Conte Sua História de São Paulo – 464 anos: minha primeira decepção de criança ao fim da II Grande Guerra

 

Por Aldo Bertolucci
Ouvinte da rádio CBN

 

 

No Conte Sua História de São Paulo, para comemorar os 464 anos da nossa cidade, o texto do ouvinte da CBN Aldo Bertolucci, que completa 78 anos de vida e de São Paulo:
 

 

Meus pais eram italianos e morávamos na Alameda Ribeirão Preto, paralela a Paulista. De nossa casa, afinal o bairro era Bela Vista, víamos os prédios Martinelli e do Banespa, com toda uma várzea e casas pequenas aos nossos pés. Nossa rua era de paralelepípedos por onde todos os dias passava a velha Amulari – uma portuguesa que ficou assim conhecida porque ao trazer suas cabras para vender o leite sempre se desculpava que estava ali para “amulari as pessoas” ou incomodar as pessoas. Soube-se depois que ela, andrajosa e maltrata, era dona de várias casas de aluguel no bairro.

 

Do outro lado do vale havia um campo de futebol, ali perto da Rua dos Ingleses, onde os times do bairro jogavam peladas nos fins de semana. Durante a guerra, os poucos automóveis a gasogênio não nos incomodavam e jogávamos futebol na rua mesmo. Às vezes, éramos interrompidos pelo Salomão, o verdureiro, que vinha com sua carroça puxada pelo Caxambu, um cavalo alazão que estacionava à espera dos clientes. Quando o cavalo fazia cocô, meu avô saia correndo de casa para catar o esterco que ele punha nas suas plantas. Alguns meninos mais corajosos de nossa rua entravam em um bueiro de um lado da rua, passavam pelo cano que ia até o outro lado e saiam pelo outro bueiro.
 

 

Em frente de casa havia um convento de freiras de clausura, cercado de muros muito altos, que ocupava todo o quarteirão desde a Ribeirão Preto até a São Carlos do Pinhal, a Rua Pamplona a Alameda Campinas. Parte desse espaço é ocupado agora pelo Hotel Maksoud. Nós garotos subíamos até o segundo andar de nossas casas para espiar alguns movimentos das freiras que mantinham uma horta. Havia uma capela onde íamos à missa. Mas era construída em duas asas. Nós ficávamos em uma e as freiras em outra sem que pudéssemos vê-las.

 

Um dos passeios mais esperados era atravessar a Paulista em direção aos Jardins – que não tinham ainda se consolidado – e chegar ao ponto final do bonde 40 – Jardim Paulista, na Rua Veneza. Do ponto final seguíamos a pé em direção ao que é hoje o Itaim Bibi, andando no meio do mato e do brejo para chegar aos sítios onde se criavam os cavalos que corriam no Jóquei. Hoje a Avenida São Gabriel substituiu as chácaras.
 

 

Lembro o fim da guerra mundial com as rádios festejando a paz e meu pai com uma bomba manual enchendo os pneus de seu Chevrolet 1938, que estava parado havia vários anos, para ir comprar gasolina e darmos uma primeira volta. Ficamos decepcionados, meu irmão e eu, porque nossa mãe se apoderou do assento da frente que achávamos ser de nosso direito.

 

Lembro também que, naquela época, a Cruz Vermelha abriu um posto ao lado do Correio Central para receber doações para vários países europeus. Fomos com minha mãe levar um saco de roupas para nossos avós e tios que tinham sobrevivido ao conflito, na Itália.
  

 

Aldo Bertolucci é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Venha comemorar os 464 anos da nossa cidade: escreva o seu texto para milton@cbn.com.br.

“O Contador”: aproveite que ainda é Carnaval e assista a este ótimo filme

 

Por Biba Mello

 

 

FILME DA SEMANA:
“O Contador”
Um filme de Gavin OConnor
Gênero: Ação/Suspense
País:USA

 

Christian é autista e desde criança sofre as agruras desta condição. Essa mesma condição o faz ter uma habilidade incomum com números, e em seu escritório de contabilidade acaba ajudando organizações criminosas. Em determinado momento, é contratado para checar os livros contábeis de uma empresa de próteses, pois uma contadora jr. descobre que há algo de errado… Chris revela uma fraude que coloca em risco sua vida, mas vocês verão, que, além de contador, ele é uma máquina de guerra…

 

Por que ver:

 

Esse tipo de filme acaba colocando em cheque nosso julgamento moral, pois o Crhis é aquele personagem que você não consegue definir se é bom ou mal… te faz perceber que nem tudo é assim tão preto no branco…

 

Se segura na cadeira pois as cenas de luta e ação são fantásticas e violentas.

