Avalanche Tricolor: Até a lojinha fechou

 

Ceará 3 x 0 Grêmio
Brasileiro – Presidente Vargas (CE)

Foi um choque, confesso. Ao subir a escada rolante, pouco antes de chegar ao topo no primeiro andar, olhei ansioso para a única vitrina que me chamara a atenção nos últimos tempos. Era meu ponto de apoio, motivo de orgulho e certeza de que nossa história havia conquistado seu espaço merecido, houvesse o que houvesse nos gramados. Era lá, no meio dos meus passeios prediletos, que avistava a camisa do Imortal Tricolor em destaque, vestida por um manequim inanimado, sem cabeça, mas com o escudo do meu time no coração. Pouco tempo atrás havia escrito sobre isso neste mesmo blog (leia aqui, se tiver paciência)

Olhei e não a encontrei. Aquela camisa predominantemente azul-celeste com duas faixas em preto e branco na vertical e horizontal havia desaparecido. O cartaz ao fundo com Renato em destaque, Vitor, Rochemback e Gabriel como coadjuvantes, também. Pior, muito pior. A loja, a única loja em São Paulo a oferecer como seu produto principal o manto tricolor estava fechada. Para sempre. Substituída por um tapume com anúncio de um novo ponto comercial dedicado a sandálias.

Um prenúncio ? Sinal do que me aguardava ? Texto subliminar do destino traçado ao Grêmio na temporada de 2011 ? Detesto pensar que mensagens aleatórios sejam enviadas para anunciar o nosso futuro. Desagrada-me a ideia de que Deus ou qualquer força superior estejam metidos nesta coisa que é o futebol e interfira no passe, no deslocamento, no cruzamento, no chute ao gol e no placar da partida. Prefiro olhar para os fatos concretos, as ações e decisões tomadas aqui e agora que definem os resultados que buscamos. E estes não tem colaborado com meu ânimo e, menos ainda, com o resultado das partidas.

Antes mesmo de o jogo se iniciar nesta noite, notei que aquela camisa que era destaque na loja do shoping estava em campo. Quando a bola começou a rolar, me dei conta que a alma daquela turba que a vestia era tão viva quanto a do manequim da vitrina. Sequer pareciam jogadores de um time marcado pela imortalidade. Estavam distante do que representaram meus heróis. Afastados da imagem que sempre construí nesta Avalanche e em meus sonhos infantis. Pareciam um bando de ninguém.

O Grêmio esqueceu o que é ser o Grêmio. E eu não tenho mais a lojinha para ludibriar minha dor.

Avalanche Tricolor: Lá vem a Avalanche !

 

Grêmio 2 x 1 Fluminense
Brasileiro – Olímpico Monumental

Uma vitória, finalmente. Necessária, imprescindível e para a sobrevivência. Era a sensação ao fim de mais uma partida sofrível pelo resultado, desempenho e temperatura nesta noite de Porto Alegre. A chuva bateu forte e o frio, também. Da arquibancada ainda se ouviu muita reclamação e no campo ainda havia muita gente atrapalhada. De um lado ou de outro, porém, o som e o suor tinham uma meta: encontrar um novo horizonte.

Os três pontos vieram pela virada e pelos pés de Marquinhos (teremos, enfim, um bom batedor de faltas?). Nosso meia, ao comemorar o primeiro gol, chamou a torcida para dentro de campo em legítimo sinal de que somente com esta simbiose será possível avançar no ritmo da nossa Avalanche. Ao fim da partida, Adílson (teremos descoberto um novo lateral?) falou e Victor (vai ser grande como sempre foi?) ratificou: era preciso vencer, de qualquer jeito. E assim fizemos.

A partir de agora, em meio a todas as dúvidas que ainda temos, é respirar, suspirar e expressar nosso desejo pela recuperação a qualquer custo. Impor nossa história e voltar a superar um adversário atrás do outro como fizemos no ano passado quando chegou Renato. No banco, não temos mais o ex-craque, mas Celso Roth um técnico com capacidade para enxergar o jogo estrategicamente e entender o que o Grêmio representa à sua torcida.

Que o futebol bem jogado volte na esteira desta vitória. E que venha mais uma Avalanche !

