Conte Sua História de São Paulo: Minha primeira escola

 

Por Dalila Suannes
Ouvinte-internauta do CBN SP

Ouça o texto “Minha Primeira Escola” sonorizado por Cláudio Antônio

 


Assim que o sol nasceu em um dia qualquer do 1946, seu pai a pegou pela mão e foram caminhando até o colégio alemão próximo de sua casa.

Lá, o pai foi recebido com o respeito que seu fardamento impunha, e encaminhados para uma sala de aulas, aos cuidados de Dona Helga.

Ao se ver sozinha no meio de crianças estranhas, louras, se pôs a chorar, lavando, literalmente a carteira.

Tinha a sensação de que nunca mais veria sua mãe, seus irmãos, ou os amiguinhos de pega-pega, de mocinho e bandido.

Sua vida mudara.

Todos os dias, lá ia ela com a lancheira, livros e cadernos. Era a mais nova estudante da região.

Aos poucos foi se integrando, e, como era muito expansiva, alegre, tagarela, não negando a origem italiana de sua mãe, conquistou seu lugar entre os pares.

Àquela época, foi lançada uma coleção de figurinhas com foto de artistas, e, nasceria daí sua paixão pelo cinema.

Sentia-se superior às demais colecionadoras da classe, de origem germânica, por não conseguirem pronunciar o nome da diva da época, Ana Magnani.

Sentia respeito e admiração pelo diretor da escola e se encantava quando havia passeio ao Horto Florestal, no lugar das aulas.

Era o tipo de educação européia, baseada no conhecimento vivo da natureza.

Nesta ocasião saboreou, pela primeira vez, uma bebida com gosto estranho, que mais tarde soube chamar-se Coca-Cola.

Fez seu “debut” em festas infantis ao comparecer ao aniversário de uma holandesa, de sua idade, que costumava usar tranças muito loiras.

Ficou maravilhada e muito feliz ao receber uma lembrancinha da data, já que a família estava retornando para sua terra natal.

Nunca tinha visto nada igual já que para ela o grande acontecimento de reunião entre amigas era “batizado das bonecas”.

Outra colega que lá estudava, havia nascido, juntamente com seus familiares, na antiga Tchecoslováquia.

Nas festas de seu aniversário, os adultos jantavam em uma extensa mesa da sala de jantar, observado por nós, através de um janelão de vidro, já que ficávamos confinados ao quintal e de lá não poderíamos passar.

Relembrou esta cena, ao assistir o filme Amarcord.

Estas experiências marcaram sua vida.

Uma, porém, mais forte que todas.

Entre os estudantes, havia um grupo de meninos e meninas, que se vestia mais singelamente e traziam suas merendas, de pão com banha, em um saquinho de pano.

Chegavam e partiam juntos por morarem todos em uma (única) casa longe de nossa escola.

Eles eram originários dos países dos demais alunos do colégio, porem, ao contrário destes, tinham perdido tudo o que um ser humano precisa para viver, simplesmente por serem judeus.

Ela ficava mortificada com esta situação, e tinha-lhes um carinho especial, principalmente por uma garota alta, chamada Josefa.

Um dia, quando todos os alunos se enfileiravam para adentrar o prédio, e cantavam o Hino Nacional Brasileiro, não se sabe o que fez um dos meninos deste grupo, Schultz.

O fato é que Dona Helga deu-lhe uma bofetada no rosto tão forte, que ela a sentiu em sua face.

Foi para casa chorando e contou o sucedido para sua mãe que ficou muito nervosa, mas nada explicou. Talvez ela mesma não soubesse o que dizer.

A pequena teve por várias noites dificuldade em dormir.

A cena a fez acordar para a vida e entender que as pessoas não são consideradas iguais, e que no mundo existe intolerância, violência, incompreensão.

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, logo após às 10 e meia da manhã, no CBN SP. Você pode participar enviando seu texto ou arquivo de áudio para contesuahistoria@cbn.com.br

Liceu: simulacro e simulação

 

Por Carlos Magno Gibrail

Liceu Coração de Jesus, São Paulo

Liceu Coração de Jesus, ícone por mais de um século da Educação paulista, fundado sob a orientação de um santo – Francisco de Sales – pelas mãos de outro santo – João Bosco – com o apoio de uma princesa – Izabel -, está diante do simulacro da Cracolândia em seu entorno.