 

Roteiro instigante, que é revelado aos poucos, e bastante coerente apesar da estranheza que o personagem, que parece um nerd, é capaz de causar. A história explica como ele virou aquela super máquina de combate, mas, mesmo assim, se a gente pensar bem, é estranho.

 

Um filme que vale a pena ser visto!

 

Como ver:

 

Amigos, família… Mas lembre-se: tem muita violência e mortes.

 

Quando não ver:

 

Com os menorzinhos…. Vai roalr muitos pesadelos…

 

Biba Mello, diretora de cinema, blogger e apaixonada por assuntos femininos. Dá dicas de filmes e séries aqui no Blog do Mílton Jung

Conte Sua História de SP: a Revolução de 1932 e a Nona

 

Por Elza Conte
ouvinte-internauta da CBN

 

 

Eu sempre discursei muito a vida toda, sobre a importância para os paulistas do dia 9 de Julho. Quando o governador Covas decretou este feriado, foi uma emoção muito grande para mim. Sempre que converso sobre o assunto, lembro de minha Nona, Dona Marieta. Todos conheciam bem a história dela, viúva com 32 anos (1928) e, segundo conta-se, quase morreu ao perder seu grande amor. Com quatro filhos pequenos para criar, a maior com sete anos e a menor com oito meses, trabalhou e lutou muito para sobreviver.

 

Convivi pouco com essa adorável criatura, mas o suficiente para lembrar as homenagens, ainda após 30 anos do falecimento do vovô Vicente, nas datas referentes. Todos precisavam fazer muito silêncio. Varrer o chão jamais. No dia anterior a essas datas, os alimentos eram cozidos, para que o fogão não fosse utilizado. No máximo, apenas esquentar a comida. Tudo estava direcionado ao silêncio. O fósforo sendo riscado, já poderia ser uma forma de sair do estado de concentração. E nós netos, seguíamos a Nona sempre com muito interesse e respeito.

 

Bem, toda esta descrição é para mostrar-lhes o quanto de amor eterno nossa amadinha Nona tinha pela lembrança do vovô Vicente. Ainda assim ela não tinha sua aliança de casamento original, porque havia sido doada no movimento da Revolução Constitucionalista de 1932. Imaginem a importância dessa doação.

 

Este fato por si só, sempre me fez prestar muita atenção nas lindas histórias românticas que ouvi sobre esse episódio em São Paulo. A revolução de 1932 liderada por São Paulo tem precedentes desde 1920 e que faz caminhar até os anos do Estado Novo e aos 15 anos de Ditadura, no Brasil.

 

 

Alguns aspectos muito importantes gostaria de destacar, que ainda fazem parte das mentes dos nossos patrícios. Muitas vezes eu ouvi:

 

– Ah, se a revolução de 32 tivesse dado certo, hoje estaríamos separados do Brasil.

 

Esta propaganda inteligente, porém destrutiva, foi uma das principais armas do governo da República, para motivar os soldados a combater os paulistas, e fazer muitos Estados, que inicialmente iriam aderir ao movimento, desistir.

 

Fundamentalmente, a Revolução Constitucionalista de 1932 combatia o governo provisório de Getúlio Vargas, instaurado em 1930. Os revolucionários exigiam uma nova Constituição e eleições presidenciais para o Brasil. Nunca foi intenção do movimento separar São Paulo do Brasil. Foram três meses de conflito. O movimento congregou toda a sociedade paulista e paulistana, que atingiu o emocional da população quando da morte, em 23 de maio, do mesmo ano, de quatro jovens: Martins, Miragaia, Dráuzio e Camargo, o MMDC. Houve uma organização exemplar para confecção de uniformes, compra de material bélico, suporte aos soldados. Foi onde entrou a aliança de minha avó. Sinônimo de amor sem precedentes para mim.

 

Além da propaganda enganosa sobre as intenções dos paulistas, o suposto erro foi a falta de estratégia dos nossos soldados, muito mais alimentados de sonhos do que de metas. A suposta aliança entre Minas Gerais e Rio Grande do Sul acabou voltando-se contra São Paulo, seduzidos pelo populismo de Getúlio Vargas.

