Do Dia do Rádio

 

Por Milton Ferretti Jung

 

O Dia do Rádio – 25 de setembro – foi, em São Paulo, muito bem lembrado. Mereceu citações e programas especiais, além de reportagem no Estadão. Segundo ouvi no Jornal da CBN, nessa terça-feira, deu também assunto, para o bate-papo, sempre interessante, entre o âncora do noticiário, o Mílton Jung, com Dan Stulbach, Luiz Gustavo Medina e Zé Godoy, no quadro denominado “Hora de Expediente”. Neste blog, na data da comemoração do Dia do Rádio, o Mílton postou um e-mail enviado a ele por Maria Célia Machado, filha do Doutor Paulo Roberto. Ela fez – e ainda há tempo para que leiam – um resumo da carreira radiofônica desse que foi, décadas atrás, um dos grandes nomes do rádio brasileiro. Dentre os inúmeros programas comandados pelo seu pai, eu – que tenho mais de 50 anos – me lembro de dois que, de alguma forma, ainda na condição de ouvinte, acompanhei na casa paterna: “Obrigado, Doutor” e “Nada além de Dois Minutos”. Fui fã de carteirinha de Paulo Roberto.

 

No “Hora de Expediente”, o quarteto abordou também as transmissões de futebol e o Mílton disse que, no Rio Grande do Sul, como é um estado e, especialmente, uma cidade na qual reinam dois grandes clubes – Grêmio e Inter ou, para ser imparcial, Inter e Grêmio – as rádios usam o sistema duplex ou dúplex, como o leitor preferir pronunciar nome que veio do latim. Se existe quem não saiba, nesse sistema, se os jogos forem simultâneos, os narradores se revezam cada vez que a bola pára numa das partidas ou um interrompe o outro, no caso de ocorrer gol. Ouvintes, que escutavam o bate-papo na CBN, um de Minas, outro de Pernambuco, lembraram que se dá o mesmo nesses dois estados, porque, no primeiro, Cruzeiro e Atlético são tão rivais quanto a dupla Gre-Nal e, no segundo, três equipes rivalizam-se: Sport, Náutico e Santa Cruz.

 

Seja lá como for, com diferenças regionais ou não, porque o Brasil é muito grande e, como “o brasileiro não vive sem rádio”, este veículo segue prestigiado. Isso não impede que eu sinta saudade do rádio que conheci nos velhos tempos: o das novelas, o das boas músicas, dos programas de cunho educativ, das heróicas transmissões de futebol e de grandes coberturas jornalísticas, no país e no exterior. E o ainda mais antigo: o do tempo, por exemplo, do Dr. Paulo Roberto, médico e radialista. Podem me chamar de saudosista que não fico brabo.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Paulo Roberto, um personagem da história do rádio

 

Aproveitando o Dia do Rádio, comemorado nesta terça-feira, dia 25 de setembro, reproduzo e-mail que recebi da ouvinte-internauta Maria Célia Machado, filha do radialista Paulo Roberto, na qual lembra a importância do pai dela na história do rádio brasileiro. Desde já, agradeço a Maria Célia pela gentileza de nos encaminhar esta mensagem:

 

Acompanhando sua importante série sobre os 90 anos do rádio brasileiro, venho lembrar a figura do médico e radialista Paulo Roberto, cuja importante contribuição ao rádio foi marcada por uma comunicação formativa e informativa: “sobretudo, uma Carreira Honesta”, nas memoráveis palavras de Roquette Pinto, quando lhe conferiu a Medalha de “Honra ao Mérito”.

 

Paulo Roberto iniciou sua carreira no Programa Cazé, na extinta Rádio Phillips. Sua voz simpática, agradável e natural, apresentando textos inteligentes em linguagem coloquial, inovadora para a época, definiram uma atuação ascendente nas Rádios Cruzeiro do Sul (onde exerceu a Direção Artística), Tupi e Nacional. Dotado de grande criatividade, sua produção, marcada por um forte sentido humano e pelo alto nível de seus programas conquistou o público ouvinte.