Dois heróis: Meu pai e Eurico Lara

 


Por Airton Gontow
Jornalista e gremista

Nunca tive qualquer empatia por esses super-heróis dos desenhos – fortes, destemidos e invencíveis. Ao contrário, lembro-me de que desde a minha infância minha mente e meu coração só tinham espaço para os personagens reais que habitam ou não o cotidiano da gente.

Herói era meu pai. Juntos fomos a todos os jogos do Grêmio no Rio Grande do Sul durante sete anos. Quando a gente voltava pela estrada, ia em uma espécie de comboio, com vários carros de torcedores e, no meio de nós, o ônibus dos jogadores e o ônibus da TV Gaúcha trazendo o vídeo-taipe do jogo, já que naquele tempo o “via-satélite” mal existia!!!! Fazia geralmente muito frio e quando entrávamos na cidade, o ônibus da Gaúcha seguia em direção ao morro Santa Tereza e nosso carro percorria a neblina porto-alegrense até o porto seguro de nosso apartamento lá na av. Protásio Alves. E aí eu ficava assistindo ao jogo do Grêmio que a TV Gaúcha (Canal 12) estava começando a exibir….aquele mesmo que eu havia visto quatro horas antes.

Meu pai ia até meu quarto, fazia minha cama e depois se deitava, com aquele corpo grande de pai da gente, e derrotava a frieza dos lençóis e, depois, eu o via surgindo, cada vez maior, até que me pegava no colo e me conduzia pelo corredor até o meu quarto e me deitava naquela cama mágica e já aquecida pelo calor do pai. Talvez por isso, mesmo quando meu pai fez um monte de bobagens na vida e a vida fez graça de mau humorista com a gente, eu não consegui nunca deixar meu coração amargurado e a alma sem esperanças, porque eu sabia que ele era meu herói e os heróis não são necessariamente vencedores, mas são aqueles que sempre acalentam a alma da gente!!!!

Heróis, Heróis, Heróis; sim, tenho meus heróis! Alguns da vida cotidiana. Outros como Eurico Lara, grande nome da história do Grêmio! De Eurico Lara, eu aprendi a história ao lado de seu túmulo, no cemitério São Miguel e Almas, em Porto Alegre, segurando na mão de meu pai, como acontece com muitos e muitos gremistas. Era um goleiro fantástico e gremista apaixonado (como todos os gremistas devem ser). É o único jogador da centenária história gremista citado por Lupicínio Rodrigues. Sim, o autor de “Nervos de Aço” e “Felicidade foi se embora” fez o belo o hino do Grêmio – “Até a pé nós iremos, para o que der e vier, mas o certo é que nós estaremos com o Grêmio onde o Grêmio estiver”.

Mas eu falava sobre Eurico Lara, que era apaixonado e gremista e, veja só, estava no quarto de um hospital, com turberculose e doente do coração, no dia da final do campeonato gaúcho, contra o inimigo Internacional, no chamado clássico Gre-Nal. Lara fugiu do hospital para assistir ao jogo. Um empate daria o título ao Grêmio, que estava com um ponto a mais na competição. Mas, faltando três minutos, o juiz marcou um pênalti para o Inter. A torcida gremista, em grande maioria, ficou em silêncio, com medo da catástrofe próxima. Foi neste momento que Lara disse para o homem que cuidava do portão junto ao gramado: “abre”. E quando entrou em campo foi tirando a camisa, as calças…estava de uniforme por baixo e, pasme, de chuteiras. O estádio explodiu de espanto e alegria, mas logo depois, aconteceu um silêncio absoluto, que até hoje impressiona a todos os que assistiram à cena. Era como se não houvesse vozes, pássaros…vento no mundo

O atacante do Inter ajeitou a bola. Parecia um touro, enquanto se preparava para iniciar a curta corrida em direção à bola. O chute saiu forte, alto, no canto esquerdo. Mas Lara, meu herói Eurico Lara (cantado por Lupicínio como “o craque imortal”) saltou como um gato e encaixou a bola no peito e com ela continuou agarrado quando caiu no chão. A torcida entrou em delírio. Os jogadores se aproximaram para reverenciar aquela lenda do futebol.

