Conte Sua História de SP: “com tutu, não, vou pagar com cheque”

 

Por Lucélio de Moraes.

 


Aportei por aqui, em 1982, com 18 anos, interessado em trabalhar e fazer faculdade de Rádio e TV. Hoje, estou com 51.

 

Vim de Itapetininga/SP, onde já havia trabalhado por alguns anos na Rádio Difusora local e desenvolvido gosto pela área de comunicação. Na família, o terreno também era fértil: pais educadores e irmãos mais velhos professores e advogados, em sua maioria. Sou o caçula de oito irmãos.

 

Antes de prestar vestibular, tinha que fazer o então 3º colegial e me matriculei no curso Objetivo/Cincinato Braga, integrado com o cursinho, na parte da tarde. Na primeira semana de aula, ao tentar tirar uma dúvida com a professora, ergui o braço e tasquei: “Dona… não entendi”.

 

Pronto! Foi risada geral na classe e esse virou meu apelido por algum tempo.

 

Ao fim do turno da manhã, eu tinha que correr para almoçar, ali mesmo na Paulista com Joaquim Eugênio de Lima, para atender às aulas do cursinho pré-vestibular no prédio Gazeta, que se iniciavam à uma e meia da tarde. Correria de paulistano, mas tinha que me adaptar, pois ficava claro: esse era o ritmo da cidade e eu queria vencer, dos medos e da vida.

 

Num desses almoços da primeira semana, o caipira atacou novamente: minha mãe havia me dado várias folhas de cheque assinadas do Banco do Brasil para eu ir me virando, até abrir conta e me estabelecer devidamente.

 

Ao chegar em um restaurante da Paulista, a preocupação era grande: será que vão aceitar cheque já assinado? Não tinha cartão de crédito e não havia outra alternativa, estava sem dinheiro suficiente para o almoço, mas fiquei bem quieto; se eu avisasse que estava com um cheque em branco, o sujeito poderia não me deixar almoçar. Então, sentei-me e fiquei aguardando o garçom, confesso, um pouco nervoso com aquela situação de risco.

 

Ele chegou com o bloquinho na mão e, todo alegre me falou:

 

“olá chefia, o que vai pra hoje, cardápio ou prato do dia?”
“…olha, eu vou querer este prato aqui do dia: arroz, feijão, bife e fritas”.

 

Então ele perguntou:

 

“é com tutu?
– “… Hã?? Não, tutu, não, eu vou pagar com cheque!!”.

 

Ele não parava de rir e ainda chamou os colegas para ouvir aquela minha impropriedade caipira..

 

Lucélio de Moraes é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: envie seu texto para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: dormi no ponto enquanto sonhava dirigir o ônibus

 

Por Jucélio Coyado Silva

 

 

No Conte Sua História de SP o texto do ouvinte-internauta Jucélio Coyado Silva:

 

Eu estava com cinco de idade, quando, em 1979, fui com meu pai a Igreja em São Miguel Paulista, zona leste da cidade.

 

Pegamos o ônibus 2059 Circular Guaianazes, na Avenida Nordestina – esse ônibus saía da estação São Miguel Paulista, passava pela Avenida Nordestina até Guaianazes e de lá pegava a estrada do Lajeado e a estrada Dom João Nery até o Itaim Paulista, e retornava a São Miguel pela Marechal Tito.

 

Minha aventura era ficar no banco da frente simulando os movimentos que o motorista fazia ao dirigir o ônibus. Naquele dia não foi diferente: entramos no ponto de partida, passei por baixo da catraca e fui cumprir meu ritual. Meu pai estava mais atrás conversando com seus amigos. Com o passar do tempo, dormi no banco da frente e, no desembarque, meu pai, distraído, desceu e me deixou lá.

 

Ele chegou em casa, trocou de roupa, colocou o pijama e foi dormir. Antes, minha mãe que cuidava de meus irmãos comentou: “estranho, o Jucélio chegou nem comeu nada e já foi dormir!” Ao entrar no meu quarto, estava vazio.

 

Foi então que a luz acendeu: “deixei ele no ônibus”, disse meu pai para desespero da mamãe.

 

Enquanto isso, só acordei quatro quilômetros depois do ponto em que deveria ter descido. Já estava no Itaim Paulista. Olhei pra trás e não encontrei meu pai. Apesar de perceber que estava perdido, não me apavorei. Deixei passar umas seis paradas e pedi para o motorista descer mais à frente. Ele quis saber onde estava meu pai e eu disse que ele havia desembarcado lá na padaria do Jardim Nazaré.