 

“E São Paulo, sozinho, descobriu que de nada valeriam seus 25 mil voluntários animados e idealistas, sem armas e munição. Os dois meses de luta que se seguiram foram pródigos em criatividade e heroísmo. A eloqüência dos tribunos, as histórias guardadas nas sagas familiares paulistas – em cujas casas as sucessivas gerações preservaram as relíquias constitucionalistas, capacetes, granadas e cartuchos, e esconderam a “bandeira das 13 listas” cantada pelo poeta Guilherme de Almeida e queimada e proibida por Getúlio – formariam acervo precioso de que hoje ainda bebem historiadores.” (Cecilia Prada)

 

Aqui cabe uma explicação muito interessante sobre a velocidade das informações na época. Nos últimos dias de setembro de 1932, o governo republicano já considerava terminada a revolta. Enquanto os comandantes trocavam consultas e protocolos de um possível armistício, as tropas decidiam em vários pontos prosseguir a luta. Inconformados, oficiais e praças fogem para tentar continuar a campanha em Mato Grosso. Somente em três de outubro foi considerada terminada uma revolução que na verdade, já havia se encerrado há um mês. Um ex-combatente, que fez certa vez uma palestra na faculdade que eu estudava, disse que não havia como eles saberem que a Revolução havia terminado. Hoje se sabe destas informações, quase ao mesmo tempo de seu acontecimento.

 

As histórias envolvendo Getúlio Vargas são surpreendentes. O seu poder de persuasão era muito forte. A minha avó, que deu sua aliança para o “bem de São Paulo”, nunca admitiu que o Pai dos Pobres, como conhecido, pudesse trair seus vizinhos. Em 1955, quando Getúlio Vargas morreu, ela chorou copiosamente, repetindo o que ouvia no velho rádio: Estamos órfãos….

 

Elza Conte é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte mais um capítulo da nossa cidade, envie um texto para milton@cbn.com.br ou agende entrevista no Museu da Pessoa no e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net.

Encontre o “defeito” de Sniper Americano e concorra ao livro “Como a Geração Sexo, Drogas e Rock’nRoll Salvou Hollywood”

 

Por Biba Mello

 

 

FILME DA SEMANA:
“Sniper Americano”
Um filme de Clint Eastwood.
Gênero: Guerra, Drama.
País:USA

 

Conta a história verdadeira de Chris Kyle, texano, cowboy e caçador; que se emociona com os ataques de 11 de setembro e resolve se alistar no exército para servir o seu país e acabar com os terroristas. Logo seu talento para o tiro é percebido e ele vira o soldado mais “efetivo” (matou mais de 160 inimigos) da história do exército americano.

 

Por que ver:

 

Clint Eastwood consegue criar um épico atrás do outro. Neste caso, é um filmão de guerra de primeira grandeza, que te envolve e te faz segurar o fôlego algumas vezes. Não vou discutir sobre política internacional, ou posicionamento politicamente incorreto do diretor, relacionados aos iraquianos, e/ou ao patriotismo americano exacerbado….Afinal já esperamos isto vindo dos USA, assim como também esperamos um filme que seja impecável e que sirva como um excelente entretenimento.

 

Bradley Cooper cresceu para todos os lados. Esta mais forte e mais gordo, bem parecido com o Chris original. Sua interpretação esta irretocável. Uma das melhores de sua carreira.

 

Como ver:

 

Comendo um hambúrguer para entrar no clima enquanto procura um único defeito na produção de Clint (contarei para o Mílton Jung para não ter marmelada). Vou até lançar um desafio: o primeiro que achar o defeito até 30 de junho, vai ganhar meu livro predileto sobre a história do cinema na década de 70: “Como a Geração Sexo, Drogas e Rock’nRoll Salvou Hollywood”… (só vale resposta aqui no Blog)

 

Quando não ver:

 

Se detestar filmes americanóides…Mas aviso, vai perder um filmaço!!!

 


Biba Mello, diretora de cinema, blogger e apaixonada por assuntos femininos e agora está te desafiando: vai amarelar!?

