Conte Sua História de SP: na busca por um pão divino e inominável para comemorar meu aniversário

 

Por Betty Boguchwal

 

 

O Quadrilátero da Saúde é um lugar onde são tênues os limites entre a saúde e a doença, a vida e a morte. A propósito engloba o trecho da Av. Dr. Arnaldo entre as Ruas Minas Gerais, Major Natanael e Cardoso de Almeida de um lado e, do outro, Av. Rebouças, Ruas Teodoro Sampaio e Cardeal Arcoverde. Caramba é servido por dois grandes hospitais, Faculdades de Medicina e Saúde Pública da USP, Secretaria da Saúde do ESP, três cemitérios, um velório e finalmente ou finadamente o IML.

 

Sorte que para amainar um pouco temos ao fundo um estádio e o museu de futebol. Daí que o comércio tem como público alvo os usuários, visitantes e trabalhadores destas instituições. Digo isso, já que alguns usuários não consomem mais, melhor dizendo, já partiram para o outro mundo. No entanto mesmo de lá, ainda geram demanda, principalmente aqueles que ainda estão carimbando o “visto de saída”, ou seja, estão sendo velados. Assim o comércio deste duplo quadrilátero é constituído por floriculturas, quiosques de flores, padaria, lanchonetes, restaurantes, bancas de jornal e trabalhadores informais, cujos artigos variam desde frutas até bandeirinhas de futebol.

 

Detalhe: eu faço parte do grupo dos trabalhadores, já que atuo como psicóloga na Secretaria de Saúde. Ocorre que por ocasião do meu aniversário, Paula, colega e vizinha de data de aniversário, trouxe dois patês. Aleluia estas iguarias exalavam um cheiro convidativo e 16H15 seria um bom momento para um lanche. Então o mínimo que podia fazer era providenciar baguetes ou torradinhas para saborearmos.

 

Ora fui à padaria que fica exatamente na esquina onde começa a rampa que acessa o Estádio do Pacaembu, em frente ao velório do Araçá, supondo ser um local apropriado para adquirir estes simples e pequenos itens. Já do lado de fora, a fachada pintada de um amarelo inexpressivo, parecia mais um caixote de cimento, na mesma linha de caixão, sem placa ou qualquer referência que indicasse o tipo do estabelecimento. Puxa, confesso que a minha entrada neste local foi tétrica, justo eu, especialista em padarias, logo fui impactada pelo clima negativo. Á direita, no balcão de pães viam-se alguns pãezinhos aparentando um bom tempo de vitrine, pães doces, e dois murchos pães de queijo. Barbaridade: nada atraia, ops, tudo repelia!

 

Nossa, dei uma pequena circulada buscando outra opção para a base dos patês. Péssima idéia: apesar de o balcão estar revestido com material atualizado, os produtos oferecidos para lanche tais como coxinha, esfiha aparentavam validade de anteontem. E pior, nas conversas que facilmente se ouviam entre os clientes, era nítido o destaque do vocábulo “herdeiro”.

 

Curioso que entre os dois balcões estava uma mesinha com duas cadeiras desocupadas e, ao fundo, uma salinha apagada, cuja entrada era interditada por uma geladeira Kibon. Invariavelmente deveria ser um espaço destinado ás refeições, provavelmente “gelado” pelos proprietários que, claro naquela hora já estariam descansando.

 

Felizmente encontrei Yolita, uma colega que não via há décadas, saboreando um café. Eta, até que ela aprovou o café, que a reconfortava na saída do velório de um amigo. Arre um elogio em meio a tantos produtos nada atraentes. Não durou muito, pasmem chegou um mendigo com um copo sujo pedindo para encher com café.

 

Mas como necessitava mesmo adquirir qualquer coisa para degustar os patês retornei ao primeiro balcão e, rapidamente, pedi dois pãezinhos franceses e um pacote de biscoitos cream crackers. Exatamente enquanto eu fazia o pedido escutava um senhor resmungando:

 

– Algum funcionário, por favor!
– Bom, o que poderia se esperar do atendimento naquela padaria?