 

Quem tiver mais de 50 anos poderá se lembrar: “Bandeiras da Liberdade”(à época da II Guerra – em defesa dos países invadidos pelo Reich), “Obrigado, Doutor” (em forma de um rádio-teatro semanal, o médico é o heroi em narrativas trágicas ou divertidas, reais ou imaginárias, num total de 314 programas!), “Honra ao Mérito” ( após ter sua biografia dramatizada, benfeitores e herois de todas origens eram agraciados com Diploma e Medalha de Ouro), “Nada além de Dois Minutos” ( o primeiro “timming” do rádio brasileiro segundo Sérgio Bittencourt), “Lyra de Xopotó” ( semanalmente eram convidadas a se apresentar no Auditório da Rádio Nacional as pequenas Bandas de Música de todo o Brasil), “Gente que Brilha” (apresentando artistas famosos e iniciantes), para não citar todos. Uma série de gravações de discos infantis apresentando uma outra face do seu talento marcou presença, principalmente sua notável interpretação no conto “Pedro e o Lobo” de Prokofieff, sob direção musical de Radamés Gnatalli!

 

Não podemos esquecer das crônicas diárias, pela manhã, ao microfone da Rádio Nacional: “Vamos Viver a Vida” onde Paulo Roberto definiu suas posições pioneiras e agiu diante dos nossos problemas ambientais, educacionais e sociais.

 

Como membro da ABI, Paulo Roberto organizou e instituiu o Departamento Médico da instituição que, hoje, o homeageia guardando o seu nome. Além das inúmeras condecorações que lhe foram concedidas em reconhecimento pelos governos da Dinamarca, Suécia, Noruega por sua série radiofônica “Bandeiras da Liberdade” e a acima citada Medalha de “Honra ao Mérito”, quando Roquette Pinto enfatizou a importância de sua atuação , Paulo Roberto recebeu o prêmio “Orfeu“ eleito o Melhor Produtor de Rádio de 1958.

 

Terminando, para não me emocionar demais, prefiro transcrever Mário Lago em seu livro “Bagaço de beira-estrada”, após um extenso parágrafo sobre Paulo Roberto, o “amigo de todos os momentos”: “Nunca cheguei a entender por que o levaram a um distrito policial no dia 1º de abril de 1964 (foi posto em liberdade por interferência de Manuel Barcelos), nem por que o demitiram da Rádio Nacional. Não se sabia de ninguém que não gostasse dele. Não participava sequer das campanhas sindicais. Acreditava-se socialista, mas aos princípios teóricos preferia os ensinamentos de Cristo, que, nesses acreditava acima de qualquer coisa”.

 

Cordiais saudações,
Maria Célia Machado
Filha de PauloRoberto

Avalanche Tricolor: Um bom resultado e boas histórias do rádio

 

Atlético MG 0 x 0 Grêmio
Brasileiro – Belo Horizonte (MG)

 

Nesta semana que se inicia, teremos um dia dedicado ao rádio, dia 25, terça-feira, e muitos admiradores do veículo falarão sobre o assunto. Na sexta-feira que passou, gravei programa sobre o tema ao lado de nomes consagrados como Joseval Peixoto, da Jovem Pan, José Paulo de Andrade, da Bandeirantes, e Heródoto Barbeiro, ex-colega da CBN, sob o comando de Haisen Abaki, âncora da rádio Estadão/ESPM, que promoveu o encontro. Na conversa descontraída, me emocionei ao ouvir histórias do passado do rádio e citações feitas ao meu pai, Milton Ferretti Jung, este que você lê às quintas-feiras, aqui no Blog. E das muitas, Joseval contou como eram as transmissões esportivas nos anos de 1960 e 1970. Com histórico muito mais recente no rádio e histórias menos heróicas para levar ao ar uma partida de futebol, recorri às lembranças do Milton pai, que, em junho deste ano, relatou em post a aventura que foi não transmitir partida entre Grêmio e Atlético Mineiro, no estádio Independência, em Belo Horizonte, na década de 60.

 

Os detalhes do feito (ou do não feito) você lê em “Uma boa história do rádio”, publicada no dia seis de junho, mas em resumo o que Milton pai escreveu é que por incapacidade da Radional, operadora nacional responsável por levar as transmissões ao ar, e carência tecnológica, ele e o comentarista Ruy Carlos Ostermann, narraram um jogo inteiro e somente souberam que a partida não estava sendo transmitida para o Rio Grande do Sul, pela Rádio Guaíba de Porto Alegre, minutos antes de se encerrar. Talvez por prudência ou falta de memória, meu pai, tão ou mais gremista do que eu, nunca me disse qual foi o placar daquele jogo, afinal ainda era uma época em que os times gaúchos não eram vistos com o devido respeito pelos clubes do centro do país.

