê-lo, a palavra que me vem a cabeça é marrento. O céu esteve nublado desde muito cedo, aqui em São Paulo. Havia um chuvisco sem graça e os termômetros mal chegavam aos 19 graus, depois de uma sequência de dias com temperaturas que bateram a casa dos 35. Pouco convidativo para passeios na cidade. Esconder-se dentro de casa era o que de melhor eu tinha para fazer.

 

 
Não bastasse isso, ainda era o domingo que marcava o início do famigerado horário de verão. Desculpe-me se você é daqueles que curte a mudança no relógio e tem chance de aproveitar o “dia mais comprido”. Eu odeio. Com compromissos profissionais diários que me obrigam a acordar às 4 da manhã, essa mudança costuma causar-me transtornos, especialmente na primeira semana. Por força da mente, desde o sábado já vinha curtindo um bode ao lembrar que na segunda teria de madrugar mais cedo do que de costume. Confesso que isso influenciou meu ânimo. E estragou boa parte do fim de semana. Um dia aprendo a curar essa preocupação.

 

 
Para deixar a coisa ainda mais estranha, o Grêmio somente entraria em campo no fim do domingo e fora de casa, coisa que neste segundo turno do Brasileiro não tem sido nada convidativo ao torcedor. Cheguei a me animar ao ver que Renato escalaria o time quase completo e imaginei um desempenho mais próximo daquilo que queremos ver na Libertadores, apesar da ausência de Luan. Lego engano.

 

 
Se o domingo começou chato, o jogo estava mais chato ainda, em Curitiba. O frio e a chuva também estavam lá para completar o cenário. No primeiro tempo, quase não conseguíamos ficar com a bola no pé. E se com ela no pé, nas últimas partidas, chegamos pouco ao gol, sem ela a distância parecia ainda maior. Exceção a alguns escanteios e a cabeçada de Geromel, tivemos pouco motivos para levantar do sofá.

 

 
Veio o segundo tempo e o desespero do adversário quase rebaixado fez aumentar a pressão. A bola rondava nossa área e a defesa despachava do jeito que dava. Ainda bem que o pouco que passou pelos nossos zagueiros ficava nas mãos de Marcelo Grohe. Do meio de campo para frente havia um esforço para trocar passes, recuperar o domínio do jogo e tentar chegar ao ataque. Nada muito inspirador, apesar de uma melhora aparente em relação ao primeiro tempo.

 

 
Renato fez as mudança de praxe. Trocou Arroyo por Everton; Barrios por Beto da Silva e, quando o empate parecia a melhor coisa que poderia acontecer neste domingo, colocou Jael em lugar de Fernandinho. E de onde menos se esperava foi que saiu a jogada para o gol redentor. Em uma contra-ataque liderado pelo atacante que acabara de entrar, aos trancos e barrancos, a bola sobrou livre para Ramiro, que em um chute forte e alto, marcou aos 46 minutos do segundo tempo.

 

 
Quase corri junto com Ramiro na comemoração do gol, pois aquele gol, naquele momento e com aquele sofrimento era a única coisa capaz de me tirar o bode deste domingo de primavera com cara de inverno e horário de verão. 

Avalanche Tricolor: vamos com fé!

 

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Brasileiro – Arena Grêmio

 

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Imagem do Santuário, em São Leopoldo no RS

 

A quinta-feira iniciou-se com o sino da Igreja, aqui ao lado, tocando mais forte e fora do horário normal. Anuncia, já sob o forte sol desta primavera, que os católicos vivemos data especial, pois, neste 12 de outubro, comemoram-se três séculos desde o surgimento da imagem da santa negra nas águas do Rio Paraíba. Aquela que ficou conhecida por Nossa Senhora Aparecida. Soube pelas notícias do rádio (é, caro e raro leitor desta Avalanche, ainda ligo o meu radinho logo cedo, mesmo quando estou de folga), que milhares de romeiros já se aglomeram na Basílica, em Aparecida, interior de São Paulo. Outros tantos viajantes estão parados em congestionamentos nas rodovias – uma parte a caminho da Santa e o restante doidos para aproveitar o santo feriado.