Com a intenção de neutralizar o incômodo do crack na região, cuja maior visibilidade está na Sala São Paulo, a Prefeitura realizou ação para retirar os viciados e os traficantes. E tratou de divulgar o sucesso da empreitada, a tal ponto que domingo os jornais noticiaram que a proposta de reajuste de até 60% no IPTU contemplava a Cracolândia. Simulação e dissimulação que levou os drogados para os limites do quarteirão de 17.000 m2 ocupados pelo Liceu. A tal ponto que janelas foram pregadas para que os 280 alunos remanescentes não vejam as calçadas onde os viciados estacionam.

O Liceu, fundado em 1885 para atender os filhos de imigrantes italianos para educação convencional e de ex-escravos para operadores de alfaiataria e gráficas, teve alunos como Monteiro Lobato, Grande Otelo, Zeferino Vaz, Carvalho Pinto, Vicente Feola, Noite Ilustrada e Toquinho.

Contando com a Igreja mais bonita e rica da cidade, com um teatro de 700 lugares, com múltiplas quadras esportivas, com uma estátua do Cristo com camada de ouro em sua torre principal, o Liceu embora cercado por drogados, mantêm a exuberância estética e a energia dos tempos idos, quando 3.000 alunos povoavam seus espaços. Indubitavelmente faz parte da história da cidade e como observa Mílton Jung “O Liceu é a cara de São Paulo”, símbolo significativo que sucumbe ao processo urbano em que a antropofagia daqueles que, incumbidos de construí-lo, protagonizam a desconstrução ao procurar o novo e desvalorizar o antigo.

O alargamento da Avenida Rio Branco, cortando os jardins do Palácio dos Campos Elíseos, certamente foi o golpe fatal à região ao ver transferida a sede do Governo do Estado para o Morumbi. E, incrivelmente, ainda se cogita de transferir o Palácio do Morumbi para os Campos Elíseos, o que não corrigirá o erro anterior, mas o ampliará.

A questão urbana é fortemente exemplificada neste caso dos Salesianos, pois em Santa Terezinha na região Norte da cidade, em área de classe média bem posicionada há um Colégio que está abarrotado de alunos, enquanto o Liceu prevê para 2010 apenas 200 alunos. Situação que reflete a preocupação do jornalista Clovis Rossi, no mesmo dia em que a Folha publicava editorial sobre o Liceu e o crack em suas imediações : “Mais um pedacinho da “minha” cidade está morrendo, o Liceu Coração de Jesus.”

A Congregação a par das investidas imobiliárias reage e procura se adaptar a esta fase, reformulando seus cursos deficitários e abrindo negociações com empresas como Porto Seguro e Pão de Açúcar, com intuito de manter a vocação do ensino de alta qualidade pedagógica e aliada á cultura e aos esportes.

O Liceu Coração de Jesus luta para continuar educando, quer viver essa missão que é sua há mais de 120 anos.

As crianças que aqui brincam e estudam tornam-se mães e pais, artistas e empresários, esportistas e sacerdotes, assumem muitos caminhos porque são muitos os caminhos da sociedade brasileira. Se por acaso o Liceu parasse, São Paulo perderia um pouco da sua identidade, do seu jeito de preparar o futuro.

Alunos, pais e educadores não deixarão isso acontecer, pois fiéis à herança salesiana continuaremos a educar olhando pra frente.

Que o Senhor abençoe a todos os ex-alunos que estão torcendo pela comunidade educativa do Liceu Coração de Jesus”.

Pe. Benedito Spinosa, Salesiano de Dom Bosco, Diretor do Liceu Coração de Jesus, em mensagem especial para este blog.

Como paulista de coração e ex-aluno do Liceu Coração de Jesus, onde aprendi a estudar, a praticar esporte e gostar de cinema e teatro, fica aqui a minha contribuição à cidade que amo e ao Colégio que bem a representa.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e voltou a sala de aula para escrever este artigo no Blog do Mílton Jung.


A imagem que ilustra este post é de autoria de Marcelo Isidoro Alves, conheça a galeria de fotos dele no Flickr com outras cenas de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: Hoje eu vi um menino

 

Por Erony Marcellino
Ouvinte-internauta

Ouça o texto “Hoje eu vi um menino”, sonorizado por Cláudio Antoniop

Hoje eu vi um menino sozinho brincando na rua. Não deveria ter mais do que quatro anos.

