Crise de abastecimento e de confiança

 

Dd9US3cV0AAspgi.jpg-large

Caminhões bloqueiam rodovia Raposo Tavares/SP em foto de Renata Carvalho/Helicóptero CBN

 

O posto de combustível está fechado. O supermercado está vazio. A feira livre tem apenas algumas barracas. A faculdade suspendeu a aula. O aluno não tem van para chegar na escola. O trabalhador tem pouco ônibus para chegar ao trabalho. O paciente teve o atendimento suspenso. Os clientes não apareceram. Enquanto isso, na estrada, parte dos motoristas de caminhão segue parada a despeito das concessões feitas pelo Governo Federal.

 

Sem força para negociar, Temer entregou o que pode — porque o cargo ele não solta de jeito nenhum. Anunciou redução de imposto, vai controlar o preço do diesel, tabelar o valor do frete, reduzir o pedágio e tirar dinheiro de onde já não havia. Vai aumentar o nosso imposto, também. Mandou as Forças Armadas para liberar estradas e escoltar caminhão de combustível. Investigou empresários que incentivaram a greve e está de olho em líderes de caminhoneiros que se recusam a recuar apesar das demandas atendidas.

 

Na boleia do caminhão tem de tudo um pouco. Motorista que não consegue mais pagar as contas porque o frete está barato e o diesel cada vez mais caro.
Tem empresa que não quer pagar a conta e força a mão para reduzir os custos.
Tem gente que não aguenta mais este governo.
Tem quem não aguente mais nenhum governo.
Tem quem que queira chegar ao governo.

 

Chegamos ao nono dia de paralisação. Alguns já deixaram o caminhão na empresa e voltaram para casa. Outros, entregam o que restou na carroceria. Há os que estão sem rumo, na expectativa que as negociações cheguem a bomba de combustível e ao seu bolso. Apesar de o número de manifestantes ter diminuído, os focos de protestos permanecem — são radicais, baderneiros ou resistentes, depende do seu ponto de vista.

 

No cenário que levou a essa situação, está uma economia que ficou aos frangalhos, tomada pela corrupção e má-gestão. E se o país não cresce, não tem carga para entregar. Sem carga, o frete é pouco e barato. O Governo reluta em cortar gastos, mantém uma máquina muito cara e não encara os problemas estruturais. Para sustentar tudo isso, cobra alto através de impostos na produção, na distribuição, na venda, na compra e na contratação.

 

Tem também o olhar errado — erro histórico — que nos levou a concentrar o transporte de cargas nas rodovias — responsável por mais de 60% do que se leva e traz no Brasil — quando todo país que se preze divide o peso também com ferrovias e hidrovias.

 

O que está descentralizado é o tipo de liderança por trás dos movimentos sociais — e essa característica se transforma em encrenca para quem quer negociar e desafio para a própria sociedade. Por isso, mais uma vez somos surpreendidos com manifestações que surgem nas redes e se espalham pelas ruas — desta vez, pelas rodovias.

 

Assim como em 2013, quando não havia líderes para negociar em nome das massas, em 2018 os líderes negociam sem o apoio das massas. Comandam sindicatos, associações, federações e confederações, mas não lideram as pessoas.

 

A crise no abastecimento é também a crise de confiança — e de liderança.

 

Enquanto chefes discutem no gabinete e assinam acordos, o WhatsApp corre solto de um celular para o outro e se transforma em uma enorme rede de intrigas, sem controle e sem limite. Todos os desejos cabem nas mensagens enviadas, ilusões circulam livremente e salvadores da pátria são elencados.

 

Confia-se muito mais no que circula na rede do que se publica no Diário Oficial.

 

O abastecimento se resolve com caminhão circulando — e não se sabe ainda quando isso voltará a ocorrer com regularidade —; a confiança, por sua vez, vai demorar para chegar — e temo que partidos e políticos estejam prontos para desperdiçar a oportunidade que as eleições desses ano nos abriria para essa mudança de comportamento.

 

Lá vamos nós para o nono dia de greve dos caminhoneiros.

O simples e o complexo na greve dos caminhoneiros

 

Por Julio Tannus

 

Como toda questão que envolve a “coisa pública”, a greve dos caminhoneiros é ao mesmo tempo complexa e simples.

 

A complexidade advém do fato que existem grandes interesses envolvidos.