 

Ora neste momento, me dirigindo para o caixa notei, ao lado da balança do pão, impresso naquele saudoso porta rolo de papel para embalagem: “Nova Pão Divino”, assim mesmo, sem concordância. Bom, ao menos tinha nome o tal do pão, ou seria da padaria?

 

– De fato sim:
Divino, mas inominável!

 

Digamos que o valor desembolsado também era inominável. Contudo, ao sair, logo me deparei com uma linda coroa de flores bem na porta da floricultura vizinha. E não é que a coroa é muito mais chamativa do que a padaria!

 

De volta à Secretaria degustamos, comemoramos, felizmente o sabor do patê se sobrepôs ao “divino” pão e fui embora. Ocorre que caminhando lá pelos últimos quiosques de flores, exatamente no N° 18 Chai, vida em hebraico, que, segundo a Cabala, significa sorte na cultura judaica, vi a placa:

 

Dê flores aos vivos!

 

Puxa, afinal é meu aniversário, significa que completo mais um ano de vida. Oba! Fiz como o sugerido e presenteei-me com flores.

 


O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, após às 10h30, no programa CBN SP. A sonorização é do Cláudio Antonio.

Conte Sua História de SP: a tinturaria do meu tio no Bom Retiro

 

Por Tadeu Magnani

 

 

Década de 50, o terno, vezes incluso colete, era traje diário e também nos finais de semana.

 

Com intensa clientela, meus tios Guilherme, Primo, Casemiro e Mário Magnani eram proprietários da Tinturaria Guarani, no Bairro do Bom Retiro, incialmenteo na Rua Silva Pinto, depois na Rua Joaquim Murtinho, telefone 37-09-59.

 

Era eu, garoto de 8 a 9 anos, e adorava retirar e entregar ternos com meu tio Casemiro, pelas ruas do Bom Retiro e Campos Elíseos.

 

Passava pelo Palácio do Governo, em rua acanhada, pois esta, a época, ainda não havia sido alargada para dar lugar a atual Avenida Rio Branco, pela Estação e Parque da Luz, pelo Colégio Santa Inês.

 

 

Na Rua Três Rios, a Escola de Farmácia e a Igreja N. S. Auxiliadora, nela fui batizado, e onde minha avó Augusta levava – me quase todos os dias, comprando – me os “bêigales”, espécie de rosca de massa, recoberta com gergelim.

 

Mas, o que o menino mais gostava, eram os caminhões da Transportadora Mayer ( na maioria enormes FENEMES ), vindos do Rio Grande do Sul, estacionados na Joaquim Murtinho e os dois Ford 51 ( um azul e outro verde ) do pessoal da Cartonagem São Lázaro, vizinhos a tinturaria …………

Conte Sua História de SP: os velhos e bons meninos do “Canto do Rio”

 

Por João Batista de Paula

 

 

No Conte Sua História de SP, o texto do senhor João Batista de Paula que está com 83 anos e mora em Interlagos. Mas o olhar dele está no Itaim Bibi e o texto é para homenagear um time de futebol, formado por meninos, lá na região

 

Era verão de 1941, portanto estávamos em pleno século 20. Local: a várzea do Itaim Bibi. Éramos uns trinta ou mais meninos que variavam a idade de nove a doze ou treze anos. Era a turminha da parte baixa do Itaim Bibi.

 

Eram as esperadas férias escolares de um verão que ficou marcado para todo sempre entre mil brincadeiras nas matas, nos campos, caçar pássaros, montar em cavalos sem permissão do dono, nadar nas muitas lagoas onde éramos bons nadadores. Em tudo o que fazíamos, as traquinagens de alguns meninos mais aventureiros não tinham limites. Só terminavam à noite, ali pelas nove ou dez horas, depois de passarmos por outras brincadeiras de rua. Naquele local não tinha asfalto nem iluminação nas ruas. O que era quase uma regra, os pequenos jardins nas casas. Naquele tempo, os meninos já tinham suas namoradinhas e as brincadeiras só terminavam quando a canseira nos alcançava.