 

Curiosamente e com todo o respeito, se acordei com Nossa Senhora em mente, fui dormir com a imagem de outro santo … perdão, porque ao pé da letra ele ainda não pode ser considerado santo, pois está a espera do longo processo de beatificação que se desenrola lá no Vaticano. Apesar dos trâmites terem se iniciado em 1953 é possível que ainda tenhamos pela frente muita tarefa burocrática e minuciosa até a beatificação do Padre Reus. Paciência!

 

Sim, foi Padre Reus quem apareceu na minha mente, ontem, quase meia-noite, quando já havia se encerrado a partida do Grêmio por mais uma rodada deste, também, interminável, Campeonato Brasileiro. Aproveitando-me do fato de o feriado de Nossa Senhora ser motivo de folga para mim no dia seguinte, fiquei sentado no sofá até mais tarde e pensando sobre o que havíamos acabado de assistir em campo.

 

A primeira impressão era de angústia por causas mal resolvidas como aquele toque de bola incapaz de entrar na defesa adversária e abrir espaço para nossos atacantes terem alguma chance verdadeira de gol. Houve apreensão, também, após ver o nosso melhor jogador na atualidade – e me refiro aos que estão disponíveis para jogar – dividir uma bola no meio de campo e cair no gramado contorcendo-se de dor. Substituído em seguida, Arthur saiu manquitolando e deixou dúvida na cabeça do torcedor: aquele dedão dolorido seria suficiente para afastá-lo do jogo que realmente nos interessa? Que os Deuses do Futebol o mantenha firme e forte para a decisão.

 

No turbilhão de emoções e sentimentos que um jogo de futebol – especialmente quando somos derrotados – provoca, houve um momento da minha reflexão em que surgiu um alívio. Afinal, aquele resultado ruim talvez eliminasse de vez quaisquer resquícios de sonho e possibilidades de ficarmos com o título do Brasileiro. Ou seja, acabaria pressão e passaríamos a encarar cada uma dessas partidas restantes como treinos de luxo para algo realmente importante.

 

Nosso histórico recente não tem sido animador. Os gols escassearam, nos distanciamos das vitórias, perdemos posição, jogadores cruciais seguem com problemas físicos, Douglas que seria uma esperança não volta este ano, Pedro Rocha não volta nunca mais e Luan, o insubstituível, está sendo preservado: terá ritmo de jogo para a decisão?

 

Ei, calma lá: sobre quais resultados estou falando?

 

Porque naquilo que nós gostamos, vai tudo bem obrigado! Aliás, só nós vamos bem, aqui no Brasil, como único representante do País na semifinal da Libertadores. Mas quem somos nós? Aquele time que luta como ninguém, encanta até mesmo o adversário e está a quatro jogos do título sul-americano? Ou somos o time que caiu para quarto lugar no Brasileiro, sem inspiração, sem brilho e sem desejo?

 

Tenho fé em Renato e creio que ele e sua comissão estejam cuidando de cada detalhe. Ao fim da partida, não escondeu que muitos jogadores entraram para jogar o Brasileiro mas não param de pensar na Libertadores. E sem foco no que se faz, é claro que o resultado não aparece.

 

Sim, tenho fé em Renato, mas lembrei-me mesmo foi de Padre Reus. Ess padre que chegou da Baviera e se estabeleceu em São Leopoldo. Lá fez suas obras e descreveu suas visões. Passou a ser considerado milagreiro por fiéis e hoje tem seus restos mortais enterrados no Santuário Sagrado Coração de Jesus, principal ponto turístico da cidade gaúcha. Estive lá ao lado do meu pai na última vez em que fui ao Rio Grande do Sul. Ele é devoto de Reus e mantém em sua mão uma imagem do Padre sempre que assiste aos jogos do Grêmio. Quando somos atacados, aperta mais forte como se querendo lembrar ao nosso santo que está na hora dele intervir. Sempre que o gol sai, agradece com um beijo na imagem.

 

Já falei ao caro e raro leitor desta Avalanche que costumo não misturar religião e futebol. Cada coisa com sua crença, ou melhor, cada crença com sua coisa. Mas diante da proximidade da semifinal na Libertadores e dos tropeços recentes no Brasileiro, foi a lembrança do Padre Reus quem apaziguou minha mente na noite passada. Independentemente do futebol e jogadores recuperados, sei que a imagem dele estará acompanhando o pai no dia 25 de outubro.

 

Vamos com fé, pai!