 

Por parte dos caminhoneiros, a raiz de sua insatisfação está na política de preços dos combustíveis, com constantes reajustes que, segundo representantes da categoria, tornam inviável o transporte de mercadorias no país.

 

Por parte do governo, essa política de preços dos combustíveis é necessária para tentar segurar o aumento da inflação. Diferentemente do governo Dilma Rousseff que atrasava o repasse dos preços internacionais aos combustíveis no mercado interno, obrigando a Petrobras a vender os produtos a preços abaixo do mercado, causando grandes prejuízos, o governo Michel Temer passou a ter uma mudança significativa em 2016: os reajustes passaram a ser determinados pela Petrobras, em função das variações do dólar e do preço do petróleo no mercado internacional.

 

A simplicidade, dentre outras, advém do fato que não existem alternativas de transporte de mercadorias no país.

 

Lembro-me de um professor de pós-graduação, em 1971, da Escola Politécnica da USP, na área de Sistemas de Transportes, que ficava transtornado quando se referia ao que estava sendo feito com o sistema ferroviário no Brasil. Segundo ele, o lobby da indústria automotiva (estrangeira) era suficientemente forte para impedir o desenvolvimento natural do uso da energia elétrica no transporte ferroviário e rodoviário urbano no país. E mais: ele dizia que iriam acabar com as nossas ferrovias. Não deu outra!

 

É simples porque basta apenas vontade/vocação política para romper as mais fortes barreiras.

 

Por que até hoje não foi desenvolvida tecnologia para se ter veículos (automóveis/caminhões) movidos a energia elétrica, com todos os benefícios decorrentes de uma energia limpa, não poluidora? Certamente os interesses ligados as grandes montadoras, as gigantes do petróleo, etc. não o permitiram.

 

Já entramos em colapso!

 

Julio Tannus é engenheiro e consultor em estudos e pesquisa aplicada, coautor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier), autor do livro “Razão e Emoção” (Scortecci Editora)

Avalanche Tricolor: tá difícil, chama o Luan

 

Grêmio 1×0 Defensor
Libertadores – Arena Grêmio

 

42263403472_7452438a98_z

Luan comemora único gol da partida em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Dias estranhos vivemos nesta semana.

 

A paralisação do setor de transportes de carga mexeu no cotidiano dos brasileiros. Os caminhões deixaram de entregar as mercadorias, interromperam o tráfego nas estradas e prejudicaram o trânsito nas cidades.

 

O alimento deixou de chegar aos armazéns e o pouco que chegou teve preços majorados. O combustível ficou escasso e as filas de motoristas nos postos são enormes — imagem que só perde em escândalo para o preço cobrado na bomba.

 

Sem abastecerem, os ônibus diminuem o número de viagens e os passageiros ficam mais tempo no ponto. O serviço de lixo é suspenso, a rota da polícia é reduzida e as ambulâncias correm o risco de não sair dos hospitais. Os aviões voam com restrições e os correios desistem de prestar o serviço.

 

O governo não tem de onde tirar dinheiro porque gasta muito e gasta mal. Quando poderia melhorar o gasto, chafurdou na lama da corrupção. A Petrobras também foi destroçada por corruptos e gente de má-fé, e na reconstrução impôs regras de preço que pressionam o bolso de quem já está com dificuldade — o dólar sobe, o preço do barril sobe e a conta chega na bomba de combustível.

 

O cidadão está cansado de pagar a conta dos desmandos e mesmo sentido no seu dia as dificuldades impostas pela crise no abastecimento sinaliza apoio a reclamação dos caminhoneiros. Esses reclamam com razão porque ficam sem manobra para negociar preço, os custos aumentam e o frete não compensa. Por trás deles, escondidos na boleia, estão empresários, donos de enorme frotas de caminhão, que, sem direito à greve, empurram os motoristas para a frente das manifestações.

 

No cenário político, aproveitadores reagem, populistas gritam e extremistas ocupam espaço com discursos baseados em ideias mentirosas e fraudulentas. Há os que sequer sabem fazer conta, os que têm medo de por a cabeça para fora e os sem-noção, que agem como se nada estivesse ocorrendo a sua volta. Poucos buscam o equilíbrio da fala e o meio-termo nas ações.