 

Foi naquele verão de 1941 que, no nosso treininho diário de futebol, no campinho da Rua do Porto, começou um movimento entre os amigos: precisávamos fundar um time de futebol, coisa difícil devido a idade dos meninos, mas aqueles garotos eram diferentes, eram duros na queda. O campinho ficava em um terreno, ao lado da casa do Sr Deja, onde os meninos bebiam água e se refrescavam após o treininho. Nos fundos, o Córrego do Sapateiro, onde o Sr Souza, pai do Armando e do Nico, tinha um porto de areia. Era seu ganha pão. Alguém, olhando o monte de areia, pronta para a entrega, teve a feliz ideia de falar com Sr Souza se podíamos tirar areia de seu porto. imediatamente, ele não só permitiu como ajudou em tudo, como ferramentas e comprador para o produto. Foi também ele quem orientou os meninos no difícil trabalho que iam enfrentar: tirar areia do córrego do sapateiro para fazer fundos para compra de material esportivo.

 

Tudo começou ali. Quando o verão do ano de 1941 terminou, nós tínhamos um time de futebol com o forte nome “Canto do Rio” sugerido por Pedro Chaves, um adolescente da época. Não tínhamos a mínima ideia de quantos anos essa epopeia ou desafio de um punhado de meninos ia durar. Neste verão do ano de 2015,  agora em pleno século 21, já vislumbrando o centenário, com endereço próprio e vários bens, uma diretoria devidamente legalizada tem a difícil tarefa de zelar pelo enorme prestígio que o clube adquiriu nestes 74 anos de fundação.

 

Conte Sua História de SP: reencontro

 

Por Sidarta S. Martins

 

 

Novamente…
Novamente me envolvo em seus braços
Sinto o calor de seus abraços.

 

A cada reencontro, as lembranças…
Cada lembrança me faz voltar
Voltar a um tempo feliz
Um tempo que passamos juntos
Nos abraçamos, nos envolvemos
Juntos, enlouquecemos…

 

E cada dia mais
Mais e mais
Eu te amei.
Loucamente, profundamente.
Eu te amei.

 

E você me amou.
Amou-me com ternura,
Dedicou-se a mim,
Deu o melhor de si
O melhor que você podia…

 

Você era uma criança
– Você continua uma criança,
Descobrindo, errando
Caindo, levantando, acreditando…

 

Mas me amou!
Amou-me como gente grande
Como nenhuma outra
Fez-me crescer
Mostrou-me a vida…

 

Eu te amo!
Continuo te amando como no passado
Loucamente, profundamente.

 

Abandonei-te, sinto muito!
Você disse que outros a haviam abandonado
E eu?
Eu jurava amor eterno
Mas fui um ingrato.
Sinto muito, te abandonei!
Conheci outras
Procurei novas aventuras
Envolvi-me, me entreguei
Aconcheguei-me em outros braços.

 

Você sabe disso
Eu sei disso
Mas te amo!
Amo-te sempre
Sempre e sempre…

 

A cada volta
Me apaixono novamente.
Sou volúvel?
Não sei!
Sei que te amo!

 

Tuas curvas, às vezes perigosas
Revelam segredos novos e velhos
Sou curioso, sou atrevido, insaciável
Os caminhos estreitos
Os cruzamentos perigosos
Seus sinais…

 

Verde: Vá em frente!
Amarelo: Atenção!
Vermelho: Perigo, muito perigo!

 

Suas colinas, seus vales
Suas avenidas que convidam
Convidam a ir em frente
Sempre em frente…

 

Destemido, quero conhecer mais
Perder-me em seus bosques
Deitar em seu colo
Beber de sua fonte
Embriagar-me novamente.