O menino, lindo, estava sujo, imundo, nariz escorrendo, pés descalços, usava roupas maiores do que o seu magro corpo.

Hoje eu vi um menino brincando com o lixo jogado sobre a calçada numa rua localizada na zona “nobre”, ou “jardins”, na Capital de São Paulo.

Hoje senti bem de perto o quanto o abandono pode destruir um pequeno e indefeso ser humano.

Perguntei seu nome. Ele respondeu com naturalidade: “Não tenho nome”.

Insisti e falei, todos os meninos tem nome. A frágil criaturinha respondeu com voz de quase bebê:

“Minha mãe me chama de peste”.

Engoli em seco e perguntei: “Quer que eu brinque com você?”

Ele levantou os olhos por um instante e respondeu:”Sim”

Perguntei o que ele queria que eu fizesse. Pediu que o ajudasse a colocar um cone de papelão dentro do outro – muitos deles estavam misturados a outras espécies de lixo descartável. Em nenhum momento sorriu.

Passei algum tempo com o garotinho fazendo de conta que aquela brincadeira era muito interessante para mim.

E era. E foi. E será.

Hoje eu vi um lindo menino abandonado e sujo numa rua que não fica na periferia.

Hoje brinquei, com o coração machucado, com um menino que aprendeu a repetir que seu nome é “peste”.

Quando ele se afastou e foi procurar outra brincadeira, como faz qualquer criança de sua idade, me senti abandonada.

Perdi o rumo.

Hoje brinquei na calçada apoiando cones de papelão para valorizar um menino que desconhece seu nome.

Parada na calçada pensei, dentro de alguns minutos será noite: onde irá se abrigar o menino sem nome que tem como referência de identidade uma mãe que o chama de “peste”?

Neste bairro chamado “jardins”, nesta cidade denominada capital financeira de um país chamado Brasil, conheci um dos muitos brasileirinhos reféns da mais absoluta miséria física e moral.

Hoje eu vi um menino condenado pelo crime de ter nascido!

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, logo após às 10 e meia da manhã, no CBN SP. Participe enviando seu texto ou arquivo de áudio para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: O lutador

 

Por Gabriel Leão

Ouça o texto “O Lutador” com sonorização de Cláudio Antonio

“São Paulo é minha ultima tentativa, se não der certo pelo menos eu vou morrer sabendo que eu tentei e não consegui, mas não desisti”, a frase é de Leandro Siqueroli de 21 anos que assim como muitos imigrantes brasileiros e estrangeiros resolveu buscar o sonho paulista e encontrou uma sociedade de contrastes.

Ao chegar se surpreendeu com o tamanho do sistema metroviário e durante dias observou o movimento dos vagões nas estações. O ritmo acelerado dos paulistas espantou o jovem boxeador de Londrina. Notou também a frieza e a melancolia presente nos rostos que andam como se fossem um enxame de formigas com pressa em busca de mais trabalho.

Leandro conquistou muitos títulos de boxe amador no Paraná, mas no profissionalismo de São Paulo eles não dizem muita coisa. Pra trás deixou sua família lamentando a morte recente de seu pai. Passou fome e ficou desabrigado até encontrar uma família nova.

As dificuldades o fizeram pensar suicídio e comenta: “Algumas vezes eu vejo o boxe como uma maldição, da qual você nunca se livra dela é ela que sempre se livra de você. Não importa o que você faça, não importa pra onde você vá, se você é um lutador você sempre estará lutando”.

Certa vez pagou do próprio bolso para lutar e deixou de acertar o aluguel, tinha de sair da residência pela telhado para o proprietário não vê-lo. O amparo veio na forma de novos amigos. O peso-pesado Raphael Zumbano, primo de Éder Jofre, o conheceu pela internet e hoje é seu empresário. Outros pugilistas se tornaram seus familiares.

Miguel de Oliveira, ex-campeão mundial e atualmente treinador de uma das mais caras academias do país o aceitou como seu pupilo. Para conhecer Oliveira não foi fácil, a recepcionista da academia olhou com desprezo para seu jeito caipira e o avisou que o professor não estava presente, Siqueroli preferiu esperar do outro lado da rua. Quando viu o senhor se aproximou e disse: “sou lutador de boxe lá do Paraná e vim para São Paulo me tornar campeão mundial e como o senhor já foi campeão eu gostaria que me desse alguma dica do que tenho de fazer para chegar lá”.