 

E o que tudo isso tem a ver com o tema central dessa coluna, autodenominada Avalanche Tricolor?

 

Foi esse caos que me tomou o tempo nessas últimas 48 horas, me impediu de escrever a Avalanche logo após o jogo como costumo fazer desde 2008, e de agradecer a Luan por seu talento e precisão nos chutes.

 

Quando todos os caminhos estavam fechados e a bola teimava em desviar nos buracos do gramado mal-cuidado — Renato tem razão em reclamar —, nosso camisa 7 chamou a responsabilidade para si, usou de sua autoridade com a bola no pé e encontrou uma solução para resolver de vez nossos problemas em campo. Assim, o Grêmio encerra a primeira fase líder invicto de seu grupo e com a segunda melhor campanha da Libertadores.

 

Luan para presidente!

Rezemos, é o que resta

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Não há mais muitas coisas nem loisas neste mundo que me espantam. Só o que está acontecendo no Brasil já seria suficiente para me deixar em estado de alerta quando eu era mais novo.Pensei que tivesse lido tudo o que a mídia faz questão de divulgar,seja algo positivo ou negativo. E olhem bem tudo o que a TV, os jornais, as rádios e as redes sociais se desdobram para nos contar e, mesmo assim,há episódios que me enraivecem,me alegram,me entristecem ou me deixam indiferente.

 

Vou fazer uma confissão: um senhor idoso,do alto de seus 93 anos,surpreendeu-me. Seu nome é Hélio Bicudo. Duvido muito que os adultos se lembrem dele,embora o sobrenome chame a atenção por ser um tanto estranho.Tinha esquecido dele. Foi presidente do PT quando esse partido era muitíssimo mais sério do que hoje em dia.O Partido dos Trabalhadores representava um classe social respeitável,bem diferente dos que estão sendo presos pela operação Lava-Jato por força de suas falcatruas. O que fez esse cavalheiro,repito, de 93 anos,idade que não influiu no seu intelecto? Pode ter sido espantoso,mas Hélio Bicudo pretende que a Presidente Dilma seja destituída do seu cargo. Razões não lhe faltam. Basta ler a Zero Hora dessa terça-feira:

“Orçamento da União tem rombo de 30,5 bilhões e inclui aumentos de aliquotas sobre eletrônicos e bebidas para elevar receita. Salário mínimo previsto é de R$865,50.”

Enquanto isso,a maioria dos Estados está com sérios problemas,haja vista o que ocorre com o Rio Grande do Sul. Ivo Sartori viaja para Brasília a fim de tentar o desbloqueio das contas do Estado. Ao mesmo tempo,o Rio Grande talvez tenha de enfrentar greve até sexta-feira. Como escrevo na terça-feira visando a entregar o meu texto até quinta-feira,algumas coisas podem se alterar,tanto para melhor quanto para pior.A Brigada Militar e a Polícia Civil são categorias cuja greve,por óbvio, são as que mais preocupam a população. E não é somente o povo que se preocupa com os brigadianos em greve. Essa chegou também ao comandante-geral da Polícia Militar e a maior prova disso é o fato de o comandante ter resolvido dormir no quartel. O coronel Alfeu Freitas,às 6 da manhã,já estava reunido com os seus comandados. Na noite de terça-feira, Freitas, atendendo pedido do Secretário de Segurança, Wantuir Jacini esteve no QG a fim de saber a situação do policiamento e reconheceu que os atendimentos estavam reduzidos. Rezemos para que não ocorram desmandos na cidade para que a BB não seja chamada a intervir.

Seja lá o que for

Por Maria Lucia Solla

 

Olá,

 

pensa comigo:

 

O cidadão trabalha numa empresa de transporte público, motorista ou cobrador, apenas para citar os visíveis. Recebe seu salário do dono da empresa, que por sua vez,recebe o seu $$, do governo, seja ele qual for, de qual partido for. Certo?

 

Por partes, para eu não me confundir:

 

O governo, seja ele qual for, de que partido for, paga os donos da frota de veículos com o teu e o meu dinheiro, de um imposto escrachante*, com dinheiro dos que utilizam o dito transporte, e dos que não o utilizam.

 

Se você está sentado numa cadeira confortável, lendo este meu desabafo, se dirige um carro importado ou uma charanga qualquer, também paga pelo transporte público, seja ele qual for.