 

Dá-me tua mão, me conduz
Quero voltar ao passado
E só você tem a receita
Só você conhece meu prato predileto
Os segredos da cozinha alemã
A alegria italiana
A formalidade e a formosura da chinesa.
Minha caipirinha predileta
Meus bares, meus programas…

 

Com simplicidade você me fala de seus poetas
Dos escritores, dos professores
Dos locutores, de seus cantores…

 

Culta, você sabe ser simples
Inteligente, você sabe ser humilde
Rica, você sempre acolheu os pobres
Rápida, você aceita a lentidão
Bondosa e sincera, sempre acredita em promessas.

 

Perdoa-me, te abandonei!
Andei por aí afora
Vaguei pelo mundo
Troquei-te por outras.

 

Mas volto sempre!
Preciso de você
Preciso de seu pulsar
Preciso de seu calor
Nada sou sem te ouvir.

 

Dá-me tua mão
Leva-me por aí afora.

 

Você é meu norte
De norte a sul.
Você é meu leste,
De leste a oeste.
Você é santa!
A única em minha vida com nome de santo.
São Paulo…

 

Amo-te!
Amar-te-ei sempre!

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, aos sábados, logo após às 10h30, no programa CBN SP. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode participar enviando texto para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de SP: Parelheiros, outrora um recanto encantado

 

Por José Maria Pires

 

 

 

Ano de 1956, 11 de novembro, às 14h30. Enfim o primeiro  respiro e o choro fora do útero materno.  Mãe, minha heroína.

 

Cheguei, estou aqui e… Cinquenta e oito anos depois… É só saudades. Se pudesse voltar no tempo, iria aterrissar minha nave na era verde de natureza abundante e ar puro desse meu outrora recanto encantado, e tentar salvá-lo da ganância de alguns e a ingenuidade de tantos outros.

 

Sinto saudade de um tempo onde imperava a simplicidade, a cordialidade e o respeito entre as pessoas. Pessoas que tinham orgulho de pertencer a esse recanto encantado chamado Parelheiros. Saudade dos bons e velhos tempos, tempos da escolinha de madeira à beira da estrada, do tio João Ribeiro (dentista), do Seu Abílio Christe (do mercado), do Seu Mané Queiróz (da farmácia), do Seu Gilão (grande figura!), Seu Pedrinho (da venda) e muitos outros que fizeram, outrora, desse recanto encantado, um lugar bom, divertido e feliz, mas que foi se degradando com o tempo.

 

Houve um tempo em que esse recanto deslumbrava encantos. Tempo em que esse recanto, em dias de festa, era tomado por belos enfeites, por belas moças e das barraquinhas que mostravam as delícias da culinária,  enquanto a multidão abria passagem para o desfile de carros alegóricos, para a Banda Sinfônica do colégio Prisciliana, aos cavalos com seus cavaleiros imponentes e às amazonas em suas montarias, com uma beleza descomunal.

 

Tempo em que na Igreja aos domingos pela manhã os moradores acotovelavam-se para assistir à missa com o Padre Carlos, e a fé naqueles tempos parecia ser infindável. Tempo em que depois da missa, lotava-se os barrancos à beira do campo de futebol para verem os craques do time de futebol juvenil do Parelheiros FC (Tiquinho, Rolinha, Pingo, Carlinhos), e tantos outros garotos.

 

Pois é… Quanta saudade! Saudade dos bailes de carnaval na Sede Social do Parelheiros F.C., regida pela voz e alegria contagiante do cantor Arnaldo Alves. Saudade dos bailes em que tantos namoros comecei, muitas bocas beijei, muitos foras levei, diversos amigos ganhei (Ernesto, Ricardo, Edson, Jorge, Paulo Miguel, saudoso Normando e muitos outros)… Amigos com quais vivi tantas emoções.

 

Parelheiros, meu outrora recanto encantado, não tem mais aquele encanto que tinha antigamente. Os rios não são mais os mesmos. Moradores vieram e se foram  e restou apenas esta enorme saudade plantada na alma.

 

Será que ainda há encanto em meu recanto?