 

Aqueles eram outros tempos, pois hoje as transmissões de rádio e a tecnologia disponível não nos impõem mais este tipo de risco, salvo a falta de energia elétrica nos transmissões e outros quetais. O rádio está, inclusive, na internet. E nós torcedores conseguimos assistir aos jogos pela televisão, ao vivo, com precisão e uma sequência incrível de cenas captadas por câmeras espalhadas em todo o campo. O Grêmio também é outro, foi campeão Mundial uma vez, Brasileiro e da Libertadores, duas, e é visto por seus adversários como um inimigo difícil de superar. É com base nesta imagem que vejo o empate deste domingo contra o mesmo Atlético Mineiro, um dos protagonistas da história radiofônica descrita por meu pai, como um bom resultado para quem ainda tem pretensões de chegar a mais um título brasileiro. Verdade que naquela época, anos 60, também éramos pretensiosos, mas ainda não tínhamos a fama de Imortal Tricolor. E isso conta muito.

Palmeiras e a arrancada histórica, há 70 anos

 

José Renato Santiago
www.memoriafutebol.com.br

 

Manhã de 20 de setembro de 1942.

 

Dentro de alguns instantes Palestra de São Paulo e São Paulo se enfrentariam em partida decisiva para o título do campeonato paulista daquele ano. Pelo menos era o que indicava a tabela da competição.

 

O Palestra de São Paulo tinha assumido este nome de forma oficial em 27 de março daquele ano uma vez que um decreto de lei assinada pelo presidente Getúlio Vargas, em janeiro, proibira o uso de termos e denominações referentes as nações inimigas.

 

Sendo assim caiu o nome o Palestra Itália em favor do Palestra de São Paulo. Ainda assim o nome continuou sendo visto com restrições, sobretudo pelos rivais, que usavam de argumentos, supostamente, patrióticos para denegrir o Palestra.

 

Foram muitas as pressões políticas, até mesmo com ameaças de perda de seu patrimônio e retirada imediata do campeonato em disputa, que, aliás, liderava. Diante disso, as vésperas da partida decisiva frente ao São Paulo, no dia 14 de setembro, em uma reunião tensa, os dirigentes palestrinos decidiram mudar novamente o nome da equipe.

 

A história diz que por sugestão do jornalista Ary Silva, foi escolhido o nome Palmeiras. Para a torcida: “…seremos Palmeiras e nascemos para ser campeões…”.

 

Conforme o grande Oberdan confidenciou anos atrás em entrevista, a equipe palestrina estava hospedada em uma chácara em Poá, concentrada para a partida, quando os jogadores foram informados que “…Palestra acabou, agora somos Sociedade Esportiva Palmeiras…”.

 

Sendo assim, embora oficialmente na tabela ainda fosse o Palestra de São Paulo, foi o Palmeiras que entrou em campo em 20 de setembro de 1942.

 

Conduzindo uma bandeira brasileira, sob o comando do capitão do Exército Adalberto Mendes, os jogadores entraram no gramado do Pacaembu para fazer, e porque não dizer, começar uma nova história.
O técnico Del Debbio escalou o novo Palmeiras com Oberdan, Junqueira e Begliomini; Zezé Procópio, Og e Del Nero; Cláudio, Valdemar, Villadoniga, Lima e Etchevarrieta.

 

Coube a Cláudio Cristovam de Pinho ser autor do primeiro gol do Palmeiras, uma enorme ironia, uma vez que ele seria um dos maiores ídolos justamente do maior rival, o Corinthians.

 

A história do Palmeiras começou com uma convincente vitória por 3 a 1 frente ao São Paulo, cuja equipe abandonou o campo logo após marcação de penalidade.

 

Em poucos dias, um novo nome e o título de campeão.

 

Nas arquibancadas, uma faixa: “Morreu líder e nasceu campeão!”…
…e um episódio que entrou para a história como “A Arrancada Heroica”.