 

Diante do receio do motorista, expliquei que se ele me deixasse dois pontos pra frente eu iria para a casa da minha na rua Inhabatã, 308. Desci e fui correndo até a última casa, pulei o muro, entrei no quintal e bati na porta. Meu tio João, assustado, atendeu e gritou para a vó: “é o Jucélio da Cida!”.

 

Em época na qual telefone fixo era raridade, assim como orelhão, meu tio me pegou pela mão e foi até a estação de trem de São Miguel, onde imaginava encontrar meu pai.

 

Lá em casa, a mãe estava apavorada. O pai, mais calmo, orou a Deus e pediu proteção, antes de sair a minha procura.

 

Sem ônibus para levar-me em casa, tio João pegou um táxi. Já devia ser um ou duas da madrugada. O farol do táxi iluminou as ruas escuras do meu bairro. Nisso vi minha mãe andando de um lado para o outro, desesperada. Mais calma, coube ao tio João seguir sua busca: agora era preciso encontrar papai que estava atrás de mim em algum lugar qualquer da região.

 

Jucélio Coyado Silva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também outros capítulos da nossa cidade: envie seu texto para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de SP: meu pai lavava o fusca na cachoeirinha da vila

 

Por Ivan Miranda
ouvinte-internauta da CBN

 

 

Tenho 58 anos e moro no Bairro do Limão. Sou paulistano da gema, nascido na maternidade São Paulo, coração da cidade. Minha infância foi passada na Vila Santa Maria, uma das muitas vilas que se formaram ao longo da Avenida Deputado Emílio Carlos, uma estrada asfaltada, como poucas existiam no começo dos anos 1960, que ia do Largo do Limão até Largo do Japonês, passando por uma pequena cachoeira.

 

Aos fins de semana meu pai nos levava até a cachoeirinha para lavarmos o nosso amado fusquinha. Era o lava-rápido da época.   As pessoas encostavam os carros, pegavam seus panos, baldes e produtos de limpeza e aguardavam a sua vez, enquanto o restante da família trazia sanduíches e garrafas de refrigerantes em vidro de 1 litro.  Fazíamos um piquenique improvisado e era sempre uma alegria.

 

Com o progresso chegando, os bairros que outrora pareciam cidades do interior foram crescendo, empurrando a periferia para cada vez mais longe; a paisagem foi se modificando, sempre com mais asfalto e concreto e menos verde. Hoje, onde existia a cachoeirinha e sobre o córrego Cabuçu que desagua no Rio Tietê, passa a Avenida Inajar de Souza que vai até o Terminal de ônibus de região.

 

O que resta da saudosa cachoeira é o nome do bairro: Vila Nova Cachoeirinha. E, claro, a memória de momentos felizes de minha infância.

 

Ivan Miranda é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capitulo da nossa cidade. Escreva para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo:

 

Por Neivia Justa
Ouvinte-internauta da CBN

 

 

Era 1984 e eu passava férias na cidade de São Paulo, pela primeira vez, na casa de amigos dos meus pais. O Brasil fervilhava com o comício das Diretas Já na Praça da Sé.  Fiquei fascinada pelo astral e o mundo de possibilidade da terra da garoa.

 

Foi nessa época que também caí de amores pelos sabores do Almanara, o friozinho e os morangos de Atibaia, e a maestria do Fagundes encenando Morte Acidental de um Anarquista.

 

Política, comida, diversão e arte.

 

Tive a certeza de que São Paulo era o meu lugar no mundo, apesar da inexistência de qualquer vínculo ou passado que nos unisse. Não nasci aqui. Meus amigos de infância, adolescência e faculdade não são daqui. Sou do Nordeste, do Ceará, de Fortaleza, Santa Quitéria, João Pessoa, Natal, Recife, Garanhuns, Maceió.  Minhas lembranças dessa fase têm cheiro e sabor de maresia, dunas de areia branca, sol, brisa, cores fortes, música, alegria e uma família gigante.

 

São Paulo foi a minha escolha de vida adulta. Minha alma paulistana falou mais alto que qualquer raiz. Aqui eu construi minha carreira e minha família.  Sou completamente apaixonada por essa cidade, onde tudo é possível.

