Avalanche Tricolor: o dia em que redescobri aquele guri do Olímpico

 

Grêmio 0 (3) x (1) 1 Barcelona Guayaquil
Libertadores – Arena Grêmio

 

 


 

 

Escrevo de dentro do avião que me leva de volta a São Paulo. Da janela vejo do lado direito a imponência da arquitetura que dá desenho a Arena do Grêmio. Exuberante, pulsante. Imagem que dá ponto final (ou quase) a incrível experiência vivida por mim nestas últimas 24 horas.

 

Ainda sinto no corpo e na alma (na voz, também) as emoções as quais fui submetido desde que cheguei neste mesmo aeroporto, na tarde de quarta-feira. Do Salgado Filho fui, acompanhado de meu irmão, até a Arena. Melhor nas cercanias da Arena. Fui recepcionado por uma quantidade enorme de torcedores que já se reuniam à frente da casa batizada Largo dos Campeões, nome do coletivo de gremistas que aluga e mantém o espaço a uma quadra do estádio.

 

Lá dentro, em uma pequena sala, a decoração é carregada de adereços, relíquias e memórias do Grêmio. O espaço recebe também alguns barris de chopp, devidamente gelados, e um DJ que no comando de sua picape toca rock and roll pra animar a festa.

 

Lá fora, embaixo de um toldo com as cores do Grêmio, do lado e ao longo da praça, um amontoado de torcedores a espera da costela que assa em fogo de chão, no mais típico dos churrascos gaúchos. A fumaça toma conta do local quando o vento bate para refrescar a turma – trago o cheiro entranhado na mala de viagem. O som alto da música se mistura a uma série de sotaques do Brasil: Mato Grosso, Santa Catarina, Ceará, Distrito Federal e São Paulo estão representados. O gauchês prevalece. Nem poderia ser diferente.

 

Foi no “Largo dos Campeões” – nome que relembra o espaço onde estavam os arcos dos portões de entrada do saudoso estádio Olímpico -, que participei do esquenta para a partida que garantiria a presença do Grêmio na sua quinta final de Libertadores. Fui a convite de um amigo de infância: Marcelo Quadros. Somos filhos de jornalistas, que foram colegas de rádio, e desde muito pequeno assistíamos às partidas do Grêmio no Olímpico ou por onde o Grêmio estivesse, no interior do Rio Grande do Sul.

 

Fazia mais de 30 anos que não nos víamos, apesar da troca constante de mensagens no último ano, desde que ele se mudou de Buenos Aires para São Paulo. Finalmente nos encontramos e o momento não poderia ser mais especial.

 

Cercado de gremistas. De entusiasmados gremistas. Cada um contava um pouco de sua história, todos relembravam momentos vividos, jogos inesquecíveis, jogadores memoráveis. Muitos faziam reverência ao meu pai, Milton Gol-Gol-Gol Jung, que narrava futebol com precisão e emoção e jamais escondeu sua torcida pelo Grêmio. E ao Lauro, pai do Marcelo.

 

Somos de uma época em que as conquistas regionais eram o ápice de nossa satisfação. Somente mais tarde passamos a nos acostumar com as vitórias nacionais. Foi, também, quando o sonho da Libertadores se iniciou. Já eram os anos de 1980.

 

Tanto tempo depois de nosso último encontro, lá estávamos nós de volta.

 

Camisa do Grêmio vestida, bandeira nas costas, sorriso no rosto, confiança exagerada. Um quase deslumbramento. Semelhante aos dos tempos em que éramos guris e das cadeiras de ferro azuis do Olímpico transmitíamos nossa certeza na vitória – nem sempre atendida com o desempenho em campo, o que, inevitavelmente, me levava às lágrimas. Chorei muito quando era criança, no Olímpico.

 

As lágrimas voltaram a correr no rosto quando entramos na Arena. Éramos, Marcelo, eu e mais 51 mil gremistas alucinados com a possibilidade de estarmos mais uma vez em uma final de Libertadores, esta competição pela qual aprendemos a jogar e nos apaixonar. O choro viria a se revelar novamente no fim da partida quando a classificação estava garantida e a torcida cantava alto seu orgulho de ser gremista.