Divertidas histórias do rádio

 

Por Milton Ferretti Jung

 

O Mílton deve conhecer, mesmo sem eu as ter relatado aqui, boa parte das histórias de rádio que, volta e meia, posto neste blog, especialmente aquelas nas quais fui um dos personagens. Às vezes, porém, ele pede que conte algumas que, por não me envolverem, talvez o meu filho não saiba. Vou relatar pequenas e até hilariantes historiazinhas.

 

Aí vai a primeira.

 

Rogério Boelke, hoje plantão titular e apresentador da Rádio Guaíba, antes de trabalhar em Porto Alegre, atuou numa emissora pelotense como repórter. Era ainda, que fique claro, um aprendiz ou, em linguagem jornalística, um foca. Certo dia,foi pautado para cobrir o roubo a uma casa. O ladrão havia entrado pelo telhado, espécie de roubo que ficou conhecida por “rififi”. Se é que alguém desconheça, o nome foi dado a esse crime, a partir de um filme francês, “Du Rififi chez les hommes”, dirigido pelo cineasta Jules Dassin e estrelado por Jean Servais. Na película, a assaltada foi uma joalheria. O roubo fictício foi imitado por criminosos ao redor do mundo.

 

Ao chegar ao local do roubo, Boelke imediatamente ligou para o técnico que se encontrava no estúdio, pedindo-lhe que o colocasse no ar porque iria dar um furo nas concorrentes. Autorização recebida, o apresentador do programa chamou o neófito repórter. Esse, alto e bom som, despejou:
– Estamos aqui pra informar que, nessa noite, uma residência foi assaltada. O ladrão entrou pelo telhado, no tipo de roubo chamado de Rin Tin Tin.

 

No estúdio,o apresentador não se conteve:
– Rogério,esse tipo de roubo é chamado de Rififi.

 

Imediatamente, Rogério tentou se recuperar do erro:
– Ah, claro, me atrapalhei. Rin Tin Tin é o cavalo do Zorro!

 

O apresentador, a custo contendo o riso, fez mais uma correção:
– Rogério, o cavalo do Zorro se chama Tornado.

 

Há controvérsias sobre o verdadeiro nome do cavalo, mas o Zorro esteve presente em tantas histórias que bem pode ter trocado de montaria mais de uma vez.

 

Contarei, em uma dessas quintas-feiras, as aventuras de um velho companheiro da Guaíba que passou boa parte de sua vida imitando o Barão de Munchhausen. Para os que não ouviram falar desse cavalheiro, o Barão é claro, terei muito prazer em o apresentar.

 


Milton ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Conte sua história da CBN

 

Para comemorar os 21 anos de fundação, a rádio CBN convida os ouvintes-internautas a contarem a sua história sobre a emissora. A ideia é reunir textos sobre como você conheceu a CBN, momentos importantes que você acompanhou na emissora, como a rádio faz parte da sua vida. As histórias serão levadas ao ar na voz de nossos profissionais e ficarão registradas no site da CBN. A festa de aniversário é primeiro de outubro, mas você pode enviar seu texto a partir agora para o e-mail aniversario@cbn.com.br. Não esqueça de colocar seu nome completo e a cidade onde mora.

 

Estou fora da promoção, apesar de também ser ouvinte desta emissora desde “pequeninho”, conforme contei neste Blog na época em que fui convidado para apresentar o Jornal da CBN, no início do ano passado. Mesmo assim reproduzo aqui o post que publiquei para motivar você a também contar a sua história da CBN:

Ao chegar em São Paulo, em 1991, repórter da TV Globo, pedi ajuda aos colegas na busca de informações sobre a cidade. Precisava de uma fonte confiável e me sugeriram a rádio que só tocava notícia. A CBN acabara de ser inaugurada, emissora que inovava a programação com a grade toda voltada ao jornalismo.

 

Foi assim, por recomendação, que descobri a rádio na qual fui trabalhar sete anos depois a convite do jornalista Heródoto Barbeiro, então meu colega na TV Cultura. Era o retorno para o veículo que havia me lançado na carreira jornalística, em 1984, quando atuei na Guaíba de Porto Alegre.