No momento Oliveira ficou sem reação e pediu para o jovem de Londrina voltar mais tarde para um treino com seus alunos. Hoje Leandro tem 3 vitórias todas por nocaute e uma derrota por pontos no boxe profissional.

Quando está fora dos ringues ganha sua vida servindo mesas em um pub irlandês na Vila Olímpia, bairro freqüentado por jovens de classes A e B. E mesmo trabalhando e treinando encontra fôlego para freqüentar o curso superior de gastronomia.

Leandro Siqueroli se apresenta em ringues humildes no interior de São Paulo, mas sonha quase que como uma obsessão com o dia que vai reinar em Las Vegas e até lá se apresenta como “o futuro campeão mundial”.

Participe do Conte Sua História de São Paulo enviando seu texto ou arquivo de áudio para contesuahistoria@cbn.com.br. O programa vai ao ar sábados logo após às 10 e meia da manhã, no CBN SP

Conte Sua História de São Paulo: A partida

 

Por Vera Helena Gasparotti Praxedes
Ouvinte-internauta do CBN SP

Ouça o texto ‘A Partida’ sonorizado por Cláudio Antônio

Este poema fiz quando mataram meu vizinho, em frente a casa dele que fica em frente a minha, em um lugar lindo com uma pracinha, ao lado de um também belo parque que se chama Parque Nabuco no Jardim Jabaquara. O nome dele George Alexandre, um professor de inglês que lecionava em Diadema e chegava todos o dias em sua casa por volta das 00:30 hs. da madrugada. Só sabemos que quem o matou foi um ou dois homens em uma moto, provavelmente queriam entrar com ele, que reagiu.

A Partida

Um grito ecoou pela noite escura,
Desafiante, profundo, cheio de horror,
O peito pulsou sem doçura:
– Seria de dor? – Seria de pavor?

Um estampido ressoou pelo ar,
Não murchou as flores, não secou as árvores,
Não calou os pássaros, não rachou o chão,
Certeiro, perfurou o coração.

O corpo caiu num baque aguçado,
Sombreado pela luz da lua,
Vermelho, em vez de prateado.

Um suspiro seguiu…
Nem mesmo o tempo parou
Para velar o quê partiu…

É mesmo assim, fica tudo assim mesmo.


O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, sábados, logo após às 10 e meia da manhã, no CBN SP. Participe enviando seu texto ou arquivo de áudio para contesuahistoria@cbn.com.br.

De amanhã

 


Por Maria Lucia Solla

Ouça “De Amanhã” na voz da autora

Céu de São Paulo

a gente se considera importante demais achando que ego é eterno
como se só houvesse o agora o tempo moderno
e onde é que fica a História
a gente está mesmo perdendo a memória

ofende-se demais perdoa-se de menos
percebe-se menos fala-se demais
e não se divide nada
a gente está sempre ocupada
não dá atenção a ninguém
e acaba só também

fazemos tudo automaticamente
como se estivéssemos plugados todos a uma só mente

a criança quer moda
não brinca mais de roda
mais e mais
nada mais a satisfaz

ainda não foi entendido
que a Era mudou
e o homem continua menino brincando de mocinho e bandido
ainda não se tocou

a mulher por sua vez que saiu da casa do pai
pra casa do amor
Salvador
vive hoje sem um nem outro
e chora e se enche de droga
ai
e nem sabe de onde vem tamanha dor

nem pense que eu me atreva a divulgar qualquer solução
a vida está sempre sendo escrita
e só vai ficar mais bonita
com a tua e a minha ação

portanto meu amigo meu irmão
olha para o lado um pouco
para de rodar daqui para ali feito louco
e vamos nos dar a mão.

Maria Lucia Solla é terapeura, professora de língua estrangeira e realiza palestras na área de comunicação e expressão. Reescreve aos domingos no Blog do Mílton Jung o livro “De bem com a vida mesmo que doa” e conta com a sua opinião.

Conte Sua História de São Paulo: Virou gente grande

 

Por Teresa Botton
Ouvinte-internauta

 

 

Nasci e fui criada em S. Paulo Eu me sinto muito paulistana, e gosto disto. Lembro-me que quando criança, meu avô me levava até a praça da República para ver os patos. Naquela época, a praça era linda, limpa, cheia de árvores, gostosa, as pessoas bem arrumadas passeavam por lá, e os fotógrafos lambe-lambe tiravam fotos.

