Conte Sua História de São Paulo: A rua do Mancini

 

Foi vizinho do Mercado Municipal que Walter Mancini aprendeu a apreciar os diferentes sabores da culinária paulistana. De lá também veio a inspiração para criar o ambiente no seu mais famoso restaurante, na rua Avanhandava, região central de São Paulo. Assim que o cliente chega se depara com enorme mesa oferecendo todo tipo de queijos, aperitivos e saladas como se estivesse diante de uma banca do Mercadão. Ali começou a comida por peso, na cidade, em 1980.

Do Famiglia Mancini e suas mesas sempre cheias surgiram novos restaurantes com a assinatura do seu Walter. Todos vizinhos da casa original na pequena Avanhandava. Se alguém chamá-la de rua do Mancini não está enganado, mesmo que ele insista em dizer que o espaço é de todos. Dedicou-se ao lugar a ponto de ter se responsabilizado pelo projeto da primeira rua revitalizada de São Paulo.

Walter Mancini foi personagem do Conte Sua História de São Paulo, em homenagem aos 457 anos da nossa cidade

Ouça o depoimento dele no CBN SP

Conte Sua História de SP: A química de Paulo Goulart

 

Ao chegar de Ribeirão Preto, interior paulista para estudar química industrial na capital, Paulo Afonso Miessa não tinha ideia do destino que o aguardava. Foi para o rádio – veículo pelo qual revela sua paixão a cada palavra – e se transformou ator ao conquistar os ouvidos do mais críticos que haviam na Tupi Difusora, Oduvaldo Viana. Ganhou novo sobrenome e virou Paulo Goulart, admirado por todos nós pelo talento e pela personalidade.

Casou com a carioca Nicette Bruno com quem teve duas filhas e um filho. Uma delas, Beth Goulart, coincidência, nasceu no dia de São Paulo, 25 de janeiro, no Rio. Foram todos criados e crescidos na capital paulista e o pai fala disso com orgulho.

São Paulo é motivo de muitos e emocionantes momentos descritos por Paulo Goulart com uma beleza que me encantou, durante a apresentação do programa desta terça-feira. Ele foi o personagem do Conte Sua História de São Paulo, em homenagem aos 457 anos da cidade. Acompanhado por uma alegria contagiante, Goulart marcou a conversa com frases que ensinam: “é preciso crer no amanhã, o amanhã é o desenvolvimento, e o aprender é fundamental”.

Ouça o depoimento de Paulo Goulart, na CBN

Durante esta semana, entrevistamos personagens e personalidades para o Conte Sua História de São Paulo. E você também pode participar deste programa contando mais um capítulo da nossa cidade. Agende uma entrevista ou envie seu texto para o site Museu da Pessoa.

Conte Sua História: Ronnie Von vai a Santo Amaro

 

Ronnie Von era garotão, nascido e vivido no Rio, quando foi convidado para visitar a casa de Nilton Travesso, em São Paulo. Era fácil chegar lá. Bastava pegar um táxi no aeroporto de Congonhas, ir até a avenida Santo Amaro e entrar no segundo farol à direita. A primeira surpresa foi saber que o nome do santo batizava uma estrada, uma rua e uma avenida – havia um bairro, também. Pediu para ir na mais famosa e teve sorte, aquele era o caminho. Procurou o farol e não encontrou nenhum. Ao fim da avenida, ouviu do motorista: “Terminou aqui, onde o senhor quer descer”. Foi quando descobriu que o farol paulistano era o semáforo no Rio.

Esta foi uma das muitas histórias de São Paulo contada pelo cantor, compositor, publicitário e apresentador de Tv Ronnie Von no programa que abriu a série em homenagem aos 457 anos da capital paulista. A entrevista, ao vivo, no CBN SP foi marcada por momentos de emoção, ao menos para este jornalista.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo com Ronnie Von

Nesta semana, personagens e personalidades serão convidados do Conte Sua História de São Paulo – 457 anos. Você também pode participar do progama que vai ao ar, tradicionalmente, aos sábados, às 10 e meia da manhã. Envie seu texto ou marque uma entrevista no site do Museu da Pessoa.