 

Cheguei na CBN apenas para cobrir férias e em alguns meses fui definitivamente contratado. No início apresentei o programa do meio-dia, em seguida o das cinco da tarde, para após alguns anos me estabelecer no CBN SP, onde aprendi muito sobre a cidade. Foi debatendo os temas de São Paulo, elencando seus problemas e suas soluções e transformando aquele espaço em um fórum de discussão que forjei minha cidadania paulistana.

 

Lá se foram pouco mais de 12 anos desde que falei pela primeira vez na CBN e, nesta segunda-feira, recebo uma oportunidade única. Mariza Tavares, diretora de jornalismo, me confiou o comando do Jornal da CBN em substituição ao colega que me abriu a porta da emissora. Heródoto levará seu talento e experiência para a TV RecordNews.

 

Duplo desafio: assumir o posto que foi, desde a fundação da rádio, de um dos profissionais que mais admiro e ancorar o principal jornal da CBN. Para amenizar o peso destas tarefas, conto com o apoio de uma das mais competentes equipes de jornalismo do País.

 

Em 20 anos, passei de ouvinte a âncora do Jornal da CBN. Era muito mais do que eu poderia querer. Agradeço a todos que sempre me ajudaram a fazer das coisas que mais gosto na vida: jornalismo.

O rádio completa 90 anos no Brasil

 

 

Três capítulos do livro Jornalismo de Rádio (Editora Globo) que lancei em 2004 e falam do surgimento dese veículo no Brasil, há 90 anos, e como foi sua invenção:

 


SÍMBOLO DA MODERNIDADE

 

Imagine se visitando uma dessas feiras de informática. Centenas de pessoas cruzando os corredores e você lá no meio, com os olhos arregalados para os equipamentos de última geração, duvidando que um dia se tornem acessíveis ao público.

 

Lembro do sucesso que fez a edição do Jornal 60 Minutos, da TV Cultura de São Paulo, quando durante a transmissão conversei ao vivo, através de um videofone, com um repórter que participava de uma exposição de tecnologia. O equipamento era novidade, isso pouco antes do fim do século XX.

 

Cito essa passagem para convidá-lo a voltar quase um século no tempo e se pôr no lugar das pessoas que, em 7 de setembro de 1922, tomaram as dependências do pavilhão da Exposição Internacional do Rio de Janeiro. O ambiente era festivo, o país comemorava o centenário da Independência. Pelos alto-falantes era possível ouvir transmissões feitas alonga distância, sem fio — ou wireless, para usar expressão da moda, na época. O mesmo som chegava a receptores espalhados em outros pontos da Capital Federal, além de Niterói, Petrópolis e São Paulo.

 

Roquette Pinto esteve por lá e se encantou com o que ouvia, apesar de ser ruim o som que saía dos alto-falantes instalados na exposição. O barulho era infernal, com muita gente falando ao mesmo tempo, e a música e os discursos reproduzidos arranhavam os ouvidos. No meio da multidão também estava Renato Murce, que dedicaria a vida ao rádio. No depoimento registrado no livro Histórias que o rádio não contou (Harbra, 1999), de Reynaldo C. Tavares, Murce afirma ter percebido logo que algo novo surgia. Menos preocupado com a confusão, viu a curiosidade e a desconfiança dos rostos ao redor.

 

A primeira pessoa que falou ao microfone de rádio, em uma estação instalada no Sumaré, pela Western Eletric, foi o presidente Epitácio Pessoa. E o povo,que se juntava na exposição do centenário, uma multidão incalculável, era pior do que São Tomé. Estava vendo, ouvindo e não acreditando. Como que em um aparelhinho, pequenino, lá longe, sem nada, sem fio, sem coisa nenhuma, podia ser ouvido à distância? E ficava embasbacado. Mas não nasceu para o Brasil propriamente o rádio, porque não havia ainda quase nenhuma rádio receptora. Era de galena, muito complicado. E quase ninguém podia ouvir a não ser aqueles que estivessem ali presentes. E os que ouviram, ouviram o Guarani, de Carlos Gomes, irradiado diretamente do Teatro Municipal. Esta foi a primeira experiência do rádio no Brasil.