 

 
 

Conte Sua História de SP: andava de bicicleta com licença da prefeitura, em Pinheiros

 

Por Silvia Maria Aleixo Araujo

 

 

Bairro de Pinheiros … aquele que a atualidade desconhece.

 

Pinheirense da gema.

 

Nasci no prédio que ainda está lá, no térreo funciona o famoso bar das Batidas, bem atrás da Igreja Nossa Senhora do Montserrat, no largo de Pinheiros. Ali no largo, o bonde que descia a rua Theodoro Sampaio fazia a volta e retornava para a rua Xavier de Toledo, no centro.

 

O grupo escolar era na rua Sumidouro. Arquitetura dos anos 40/50, naquela época sem muros, só jardins, construção que lá permanece livre das obras do metrô e da tal revitalização do bairro que o descaracterizou em nome do progresso.

 

Era um bairro tranquilo, eu andava de bicicleta – ela chegou a ter uma placa de licença da prefeitura – no largo de Pinheiros e na rua Cardeal Arcoverde, onde moravam meus avós, entre a rua Theodoro Sampaio e a avenida Eusébio Matoso, onde hoje é o Shopping Eldorado e naquela época, um campinho de futebol.

 

Trânsito escasso e o respeito entre as pessoas era evidente.

 

No Carnaval, a família, primos e amigos sentavam em cadeiras nas calçadas da rua Theodoro Sampaio para assistir à passagem dos blocos carnavalescos, enquanto brincávamos com lança-perfume e seringas plásticas com ‘sangue de diabo’, um corante vendido em farmácia.

 

Brincadeiras inocentes e crianças felizes.

 


O Conte Sua História de São Paulo tem narração de Mílton Jung e sonorização do Cláudio Antonio. Você pode participar enviando seu texto para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: fui recebido na cidade pelo Henfil

 

Por Alejandro Rosas Vera

 


 

 

Morava no Chile quando surgiu a possibilidade de uma viagem para Belo Horizonte. Era janeiro. Eu deveria estar lá em março. Por tanto, e para fazer hora, fui pelo Norte: –Assim aproveito e conheço a Amazônia–, disse aos meus pais. – É só dar a volta por cima, descer pelo litoral, e do Rio a Minas, um pulinho.  Os mapas mentem descaradamente. Passei mais de um ano viajando pelo Brasil e meu compromisso em BH foi para as cucuias.
 

 

São Paulo me chamou mais forte com seus cantos de sereia, e acabei fixando como destino final da minha viagem essa cidade da qual ouvia falar em cada estradinha da Amazônia, casinha do Nordeste ou bar dalgum morro carioca.
 

 

Aprendi português na viagem, e quando cheguei na Rodoviária do Tietê,  carregava todos os sotaques possíveis do Brasil e a mochila suja do pó da estrada. Olhei um mapa e assustado pelo tamanho da cidade e da minha solidão decidi buscar alguém em quem pudesse confiar para me dar uma aula de sobrevivência neste mundo por descobrir. Como não conhecia ninguém e ninguém  sabia de mim, era livre de escolher a qualquer um dos milhões de habitantes para pedir um glosário paulistano, mapa prático, diagnóstico emocional ou um simples cafezinho para me dar as boas vindas. Fui até a banca de jornal, pedi uma Veja, anotei um telefone e liguei. 
 

 

–Oi, bom dia, acabo de chegar e busco o Henfil
 

 

Era o ano 1983, e a doce voz do outro lado, sem perguntar nada, me passou um número. Agradecido, desliguei e respirei fundo.
 

 

No dia seguinte passei cinco horas com o maestro Henfil, que depois de me chamar de cara de pau, me recebeu no seu apartamento perto de Higienópolis e me deu dicas preciosas, me contou do desastre que foi sua estadia nos Estados Unidos pois seus desenhos escandalizaram a sociedade. Disse-me que as viagens de avião são violentas porque não dão tempo de se adaptar ao novo destino, e que para chegar a um lugar como se deve é necessário o mesmo tempo que demoraria se você fosse caminhando.
 