 

Um extrato do mundo. Uma megalópole que nunca me intimidou. Ao contrário, me desafia e me seduz um pouco mais a cada dia. Há quase 24 anos. Apesar dos pesares. Do cinza. Do céu sem estrelas. Do trânsito caótico. Da violência urbana.

 

Adoro a diversidade cultural, intelectual, religiosa, gastronômica, espiritual, sensorial, profissional que a cidade oferece. Sempre me emociono com a beleza das árvores, do pôr do sol e das noites de lua cheia que vejo e vivo por aqui.

 

Morro de orgulho das minhas filhas paulistanas.

 

Neivia Justa é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: escreva para milton@cbn.com.br. A narração é de Mílton Jung e a sonorização de Cláudio Antonio.

Conte Sua História de SP: saudades dos aviões da PanAir que jamais voei, em Congonhas

 

Por Rubens Cano de Medeiros

 

 

 

 

De meus atuais 69 aninhos, os primeiros vinte foram acolhidos por nossa modesta casinha – que “nossa” nem era – na então romântica Vila Mariana. Desde 1948. Eu tinha um mês de vida.

 

Foi então que a Avenida 23 de Maio resolveu chegar e arrasou a colossal chácara. com a qual nosso quintal confrontava. Tivemos que mudar: “mudaram-nos”, na verdade!

 

E fomos para uns dez quilômetros de longe, Vila Guarani, perto da cabeceira da pista de Congonhas, “do lado do Jabaquara” – a casinha que viemos a construir era nossa de verdade.

 

Lembro bem. Nossos novos vizinhos, solícitos; um simpático casal de portugueses, “seu” José e dona Amália, filha brasileira. Ele, mecânico de aeronaves. Da Varig, num dos hangares de Congonhas. Gente boa!

 

“Duas pátrias, um só coração” – era o laborioso mecânico de além-mar. Amava o Brasil. Amava Portugal. Lembro, ele me confidenciava – “ia até as lágrimas”, emoção e saudade! Bastava que visse o avião! Só de ver!

 

Trabalhando, pois, no Aeroporto, calhava de ele ver o belo quadrimotor “a pistão”, Douglas DC-7C, branco, prata e traços verdes! Belo pássaro! Muitos lembrarão.

 

Lembro, também. Era o “Voo da Amizade” – trazia, inscrito na fuselagem, o possante quadrimotor americano: “Panair do Brasil – TAP” (a empresa portuguesa). São Paulo a Lisboa (e vice-versa, pá!).

 

Sim, sinhoire! Bastava o “seu” José ver o avião – “em pessoa” – “ver é preciso; voar nem é preciso” – que até lágrimas – dizia-me ele – gotejavam-lhe no macacão de brim azul… Eram, pois, lágrimas da Panair!

 

Sempre gostei dos aviões. Notadamente os que me sobrevoavam a infância, a adolescência, a mocidade. Dentre eles, o Douglas DC-7C, Seven Seas, chamava-o a mãe, a fábrica Douglas, da California. Era “meu preferido”!

 

Como não lembrar? Belo, veloz, possante – mesmo em não sendo um jato; confortável, espaçoso. Hélices que refulgiam à luz do sol, cintilavam sob luar: poético, inclusive! O que eu diria dele? Viagens transoceânicas. O que eu achava? Soberano! Meu preferido! Douglas DC-7C! Eu não o trocava por outro!

 

Quantas vezes nele voei, eu?! Ora: nunca, jamais, nenhuminha. Nem em avião algum – nem teco-teco! Agora, morrer, morri… mil vezes. Se morri. De vontade. De entrar, lá no Congonhas, no “Voo da Amizade” – voar, São Paulo – Lisboa, Lisboa – São Paulo.

 

Quando voltasse – ah! –, assim que a porta do DC-7C abrisse, eu… Do alto daquela escada de embarque (e desembarque)… Lágrimas? Não. Respeitosamente, eu, não! Eu… Eu ia era descortinar um enorme sorriso – alegria, contentamento, emoção!

 

Eô-eô – voei! Um sorrisão! Um sorriso, da Panair – sim, senhoire!

 

Pena que findou.

 

Rubens Cano de Medeiros é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Envie seu texto para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de SP: meu primeiro Carnaval de rua, na Vila Esperança

 

Por Wagner Nobrega Gimenez

 

 

Imagine a época em que ainda existia Carnaval de rua em São Paulo. Hoje, essa tradição está voltando. Eram cordões, bandinhas com instrumentos rudimentares, confete, serpentina, gente fantasiada e muita alegria. Tudo o que se tinha direito a um bom desfile popular. Nunca eu havia assistido nada parecido e ainda era ao vivo e em cores, como se dizia naquele tempo.