Conte Sua História de São Paulo: A volta

 

No Conte Sua História de São Paulo, Vera Helena Praxedes, moradora do Jardim Jabaquara, lembra neste texto de quando veio morar na capital paulista:

Ouça o texto de Vera Helena Praxedes sonorizado por Cláudio Antônio

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Voltamos, deixando para trás a vida solta, o sol quente, a quiçaça, o pé no chão, as frutas do campo, as parlendas, enfim, parte da infância. Viemos morar bem longe, o interior de onde voltávamos parecia à capital e a capital parecia o interior. Lá o sol era claro e abrasador, aqui frio cinzento de garoa infinda. Ainda bem que chegamos no verão, mas em janeiro de chuvarada.

A casa grande de tijolos, pintada de amarelo, úmida, descobri o bolor, diferente da outra de madeira seca e aconchegante. Algo me causou espanto; o fogão, aqui de carvão, pequeno acanhado, levava horas para cozinhar feijão. Batia uma saudade do outro de lenha, grande, com fagulhas estralando feito fogos de artifício, água quente por todo o dia, pronta para fazer café.

A casa foi dividida para acomodar três famílias: a nossa, a dos meus avós e a de um tio. No total dezesseis pessoas. Lá no interior morávamos em casas próximas, mas aqui todos ficaram juntos. Mais tarde ao ler “O Cortiço” de Aluísio Azevedo me senti sua personagem.

A vila distante, com ruas sem calçamento e transporte. Fazendo todos caminharem por quilômetros para chegar ao trabalho. Quando chovia carregávamos outro par de sapatos para trocá-los antes do destino final.

Os donos da casa amarela eram um casal de negros. Morava no mesmo quintal, nos separando apenas um terreiro. A esposa com cinqüenta e poucos anos, o marido já bem idoso, um neto criança e uma filha viúva por uma tragédia, isso havia a alguns meses enlutada a família.

O genro dos velhos em um ato transloucado, havia se suicidado, envenenando-se, mas antes disso matou a filha de dois anos, deixando a mulher grávida ainda sem sabê-lo.

A mudança causou espanto e surpresa a mim e minhas três irmãs e, sem dúvida, também para as outras crianças da família.

Minha pobre avó não tirava o agasalho de lã um só dia, parecia não parar de chover nunca. O frio, por falta de costume, deixou-a jururu e adoentada por todo o ano.

Mas aqui, ao chegar, fiz uma grande descoberta, a mulher do nosso senhoril possuía um rádio e adorava ouvir novelas à noite. Logo após nossa chegada, engajei-me junto a ela, o marido mais o pequeno neto e, ouvíamos todos os dias às 21:00 horas uma rádio novela.

Dona Dita, esse o seu nome. Sentávamos em uma copa cimentada com móveis coloniais; um tajer, uma cristaleira sem cristais, sobre ela uma garrafa, representando um velho, inclinado sobre o peso do líquido azul por papel crepom.

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Conte Sua História de São Paulo: O ponto de partida

 

Elvis Campello nasceu em 1976 na cidade de São Paulo. E foi na noite boêmia noite paulista, na mais famosa esquina da cidade, que ele descobriu sua profissão e construiu sua história. A história ele contou ao Museu da Pessoa em janeiro de 2010, comemorando o aniversário da cidade:

Ouça o texto de Elvis Campello sonorizado por Cláudio Antônio

Minha história com São Paulo, nos últimos anos, foi construída à noite. Tudo começou há 12 anos, quando eu terminei o ensino médio, na época o colegial, e queria cursar a faculdade de publicidade, meu sonho até então.

Eu trabalhava em um escritório de advocacia na Avenida Ipiranga, mas com salário que eu ganhava lá, seria impossível pagar o curso superior que eu queria fazer. Meu irmão e alguns amigos de bairro faziam “bicos” como segurança nos barzinhos e casas noturnas na região dos Jardins, e logo eu me encaixei ali com eles. Eu trabalhava de dia no escritório, e nos finais de semana, à noite, eu ganhava um dinheiro a mais como segurança, mesmo sendo um magricela que não punha medo em ninguém.

Comecei a reparar no trabalho dos garçons e barmen das casas onde eu trabalhava, e me chamou mais atenção ainda quando eu descobri que eles ganhavam, no mínimo, três vezes mais do que eu. Pensei: “se eu ganhasse isso, conseguiria pagar minha faculdade de publicidade!” Enchia o saco de todos eles, perguntando como eu fazia para trabalhar como barmen ou como garçom, até que me indicaram um curso e eu fui atrás. O problema é que o curso, que duraria três meses, era só na parte da manhã.