 

Portanto, esse assunto é do teu interesse e do meu, e não devemos apenas olhar de esguelha e dizer: oh! que horror! sentados em nossas poltronas assistindo à tragédia pela tevê, internet, ou seja lá de que tipo de geringonça for.

 

Ora, ainda para que eu possa manter o raciocínio nesse assunto que me é tão espinhoso:

 

Os funcionários das ditas empresas de transporte público não estão contentes com sua situação. Estão perigosos da vida com seus patrões – donos das empresas e do… ooops, quero dizer e com o governo. Seja lá qual for, de que partido for. Não podemos, de forma nenhuma, nos esquecermos de que eles são também cidadãos, que também pagam seus impostos e que, portanto, pagam parte do próprio salário e do $$ dos seus patrões. Certo?

 

Sou a favor da greve. Direito à greve é uma conquista do trabalhador; um direito que deve ser mantido e respeitado. Um soco no bolso do cara que não faz bem a sua parte.

 

Tenho uma singela sugestão aos grevistas de plantão.

 

Tomem seu banho de manhã, um bom café e vão trabalhar. sorrindo. Tomem respeitosamente seus assentos nos ditos veículos e recebam com bem os passageiros.

 

Komo açim, malu?

 

Elementar. É só não cobrar a passagem dos passageiros.

 

Olha que beleza. Em vez de vermos uma cidade em guerrilha, povo infeliz, e nem preciso descrever porque você está cansado de ver, veremos um povo contente, solidário com os funcionários grevistas, uma cidade inteira se unindo para verificar onde está o nó.

 

Afinal, os investidores dessa parafernália toda somos Eles: você e eu.

 

Ou não?!

 

* “Me deixa ser teu escracho, capacho, teu cacho, um riacho de amor…” em Não existe pecado ao sul do Equador, de Chico Buarque e Ruy Guerra

 


Maria Lucia Solla é nossa escritora de todo domingo, que se deu folga porque sabe mais do que ninguém quando precisa, mas que diante do que assiste nas cidades nos deu uma bela chance de lê-la nesta segunda.

Avalanche Tricolor: até a pé nós iremos a caminho da liderança

 

Grêmio 2 x 1 Botafogo
Brasileiro – Alfredo Jaconi/Caxias (RS)

 

 

Chegamos ao terceiro dia de turbulência em São Paulo provocada por desentendimento entre sindicalistas que pararam boa parte do transporte de ônibus na capital e, de forma brutal, abandonaram os passageiros no meio do caminho. Aparentemente, os grevistas perderam força nesta quinta-feira e o sistema talvez volte a funcionar no restante do dia. Como da cabeça desta turma não se sabe o que pode sair, é bom ficar alerta no noticiário para que não sejamos surpreendidos mais uma vez. Foi triste acompanhar pessoas humildes sendo obrigadas a caminhar por horas para chegar no trabalho ou voltar para casa devido a falta de ônibus. Em alguns bairros os pedestres pareciam estar em procissão, todos seguindo o mesmo passo em busca de um destino. Imagino que não tenha sido esta cena que motivou o desproposital comentário do ex-presidente Lula de que o brasileiro está acostumado a andar a pé e este negócio de metrô na porta do estádio é babaquice, expressão usada em conversa pública com amigos. Ninguém pede estação na porta do estádio, consta que nem é recomendável, mas é prudente que se tenha meio de transporte capaz de atender a grande demanda de torcedores que costumam assistir aos jogos de futebol.

 

É provável que você já tenha lido a história que vem a seguir, mas a reproduzo aqui na Avalanche porque é o gancho que precisava para desviar este texto para as coisas do meu Grêmio. Foi no restaurante Copacabana, no bairro da Cidade Baixa, e inspirado na devoção dos torcedores que não se intimidaram com a greve de bondes, em 1953, e seguiram a pé ao estádio da Baixada do Moinhos de Vento para assistir ao jogo de seu time do coração que Lupicínio Rodrigues compôs o mais conhecido verso do hino gremista: “até a pé nós iremos, como o Grêmio onde o Grêmio estiver”. Desde aquela época, nossos torcedores não mediam esforços para apoiar a equipe e têm se consagrado por estar ao seu lado em qualquer situação. Diante desses fatos, o cansaço causado por dias de trabalho exaustivo e a obrigação de acordar ainda de madrugada para dar início à minha jornada, não seriam suficientes para justificar a ausência na partida da noite de ontem, em Caxias do Sul. Evidentemente que meus compromissos profissionais me impediriam de viajar até a cidade serrana, mas às 10 da noite lá estava eu, firme e forte (apesar de que com sono), diante da televisão. E não foram necessários mais de cinco minutos para perceber que o Grêmio me manteria acordado e sofrendo até a meia-noite. Esse foi o tempo para tomarmos o primeiro gol em jogada que até agora não entendi porque não foi interrompida com falta na intermediária, talvez respeito excessivo ao fato de seu protagonista ter jogado com a camisa do tricolor gaúcho.

