Avalanche Tricolor: Renato dribla mais uma vez a lógica

 

Guaraní-PAR 1×1 Grêmio
Libertadores – Defensores del Chaco/Assunção

 

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Pedro Rocha marca o gol de empate, em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Confesso desde este primeiro parágrafo que não assistí a um só lance do empate gremista, nessa quinta-feira, no Paraguai. Fui surpreendido com a antecipação do horário da partida, previsto inicialmente para o fim da noite, e não havia como modificar a agenda de compromisso profissional previamente assumido.

 

Estou em Gramado, de volta à minha terra, onde apresentei a palestra magna do 32º Encontro Internacional de Audiologia, ao lado da colega de trabalho Leny Kyrillos. E enquanto estava no palco, o Grêmio entrava em campo em Assunção.

 

O celular foi minha fonte de informação. E por ele soube da escalação “alternativa” escolhida por Renato – imagino que após discussão com a comissão técnica e a própria diretoria. Colocar um time de reservas na Libertadores é jogada arrojada demais para ser decidida por apenas uma pessoa, mesmo que esta seja Renato, alguém que já deu provas de quantas loucuras é capaz de fazer para conquistar a vitória.

 

Mesmo com um histórico de arrojo e coragem, ainda há quem duvide da capacidade de nosso técnico. Ao encerrar minha palestra, procurei um táxi, e o motorista vestia a camisa do Grêmio(coincidência?). Ele estava incomodado. Tínhamos perdido um jogador expulso e o adversário havia marcado seu gol.

 

“Estamos perdendo!?” – comentei para que ele percebesse que falávamos a mesma língua e torcíamos pelo mesmo time.

 

“O Renato pediu, né!” – foi a resposta que ouvi em tom de descrença devido a decisão de entrarmos na partida com apenas dois titulares.

 

Quase caí na conversa dele. Ainda bem que minha mulher, que acompanha o futebol por força do casamento e apenas de revesgueio, interveio:

 

“Mas não é domingo que tem jogo importante?”

 

Tinha toda razão, por mais contraditório que pudesse parecer.

 

Pela lógica, Renato colocaria os titulares na Libertadores – o que poderia ser mais importante do que isso? -, e o que resistisse em pé, ele escalaria no domingo quando jogaremos pelo Campeonato Gaúcho. Mas Renato construiu sua história driblando a lógica.

 

Fosse lógico, Renato, acuado na lateral e de costas, jamais chutaria aquela bola para o alto e em direção a área, permitindo que César, de cabeça, nos levasse ao gol da Libertadores, em 1983. Nem arriscaria atropelar e contorcer o bando de alemães que o cercava no caminho para o gol que nos deu o Mundial, naquele mesmo ano.

 

Desta vez, sem pudor, preferiu poupar os titulares, confiando que um revés agora seria facilmente recuperado no jogo de volta, no segundo turno da fase de classificação da Libertadores. Resguardou-os para o desafio de domingo quando precisaremos vencer o Novo Hamburgo para nos mantermos na caminhada ao título do Campeonato Gaúcho.

 

Fez o cálculo certo e foi premiado com mais um gol decisivo de Pedro Rocha – aquele guri que está sempre arriscando -, que nos garantiu o empate, nos deixou na liderança do grupo da Libertadores e nos ofereceu ainda mais entusiasmo para vencermos a disputa, no domingo, pelo Campeonato Gaúcho.

 

Como disse o presidente Romildon Bolzan: “nossa prioridade é ganhar títulos”. E o Grêmio jogou com inteligência e audácia suficientes para se capacitar a vencer tanto um título como o outro.

Avalanche Tricolor: Tem decisão eu vou

 

Guarani 0 x 3 Grêmio
Brasileiro – Campinas (SP)


Chegou a hora da conquista. Até aqui, disputamos cada partida pelo orgulho de ser gremista. Superamos os momentos mais difíceis neste campeonato, quando muita gente grande nos olhava com desdém, dava de ombros às nossas vitórias  e nos considerava um time com data de validade vencida, após não seremos capazes de conquistarmos a Copa do Brasil.

Para estarmos onde estamos foi preciso recuperar não apenas o futebol, mas a auto-estima de jogadores desgastados com os resultados ruins. Que não acreditavam neles mesmos. Entravam em campo como se carregassem o peso de uma história em vez de tê-la como aliada.

Houve um momento em que cada partida teria de ser encarada como uma decisão isolada, como se estivéssemos disputando um campeonato particular em que nosso pior adversário era a imagem que estávamos construindo na contramão dos nossos feitos.

Renato Gaúcho foi convocado para encarar este desafio, um técnico muito mais elogiado pelo que fez com os pés do que vinha fazendo com a cabeça. Verdade que no comando do Bahia havia ajeitado o time, este ano, e o colocado no rumo da primeira divisão. Mas o restante de sua história diante da casamata não era motivo de exaltação.

O torcedor gremista acreditou na aura de Renato, apostou na possibilidade dele contaminar o vestiário, mudar o espírito da equipe, torná-la competitiva e fazer, novamente, do Olímpico Monumental uma muralha intransponível. Isto seria pouco, porém, para buscarmos um destino melhor no Campeonato Brasileiro, haja vista os resultados obtidos até aquele momento e a distância que estávamos da tropa de elite.