No estádio, uma chuva de chapéus, como nunca mais foi vista, nem mesmo nas comemorações pela vitória dos aliados na Segunda Guerra Mundial. Lara continuava agarrado com a bola no chão. Sim, era sua, não queria soltá-la. Os jogadores foram se afastando. A torcida de pé, em silêncio, compreendeu o que acabara de acontecer. Lara estava morto. Com a bola grudada naquele imenso peito gremista. No gramado, milhares e milhares de chapéus eram como flores homenageando aquele deus do futebol.

Na verdade, a primeira história, sobre meu pai, é verídica, mas esta segunda não aconteceu exatamente assim. No dia 22 de setembro de 1935, contrariando as recomendações médicas para que não atuasse mais, Lara entrou em campo para o jogo decisivo – um Gre-Nal! – do campeonato da cidade, naquele ano chamado de “Campeonato Farroupilha”, por ser o período das comemorações do centenário da Revolução Farroupilha. O Grêmio precisa vencer para conquistar o título. Foi uma das maiores atuações de sua vida, decisiva para a vitória gremista por 2 a 0. Nunca mais atuou. Faleceu em 6 de novembro, 45 dias após o Gre-Nal – e dizem os médicos que a morte foi apressada pelos meses em que, mesmo doente, jogou pelo Grêmio.

Mas vou contar ao meu filho exatamente como o meu pai me contou: segurando em sua mãozinha de gremista, ao lado do túmulo do inesquecível Eurico Lara, aquele que morreu defendendo um pênalti, com tuberculose e doente do coração, dando o título de campeão ao Grêmio….

Avalanche Tricolor: Programa especial

 

Palmeiras 0 x 0 Grêmio
Brasileiro – Canindé (SP)

 

Uma semana depois do aniversário e uma antes do Dia dos Pais, este fim de semana teria tudo para ser apenas mais um no calendário. Foi especial, porém. Nem tanto pelas coisas do futebol, motivo desta coluna sempre escrita na sequência de alguma partida. Até poderia ser, afinal havia em campo, na noite de sábado, dois times que fizeram alguns dos mais emocionantes embates do futebol brasileiro. Lembro de partidas memoráveis na história do Grêmio contra o Palmeiras, de quanto sofri e sorri quando estas duas equipes se enfrentaram principalmente lá na década de 90. Os dois times, contudo, não estão com esta bola toda. No Canindé, também, havia a expectativa pela estreia do novo-velho técnico Celso Roth, recém-chegado ao clube após mais uma aventura da diretoria gremista em pleno voo. Confesso, porém, que não esperava tanto quanto alguns torcedores amigos, já que o treinador havia tido pouco tempo para ajeitar a casa.

Foi especial o fim de semana pela visita ilustre que recebi na minha casa. Esteve por aqui aquele que acendeu meu interesse pelo Grêmio, mostrando-me o caminho certo a seguir. É provável que você saiba que quando se nasce no Rio Grande do Sul tem-se apenas uma chance de acertar na escolha do time pelo qual se decide torcer. Eu tive todo o direito de escolher. Pelo Grêmio, lógico. Assim como meu irmão, o Christian, e minha irmã, Jacque. Lá na Saldanha Marinho, onde vivi meus primeiros muitos anos de vida, todos éramos adeptos do azul, preto e branco. Primeiro por “sugestão”, depois por razão e, finalmente, por paixão.

A esta altura do campeonato, você já deve ter ideia de que o visitante que tornou estes dias de folga diferentes foi meu pai, que você lê às quintas neste blog. E de quem já escrevi muitas vezes. Tê-lo em São Paulo não é comum, porém. Faz tempo que não gosta das viagens de avião, após a overdose que as jornadas esportivas o impuseram. Assim, a oportunidade de tomar café pela manhã, almoçar, jantar, passear e – claro – assistir ao jogo do Grêmio pela televisão ao lado dele, em São Paulo, é, sem dúvida, um programa especial – mesmo que na tela a bola continue rolando “quadrada”.

Avalanche Tricolor: Que saudade !