 

Para nós, o Carnaval eram aqueles fatídicos banhos de espuma ou de água das guerrinhas que os moleques faziam entre si e que também jogavam nos poucos carros que passavam pelas ruas do Brás, onde eu morava na minha infância.

 

Meu cunhado tinha uma “parenta” na Vila Esperança, na zona Leste, onde lá sim desfilava um tradicional bloco carnavalesco. Todo ano, ele tentava me carregar para lá, mas a minha mãe não deixava: “Carnaval é confusão, dá briga, tem homem vestido de mulher, uma coisa absurda, não é bom para o menino”.

 

Mas, naquele Carnaval, já com 10 anos, consegui uma deixa para que fosse com ele e com a minha irmã: “Ele já está grandinho, não há problema, mamãe, nós vamos olhá-lo bem”, dizia ela.

 

Imediatamente, fui contar a novidade para todo mundo na rua: “pessoal, eu vou no Carnaval, vou sair fantasiado, vou até aparecer na televisão”. É claro, tudo mentira, e os garotos não acreditaram, mesmo assim ficaram com a maior inveja. Eles também não saiam muito longe, para nada além de ir à Igreja ou à escola, uma ou outra quermesse. Filmes também eram na Paróquia Santa Rita de Cássia, sabe, igual ao Cine Paradiso; só uns anos depois abriu na Avenida Celso Garcia, o Cine Universo. Agora é um prédio da Igreja Universal (combina um pouco com o nome antigo, não?).

 

Na verdade, a questão é que o tal do desfile era na terça-feira, chamada Gorda. Sinceramente não sei o porquê deste apelido.

 

Neste dia a rua da minha casa, devido ao feriado, parecia uma cidade abandonada: ninguém, nenhuma viva alma, nada para fazer, toda a garotada aproveitando para dormir até tarde. Nas casas preparavam-se almoços que seriam regados à cerveja ou vinho e depois o pessoal iria roncar nas poltronas das salas ou nos quartos, como preferissem.

 

Tudo muito calmo, menos eu. É que na noite passada não consegui dormir direito …

 

e havia acordado de mau humor. Imaginem um molequinho de mau humor, nada mais engraçado, não é?

 

“Meu filho, quer mais manteiginha no pão?”
“Nada não.”
“Porque isso benzinho, você sempre come bem de manhãzinha”
“Não enche mãe, estou esquisito hoje”
“Olhe, não responda assim que o papai do céu castiga, hem!”
“Chega disso, só quero café preto e pronto, estou muito nervoso”.

 

Então saí pela rua deserta. Bati na casa dos coleguinhas. Que nada, muitos tinham saído, outros ainda estavam dormindo, nenhum movimento a não ser os visitantes que chegavam com as suas roupas de domingo. Meus outros dois irmãos haviam viajado para o interior, para uma chácara de meu tio. Arre, meus pais, o que eu iria ficar fazendo com eles até a chegada da hora do desfile?

 

Naquela época não gostava de ler. Na TV não tinha programa bom e nem tampouco havia transmissão de desfiles de carnaval. O rádio era exclusividade do meu pai quando estava em casa.

 

“Vai comprar uma meia dúzia de ovos para eu fazer uma omelete.”

 

Lá fui eu na venda, comprei o que minha mãe pediu, voltei para casa. Daí que olhei para o relógio e parecia que ele estava parado, petrificado. A bendita hora não passava.

 

“Mãe, que horas é o desfile lá na Vila Esperança?.”
“Às 3 da tarde, ainda falta muito, são 10 horas ainda”

 

Ficava cada vez mais ansioso, sentia o coração acelerado. Não conseguia me controlar. Não podia imaginar nada, só ficava martelando na minha cabeça aquele Carnaval que não chegava nunca.

 

Saí no quintal e resolvi jogar bola. Pô, que coisa mais chata. E brincar sozinho, poderia? Sim, mas não naquele dia. Minha imaginação parecia bloqueada, branca, opaca, sei lá. Outra vez conferi o horário: 10 e quinze. Súbito pensei que ia enlouquecer. Nunca havia tido isso antes e fiquei com muito medo e afastei rapidamente aquela onda de energia malévola.