 

Demoramos um pouco para entender que a virada no placar exigiria no mínimo chutes a gol. Durante parte do primeiro tempo nosso time não era capaz de encontrar espaço para tal e quando o encontrava desperdiçávamos com passes errados ou chutes desviados. De repente, com a torcida gritando no cangote, já que as arquibancadas do Alfredo Jaconi nos deixam próximos dos jogadores, de tanto insistir por um lado e pelo outro, na maioria das vezes no congestionado caminho do meio, a bola chegou a Barcos que a escorou para Rodriguinho chutar rente a grama e distante o suficiente para o goleiro adversário não alcançar. O gol de empate tirou a sonolência, minha e do jogo, e abriu a perspectiva de encerrarmos a rodada do Brasileiro muito próximo da liderança, meta que foi alcançada quando faltavam pouco mais de dez minutos para o fim da partida. As duas mudanças feitas pelo técnico Enderson Moreira deram resultado quase que imediato, pois Zé Roberto, que substituiu Ramiro, entregou a bola para Maxi Rodriguez, que entrara no lugar de Rodriguinho, marcar o gol da virada. O uruguaio chegou com velocidade, tirou os dois marcadores com um só drible e ajeitou a bola quase no ângulo. O gesto de comemoração deixou claro que ele estava incomodado com o burburinho da torcida devido ao baixo desempenho das últimas partidas. Que sempre responda jogando deste jeito.

 

Quanto a nós, torcedores: até a pé iremos a caminho da liderança.

A greve dos correios e as contas a pagar

 

Hoje, no Jornal da CBN, falamos sobre o impacto da greve nos Correios e o prejuízo que os clientes podem ter com as contas que não chegarem em tempo para serem pagas. Recebi depois do programa, a mensagem de Marli Aparecida Sampaio, ex-diretora do Procon de São Paulo, atualmente na ONG SOS Consumidor, sugerindo a leitura a seguir que esclarece muitas das questões envolvendo a paralisação dos carteiros. O artigo foi escrito pelo professor universitário e desembargados do Tribunal de Justiça Rizzatto Nunes:

Tenho sempre referido os correios no Brasil como exemplo de serviço de alta
qualidade e eficiência. Ou, como digo, um dos caminhos mais rápidos entre
dois pontos é o correio. Realmente, é induvidoso que esse é um dos melhores
serviços públicos do país e que cumpre a missão estatal que se espera obter
de todo serviço essencial (público, privado ou privatizado). Mas, seus
funcionários entraram em greve, que segundo anunciado, não terminou e não se
sabe quando cessará. Por conta da paralisação, muitas pessoas podem já ter
sofrido danos ou ainda podem vir a sofrer até a completa regularização do
sistema.

Por isso, hoje cuido dos direitos dos consumidores afetados pela greve e
lembro as regras de prevenção para evitar problemas.

Ø Responsabilidade objetiva da ECT

Inicialmente, quero deixar claro que todo dano causado é de responsabilidade
primeira da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT) por expressa
disposição do Código de Defesa do Consumidor. É que ela responde pelos
vícios ou defeitos de seus serviços, o que inclui, naturalmente, a ausência
dos mesmos.

Para que a ECT seja responsabilizada não há necessidade de que seja apurada
sua culpa. É a chamada responsabilidade objetiva decorrente da exploração da
atividade empresarial e seu risco. O empreendedor público, privado ou de
atividade privatizada explora o mercado de consumo e a própria exploração da
atividade gera risco social, independentemente de sua vontade.