Eu tive que arriscar: largar o escritório na Avenida Ipiranga e ir ali para perto, no Largo do Arouche, no Sindicato do Bares e Restaurantes de São Paulo, fazer o curso de garçom e Bartender. Na última semana de curso, fui indicado para trabalhar em uma casa de shows na Vila Madalena, reduto de bares e restaurantes em São Paulo. Um novo mundo se abriu para mim. Vindo da periferia, eu trabalhava agora em uma outra realidade. Atendia pessoas finas (educadas ou nem tanto), atores famosos, cantores, repórteres e políticos, inclusive, o na época eterno candidato a presidência do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva! Sim, eu já servi cachaça para o Lula, uma dose de “Espírito de Minas”, uma excelente cachaça. Tem bom gosto o rapaz!

Eu chegava em casa cheio de história para contar, todo empolgado. A noite foi uma escola para mim. Conheci muitas pessoas (interessantes ou não), fiz amigos, adquiri responsabilidade, maturidade e quase casei com uma cliente. Me apaixonei pela profissão que até então seria apenas passageira. Deixei de lado a vontade de fazer uma faculdade de publicidade e resolvi cursar hotelaria.

A faculdade me deu mais experiência ainda na área, e me abriu portas para outras casas noturnas, bares e hotéis da cidade, além de me proporcionar a possibilidade de passar toda minha experiência pelo mundo dos alimentos e bebidas. Fui convidado a ser professor de garçom e bartender.

Começar a dar aulas foi fantástico e, junto com a euforia, veio um novo desafio: aprender a ensinar! Não pensei duas vezes e me matriculei num curso de Pós Graduação em Docência em Gastronomia, para adquirir as técnicas da didática do ensino.

Hoje sou professor de Sala & Bar em um dos mais conceituados centro de estudos do Brasil. Pelas minhas mãos já passaram mais de mil alunos, que hoje, espalhados por São Paulo, capital mundial da gastronomia, preparam cocktails ou servem mesas.

Em troca do que a noite de São Paulo me deu (uma profissão, respeito, amigos e um amor) eu devolvo a ela profissionais capacitados, que carregam em suas bandejas ou misturam em suas coqueteleiras alegria, sonhos, expectativas e histórias.

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar sábados, às 10 e meia, no programa CBN SP. Você participa enviando seu texto ou agendando uma entrevista no site do Museu da Pessoa.

Seu dia de sorte

 

Por Suely Aparecida Schraner
Ouvinte-internauta do CBN SP

Tarde quente. Ar abafado anunciando o temporal de sempre. Mais um verão escaldante. Céu azul celeste. O derradeiro dia de trabalho, enfim, as esperadas férias concentradas. Fim de ano. Desci do ônibus, no ponto final. Andei duas quadras. Ele atravessou a rua e veio na minha direção. De soslaio, notei que usava um chapéu como os de safári, enterrado na cabeça, até os olhos. Prognata. Bermuda larga, vermelha estampada e surrada. Camiseta grande , azul clara. Chinelo tipo havaianas, verde. Nas mãos uma sacola de supermercado, cheia. Foi chegando e perguntando:

– Por favor, você sabe onde fica o supermercado três amigos?

– Estou indo nesta direção. Vamos que eu te mostro.

– Você é corajosa.

– Você está me achando corajosa porque você pediu uma informação e eu respondi?

– É. Sabe que hoje em dia tem muita desgraceira por aí. É pai matando filho, filho matando pai, uns roubando e outros estuprando… Muita de maldade. Na moral, só tô falando, não quero te assustar. Eu mesmo fugi da cadeia, tá me entendendo? Tenho um carro logo ali, quer uma carona?

-Você está me dizendo que fugiu da cadeia….

– É. Do Carandiru. Peguei 27 anos. Sabe como é, cabeça quente, barbarizei. Mas você é corajosa, fala com estranhos, hein? Acha que eu ia ficar lá? Só quem já ficou é que sabe. Faz uma semana que estou de boa. De dia eu durmo, de noite fico andando. Pra não rodar. Bobeou, jacaré vira bolsa. Tomo banho na represa. Comida me dão nas lanchonetes por aqui. Sabe do que mais? Tô cansado de saber onde fica o supermercado três amigos. Você não está com medo?