 

Pensava ficar uns meses em São Paulo, mas demorei 20 anos em conhecê-la e me apaixonar. Talvez o tempo que teria demorado em percorrer todas as suas ruas caminhando.

 

Hoje, moro na Espanha, e de São Paulo trouxe comigo o melhor: a saudade, o sentimento de ser parte daquela loucura, e uma paulista que conheci uns dias depois que ao Henfil, que ama a Graúna e cujo celular toca Sampa cada vez que liga alguma de minhas três filhas, paulistas, obviamente.

 

Conte Sua História de SP: a cidade que conheci pelas pessoas e pela arte de cada uma delas

 

Por Jorge Anunciação
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Caro Milton,

 

somos próximos por sermos do sul, eu de Cruz Alta-Passo Fundo, você portoalegrense; ligados ao esporte porque ouvia e admirava teu pai na Rádio Guaíba; também porque sou tão paulista quanto você, pelas lembranças e pelos encantos que São Paulo me mostrou desde muito cedo, por Adoniran e Jaçanã, por Hebe, cujas histórias eram trazidas pela minha tia Suely que morava em Osvaldo Cruz e por Moacyr Franco que, em Cruz Alta – terra de Érico e Justino Martins -, falavam que era o maior cantor do mundo. Depois vieram Dudu-Ademir, Gerson-Pedro Rocha, Rivelino-Paulo Borges, Pelé-Coutinho, a Rua Bariri, o Canindé de Xaxá-Enéias-Cabinho. Encantei-me também pelas músicas Lindóia, Saudade de Matão, Aurora, pelo Rio de Piracicaba e dos jeito brejeiro de um interior paulista que ainda não conheço. Um dia conheci Rolando Boldrin, um dia conheci a São Paulo italiana de Nino, o italianinho, conheci Plínio Marcos e Guarnieri. São Paulo era e é tudo, interior-capital, brasileira-portuguesa-italiana-japonesa, entre outros, entre tudo.

 

Em janeiro de 1973 descobri, ao acaso, percorrendo o rádio de válvulas de meu pai, Hélio Ribeiro, da Bandeirantes. Hélio, de São Paulo, do mundo, que todos ouviam e refletiam com ele. E São Paulo cresceu ainda mais.

 

Finalmente, em 1989, fui conhecê-la quando participei de um congresso médico, minha profissão, e fiquei pateticamente parado no cruzamento da Ipiranga com a São João procurando Caetano e Gil. Avenida São João onde dizem que o Capitão Blue teria morrido atropelado segundo o cantor Leno (de Leno e Lilian) o mesmo que cantaria em Flores Mortas, uma São Paulo em que as árvores cortadas deram lugar ao asfalto das avenidas.

 

Em razão da medicina visitei essa cidade outras tantas vezes; Ibirapuera, aeroportos, Bixiga, Brigadeiro, Consolação, Jardins, Anhembi e até o túmulo de Airton Senna. Fui até o Joelma ver o que restou daquilo que assisti pela TV em fevereiro de 1974.

 

Hoje, caro Milton, minha filha Georgia estuda Relações Internacionais na FAAP e mora na Albuquerque Lins e visito-a regularmente. Ouço você todas as manhãs junto com sua turma, Bel-Márcio-Juca-Arnaldo-Max-Carlos-Xexéo-Cony, com exceção das sextas quando amanheço de plantão no hospital. Vocês me aproximam de minha filha, de Hélio Ribeiro, dos jogadores dos meus times de botão, de Rita Lee a mais completa tradução. Amo São Paulo, agradeço por você fazer parte dessa liga que me aproxima da maior cidade do mundo, cidade pulsante e elétrica.