Uma garrafa no Mar de Gaza: mais um de Guillaume, sem floreios

 

Por Biba Mello

 

FILME DA SEMANA:
“Uma Garrafa no Mar de Gaza ”
Um filme de Guillaume Galliene.
Gênero: Comédia
País:FRANÇA

 

 

Uma menina judia, classe média, nascida na França, de 17 anos, foi morar em Jerusalém com a familia. Em meio a guerra entre Israel e Palestina, tenta encontrar uma resposta do porquê desta guerra que a assusta e faz tantas vítimas. A garota pede ao irmão, que está no exército, para que jogue uma garrafa ao mar com uma carta que ela escreveu. Um rapaz de Gaza, mulçumano, encontra a garrafa. Na carta, a menina pede que eles se comuniquem por email e, então, nossa história fica bastante interessante.

 

Por que ver: A diversidade cultural é o que mais me encanta neste filme. De um lado, os judeus; vivem com conforto e são os que mais se aproximam da cultura ocidental. De outro os palestinos; sofridos, pobres e com limitacões impostas pela religião que não se assemelham em nada com nossa cultura. É um filme profundo, quase documental, sobre essa guerra. A atuação é bem próxima da realidade, sem floreios.

 

Como/quando ver: Toda vez que sentir raiva da situação política atual. No meu caso, toda vez que assisto ao jornal. Pense que a situação poderia ser pior. Ao menos não estamos em guerra. Será?

 

Quando não ver: com aquele seu amigo de “esquerda radical”. Vai deixar de ser um entretenimento e sua casa vai virar um palanque político.

 

Biba Mello é diretora de cinema, blogger e apaixonada por assuntos femininos. Sugere ótimos filmes aqui no Blog do Mílton Jung, todas as semanas.

Livre-se dessa laia, Koff

 

gremioracismo

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Quinta coluna: as gerações brasileiras que nasceram durante a Segunda Guerra Mundial talvez,dando tratos à memória,se lembrem dessas duas palavras. Se algum leitor deste blog se der ao trabalho de abrir o Google,com certeza,ficará sabendo o significado delas. Os sites especializados nos mais diversos tipos de pesquisa,comuns na internet e,diga-se de passagem,muito úteis para esclarecer dúvidas ou desconhecimentos,foram bondosos ao definir a expressão “quinta coluna”. Explicam que ela teve origem na Guerra Civil Espanhola. Nessa, o General (o Google,pelo menos,não esclareceu o nome do dito cujo)referia-se a sua tropa que ía para Madri,como quinta coluna. A expressão foi mais uma vez usada durante a Segunda Guerra Mundial para chamar os soldados que apoiavam a política dos nazistas e de seus aliados.

 

Nasci em 1935 e me criei ouvindo notícias e,mais do que isso,tomando conhecimento da ida daqueles que eram chamados,carinhosamente, de “pracinhas”,para combater os alemães e quem quer que estivesse ao lado dele. Muitos não voltaram aos seus lares. Durante boa parte da minha infância ouvi pessoas chamarem os seus desafetos ou,o que é mais grave,de quintas colunas quem fosse contrário a ida dos nossos soldados para a Europa e coisas do tipo. Alguém – se é que tenho quem me leia nas quintas-feiras – está intrigado com o motivo de eu ter ressuscitado o termo quinta coluna,inusitado nesta época de tantas palavras novas – e mal usadas – por parte das mídia,pode se espantar. E já explico o por quê.

 

O jogo entre Grêmio e Santos,no decorrer do qual “torcedores gremistas”,postados atrás do gol defendido pelas teias construídas por Aranha,ofenderam o goleiro santista com termos racistas,deixou o Imortal Tricolor em maus lençóis,o que era de se esperar,especialmente porque o STJD não gosta dos nossos representes. E não é de hoje. Escrevo este texto numa terça-feira.Como não sou adivinho,não posso saber o que o Tribunal, que não simpatiza historicamente conosco, decidiu.

 

Gostaria, mais ainda de saber,porém,que tipo de penalidades o Grêmio aplicará nos torcedores bem identificados,que contra a grande maioria dos gremistas,não só cometeu racismo na partida contra o Santos como fez de conta que não viu as faixas que os bons torcedores levaram para a Arena em Grêmio x Bahia. Pessoas desse nível têm de ser banidas do clube,especialmente aqueles que conseguiram,por interesses de ordem política,se transformarem – pasmem – em “conselheiros” do Grêmio. Chega de maus elementos,Dr.Koff! Ou isso ou os bons vão acabar sumindo da Arena.É evidente que o Grêmio tem os seus quintas colunas e ainda vai se dar mal caso não se livres desta laia.