Agora, chegando quase em frente de casa, pensei: “deve ser mais um louco na cidade tentando me assustar. Fazer confidências, a troco de quê?”

A rua morta. Nem mosquito à vista. Pensei em tocar na vizinha para despistar. Faltou vocação pra “amigo da onça”. Então, tentando aparentar a maior calma, e me fazendo de desentendida:

– É só seguir em frente, o supermercado fica depois da avenida.

– Só mais um favor. (Abrindo a sacola e exibindo o conteúdo.) -Ganhei esses pedaços de pizza e preciso comprar um refrigerante.Tá tão calor. Você tem uns trocados pra me dar?

Até tinha, só que nesta altura não ia abrir a bolsa pra ele, ali no meio da rua.

-Vou ficar devendo, ando só com passes para a condução.

– Não tem não? Quem mora em casa tá pior do que quem mora na rua… Quer saber?

Enfiou a mão no bolso da bermuda e tirou um “bolo de notas” de R$10,00 e R$ 50,00, vi apavorada que a história da fuga era pra valer.

– Tó, pode pegar, presente pra você, ele insistia.

-Não muito obrigada, não precisa. Ao que retrucou aos gritos:

– O quê, vai recusar? Você falou comigo na boa. Foi simpática… Não posso te fazer um presente não? Pega aí!

– Claro que pode, e eu agradeço de coração, mas você está na rua e espero que aproveite bem seus dias de liberdade.

-Você mora aí?

Fui abrindo o portão de entrada da casa, coração aos pulos. Ele seguiu andando devagar, olhando pra trás. Mostrou o cabo do revolver enfiado sob a camiseta, no cós da bermuda e gritou.

– Tchau! Feliz Ano Novo! Olha, joga na loteria que hoje é seu dia de sorte!

Conte Sua História de São Paulo: Em transformação

 

Márcio Chicca nasceu em 1947 em São Paulo e é um apaixonado pela cidade. Nas décadas de 1950 e 1960, entre a infância e a juventude, participou de momentos marcantes da história da cidade, como a inauguração do parque do Ibirapuera e de alguns dos tradicionais cinemas da cidade. Histórias que ele narrou ao Museu da Pessoa:

Ouça o texto de Márcio Chicca sonorizado por Cláudio Antônio

Tenho muitas recordações desta cidade, que eu aprendi a gostar desde pequeno, pois meu pai me propiciava informações, assuntos e passeios que se tornaram inesquecíveis, alguns dos quais ainda recordo com muita emoção.

Aos domingos, meu pai me levava passear no centro da cidade, na rua Boa Vista, onde ficava o Restaurante Guanabara e onde eu me deliciava com os enormes e variados sanduíches. Enquanto eu comia e tomava uma “Caçulinha” da Antártica, um sucesso na época, ele saboreava um chopp escuro.

Em outros domingos, invertia o roteiro e íamos para a rua Vieira de Carvalho, onde o restaurante Fasano funcionava em um prédio bonito que hoje é o hotel Bourbon São Paulo. Lá, meu pedido era uma ou duas coxinhas especiais, que eram deliciosas. Logo depois, meu pai comprava alguns doces em uma doceria ao lado, que eu acho que já era a Dulca, para a sobremesa do domingo.

Um passeio que marcou minha memória foi um dia inteiro de domingo de 1954, quando da inauguração do Parque do Ibirapuera. Tudo novinho, gramado lindo, lagos, pavilhões de alguns países, exposições diversas, alguns teco-tecos sobrevoando o parque e jogando flâmulas de papel prateado com textos em comemoração à inauguração do parque e ao IV Centenário da cidade.

Cada casa de São Paulo colocava em lugar de destaque uma placa comemorativa dos 400 anos da cidade: o brasão de São Paulo em alumínio polido ou colorido, salientando a idade da cidade. Quase todas as casas tinham um ou dois.

A maior diversão da cidade, e mais barata, era o cinema! Havia cinemas belíssimos como o Cine Metro da MGM dos EUA; o Bandeirantes (depois Ouro); o Marrocos, único em que as cadeiras deslizavam ao se sentar, o maior da cidade; o República, primeiro a exibir filmes em terceira dimensão; o Ipiranga e o Marabá, de grandes exibições como “Os Dez Mandamentos”, de Cecil B. de Mille, grande diretor de filmes épicos maravilhosos da época.