 

Bom, podia sair na rua e andar. Fiz isto. Estava com muita ansiedade. Porém ia até o fim da rua e voltava. Nem para isso eu estava criativo. Fiquei assim até a hora do almoço. Então resolvi comer bastante para passar mais o tempo.

 

“Nossa você comeu tanto hem, vai fazer mal, cuidado.”
“Não se preocupe, estou com fome mesmo.”

 

Depois de almoçar, escovei os dentes, tomei banho, me troquei e fiquei prontinho esperando o casal chegar para me levar ao tão esperado evento. Fiz tudo isso devagar, ganhando tempo, e aí com muito receio verifiquei: era 1 e meia  da tarde, faltavam 60 minutos, 1 hora inteirinha para nós sairmos do meu bairro até o local do grande encontro.

 

Passei o período restante contando minuto por minuto até deixar minha casa.

 

Para chegarmos lá, também a hora não passava. Pior. Foi um congestionamento, tudo por causa do excesso de carros e de pessoas nas ruas, o que atrasou bastante a nossa chegada.

 

Ainda mais essa!

 

Chegamos bem depois das 3, nem sei que horas eram, e o desfile já estava no fim, tinha só um carro; e uns músicos; e umas poucas pessoas fantasiadas.

 

Mesmo assim adorei aquele espetáculo: maravilhoso, lindo, deslumbrante. Sabe o que eles cantavam: “O trem das Onze” do Adoniran Barbosa, era a marchinha final do dia.

 

Valha-me Deus, a minha alegria era tanta que até chorei. E ria também.

 

Sinceramente sentia vontade de entrar no meio deles e sair sambando e cantando, mas não podia, porque tinha um cordão de isolamento.

 

Todavia a minha satisfação foi enorme, pena que acabou rápido demais, o meu primeiro Carnaval de verdade.

 

Wagner Nobrega Gimenez é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você mais um capítulo da nossa cidade: escreva para milton@cbn.com.br .

Conte Sua História de São Paulo: o sabor do bauru no Largo da Santa Ifigênia

 

Por Mário Tobias
Ouvinte-internauta da CBN

 

 

Nasci em 1961, na Zona Norte de São Paulo, na Vila Ede, próximo a Vila Gustavo. Uma família de muitos tios e tias: eu tinha um tio, Manoel, que foi mascate a vida inteira. Ele ia à pé e de ônibus da Vila Gustavo até a Rua 25 de Março comprar armarinhos e outras miudezas para revender nas lojas de bairros e para as costureiras, que eram muitas na época.

 

Várias dessas vezes, ele me levava. E eu, menino de 7 ou 8 anos, ia todo feliz, andar de ônibus e passear pelo centro de São Paulo. Na volta, ele parava num bar no Largo Santa Ifigênia, para comermos um bauru e tomarmos um refrigerante.

 

Quando conto isso, o sabor do lanche e do refrigerante, vêm à minha memória.

 

Mudei-me para o interior quando adulto, mas vinha sempre a São Paulo para reuniões na empresa, que ficava muito próxima do Largo Sta. Ifigênia.

 

Certa vez cheguei ao hotel, já tarde da noite, para uma reunião no dia seguinte, e como estava próximo, fui tomar um lanche no mesmo lugar de tantos anos atrás.

 

Lógico que as lembranças de tão doce período, vieram à tona.

 

Conversei com o dono da lanchonete e contei a história de mais de 40 anos atrás. Foi, então, que ele me disse:

 

Essa lanchonete era do meu avó, passou para o meu pai e eu hoje sou o proprietário. E já ouvi muitas histórias de doces lembranças como a sua.

 

O Conte Sua História de São Paulo tem a sonorização do Cláudio Antonio e a locução de Mílton Jung. O quadro vai ao ar aos sábados, logo após às 10h30, no CBN SP.

Conte Sua História de São Paulo: a namorada que eu levava ao Playcenter

 

 

Por Humberto Bernardino de Andrade

 

 

 

 

Cheguei à metrópole no fim da década de 1990. O primeiro lugar onde morei foi em Santana, na zona Norte. Nunca havia andado sozinho de metrô. E ao chegar ao terminal do bairro, vindo da rodoviária do Tietê, um amigo, que me recebera em uma república de colegas da minha cidade, me esperava para que eu não me perdesse.