 

Eram passeios muito gostosos, lembranças agradáveis.

 

As casas de chá, o Fasano, na Barão de Itapetininga. Não me esqueço que uma vez uma prima fez o aniversário lá. Cada coisa mais gostosa que a outra.

 

E a Dulca ? Meus irmãos e eu adorávamos o “merengue” e o “cisne”. Além do que, nos aniversários o bolo era o mil folhas, todo coberto de açúcar de confeiteiro e quando o aniversariante assoprava a velinha, quem estivesse na frente tomava um banho de açúcar e ficava todo branco.

 

Tinha também o Mappin e a Clipper. A gente tirava o dia para fazer compras e ia para o salão de chá comer um misto quente e tomar um sundae ! Que glória!!

 

Sempre gostei de andar no centro.

 

Quando criança, ia ao dentista toda semana, na rua Quirino de Andrade. Eu adorava fazer o percurso a pé desde a Praça da República até lá. O movimento do centro, as lojas, tudo isto sempre me atraia. Gostava de entrar nas livrarias e ficar olhando os livros. Quando na faculdade tínhamos de comprar livros em espanhol, tipo obras completas do Freud, íamos a um importador na rua São Bento, que os vendia num bom preço e em três vezes. Ter que ir ao centro era uma excursão muito prazeirosa tanto para mim quanto para minhas amigas!

 

A gente sentia que estava fazendo turismo, e ia olhando tudo nas ruas: as pessoas, o movimento, as lojas, a paisagem, e, principalmente, a arquitetura. Ah, a arquitetura é o que mais me atraia!

 

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Conte Sua História de São Paulo: Meu Brooklin

 

Por José Manuel Cascão Costa
Ouvinte-internauta do CBN SP

Ouça o texto “Meu Brooklin” sonorizado por Cláudio Antonio

Aqui você lê o texto original, escrito pelo autor, sem os cortes necessários (feitos pelo próprio) para adaptar ao programa de rádio:

Faz um mês que estou trabalhando no sétimo andar de um prédio na Rua Arandú, no Brooklin, paralela à Berrini. Daqui até aonde a vista alcança (o que dependendo da direção que eu olhe, não dá mais do que um quarteirão) posso ver uma parte do bairro ainda não tomada pelos prédios. Fosse este onde estou, o único, e estivéssemos nós em 68, quando vim morar no Brooklin, minha vista alcançaria alguns quilômetros em todas as direções, já que não havia um único edifício no quadrilátero compreendido entre a Marginal de Pinheiros, a avenida Santo Amaro, a avenida Vicente Rao e avenida dos Bandeirantes, território onde vivo desde os 11 aos atuais 52.

Antes do Brooklin, meu universo era bem mais reduzido: uma pequena aldeia ao norte do Portugal, cuja população total não era muito maior do que o número de pessoas que hoje trabalha num edifício qualquer da região. Saí dessa aldeia com meus pais em 1968, para nos juntarmos aos meus irmãos que cá estavam. Depois de 14 dias a bordo do navio Theodor Erzl de bandeira israelense, que saiu de Lisboa às 7 horas de uma manhã fria e nevoenta de dezembro, e viajando numa classe que não me recordo ter alguma das letras do alfabeto, desembarcamos finalmente no Porto de Santos.

Confesso que aquele Brasil de 68, e tudo que estava acontecendo nele, eu só conheci mais tarde, já no colegial. E depois, mais profundamente, durante os tempos de repressão na faculdade de comunicação em meados dos anos 70. Mas ali, garoto, imigrante recém-desembarcado, com a terra prometida em baixo dos meus pés, o que eu via com os olhos esbugalhados, o queixo caído e a boca aberta era a esperança, o futuro promissor, o maravilhoso mundo novo chamado Brasil!

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De histórias da História

 

Por Maria Lucia Solla

Mesa de bar por Julianrod, em Flickr

Mesa de bar por Julianrod, em Flickr

Ouça “De histórias da História” na voz da autora

Olá,

Meu coração pipoca no peito quando me dou conta…
Então era por isso!

Eurekas são molas propulsoras que, às vezes, saltam e desarranjam o arranjado; derrubam o que estava em pé e constroem a partir de escombros. Trazem o que está lá no fundo à tona, para que possa entrar em contato com o oxigênio da consciência.