 

Grêmio 2 x 2 Atlético MG
Brasileiro – Olímpico Monumental

Foi uma noite para relembrar os anos 1990. Naquela época trabalhava na TV Cultura e deixava a redação lá pelas 10 da noite quando o jogo do Grêmio já havia se iniciado. Pegava meu carro, ligava o rádio e escorregava o ponteiro do dial até o ponto mais à esquerda, próximo dos 500 mghz. Era ali que conseguia sintonizar, entre chiados e descargas elétricas, emissoras de rádio do Rio Grande do Sul. Ou a Guaíba ou a Gaúcha, dependia da condição meteorológica. Demorava no caminho, estendia meu caminho e dava preferência às Marginais, onde o som ficava um pouco melhor. Na maior parte das vezes era difícil até mesmo de distinguir quando o gol era do Grêmio ou do adversário.

Ontem à noite, saí de uma palestra da comunicação quando a partida do Grêmio estava se iniciando. Abri o Ipad, cliquei no aplicativo da rádio CBN e acessei a emissora de Belo Horizonte que estava com sua equipe no estádio Olímpico, em Porto Alegre. Durante todo o caminho até minha casa, demorado devido ao congestionamento, ouvi a partida em seus detalhes sem qualquer interferência. Transformei meu moderno tablet no velho radinho de pilha com a vantagem dele me permitir acesso a emissoras que não são aqui da cidade.

As diferenças de como e o que ouvia nos anos de 1990, infelizmente, não se resumem a qualidade do som e o meio de transmissão. Naquela época, o time era treinado por Luis Felipe Scolari e dava orgulho torcer por aqueles jogadores.

Avalanche Tricolor: Haja paciência !

 

Flamengo 2 x 0 Grêmio
Brasileiro – Engenhão (RJ)

A mão escorrega pelo rosto e puxa as bochechas para baixo, ao mesmo tempo em que os olhos se voltam para o céu, em busca de alguma explicação para o erro, enquanto os lábios se espremem impedindo que palavras impublicáveis se dirijam injustamente àquele que o assiste. De forma repetitiva, o gesto se expressa a cada chute com destino tortuoso, como se a bola ter ido a um lugar qualquer que não o seu objetivo fosse desejo próprio deste ser inanimado, nunca resultado da falta de habilidade ou desajuste do protagonista.

Tem sido assim, jogo após jogo, a reação de nossos Imortais a cada tentativa frustrada de ataque. Já deixei de contar as vezes em que não conseguimos sequer chutar em direção ao gol; são raros os momentos em que o goleiro adversário tem de fazer algum esforço para impedir a investida de nosso time; normalmente o destino da bola é o braço dos gandulas, quando esta não é despachada para um lugar qualquer. Inevitável, porém, é a cena do desespero (pela sua mediocridade, talvez) mal interpretada e destacada na televisão por nosso atores, como se aquilo fosse uma injustiça dos Deuses do Futebol, jamais resultado de sua incompetência.

E nós que só temos o poder de torcer, sofrer ? Passamos a mão no rosto, olhamos para o alto, esprememos os lábios, pensamos o quê? Deveríamos desenvolver um grau de paciência que vai além da capacidade de qualquer monge tibetano? Acreditar no poder de nossa mística ? Na história de um clube que nos apaixonou?

Você, caro e raro leitor deste blog, sabe o cuidado que tenho de sempre exaltar os méritos do tricolor, mesmo que estes se resumam a um chutão para a lateral ou uma roubada de bola. Sabe que o sofrimento a cada rodada sempre é visto por mim como o momento de provação que devemos ser expostos para alcançarmos a glória que nos aguarda na próxima esquina. No jogo desse sábado, no Rio, até parecia estarmos diante de um time diferente daquele que se apresentou nas últimas partidas.

Haja paciência, porém. Quando até mesmo nosso maior ídolo é constrangido pelo erro, defender quem – ou quem nos defende? Quando o comandante entende que toda crítica é política e se mostra incapaz à auto-crítica, esperar que a mudança venha de onde? Quando você olha para o banco e não vê opção, não enxerga confiança nos gestos de seu treinador, por que acreditar que haverá crescimento?

Paciência, muita paciência. E olhar para o que já enfrentamos e como solucionamos nossos dramas. São os caminhos que temos para continuar torcendo, sofrendo e acreditando.

NB: Logo após a derrota para o Flamengo, o presidente Odone disse que Wellington Paulista seria contratado e substituiria André Lima, que será sacado do time até melhor sua forma física. O ex-atacante do Palmeiras está ameaçado de não vir mais. Será obra da oposição, presidente Odone?