 

Em tempo: na quarta-feira, o STJD decidiu excluir o Grêmio da Copa do Brasil.

 

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Conte Sua História: A noite em que a Mooca entrou na guerra

 

Filha de um imigrante espanhol e uma imigrante italiana, Maria Meneses nasceu em 1939, em um cortiço da Mooca, na rua Tamarataca. Lá moravam nove famílias e no quintal do cortiço se uniam turcos, iugoslavos, russos, romenos, espanhóis, portugueses e italianos. No texto publicado no livro Conte Sua História de São Paulo (editora Globo), ela escreve sobre um fato curioso ocorrido no bairro na época da Segunda Guerra Mundial:

 

Ouça o Conte Sua História de São Paulo escrito por Maria Meneses e sonorizado pelo Cláudio Antônio.

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, logo após às dez e meia da manhã. Você pode participar do programa escrevendo seu texto para milton@cbn.com.br ou marcando uma entrevista, em aúdio e vídeo, no Museu da Pessoa.

De bom e mau

 

Por Maria Lucia Solla

 


Ouça “De bom e mau” sonorizado e na voz da autora

 

 

Olá,

 

pisquei, e a segunda virou quinta. Os dias correm como nós, e num desses dias voadores liguei a televisão e ouvi que o número de assaltos a residência e estabelecimento segue crescendo. Confirmei também que a civilidade segue diminuindo e que a fúria do invasor atinge nível de dar náusea. Se sequestra e se mata por tudo e por nada também. Humano tortura humano, legal e ilegalmente; se degrada, dissolve, mingua.

 

Tem muito ódio, muita raiva, muita amargura nos corações. Campeia a traição, o abuso e o descaso pelo outro. A sociedade do eu primeiro vem fortalecendo alguns músculos, mas vem deixando definhar o próprio coração. Se sobressai no índice do dinheiro, do consumo, e se retrai na educação, no respeito, na consciência do real direito de cada um.

 

Mas tem o outro lado onde pipocam projetos sociais; gente que troca o dia-a-dia, o conhecido, o conforto, pelo inverso da medalha. Gente que se arrisca no universo da diferença, do carência, da doença, do desengano, onde acaba encontrando – dizem os que se entregam – um presente da vida.

 

De um lado o invasor, do outro o libertador. É o que vemos desde criança no desenho animado. Bom contra mau. Falávamos disso, meu filho e eu, no domingo passado. Sobre repressão, criminalidade e atividade das polícias. E eu pergunto o que mais vai ser preciso proibir, quantas vezes mais vai ser preciso remendar a Constituição, para podermos saciar a boca faminta da justiça, do suborno, e das polícias, num desbotado filme de bandido e mocinho.

 

Enquanto o bom continuar a se entrincheirar e se armar para combater o mau, será só um arremedo de bom. Será um mau presunçoso a se considerar do bom lado da cerca. Só isso. E o mau, acreditando ser mau porque é isso que lhe dizem desde que entendeu a primeira palavra, o primeiro olhar, se arma para resistir, lutar e atacar o bom.

 

Não tenho a solução, nem na palavra nem no pensamento, mas sinto no coração que ela existe e que é possível; e tenho certeza de que você também sente. É preciso, no entanto, que a galera do bloco bom não se pavoneie, sentando nos próprios pés na ilusão de que não percebam seu medo e sua vergonha, e que não continue apontando, de bico erguido, o erro do vizinho. Em qualquer área, em todo nível social, cultural, no bloco civil, no bloco militar, penso em gente, não em casta.

 

As maiores e mais fratricidas guerras foram guerras religiosas; e continuam sendo. O religioso rotulado, que se considera bom, fica cada dia mais agressivo e arregimentador. É só olhar em volta, para os que rezam estirados no chão para falar com Deus, e os que se ajoelham para fazer a mesma coisa. Para os que aceitam os santos, e os que não aceitam. Para os que consideram Jesus o Messias, e aqueles que não. É guerra que, como todas as outras, é feia, dissimulada, discriminatória e preconceituosa, disfarçada de divina, correndo solta, acelerando o tempo que se esgota para que a consciência se instale como programa de tecnologia de ponta.