 

Perceba, finalmente, caro Milton (gol-gol-gol do Grêmio) que conheci a cidade pelas pessoas, pela arte de cada uma delas. Conheci pela velocidade das coisas todas, pelo árduo trabalho cotidiano. Tenho extremo respeito às pessoas que labutam. Por isso, gosto de vocês, das informações, dos debates, amo até as regiões de São Paulo que não conheço, tenho saudades das ruas por onde nunca andei, como dizia Mario Quintana, o poetinha.

 

Abraço, cara.

 


Jorge Anunciação é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você participa enviando seu texto para milton@cbn.com.br

Conheça o Museu do Rádio, em Porto Alegre

 

 

Visitei o Museu do Rádio, mantido por Daltro D’Arisbo, em um apartamento em Porto Alegre. São 210 aparelhos das mais diversas épocas que foram recuperados e, hoje, “falam” como antigamente. Aproveitei a passagem por lá para entrevistá-lo em transmissão ao vivo feita pelo Periscope e reproduzida no meu Twitter @miltonjung no próprio sábado, dia 1º de agosto. O resultado da longa e interessante conversa está no vídeo acima.

 

A história de como conheci o Museu e o que me levou até lá no último fim de semana, você encontra no texto escrito pelo meu irmão, Christian Jung, em seu blog MacFuca que você pode ler aqui.

 

MacFuca Museu do Rádio

Conte Sua História de SP: o cinema foi a minha moradia

 

Por José Carlos Valle
Ouvinte da Rádio CBN

 

 

Nasci no Brás em 1946.

 

O inicio da minha infância, foi ter morado dentro de um cinema. O Cine Iris, na Av Celso Garcia, 1558. Desde pequeno já gostava muito de assistir aos filmes na matinê de domingo. A fila virava a esquina. Na época era esta a única diversão. Assistir aos seriados que todo domingo tinham continuidade: o Zorro, cujo parceiro era o Tonto; o Super Homem, o Cavaleiro Negro, entre outros. 

 

Na época não tinha geladeira, então todos os dias entregavam o gelo com a carrocinha puxada a cavalos. Os filmes vinham em rolo de latas de 35 mm bem pesados que o Rafael entregava com sua carroça puxada por ele mesmo.

 

Ah, os bondes! Eram o “must” da época. Eles iam para o Parque São Jorge, bem frente ao estádio. E para a Penha. Ao lado do cinema tinha um jornaleiro que se chamava Caieira, que me deixava ver as histórias em quadrinhos sem pagar.

 

Depois de alguns anos, o cinema  fechou. E hoje ele tem 400 familias morando lá dentro. O Belenzinho de hoje dá dó. Praticamente todos amigos já se foram.

 

Depois fui morar mais longe, na Ponte Rasa. Passei dois anos da minha vida bem legais. Jogava pião, bola de gude, empinava pipas, carrinho de rolimã, mãe da rua, box, esconde-esconde. Na época não tinha maldade, drogas, era uma pureza.

 

Depois voltei a morar no Belenzinho, no Largo São José. O Grupo Escolar Amadeu Amaral existe até hoje; a Igreja; o cine Teatro São José era antigamente o charme da praça. 

 

Foi uma época boa. Eu lembro que um dia fui com minha mãe ao Hospital da Beneficência Portuguesa. Para ir ao hospital tinha uma ponte de madeira entre a rua Vergueiro e o hospital, tudo rodeado de mata e com o riacho embaixo.

 

Tinham vários cinemas na época: o cine São Luiz, na Celso Garcia, o Brás Politeama, o cine Universo, que o teto abria nos dias de calor. Ali assisti ao filme Lawrence da Arábia. O Cine Piratininga, que era considerado o maior do Brasil. Perto do lago da Concórdia.

 

Andar de bonde era muito gostoso.

 

Eu sou muito feliz por ter tido uma infância gostosa, e curto cada momento que lembro.

 

Bom tenho muito que contar, mas, hoje, tirei este temp para falar um pouco da minha vida em São Paulo.

 

José Carlos Valle é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você participa deste quadro enviando textos sobre a cidade de São Paulo para milton@cbn.com.br.