Nestes cinemas só se entrava com terno e gravata e foi para ir a um deles que usei a minha primeira. Nos intervalos, uma orquestra surgia no palco para tocar algumas músicas. Deste tempo eu peguei o final, onde se mantinha o hábito de usar terno e gravata, mas somente um cinema mantinha um excelente pianista, o Cine Ouro do Largo do Paissandu. Os outros já não suportavam este custo.
Depois de alguns anos, e com novas tecnologias, surgiu o Cinerama. Um espetáculo: tela imensa, som estéreo, só apresentando filmes especiais para aquele equipamento.

Na minha juventude ainda mantive alguns hábitos que meu pai me deixou, tais como ir comer um bauru no Ponto Chic do Largo Paissandu, ou tomar um chopp no Bar do Léo, na rua Aurora esquina com a rua dos Andradas, ou ainda uma boa canja de galinha no frio da madrugada no restaurante Papai, na esquina da Duque de Caxias com a São João.
Já não existia mais o Fasano da Vieira de Carvalho e o Guanabara mudou para rua São Bento, já não tinha nada mais a ver com aquele dos anos 50.

Hoje, às vezes, quando saio com meu filho, vamos comer um bauru ainda no Ponto Chic do Largo Paissandu e ele me lembra destas histórias dos passeios de meu pai, seu avô.

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, às 10 e 30, dentro do programa CBN SP. Você pode participar enviando seu texto ou agendando uma entrevista no site do Museu da Pessoa.

Conte Sua História de SP: Nascido na Aclimação

 

No Conte Sua História de São Paulo, Roberto Frizzo que nasceu em 1945 e passou a infância no bairro da Aclimação, em São Paulo. Na época, segundo suas próprias palavras, o bairro “parecia uma cidade do interior, era um bairro onde todo o mundo se conhecia” e o lugar permanece em sua memória como o ambiente da formação de sua identidade e de seu hábitos.

Acompanhe o texto enviado ao Museu da Pessoa:

Ouça o texto de Roberto Frizzo, sonorizado pelo Cláudio Antonio

“Sou fruto da Aclimação, bairro que tinha uma concentração de casas da classe média ascendente. Principalmente imigrantes italianos que, a bordo do crescimento econômico, acabaram se transportando da Mooca para lá. Avenidas largas, um bairro moderno, casas grandes, bonitas. A Prefeitura punha todas as novidades na Aclimação, que fica a 15 minutos do Centro: o primeiro microônibus, trólebus, papa-fila. O sujeito ia trabalhar de ônibus, voltava para almoçar, seis da tarde estava todo mundo em casa. As pessoas se conheciam. Os velórios eram em casa. Nessa altura tinha o castelo do Kowarick, que foi dono do Lanifício Kowarick. Eu cheguei, moleque, no início dos anos 50, a testemunhar filmes do Mazzaropi sendo gravados lá. Num determinado momento uma incorporadora comprou a área do castelo e construiu um conjunto de oito prédios em ferradura com playground. Foi uma das primeiras experiências desse tipo de moradia, tida então como moderna. Acabamos nos mudando para lá. O Kowarick era uma ilha dentro da própria Aclimação e me deu um momento importante de sociabilidade. Pra alguém de fora namorar uma menina do Kowarick, tinha aquelas rivalidades, o sujeito era espancado, como numa cidade do interior. Outra característica é que vieram estrangeiros preparar a mão-de-obra para nossa indústria automobilística, que estava começando. Americanos, franceses, dinamarqueses. Quando viram aquele projeto de vida, quadras, piscina, coisas com as quais estavam acostumados, optaram por morar lá. Morou lá o Faria Lima, que foi prefeito de São Paulo, o Jânio ia jantar lá, moravam deputados, cônsules. Nessa altura eu estudava no Mackenzie. Uma criança de 11, 12 anos podia ter sua chave de casa, tomar ônibus para a escola sozinha, a cidade não era violenta como hoje. A migração ainda era muito contida, a cidade tinha um padrão, e a Aclimação tinha um padrão excelente dentro da cidade, sempre muito bem servida de infra-estrutura. Eu tinha telefone, vi na casa de um vizinho a primeira transmissão de televisão – a TV Tupi sendo inaugurada, em 1950, com frei Mojica cantando”.