 

Ao longo do jogo, sofri com o gol adversário, aplaudi o carrinho bem dado, a roubada de bola inesperada, o drible encantador e os ataques frustrados. Xinguei o juiz. Xinguei quando ele não tinha razão e muitas vezes quando ele tinha, também. Desculpe-me, seu juiz, mas estava vivendo um momento muito especial da minha vida: voltava a ser aquele guri gremista do estádio Olímpico.

 

Assistí à partida no círculo mais alto da Arena, nas cadeiras sobre a Geral, atrás do gol defendido por Marcelo Grohe no segundo tempo, aquele em que a bola deles tocou o poste – e eu tenho certeza que ajudei a desviá-la para fora. Ouvi torcedor reclamando de Cícero, lamentando que Cortez não chegou à linha de fundo, que o drible de Fernandinho não deu certo, que Luan poderia ter entrado mais duro, batido mais forte, feito o gol de empate, da virada, o da goleada … pô, Luan! Vi esses mesmos torcedores aplaudindo a todos eles.

 

A gente quando torce é assim mesmo. Distorce as coisas. Não relativiza.

 

Em campo, o Grêmio foi “copero” como só os grandes times sulamericanos sabem ser. Mesmo diante da pressão de um adversário precisando descontar os gols tomados no Equador soube cadenciar, catimbar, chutar a bola para fora, segurar a bola do lado de fora quando necessário. Valorizava a trombada recebida, esticava o tempo de recuperação caído no gramado e chegava forte sempre que exigido. Deu-se o direito de fazer o jogo da desconstrução já que havia construído o resultado na casa do adversário, uma semana antes. Porque assim é a Libertadores. E poucos no Brasil sabem jogá-la tão bem quanto nós.

 

Retorno a São Paulo e foi ter de me recompor. Voltar a ser o adulto que deixe para trás quando desembarquei na cidade. O cara responsável que a profissão exige e a família precisa. Chego com a garganta arranhada, com dores nas costas e pernas cansadas. Essas coisas que amanhã ou depois estarão recuperadas e esquecidas. O que nunca mais sairá do meu corpo e da minha memória foi a experiência vivida nessas 24 horas, em Porto Alegre.

 

Valeu, Marcelo! Valeu, Grêmio! Até a final!

7 comentários sobre “Avalanche Tricolor: o dia em que redescobri aquele guri do Olímpico

  1. Milton, que texto legal! Quando criança, no interior do estado, ouvia os jogos do grêmio narrados pelo teu pai. Sempre o admirei. Feliz quando descobri teu nome no Twitter e por saber que ele tem esse filho gremista! Como dizem por aí “não é só futebol”. Grande abraço. Sucesso em tua profissão e em tua vida. E que venha o tri!!!

  2. Parabéns, Milton! Texto de um verdadeiro torcedor, que nasceu gremista e morre por seu time! Desejo muita sorte, que vença as batalhas contra o adversário e que traga a taça para o Brasil. Parabéns a seu pai também. Saudações alvi-negras!

  3. Opa Milton
    Acordo todo dia contigo na CBN, depois vou pedalar te ouvindo. Te vi lá no vídeo do Ducker. Pena não ter cruzado contigo. Estarei no estádio dias 22 e 29. Cresci vendo meu pai ouvindo o teu, no interior de SC. Aldair, Florianópolis. Abraços

  4. Dücker foi mais uma descoberta que fiz ao estar na Arena. Conhecia o trabalho dele, mas jamais havia me deparado com ele. Gente boa e gremistão de quatro costados. Muito bom saber da preferência do seu pai pelas narrações do Milton Gol-Gol-Gol Jung. Aliás, dia 15 de novembro, será lançado um livro que conta a história do pai. Será na Feira do Livro, em Porto Alegre.

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