 

 

Quando eu era criança e morava no interior, sempre ouvia os mais velhos dizerem: “─Jamais moraria em São Paulo… aquela loucura, trânsito, violência, poluição…”. Fiquei com aquilo na cabeça. O tempo passou e cá estava eu, recém-saído da faculdade de engenharia, cursada lá no interior.

 

 

Meu primeiro emprego aqui foi em uma obra na Av Luis Carlos Berrini, na zona Oeste: prédios modernos, muita gente bonita. Aquilo me impressionava.

 

 

Cruzava a cidade de ônibus pra trabalhar, pois tinha medo de ir de carro. Só tomei coragem de me arriscar no trânsito quase um ano depois.

 

 

A cidade não era mais da garoa como nos tempos em que fazia excursão ao Playcenter, nos anos de 1980. Era a terra dos temporais, que alagavam tudo castigando a cidade. Minha mãe quando via aquilo na TV nos programas da tarde, ligava preocupada pra saber se eu não tinha ficado sitiado em alguma enchente.

 

 

Apesar daquela resistência com a cidade, provocada pela ideia dos conterrâneos de que “jamais moraria em São Paulo”, uma coisa que sempre me deixava curioso, era saber como seria assistir a um jogo do meu time de coração, ao vivo, num estádio.

 

 

Tomei coragem: ao sair do trabalho, decidi ir ao Pacaembu. Era uma terça-feira à noite. Ao chegar lá, os holofotes estavam acesos, a arquibancada ainda tinha poucas pessoas – o suficiente para ficar com aquela imagem marcada na memória. Assisti, naquela noite, à vitória do Corinthians diante do Juventus, time tradicional da cidade. Foi um a zero. E simbólico para quem naquela altura já estava apaixonado pela cidade.

 

 

Ao mesmo tempo que, na agitação do dia-a-dia, pensava que tudo aquilo era provisório, que logo, logo arrumaria um emprego no interior e voltaria, nas horas de lazer, diante de inúmeras opções, imaginava que não havia como abandonar mais tudo aquilo e retornar.

 

 

Depois de Santana, morei em vários lugares: Vila Mariana, Saúde, Centro, Vila Prudente  … e até andei cometendo infidelidades: morei em Santo André, Osasco e Barueri. Mas sempre trabalhei em São Paulo.

 

 

Hoje estou de volta. E moro na Barra Funda, na zona Oeste, bem próximo do terreno, onde estacionava o ônibus que trazia a mim, minha namorada e meus amigos de adolescência para o Playcenter. O terreno está vazio, em compensação a namorada virou minha esposa.

 

 

É curioso porque nas minhas andanças pela cidade, ouço paulistanos da gema dizerem que “isso aqui é uma loucura, já não aguento mais, trânsito, enchente, violência… quando me aposentar, quero ir morar no litoral ou no interior.”.
 

 

Eu, que já me rendo à paixão pela cidade, como paulistano naturalizado penso logo que “, quando me aposentar, quero mesmo é morar em São Paulo”.
 

 

Humberto Bernardino de Andrade é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Venha participar desta história: envie seu texto para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: minha irmã foi registrada dia 25 de janeiro por amor à cidade

 

Por Mara Rocha
Ouvinte-internauta

 

Ouça este texto que foi ao ar na CBN, sonorizado pelo Cláudio Antônio

 

 

Minha história com São Paulo começa antes mesmo de minha família e eu morarmos aqui. Em 1952, meus pais viviam em Presidente Epitácio e só tinham dois filhos. Meu pai vinha a São Paulo comprar tecidos para minha mãe fazer as roupas da casa, dos filhos … ela costurava pra fora, também. Meu pai adorava São Paulo e voltava pra casa todo feliz contando para os amigos o que tinha visto por aqui: falava dos cartazes de filmes, teatro e shows musicais.

 

Em 16 de fevereiro de 1953, nascia minha irmã. Meu pai esperou um ano só para poder registrá-la com a data de 25 de janeiro. Em 1955, foi minha vez de vir ao mundo e meu nome Mara foi em homenagem a atriz de teatro de revista Mara Rubia. Em 1957, nascia outra irmã e o nome foi (completo) Dalva de Oliveira. Dispensa apresentação. Em 1960 nascia o coitado da turma feminina, porque depois dele vieram mais três meninas e formamos o time de nove, mas essas já são paulistanas.