É evidente que, por exemplo, quando uma correspondência entregue pelo
consumidor aos serviços do correio não chega a seu destino no prazo ou
simplesmente se extravia, essa falha não se dá por interesse da empresa. Ela
não decorre da vontade dos administradores da ECT, mas da atividade em si,
eis que falhas sempre existirão no sistema de leitura ótica, na incorreta
observação do pessoal que faz seleção dos envelopes e pacotes, no transporte
etc. Portanto, o dano existirá, apesar da vontade em sentido contrário dos
administradores e funcionários.

Ø Danos sofridos

A lei sabe disso. Ela sabe que, apesar do esforço do prestador do serviço,
em algum momento, por evento imprevisto, o serviço falhará causando danos ao
consumidor. Naturalmente, a responsabilidade é a mesma na ausência do
serviço, como a que ocorre no período de greve e que persistirá mesmo após
seu fim por mais algum tempo até que o mesmo se normalize.

Por isso tudo, a lei estabeleceu a responsabilidade objetiva. Basta a
constatação do serviço contratado e seu defeito para que possa ser pedida
indenização. Desse modo, se o consumidor sofrer algum dano por atraso ou não
entrega de correspondência, poderá pleitear indenização.

Ø O problema das contas que vencem nesse período

A ausência de um serviço como o dos correios sempre gera danos em larga
escala, atingindo fornecedores e consumidores. Nos serviços massificados,
como os de telefonia, tevês à cabo, cartões de crédito, empréstimos
bancários etc, o serviço dos correios é fundamental para seu funcionamento.
Isto porque, é através dele que a maior parte dos milhões de faturas são
entregues mensalmente para pagamento.

Ø Consumidor responsável

Entretanto, o não recebimento de uma fatura não retira a responsabilidade do
consumidor em pagá-la no prazo se o credor manda as faturas pelo correio
mas, simultaneamente, coloca à disposição do consumidor outro modo de quitar
o débito. Explico.

Cabe ao fornecedor entregar as faturas antes da data do vencimento. Todavia,
com a paralisação dos serviços do correio, a entrega fica prejudicada. O
fornecedor, então, tem de oferecer uma alternativa de pagamento ao
consumidor. As segundas vias devem ser oferecidas via fax, email, acesso ao
site, por ligação telefônica etc. Se essas segundas opções são oferecidas,
cabe ao consumidor utilizá-las para o pagamento da dívida.

É bom lembrar que quando os serviços dos correios não estão paralisados,
isso não impede que alguma correspondência não seja entregue. Logo, mesmo
fora desse período crítico, pode acontecer do consumidor não receber fatura
para pagamento dentro do prazo ou simplesmente não recebê-la.

Ø Risco do empresário

Se o consumidor não recebe a fatura para pagamento, não se pode imputar a
ele a responsabilidade pelo pagamento no prazo. Não tem sentido culpa-lo
pelo que ele não fez. É risco do fornecedor entregar a fatura com tempo
suficiente para pagamento, risco esse que não pode ser repassado ao
consumidor. Todavia, cabe ao consumidor se acautelar.

Ø Prevenção

Para eventualmente tentar não ser responsabilizado, o consumidor tem que
provar que não recebeu a fatura, o que é muito difícil de faze-lo quando ela
não é entregue. Dá para fazer a prova, por exemplo, se o consumidor avisou
por escrito seu novo endereço para recebimento da fatura e ela foi enviada
ao antigo ou quando o próprio correio coloca carimbo de entrega atrasada
(Anoto que nesse caso, é a ECT quem deve ser responsabilizada pelo atraso).
No entanto, afora esses tipos de exceções, o consumidor acaba sendo
responsabilizado pelo atraso. Por isso, para evitar prejuízos, apresento as
observações a seguir.

Ø O controle das datas

O consumidor deve manter uma agenda com datas dos vencimentos de suas
faturas regulares. Se até a véspera do vencimento, ainda não recebeu alguma,
então, deve entrar em contato com o credor, solicitando segunda-via para
efetuar o pagamento. Essa é uma regra geral para o dia-a-dia e,
evidentemente, nesse período de greve deve ser imediatamente seguida. Para
aquele que não faz esse tipo de controle, a saída é pegar as contas do mês
anterior, ver as datas dos vencimentos e checar o prazo que existe para
pagá-las.