 

Vale ressaltar: há quem defenda que a primeira emissora do Brasil foi a Rádio Clube de Pernambuco, fundada por jovens do Recife, em abril de 1919. Apesar de os registros mostrarem que a experiência estava mais próxima da radio telefonia, não deixe de citar o fato, principalmente se falar de rádio por aquelas bandas. A propósito, como veremos a seguir,a história da radiodifusão é marcada por dúvidas e controvérsias.


 

PADRE E BRUXO

 

Uma conversa do presidente da República Rodrigues Alves com um de seus assessores, no Palácio do Governo, no Rio de Janeiro, em 1905, pode ter tirado de um brasileiro o direito de ser reconhecido como o inventor do rádio. O representante do governo havia acabado de visitar o padre Roberto Landell de Moura, de quem ouviu explicações sobre algumas geringonças inventadas por ele. Coisas como telefônio, teleauxifônio e anematofono, espécies de telefone e telégrafo sem fio e de transmissores de ondas sonoras — a maioria já patenteada por ele, nos Estados Unidos, em 1904.

 


Jamais escreva o nome desses aparelhos em texto a ser transmitido pelo rádio. Se tiver que fazê-lo, grife as palavras. A norma serve para demais palavras estranhas e/ ou estrangeiras.Os locutores agradecem.

 

Bem que o padre de 44anos, nascido em PortoAlegre, se esforçou para convencer o enviado do Palácio que os aparelhos montados por ele poderiam estabelecer comunicação com qualquer ponto da Terra, por mais afastados que estivesse um do outro.

 

Não se sabe se foi devido às limitações intelectuais do assessor, que talvez não tenha entendido o que lhe era apresentado; se pelo fato de o padre ter solicitado dois navios da esquadra brasileira para uma demonstração pública dos seus inventos; ou se o assessor ficou assustado ao ouvir que um dia ainda seriam possíveis comunicações interplanetárias. Certo é que, ao voltar ao Palácio, o burocrata, a exemplo de um carimbo de repartição pública, foi taxativo:”esse padre é um maluco”.

 

Não era novidade para Landell de Moura. Ele já fora várias vezes transferido de paróquia, ou mesmo de cidade, acusado de ser impostor, herege e bruxo. Acusações dirigidas a ele, em 1892, quando, utilizando uma válvula amplificadora com três eletrodos, transmitiu e recebeu a voz humana. O feito se deu em Campinas, interior paulista, e nem mesmo ouvindo as pessoas foram capazes de acreditar.



 

FEZ-SE O SOM

 

O mérito de Landell de Moura, reconhecido apenas após a morte, em 1928, é evidente quando se pesquisa a história do surgimento do rádio. Do telégrafo, termo que surgiu no fim do século XVIII à telefonia, já no século XIX, muitos avanços levaram à radiodifusão. Estudos sobre a eletricidade e suas características se somaram até chegar ao aparelho que, atualmente, existe na casa da maioria dos brasileiros e nos carros, também.

 

O professor de física James Clerk Maxwell, em 1863, mostrou como a eletricidade se propagava sobre forma de vibração ondulatória. Teoria usada 24 anos depois pelo físico alemão Heinrich Rudolf Hertz, e desenvolvida pelo francês Edouard Branly, em 1890, e pelo britânico Oliver Lodge, em 1894.

 

Naquela época, Landell de Moura já havia assustado muita gente por aqui com seus inventos, e feito, inclusive, suas primeiras experiências com transmissão e recepção de sons por meio de ondas eletromagnéticas. Há registros de que usou a válvula amplificadora em testes pelo menos dois anos antes do equipamento ter sido apresentado ao mundo pelo americano Lee DeForest.

 

Não cabe aqui discutir de quem é o mérito da invenção, pois há muita controvérsia, mesmo entre os estudiosos do tema.

 

Até o nome de Guglielmo Marconi como inventor do rádio é contestado. Mas o italiano teve seus méritos — e como teve. Industrial com visão empreendedora, percebeu em vários inventos já patenteados a possibilidade de desenvolver novos aparelhos, mais potentes e eficazes. Foi o que fez para chegar à radio-telegrafia, em1896.

 

Já no início do século XX, o russo David Sarnoff, que trabalhava na Marconi Company, afirmou ser possível desenvolver uma “caixa de música radio-telefónica que possuiria válvulas amplificadoras e um alto-falante, tudo acondicionado na mesma caixa”. Tal equipamento seria o protótipo do rádio como veículo de comunicação de massa.