 

Chegamos em São Paulo em 1961, minha mãe ficou encantada com o tamanho da cidade. Fomos morar no bairro Taboão em São Bernado do Campo e a minha rua chama-se São Paulo. O pai era motorista de ônibus na linha São Bernardo – São Paulo, passando pelo Zoológico, Jardim Botânico e, finalizando, na Praça da Árvore onde tinha o Cine Estrela. Nossos finais de semana eram nesses lugares. Adorava passear no Jardim Botânico onde fazíamos piquenique, jogávamos bola, peteca e nos divertíamos comoutros brinquedos da época. Visitámos com frequência também o Zoológico.

 

Minha irmã mais velha Wandy, trabalhava como modelo dos maiôs Cenimar ou Celimar (não lembro ao certo), as mulheres eram esculpidas pela natureza porque tudo era feito a pé ou de bicicleta. Ela foi a primeira a ter carro em casa e isso demorou um bocado. Ela fazia também as feiras do Ibirapuera. E a que eu mais gostava era o Salão da Criança porque brincava muito, e bebia muito iogurte Paulista, no estande onde ela trabalhava.

 

Nas férias íamos de trem para a casa do meu tio em Santa Fé do Sul. Ficava encantada com a Estação da Luz e a viagem de muitas horas passava rápido porque era divertidíssimo dormir nas camas da cabine com o balanço do trem. E durante o dia passeávamos pelos vagões.

 

Só comecei a frequentar o Cine Estrela quando fiquei adolescente (na época: mocinha). Daí foi um passo pra conhecer outros lugares, como o Cine Ipiranga e o Cine Ópera, esses dois no Centro. Ficava até difícil escolher pra onde ir nos finais de semana. Pedalinhos no Parque do Ibirapuera, tardes deliciosas no Museu do Ipiranga, encontro com a galera no Pilequinho, um bar em Moema que fazia deliciosos sucos e batidas de frutas. Sem deixar de frequentar o Jardim Botânico, meu lugar predileto.

 

 
Nossas compras eram feitas no Mappin e adorava ver o ascensorista descrevendo tudo que tinha nos andares. Minha loja predileta chama-se Piter, próxima do Teatro Municipal e o vestido verde água que comprei no crediário, é inesquecível!

 

Tinha 24 anos (1979) quando nos mudamos para Moema, a 50 metros do Shopping Ibirapuera, inaugurado em 1976. Os trilhos do bonde ainda estavam na Avenida Ibirapuera e minha vida não mudou nada porque desde sempre eu fui paulistana de corpo e alma. Casei, tive filho e neta. Passei pra eles tudo isso, o que ficou, claro! Meu filho e minha neta amam parques, piqueniques, bicicleta, patins e, principalmente, amam São Paulo.

 

Mara Rocha é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva para milton@cbn.com.br. Este texto foi ao ar, em 2013, no CBN SP, mas ainda não havia sido reproduzido aqui no Blog.

Conte Sua História de São Paulo: os banhos no lago do Villa Lobos

 

Por Claudio Menezes

 

 

Descendente de imigrantes portugueses e italianos, minha família quase toda é do Alto da Lapa, na zona Oeste de São Paulo.

 

Meu bisavô ao lado dos filhos e de funcionários – ou de colaboradores, termo que costumam usar nos dias de hoje – participaram do trabalho de construção da Estrada da Boiada. Dizem que a Estrada era o caminho para ligar Santo Amaro a Pinheiros. Hoje, muitos de nós passamos por lá, sem boi, é claro: é a Avenida Diógenes Ribeiro de Lima.

 

Dentre outras obras importantes que meu avô e sua turma participaram está a Praça Panamericana, aquela enorme e verde rotatória, um marco do Alto de Pinheiros.

 

Na rua em que nossa família morava havia uma feira livre. Isso nos permitia embolsar uns trocados extras. Eu e outros meninos fazíamos carreto para os clientes da feira. Nós também aproveitávamos para pegar os barbantes que serviam para fechar sacos de feijão que eram feitos de estopa. O barbante era usado depois como linha de pipa que soltávamos lá pela região do parque Villa Lobos.

 

O parque ainda não existia. Lá havia lagoas. E, sem saber nadar nem noção do perigo, pegávamos pedaços de isopor para nos refrescar nos dias quentes.

 

Cláudio Menezes é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Venha contar a sua história aqui na CBN: escreva seu texto e envie para milton@cbn.com.br.