Atualmente, todos os grandes fornecedores mantém Serviços de Atendimento ao
Consumidor (SACs) e/ou sites, nos quais é possível obter uma segunda via da
fatura. Se a credor não tiver esse tipo de serviço, como já disse acima, ele
é obrigado a dar outra alternativa para pagamento, como, por exemplo, envio
do boleto via fax ou apresentação de dados bancários para depósito em conta
(nº de conta corrente, banco e agência, número do CNPJ — se for pessoa
jurídica — ou CPF

Greve dos coveiros

 

greve dos coveiros

Foi de causar inveja no prefeito Odorico Paraguaçu. Os coveiros de São Paulo anunciaram greve em todos os cemitérios da cidade. Com a impossibilidade de evitarem mortes entre os cidadãos paulistanos, a saída foi eles próprios ocuparem as covas impedindo enterros e alogando os velórios. A prefeitura diz que está tudo normal, ao menos não recebeu nenhuma reclamação dos clientes até o momento.

O autor da foto do protesto no cemitério de Vila Formosa é o colega Juliano Dip, da CBN.

Eles não usam Black-tie

 

Por Carlos Magno Gibrail

Filme1981 & Greve2010

Do sucesso teatral da peça “Eles não usam black-tie” em 1958, passando pela consagração cinematográfica em 1981 numa interpretação da realidade brasileira pós-64, encontramos nessa sexta feira atuação real do mesmo cenário, sem encenação. Do ABC para o Morumbi. E ainda mais algumas diferenças nos protagonistas, que de operários e ditadura, passaram a professores e democracia.

Entretanto, não conseguimos a elucidativa análise de Gustavo Wagner do El Porteño sobre “Eles não usam black-tie” como película, então, internacionalmente aclamada: “Surpreendente a forma com que Hirszman concretiza a tão buscada síntese entre o intelectual e o popular, entre a ideologia e a arte”.

Algumas certezas, porém, afloram no mundo real, pois o salário inicial de um professor em São Paulo é de R$ 1.830,00 para 40hs/aula, enquanto outras profissões embaladas e embasadas por forte corporativismo e lastreadas em áreas do poder judiciário e legislativo chegam a R$ 18.000,00.

Sabemos que Educação, Saúde e Habitação são fundamentais para o efetivo desenvolvimento de uma nação, mas não soubemos até hoje implantar plenamente este trinômio da cidadania.

O Brasil, 8ª economia do mundo, é pela UNESCO a 88ª em educação. Algo está errado! Dos US$ 1,6 trilhões do PIB em 2008, investimos 3,5%, quando 5% seriam o mínimo. São Paulo, do orçamento de R$ 126 bilhões para 2010 alocou 16 bilhões para a Secretaria da Educação, fora os investimentos do Governo Federal. Ainda assim não são suficientes às demandas de instalações, operações e recursos humanos.

O movimento grevista encabeçado pelo APEOESP – Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo, através da liderança de Maria Izabel Noronha, em matéria ontem na Folha, reivindicou melhoria das condições de trabalho, piso salarial e fim da avaliação dos professores.

Paulo Renato Souza, secretário da Educação, em entrevista ao jornalista Mílton Jung, defendeu a avaliação, que propõe resolver os desejos dos professores, aumentando eficiência, ganhos e consequentes condições de trabalho. Segundo ele, na medida em que assiduidades, tempo de permanência e provas são levadas em conta, e a análise é em função da diferenciação na própria escola e não no resultado absoluto, o índice obtido é real e imparcial.

Os professores Cesar Minto da USP e Neide Barbosa Laisi da PUC, entrevistados do Mílton Jung, criticam a avaliação porque os alunos são diferentes, assim como as condições de trabalho. Faltam bibliotecas, laboratórios, materiais, etc. E, o ponto de partida será sempre diferente para cada avaliação.

Os deputados Carlos Gianasi do PSOL e Milton Flávio do PSDB mantiveram opinião na rádio CBN, respectivamente, a favor e contra a tese dos professores. Gianasi acusa a existência de 75 escolas de lata, de um sistema de avaliação ruim, que o professor é responsável e não quer greve, que o governo não negocia e não dá atenção, e que as premiações com comissões e bonificações excluem o salário base e os aposentados. Milton Flavio defende a avaliação e os bônus que atingem 33% dos 210.000 professores e pode corresponder a três salários a mais, e que os totais dos recursos na educação podem chegar a 30% do orçamento.