Então era por isso que o professor Haddock Lobo dava socos contidos, a custo, na mesa, deixando vir, ao palco dos lábios, palavrões só amplificados pelas caixas de sua intenção.
Era daí que desespero, desesperança e descrença brotavam e se debruçavam nas sacadas do seu olhar.
Os tempos eram de escola, no Colégio Rio Branco, em Higienópolis.
Aproximada a hora da aula de História, a sala minguava. Ele sempre se atrasava e, quando chegava, arrastava consigo um ar de desencanto. Desprovido de rapapés, convidava os não interessados a se retirarem. Fazia a chamada antes que saíssem, dando um empurrãozinho na decisão dos indecisos.
Só quando restávamos um punhado de gatos pingados era que ele sorria; um sorriso aliviado, iluminado por pares de olhos arregalados e acesos, cravados nele.
Vibrava ao som do conjunto de corações que batiam descompassados, ansiosos por seus relatos.
Seu sorriso dava duro para se encaixar no senho, que trazia sempre franzido.
O professor Haddock não camuflava o esforço hercúleo para se encaixar, ele mesmo, no senho cerrado da própria vida.

Eu era menina cultivada e mantida muito bem podada, pelo seu Solla, movido a crenças e medos. Era mantida afastada do mundo ameaçador que existia do lado de fora dos portões e muros da casa paterna e daqueles da escola.
Sonhadora, romântica, curiosa, tinha sede e fome de saber e de viver.
Comia pouco, e lia muito. Muitas vezes sentada no telhado de casa, alcançado pelo muro da sacada do meu quarto. Mas essa é outra história.
O professor Haddock plantava em nós a semente da inquietude, enquanto nos escancarava as portas da dor e do desprezo pelos homens.
Confiava em nós.
Contava histórias da História. Falava de gente, não de fato, enquanto se admirava ao ver em nossos olhos plurais, réplicas do próprio desespero, que acreditava singular.
Sentados à mesa de um bar perto da escola, na Avenida Angélica, ingeríamos drágeas de sabedoria a goladas de lúpulo e cevada, e nos mantínhamos alertas para detectar, antes que fosse tarde demais, um olheiro do diretor da escola.
Eu era a única menina à mesa. Ouvia tudo com atenção; entendia pouco.
As partículas do meu cérebro, encarregadas de absorver informação para depois transformá-las em conhecimento, deviam ser muito gulosas; se empanturraram de tal forma que acabaram levando anos e anos digerindo, tanto que ainda hoje, como aconteceu há pouco, uma ficha cai e me deixa assim.

Amado e sempre lembrado professor, onde quer que você esteja, pelas estradas misteriosas e nebulosas de todas as faces da vida, recebe o meu afeto e minha gratidão, porque isso eu tenho para dar, e sei que não vai faltar.

Hoje sei que a dor que sinto tem origem e vem certificada.
Também estou certa de que se uniriam a mim, numa homenagem a você, pelo menos dois outros integrantes da nossa mesa: Chico Solano, meu amigo Francisco, que entre outras peripécias viveu exilado na França durante um dos últimos períodos de retrocesso e de burrice explícita que campeava solta por nossa terra, e o Carlos Rodolfo Tinoco Cabral, meu amigo poema.
Decassílabo.

Um dos meus amigos livros acaba de me revelar que há aproximadamente mil e novecentos anos, a violência preenchia a escuridão dos becos, e não perdoava os lares, na Roma de Trajano.

A multidão babava extasiada e anestesiada entornando o sangue bárbaro que manchou perenemente a arena do Coliseu.

A fauna selvagem rareava na Europa, no Norte da África e no Oriente Médio, para manter saciados os instintos do homem.

No imenso e luxuoso edifício do Senado, construído por J.C. (coincidência?) – o imperador Júlio César -, senadores tomavam decisões que ainda repercutem na tua vida e na minha .

Ali, no Foro de J.C., distanciados da República, asseclas do imperador agradavam e obedeciam ao seu senhor, desfilando barrigas obscenas, cobertas por panos obscenamente caros.

Mestre, mestre querido, você sabia!
Pois saiba que a tua angústia se mantém viva, em mim.

E você, caro leitor-ouvinte, quando foi que teve o último Eureka?

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é terapeuta e professora de língua estrangeira. Aos domingos, reabre o livro “De bem com a vida mesmo que doa” e o convida a reescrevê-lo. Não a decepcione mesmo que doa