Conte mais um capítulo da nossa cidade, envie seu texto ou agende uma entrevista no site do Museu da Pessoa.

Conte Sua História de SP: Brincadeira de criança

 

Roberto Samuel da Silva nasceu em 1962 em Alvorada do Sul, Paraná. Mas é a cidade de São Paulo, em especial o bairro Jardim Japão, que povoa suas memórias de infância. Para relatar essas lembranças, ele escreveu ao Museu da Pessoa em agosto de 2010.

Ouça o texto de Roberto Samuel da Silva sonorizado por Cláudio Antônio

Chegamos a São Paulo num dia frio e de muita garoa no ano de 1968, não sei em que mês. Viemos de trem da cidade de Alvorada do Sul, Paraná. Lembro-me pouco da viagem. Tenho uma vaga lembrança do trem. Na verdade, não sei se são lembranças ou histórias que meus pais contaram depois. Dizem que, durante a viagem, eu saí andando pelos vagões e teria me perdido. Meu irmão, João, é que me encontrou “vagando”.

Fomos morar no Jardim Japão, na rua Nigata. Acho que, na época, o povo chamava essa rua de Niagata. Ali passei minha infância e fiz meus primeiros amigos. Lembro-me do senhor Zacarias. Ele trabalhava em uma grande fábrica de pneus e me ensinou a torcer pelo Santos Futebol Clube. Esse senhor tinha três filhos e uma filha: Carlos, o mais velho, depois o Airton, o filho do meio, apelidado de Tito e o Rui, o mais novo dos meninos. A menina era a mais nova, chamava-se Sonia. Ela tinha a mania de chupar os dedos indicador e médio. De tanto chupá-los, ela ganhou duas verrugas neles. Ouvi essa história da matriarca dessa família, Dona Isolina. Achava-a bonita, no entanto, não lembro mais de seu rosto.

Eu era um “televizinho” deles, ou seja, um sujeito que não possuía televisão e ia à casa do vizinho para aproveitar um pouquinho daquela maravilha. Era uma TV da marca Telefunken.

Com mais ou menos a minha idade, havia uma garota chamada Marlene e um garoto chamado Cido. Brincávamos nas ruas e na enorme praça. Aliás o pai do Cido, “Seo” João, era vigilante e morreu, durante o serviço, no início dos anos 70, não lembro se foi de enfarte ou derrame. O então menino chorou muito. Coube à dona Maria Teixeira (lembrei do nome dela) conduzir a vida. Essa família era muito amiga da nossa.

Minha primeira escola foi a Escola Imperatriz Leopoldina, até hoje na rua Togo. Ali estudei até o quarto ano do primário. Dessa fase, guardo o nome de apenas duas professoras: Cecília, minha primeira mestra, e Sonia Agosto, a professora do segundo ano primário. Ah, havia também a toda poderosa diretora: Dona Ada.

Falando nisso, dia desses aconteceu algo muito estranho. Eu estava tomando uma cerveja com um amigo, hoje secretário de Esporte de Guarulhos, e falávamos do passado quando ele revelou que estudou nessa escola, na mesma época que eu, e era morador da rua Osaka, rua paralela à minha querida rua Nigata. Incrédula, pedi que ele dissesse o nome da diretora e confirmou: “Dona Ada”. Lembrou inclusive do “grande” porte físico que nos parecia ainda maior quando sua poderosa voz ecoava pelos corredores da escola.

A história parece-me ainda mais inverossímil quando esse meu amigo revela: “Morava ao lado da fábrica de balas”. Eu vivia por ali. Apenas para constar, todas as balas tinham o mesmo sabor: eram de açúcar puro, apenas açúcar. Mas havia papéis de várias cores e com desenho de diversas frutas. Um verdadeiro engodo. Mas eu olhava para o papel cheio de desenhos de abelhas e sentia o sabor de mel. Para complementar a renda familiar, era comum as pessoas pegarem essas balas para embalar em casa. Havia uma família na rua Osaka, com muitas crianças, que embalavam as balas e também ensacavam figurinhas.