Renato foi além. Montou uma equipe corajosa que não temia o adversário no campo dele e organizou o time de forma inteligente, reposicionando jogadores como Lúcio e Fábio Santos, a ponto de fazer do nosso lado esquerdo o caminho mais rápido para chegar ao ataque. Deu confiança a Fábio Rochemback que passou a dominar a frente da área e a Douglas, que ganhou liberdade para criar. Também trouxe sangue novo como o xerife Paulão, incontestável zagueiro que esperávamos há tanto tempo. E Diego Clementino, esse rapaz que tem cara de gremista.

Fomos conquistando os pontos disponíveis em nossa caminhada até chegar os atuais 60, que nos posiciona entre os quatro melhores da competição e o melhor no segundo turno. Fomos marcando gols e mais gols até nos transformarmos no ataque mais forte do Brasileiro, com os 65 alcançados hoje. Sem contar o artilheiro-dançarino Jonas (com 22), Andre Lima (com 10, quem acreditaria nele?) e Diego (que com 5 deve ter a melhor média de gols por minuto jogado, este ano).

Falta apenas mais um jogo nesta temporada. Vencemos o que devíamos até aqui. O Grêmio voltou ao seu lugar, entusiasmou sua torcida, levantou seu moral e obrigou analistas a reverem seus conceitos. Chegamos onde muitos, mesmo gremistas, não acreditavam mais em 2010.

A partida de domingo é tão importante para nós como foram todas as demais sob o comando de Renato. É a última desta série de decisões que nos impuseram. E que pode nos abrir caminho para mais uma conquista da América.

Todos ao Olímpico domingo que vem. Eu vou

Avalanche Tricolor: Nem que seja no grito

 

Grêmio 1 x 0 Guarani
Brasileiro – Olímpico Monumental

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O centenário do Corinthians tomou conta do noticiário esportivo, nesta quarta-feira. A festa preparada pelo clube à sua torcida encheu o Vale do Anhangabau, na noite passada e virou a meia-noite. As emissoras de Tv, em especial os canais especializados, entrevistaram corintianos ilustres, remexeram em seus arquivos e prepararam programas especiais. Poucos gols foram tão repetidos como o de Basílio, em 1977.

E aqui começa a explicação pelo parágrafo acima estar dedicado a um outro clube que não o Imortal Tricolor.

Foi em 1977, também, que assisti ao primeiro título do Grêmio em sã consciência. A última conquista havia sido em 1968 e eu, muito menino, ainda não tinha o futebol entre minhas prioridades. Se em São Paulo, o Corinthians encarava 23 anos sem vencer o campeonato estadual, no Rio Grande do Sul, estávamos há oito anos na fila. E sempre perdendo para o mesmo adversário – mesmo quando jogávamos melhor. Tempos difíceis aqueles.

Alguém dirá que difícil é a fase que enfrentamos atualmente. Desde a derrota na semi-final da Copa do Brasil, o time perdeu o rumo, se distanciou de sua história, ficou pequeno apesar de seu elenco. As más línguas e o olho gordo chegaram a desenhar uma queda para a segunda divisão, apesar de faltarem tantos jogos até o encerramento do Brasileiro.

A situação realmente não é simples. Mesmo este espaço que costuma encontrar em pequenos casos grandes histórias para enaltecer o Grêmio tem andado desconfiado do desarranjo que o time vem enfrentando. Problemas que não se resumem aos jogadores e ao comando técnico. Que se iniciam na administração do clube com repetidos erros de decisões.

Nada se compara, porém, aqueles anos que antecederam 1977. O Grêmio era um time de poucas pretensões, por maior que fosse a alegria de vencer um Gauchão. Contentava-se em derrotar o adversário mais próximo e assistir aos jogos do Campeonato Brasileiro com jeito de quem era apenas um coadjuvante.

Nossa história começou a mudar naquele ano. Ali começamos a construir a consciência de que éramos muito maior do que imaginávamos. Que nossas fronteiras teriam de ir além da bacia do rio Uruguai. E se iniciou a trajetória a caminho da conquista do Mundo.

Toda vez que o gol de Basílio era repetido na tela da TV ou a sua narração era reproduzida no rádio, hoje, eu teimava em lembrar do gol de André Catimba, no estádio Olímpico.

Agora à noite, quando assisti ao Grêmio vencer por apenas um a zero tentei encontrar em campo resquícios daquele time, quem sabe em mais um exercício da minha alucinação revelada na Avalanche Tricolor do domingo passado.

Se entre os jogadores que se esforçaram para alcançar este resultado não tive sucesso nas minhas pretensões, ao menos a torcida me ofereceu uma bela oportunidade ao tomar boa parte das arquibancadas e gritar pelo seu time independentemente da apresentação que este fazia.

E foi nela que encontrei não apenas uma relação com aquele título de 1977 mas a certeza de que nós seremos capazes de superar mais esta fase. Nem que seja no grito.