 

Avalanche Tricolor: …

Grêmio 1 x 1 América (MG)
Brasileiro – Olímpico Monumental

Há momentos de falar, há momentos de calar. Este é um deles.

É legítimo vibrar com os carrinhos – é o esporte bretão em sua essência, diz o blogueiro do Tributo ao Carrinho. É significativo quando negamos um gol de calcanhar pois curtimos muito mais que tenha sido resultado de um coice como o de Miralles. O chutão é bem-vindo, mas apenas para despachar o atacante inimigo, nunca para justificar uma tentativa de gol. O mau futebol é compreensivel. Ou aceitável. Desde que acompanhado do sangue azul que queremos ver correndo na veia de cada um de nossos jogadores. Em alguns até é possível fazer este diagnóstico, é visível o desespero na jogada perdida, no esforço frustrado. Mas não parece ser suficiente para nos convencer.

Mas nós bem que merecemos um pouco mais. E, por isso, prefiro calar na certeza de que a Avalanche Tricolor ainda virá.

Avalenche Tricolor: O meu herói

 

Figueirense 0 x 0 Grêmio
Brasileiro – Florianópolis (SC)

Com o despertador pronto para disparar às quatro e 20 da manhã, assistir aos jogos até quase meia noite torna impossível a atualização da Avalanche Tricolor logo após a partida, como costumo fazer desde que iniciei esta coluna no Blog. Aliás, tem gente que não consegue entender como acordo de madrugada para ir trabalhar mesmo tendo dormido tão pouco. É a necessidade: de ver o jogo e de trabalhar, não necessariamente nesta ordem de prioridade.

Ainda ontem, conversei por e-mail com a colega Carolina Morand que tão talentosamente (alguns diriam, perigosamente) me substituiu na apresentação do Jornal da CBN nos 15 dias de férias, no início de julho. Mãe recente, acordar cedo de mais exige alguns sacrifícios para ela. Falávamos sobre esta exigência do trabalho e comentava que nas manhãs seguintes aos jogos a tarefa era mais árdua, principalmente quando meu time era derrotado. Em tom de brincadeira, me respondeu: “acordar todo dia a esta hora, você é um herói”.

Nem tanto, Carolina, nem tanto.

Muitos trabalhadores já estão na rua, no ponto de ônibus ou batendo perna, quando começo meu caminho para a rádio, ainda em uma São Paulo escura, pela ausência do sol e precariedade da iluminação pública. Muitos, inclusive, obrigados a assumir função que não lhes agrada em nada. Estes, sim, são heróis do mercado de trabalho. Para mim, estar no ar, dentro de alguns minutos, na CBN, é motivo de prazer, que me leva a acordar entusiasmado, mesmo quando o desempenho do meu tricolor não está a altura da minha expectativa.

Confesso que quase lamentei o sacrifício da quarta à noite ao ver o árbitro assinalar aquele penalti já no fechar das cortinas – como diriam os antigos locutores de rádio. Fiquei pensando como seria complicada a manhã seguinte e quanto desperdício, principalmente após um jogo em que sua equipe não apresentou nada para lhe entusiasmar.

A defesa de Marcelo Grohe, porém, mudou meu cenário. Tive a sensação do gol marcado, da conquista alcançada e de ter sido testemunha de mais um feito incrível. Não era para tanto, afinal nosso goleiro apenas (?) impediu mais uma derrota no campeonato, além de corrigir uma injustiça cometida pelo árbitro. Mas quando se torce alucinadamente por um time e é preciso acordar tão cedo na manhã seguinte, aí sim Carolina, precisamos de heróis. Grohe foi o meu herói.

Avalanche Tricolor: Um olhar em Miralles

 

Grêmio 2 x 2 Avaí
Brasileiro – Olímpico Monumental

Um juiz trapalhão e um time atrapalhado não costumam ser motivo de entusiasmo, mas o gol que impede a derrota no minuto excedente é sempre excitante para o torcedor. Vibra-se muito mais para espantar a indignação pelas coisas que não estão dando certo do que propriamente pelo ponto conquistado, pouco para quem está diante de sua torcida e contra um adversário capenga na competição.