 

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

A morte de um repórter cinematográfico

 

Última imagem gravada pelo repórter Gelson Domingos

Filho de jornalista, sobrinho de jornalista, afilhado de jornalista e casado com jornalista, jornalista que sou sofro quando sei que um colega de profissão foi morto à bala, vítima da troca de tiros entre policiais e bandidos. Gelson Domingos, 46 anos, foi alvo encontrado de um tiro de fuzil durante a cobertura de uma operação da PM contra o tráfico de drogas na favela de Antares, em Santa Cruz, no Rio de Janeiro. Estava com colete de segurança, insuficiente para impedir a morte.

Um dos meus tios, Tito Tajes, foi repórter em guerra – por favor, parentes de melhor memória, me digam em qual delas. Mesmo sendo uma das pessoas mais queridas por mim, infelizmente nunca conversamos muito sobre as aventuras dele naquela cobertura, mas imagino como difícil deve ser o campo de batalha. Minha mulher, repórter de televisão, apesar de evitar as pautas mais perigosas, invariavelmente se depara com situações complicadas. Às vezes, uma simples gravação de rua a coloca no meio de um assalto ou no caminho de um caso policial. Sem contar que, atualmente, babacas sem causa têm atacado também estes profissionais quando entram ao vivo.

Apesar de alguns anos trabalhando no conforto de um estúdio de TV e rádio – onde vivenciamos outros tipos perigosos -, antes de ser âncora estive na rua, também. Como repórter, porém, poucas vezes tive de me deparar com ações de violência. Lembro de uma perseguição na qual transmiti ao vivo a fuga de bandidos que estavam em três carros com reféns após longa e dura rebelião de presos no Presídio Central de Porto Alegre. Entre o carro de um dos chefes da quadrilha e o da polícia estava o da rádio na qual trabalhava. Deste narrei boa parte do caminho por onde os bandidos passavam. Em nenhum momento eu e motorista levamos em consideração o risco de sermos atingidos por balas disparadas de um lado ou de outro.

No trajeto da notícia nem sempre calculamos o risco real da situação. Verdade extrapolada quando nos referimos aos repórteres cinematográficos e suas câmeras sempre apontando para o alvo mais significativo. Apesar de experientes, são repórteres bem menos valorizados do que aqueles que aparecem diante das câmeras e em algumas emissoras sequer lhes é dado o direito de serem chamados como tal. Mesmo assim, motivados pelo desejo de registrar a melhor história ao público esquecem o medo, as balas e a guerra na qual estão metidos. Transformam-se em vítimas de suas próprias escolhas e do compromisso que assumem ao entrar na profissão, o que em nada exime a responsabilidade das empresas nas quais trabalham, das condições e equipamentos que lhe são oferecidos e do País em que vivemos, no qual guerras diárias são travadas nos morros e favelas expondo não apenas jornalistas, mas cidadãos que aqui sobrevivem.

Guerra e paz no Morumbi

 

Por Carlos Magno Gibrail

SOS MORUMBI

À guerra desencadeada pelos bandidos na área do Morumbi e demais localidades limítrofes, os moradores resolveram responder com a paz que dificilmente se vê nestes momentos.

A manifestação que acompanhei foi dentro de um tom que jamais tinha presenciado em protestos de mais de 3000 pessoas. Do som, das palavras, das atitudes, era civilidade total. Nem a tentadora passada na frente do Palácio dos Bandeirantes, que poderia atingir o duplo objetivo de acordar o governador, foi realizada. Para evitar exatamente problemas de segurança.

Aqueles 90 minutos pareceram virtuais ao ver jovens, adultos, velhos, crianças numa interação de cordialidade extrema, inclusive com policiais, funcionários da prefeitura e corpo médico. Até os pequenos apitos não geraram um apitaço, e o som mais alto foram de aplausos à causa defendida.

Ter ido valeu principalmente porque a mídia não deu a perspectiva que constatei, pois ao lado de reportagens superficialmente descritivas vimos alguns preconceitos.

Helena Sthephanowitz na Rede Brasil Atual intitula a sua matéria como o “Protesto de ricos contra gente diferenciada”. Gente diferenciada segundo ótica própria da autora são os moradores de Paraisópolis.
O jornalista Paulo Sampaio, do Estadão, dentre tantas unanimidades encerra sua reportagem com uma desnecessária opinião de alguém de passagem: “Era para ser um panelaço, mas a patroa não sabe onde estão as panelas, e a empregada está de folga”.

O movimento era contra a violência, e preconceito também o é, de forma que parece que a carapuça serviu mais além.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve, às quartas-feiras, no Blog do Mílton Jung