 

A indústria de radiodifusão nasceu, de fato, em 2 de novembro de 1920, em Pittsburgh, quando a KDKA foi ao ar, graças a Harry P. Davis, vice presidente da americana Westinghouse. Essa mesma empresa, dois anos mais tarde, traria equipamentos para a Exposição Internacional do Rio de Janeiro, ao lado da Western Eletric. Harry acompanhava com entusiasmo o resultado do trabalho artesanal de Frank Conrad, que transmitia músicas e notícias captadas por receptores de galena, inicialmente construídos pelos próprios usuários e, em seguida, produzidos em série pela empresa.

 


Para não cometermos injustiça, combinamos assim: na hora de redigir um texto deixe os títulos de lado. “Marconi, o inventor do rádio”, “Landell de Moura, o homem que apertou o botão da comunicação” e “Roquette Pinto, o pai do rádio brasileiro” são clichês que devem ser substituídos por informações que agreguem valor à notícia e ajudem a esclarecer o ouvinte. Lembro de um boletim que gravei para a TV Globo, em 1991, antes de uma reunião do Mercosul, em São Paulo, e disse que o Paraguai era o “Paraíso do Contrabando”. Na ocasião, um correspondente internacional comentou, balançando a cabeça em sinal de reprovação: “o que seria dos jornalistas sem os clichês…”. Aprendi a lição e reproduzo o fato para que você não passe pelo mesmo constrangimento.

Ouvintes escrevem sobre os 90 anos do rádio no Brasil

 

A série de reportagem produzida pela CBN sobre os 90 anos do rádio, que serão comemorados no dia 7 de setembro, sexta-feira, têm provocado muitas lembranças e comentários de ouvintes-internautas. Um dos que se entusiasmaram foi o jornalista Paulo Brum, gaúcho erradicado em Brasília. Reproduzo a seguir o texto enviado por ele, antes deixo o link para o trabalho da repórter Nathalia Toledo que apresenta arquivos históricos do rádio brasileiro:

 


Acesse aqui a série de reportagens sobre o 90 anos de rádio, da CBN

 

 


Por Paulo Brum

 

Mais uma vez volto a escrever-lhe, dessa vez para falar do rádio. Hoje pela manhã escutei toda a discussão sobre a breve história do rádio no Brasil, Rádio Nacional, Mairink Veiga, Paulo Gracindo, Emilinha Borba, Mario Lago, e outros tantos imortais!
 

 

Há alguns anos fui entrevistado pela BBC sobre a importância do rádio, sobre a escuta da BBC em ondas curtas, etc. Essa entrevista resultaria anos depois na emissão de notícias da BBC para o Brasil, como a que hoje transmite a CBN.

 

Bem, digo isso para registrar minha devoção ao rádio, desde a infância, no interior do Rio Grande do Sul, único meio de comunicação com o Brasil e o mundo.

 

O rádio servia para enviar recados de parentes e pessoas que estavam na cidade para quem estava no interior, no campo. Eram recados de alguém que estava enfermo, de algum falecimento ou nascimento, de alguém que estava viajando e desceria em tal ou qual encruzilhada, ou de alguma encomenda, um medicamento, que viria pelo ônibus.

 

As notícias da capital, Porto Alegre, eram escutadas pela manhã, geralmente tomando um mate. As rádios Farroupilha e Gaúcha eram, e ainda são, as mais escutadas.

 

A novela Direito de Nascer está na minha memória, ainda garoto. Minha mãe, irmã, tias, juntavam-se próximas ao rádio para escutá-la. Choradeira geral, muitas vezes. Lembro-me também do Morro dos Ventos Uivantes. Morria de medo, não ia dormir enquanto o pessoal também não fosse. O vento e o uivo do cão eram aterrorizantes, então.

 

As emissões das Copas do Mundo, não havia televisão, eram emocionantes. O som parecia ir e vir, dava realmente a impressão de distância continental.