Mesmo levando-se em consideração tudo isso, quero escrever esta Avalanche com uma visão positiva do que pode acontecer com o Grêmio neste Brasileiro. Olhar que se abriu aos 7 minutos do segundo tempo quando Miralles entrou em campo com o desafio de mudar o cenário de melancolia que assistiamos. E conseguiu.

O atacante-argentino-cabeludo demonstrou um desejo e uma coragem na busca do gol que vinham fazendo falta ao time. Foi quem mais chutou ou tentou marcar de todos que estiveram em campo, nessa noite, apesar de ter jogado apenas metade da partida. Além disso, parece ter acordado Escudero, seu compatriota, o que será muito bom para a saúde do torcedor gremista no segundo semestre que se aproxima.

Já vimos muito fogo-de-palha vestir a camisa tricolor, gente que estreou com uma cara e logo se descobriu que não passava de uma máscara para nos ludibriar. Pelo histórico e expectativa em relação a Miralles a possibilidade de sermos enganados, porém, é pouca. É preciso apenas que ele seja encaixado em um time um pouco mais organizado e confiante.

Que o espírito de Miralles contamine o Imortal. E ele se transforme em personagem constante desta Avalanche.

Avalanche Tricolor: A camisa estava lá

 

Botafogo 2 x 1 Grêmio
Brasileiro – Engenhão (RJ)

O domingo gelado deixou a bicicleta pendurada na garagem, passear no parque não parecia tão agradável como nos dias anteriores, e na cozinha se destacava a louça acumulada do feriado estendido. Com esta equação diante dos olhos, a saída era tomar o caminho do shopping mais próximo de casa. Foi o que fiz. E centenas de outras pessoas, também. As poucas vagas no estacionamento já sinalizavam isto.

Logo que cheguei, antes mesmo de decidir o restaurante – ou entrar naquele que tivesse menos tempo de espera -, cumpri ritual que se iniciou há cerca de seis meses. Subo a escada rolante até o primeiro andar e antes de chegar no topo já olho para a vitrina da loja que está do outro lado. É um espaço pequeno, dedicado a material esportivo, no qual se vende apenas produtos da Topper. Imagino que não chame tanto atenção dos demais consumidores quanto as âncoras que são chamariz, ou as de roupas masculinas e femininas que estão elegantes com as roupas de inverno, ou as de joias que dominam as mulheres e as de tecnologia que enlouquecem os homens. Eu, porém, não consigo passear no shopping sem antes ir até lá.

E o que sempre procuro – e hoje não foi diferente -, encontro. O manequim sem cabeça vestia a camisa predominantemente azul-celeste com duas faixas em preto e branco na vertical e horizontal que se cruzam na altura do coração, onde o distintivo aparece em destaque. Meias, calções e cartazes com a imagem de Renato ao centro decoravam o restante do espaço dedicado ao Grêmio desde que o time passou a ter seu material esportivo patrocinado pela Topper.

Confesso a você que sinto uma ponta de orgulho ao ver aquela vitrina e parece que me tornei dependente dela, dada a necessidade de sempre conferir seu visual quando vou ao shopping. Por motivos mais do que óbvios, as lojas de material esportivo em São Paulo estão sempre ocupadas com camisetas do Corinthians, São Paulo, Palmeiras e Santos. Aquela não, é toda dedicada ao meu Grêmio.

Os resultados do primeiro semestre e o desempenho nos últimos jogos não têm sido motivo de comemoração, o que aumenta minha apreensão. Temo um dia passar diante da vitrina e não encontrar mais a camisa gremista, vê-la apenas pendurada nas araras no fundo da loja, quem sabe com o carimbo de liquidação. Seria um duro golpe para este apaixonado.

Depois do passeio dominical voltei para casa disposto a assistir à mais uma partida do Grêmio. Era fora de casa e com time ainda desmontado, reforços a espera de uma chance, a revelação sentada no banco em processo de recuperação física, o melhor goleiro do Brasil servindo o Brasil, o capitão no estaleiro, entre outras tantas perdas e prejuízos que deixaram o técnico atordoado e a estratégia de campo, idem. Mas sempre fica a ponta de esperança de que algo possa acontecer de surpreendente – não foi desta vez, mais uma vez.

No apito final, lembrei-me da vitrina do shopping. A camisa do Grêmio ainda estava lá, mas até quando?