Num período de predominância de administração PSDBista, onde surgiram percalços dos professores com Mário Covas, Franco Montoro e agora com José Serra, é nítido que Covas e Montoro, embora respectivamente com tapas e grades palacianas derrubadas, altivamente enfrentaram, confrontaram e resolveram com atenção direta os grevistas. Serra e seu Secretário, ainda que protegidos pela lei que impede manifestações nas imediações da sede do governo, não se apresentaram. Professores e governantes ofereceram, então, um espetáculo cujos papéis fugiram do script civilizado e reproduziram o que se viu no cinema.

Peça importante para explicação desta volta à cena do cenário da ditadura em plena democracia, Gabriel Chalita secretário da Educação do governo Alckmin, hoje no PSB, concedeu-me entrevista onde solicitei que explicasse por que em tão pouco tempo este destempero do professorado. E Chalita acredita que as reivindicações, que as considera corretas, poderiam ser administradas através de negociação pela autoridade, capacidade e boa vontade de Serra e de Paulo Renato. Até o confronto com os policiais poderia ter sido evitado.

Cunho político e avaliação predominam nesta composição de antagonismos. A atribuição política aos atos dos professores é tão evidente, mas camuflada quanto à resposta de João Havelange ao Presidente João Goulart, citado ao jornalista Roberto Kaz para a revista Serafina: “Não trabalho com política”. Ora, sabemos que Havelange fez e faz política a vida inteira.

Quanto à avaliação, boa lição está contida no best-seller Freakonomics, do economista Steven Levitt e do jornalista Stephen Dubner, no qual afirmam que os sistemas de incentivos devem tomar cuidado com as doses e com os trapaceiros.

Uma escola de Israel tinha problema com atraso de pais para retirada dos filhos e resolveu multá-los. O pequeno valor estabelecido incentivou os atrasos, pois compensava financeira e moralmente. As escolas de Chicago estabeleceram provões para avaliar os alunos em testes de múltipla escolha, cujos resultados poderiam premiar ou punir os professores. Salvo uma descuidada professora que escreveu as respostas no quadro da sala de aula, e alunas adolescentes alegremente contaram em casa que o provão tinha sido um sucesso, os demais professores trapacearam respondendo eles mesmos as questões. Foram pegos por algoritmo que descobriu sequências impossíveis de acontecer, como todas as perguntas difíceis corretas e as fáceis erradas.

Como se vê, a situação não é simples nem fácil, mas na Educação é conveniente que em casa de ferreiro o espeto seja de ferro. Educação se resolve com Educação.

Carlos Magno Gibrail, doutor em marketing de moda, escreve no Blog do Mílton Jung às quartas-feiras e nunca deixa de fazer a lição de casa.

Pauta do sábado no #cbnsp 27.03.10

 

CBN SPDura e justa. Assim o jurista Luis Flávio Gomes considerou a sentença contra Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá pelo assassinato de Isabella Nardoni, que tinha cinco anos, em 2008. Ele foi condenado a 31 anos, um mês e dez dias de prisão; ela, a 26 anos e oito meses. Professor de Direito Criminal, Luis Flávio Gomes explicou em entrevista ao CBN SP os critérios usados pelo juiz Maurício Fossen para determinar a sentença e comentou que o julgamento se encerrou em clima de “final de campeonato”.

Ouça esta entrevista, a sentença do juiz e outras reportagens sobre o caso.

Outros destaques do CBN SP:

Saúde – Familiares de crianças que sofrem das síndromes de mucopolissacaridoses reclamam da falta de apoio do sistema público de saúde que não oferecem tratamento nem remédios para combater a doença. As crianças nascem com déficit na produção de enzina e se não receberem os cuidados adequados podem morrer em até seis anos. A presidente da Associação Paulista dos Familiares e Amigos dos Portadores de Mucopolissacaridoses Regina Próspero chamou atenção para o descaso com os pacientes.

Greve dos professores – 16 pessoas ficaram feridas no confronto entre policiais militares e professores em greve, que ocorreu nesta sexta-feira, em São Paulo. O governador José Serra (PSDB) até o fim da manhã não havia feito nenhum comentário sobre o assunto. A greve entrará na quarta semana de paralisação. Ouça a reportagem sobre a violência durante a manifestação dos professores.