 

Também eram escutadas rádios do Uruguai, da Argentina. Lembro-me das emissões da Rádio El Mundo, do programa “Montevideo de Noche”, da voz rouca e absolutamente sensual de uma locutora, que embalava a imagens de adolescência com músicas que não chegavam ao interior do Rio Grande do Sul, Zitarrosa, Mercedes Sosa, tangos, jazz, etc

 

Quando os Tupamaros sequestraram o Embaixador do Brasil no Uruguai, Dias Gomide, juntamente com o agente da CIA, Dan Mitrione, no frio do inverno, juntávamo-nos todos ao redor do rádio para acompanhar. Pelotas estava ao lado da fronteira, meu pai era trabalhista e ia seguidamente conversar com o Brizola em Montevidéu. A preocupação era grande. Se a ditadura aqui também apertasse, para onde ir?

 

Durante a ditadura a única forma de saber o que realmente acontecia no Brasil era pelas ondas curtas, pela BBC, Rádio França Internacional, Central de Moscou e até pela Voz da América. Escutei discursos intermináveis de Fidel Castro pela Rádio Havana, Território Livre da América (sic).

 

Campanhas em defesa dos presos políticos no Brasil, Chile, Uruguai, Argentina, Nicarágua, África do Sul, Mandela e outros países e pessoas que naqueles momentos da Guerra Fria sofriam com ditaduras sanguinárias.

 

A guerra do Vietname também nos atingia, mesmo no hemisfério sul, no Rio Grande. Escutar os Beatles pela BBC era o máximo, sensacional!

 

Também eram tempos em que a utopia ainda fazia parte do nosso imaginário de um futuro igualitário, humano, justo, fraterno. Esse encantamento daria lugar a outra realidade anos depois, já na democracia, fim da guerra fria, queda das colônias portuguesas, Revolução dos Cravos, queda do Franquismo, Perestróika, Bin Laden, Torres Gêmeas de Nova Iorque, invasão do Iraque, Afeganistão…

 

Ainda hoje mantenho esse costume de escutar rádio, pela manhã, em casa, no carro, em qualquer lugar onde esteja. Já há algum tempo deixei de escutar as ondas curtas, mas reconheço que elas chegam a lugares onde a internet, com todo o seu alcance, ainda não chega.

Conte Sua História: A noite em que a Mooca entrou na guerra

 

Filha de um imigrante espanhol e uma imigrante italiana, Maria Meneses nasceu em 1939, em um cortiço da Mooca, na rua Tamarataca. Lá moravam nove famílias e no quintal do cortiço se uniam turcos, iugoslavos, russos, romenos, espanhóis, portugueses e italianos. No texto publicado no livro Conte Sua História de São Paulo (editora Globo), ela escreve sobre um fato curioso ocorrido no bairro na época da Segunda Guerra Mundial:

 

Ouça o Conte Sua História de São Paulo escrito por Maria Meneses e sonorizado pelo Cláudio Antônio.

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, logo após às dez e meia da manhã. Você pode participar do programa escrevendo seu texto para milton@cbn.com.br ou marcando uma entrevista, em aúdio e vídeo, no Museu da Pessoa.

História para contar: o médium de Pelotas

 

Uma vez um tio meu faleceu, e estava sendo velado na sala lá de casa. Eu estava na cozinha. Daí a pouco chamei a mãe e disse: “O tio não tá morto”. “Como não tá morto?” “Ele passou aqui agora, tava brincando. Inclusive, olha lá onde ele tá, ele tá na volta do caixão, olha ele lá.” Ela: “Tu tá enxergando?!” E eu: “Tô enxergando!”

 

Não era a raça, porém, que mais causava transtornos para Neives. Mesmo porque, Pelotas é uma das cidades com maior concentração de negros do Brasil, muitos dos quais nasceram de famílias de escravos levadas para a região no período das charqueadas. Ele sofria mesmo devido a uma capacidade que percebeu quando ainda era menino: a de falar com os espíritos. O mínimo que diziam dele é que estava com o diabo no corpo.

 

O primeiro trecho é escrito e contado por Mestre Baptista e o segundo de crônica que escrevi com base na história dele. Os textos na íntegra estarão no livro Todo mundo tem uma história pra contar, do qual você pode ser autor e ganhar exemplares por meio do Concurso Cultural Você Escritor – Saiba como participar, visitando o Blog da Olhares, de onde copiei post acima. O projeto é uma parceria com o Museu da Pessoa, que também está ao nosso lado no programa Conte Sua História de São Paulo.