Lembro-me do início das obras do Praça Oyeno, situada no centro do bairro e em frente à minha casa. Minha mãe chegou a fazer lanches e vender aos trabalhadores da obra, mas não deu muito certo. O parque ficou muito bonito. Muitas árvores foram plantadas e tinha até minas de água. Ele começava na avenida das Cerejeiras, seguia até próximo à rodovia Presidente Dutra. O lugar era bonito, pois as transportadoras ainda não tinham se instalado naquela região.

Morei também um tempo em uma casa da avenida das Cerejeiras. Foram tempos de muitas dificuldades. Meu pai lutava muito, éramos oito. Meu irmão João casou pouco depois de chegarmos a São Paulo e foi morar na Vila Maria Baixa, perto da avenida Guilherme Cotching. Apenas meu pai trabalhava. De vez em quando faltava alguma coisa, o feijão, a carne, o pão… Minhas irmãs, a Cida e a Cícera, começaram a trabalhar muito cedo para ajudar. Tenho um carinho e um respeito muito grande por elas. Se você acha que hoje existe exploração, nos anos setenta havia muito mais.

Em 1974, deixamos São Paulo e mudamos para a cidade de Guarulhos. Perdi o contato com meus amigos de infância e com os vizinhos. Tentei, ainda manter contato, mas meus amigos ficaram no passado.

Você participa do Conte Sua História de São Paulo enviando seu texto para o site do Museu da Pessoa ou agendando entrevista para gravar seu depoimento em áudio e vídeo

Edson era Antes do Nascimento, depois virou Pelé…

 

Por Airton Gontow
Jornalista e cronista

Edson era Antes do Nascimento. Depois virou Dico, Belé e até Gasolina, de tão liso que era nas peladas de rua e campinhos de várzea em Bauru. Finalmente virou Pelé. Talvez por isso para o povo brasileiro futebol seja, definitivamente, uma questão de PELE.

Dizem que Pelé é de Três Corações. Mas isso é o que está na certidão, lá nos registros do cartório. Nas histórias do futebol – e essas são as que contam – Pelé é de milhões e milhões de corações brasileiros e de apaixonados por futebol no mundo inteiro.

Nelson Rodrigues disse que “toda a unanimidade é burra”. Mas não acrescentou: “a única exceção é Pelé”. O genial dramaturgo, jornalista e escritor foi o autor da primeira e antológica crônica sobre o gênio da bola, no dia 25 de fevereiro de 58, após a a vitória santista por 5 a 3 sobre o América do Rio, no Maracanã.

No profético artigo, chama Pelé de “rei” e aposta no sucesso do jovem craque: “…Examino a ficha de Pelé e tomo um susto: — dezessete anos! Há certas idades que são aberrantes, inverossímeis. Uma delas é a de Pelé. Eu, com mais de quarenta, custo a crer que alguém possa ter dezessete anos, jamais. Pois bem: — verdadeiro garoto, o meu personagem anda em campo com uma dessas autoridades irresistíveis e fatais. Dir-se-ia um rei, não sei se Lear, se imperador Jones, se etíope. Racionalmente perfeito, do seu peito parecem pender mantos invisíveis. Em suma: — Ponham-no em qualquer rancho e sua majestade dinástica há de ofuscar toda a corte em derredor. O que nós chamamos de realeza é, acima de todo, um estado de alma. E Pelé leva sobre os demais jogadores uma vantagem considerável: — a de se sentir rei, da cabeça aos pés. Quando ele apanha a bola e dribla um adversário, é como quem enxota, quem escorraça um plebeu ignaro e piolhento. E o meu personagem tem uma tal sensação de superioridade que não faz cerimônias…. Quero crer que a sua maior virtude é, justamente, a imodéstia absoluta. Põe-se por cima de tudo e de todos. E acaba intimidando a própria bola, que vem aos seus pés com uma lambida docilidade de cadelinha. Hoje, até uma cambaxirra sabe que Pelé é imprescindível em qualquer escrete. Na Suécia, ele não tremerá de ninguém. Há de olhar os húngaros, os ingleses, os russos de alto a baixo. Não se inferiorizará diante de ninguém. E é dessa atitude viril e mesmo insolente que precisamos. Sim, amigos: — aposto minha cabeça como Pelé vai achar todos os nossos adversários uns pernas-de-pau”.

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