Mundo Corporativo: Lucia Mees, da IPM, fala de cuidados no uso da IA e a inovação no setor público

Lucia Mees nos bastidores do Mundo Corporativo. Foto: Priscila Gubiotti/CBN

“Pensa e analise muito bem a situação atual do seu mercado. Entenda profundamente o presente para que, então, você consiga criar soluções para o futuro.”

Lucia Mees, IPM

A transformação digital já deixou de ser uma tendência e passou a ser uma exigência no ambiente corporativo. Mas será que estamos aplicando as ferramentas certas para isso? Segundo Lucia Mees, vice-presidente da IPM Sistemas, há um perigo em tratar a inteligência artificial como a solução para todos os problemas. “Talvez a IA não seja a grande ideia”, alerta. Essa reflexão sobre o uso exagerado da IA, sem entender seu real valor para o negócio, foi o ponto central de sua participação no programa *Mundo Corporativo*, da CBN.

Lucia, que atualmente está cursando um MBA em Stanford, compartilhou sua experiência à frente da IPM, empresa que desenvolve soluções tecnológicas para o setor público. Ela destacou que, apesar do potencial da inteligência artificial, “não dá para simplesmente adotar a tecnologia sem entender profundamente o seu modelo de negócio e o que o cliente realmente precisa”.

O erro comum ao implementar IA nas empresas

Durante a entrevista, Lucia trouxe um dado revelador: apenas 50% dos projetos que utilizam IA conseguem sair do protótipo para o lançamento. “Isso significa que ainda tem muito dinheiro sendo perdido, e muitas vezes nem percebido”, explicou. O problema, segundo ela, não é a tecnologia em si, mas a falta de preparação das empresas e dos líderes para entenderem como aplicá-la corretamente.

Lucia também apontou que um dos maiores erros das companhias é tratar a IA como uma solução universal. “Muitas vezes, as empresas usam a inteligência artificial como um martelo procurando pregos, mas não é assim que funciona. Precisamos analisar o que realmente pode ser resolvido com IA e o que pode ser feito com soluções mais simples e já conhecidas”, afirmou.

Ela sugere que, antes de investir pesado em novas tecnologias, as empresas precisam entender se possuem os dados e a estrutura necessária para isso. “Será que é isso que o meu cliente quer, ou será que ele só queria uma interface mais amigável?”, questiona.

Inovação no setor público e a importância do erro

Lucia também abordou o impacto da inovação no setor público, onde a IPM Sistemas atua, criando soluções que melhoram a eficiência e a gestão dos serviços públicos. “O desafio maior é como criar um ambiente que estimule a inovação sem medo de errar”, disse. Segundo ela, a inovação verdadeira só acontece quando as empresas permitem que os funcionários errem e aprendam com os erros.

Ela destacou que as empresas devem criar um espaço seguro para a discussão e o questionamento, onde seja possível discordar e explorar diferentes perspectivas. “Errar faz parte do processo de inovação. Se os líderes não entenderem isso, vão continuar tendo equipes com medo de propor ideias novas”, ressaltou.  

A IA que torna mais fácil a vida do cidadão

A IPM desenvolveu um serviço de inteligência artificial chamado Dara, voltado para simplificar a interação do cidadão com o setor público. Utilizando uma interface amigável via WhatsApp, Dara permite que o cidadão resolva questões como o agendamento de consultas médicas de forma automatizada e eficiente, sem a necessidade de navegar por menus complexos ou acessar diversos sites. “Com o Dara, estamos oferecendo uma experiência simplificada e mais prática para o cidadão, que pode resolver suas demandas diretamente do celular, como se estivesse conversando com um amigo”, destacou Lucia Mees. Segundo ela, essa inovação já está proporcionando uma economia significativa no setor público, além de melhorar a experiência do usuário.

De acordo com Lucia, existem outras soluções inovadoras que já impactam positivamente a gestão pública, como o sistema ERP em nuvem que integra todas as áreas da administração municipal, permitindo acessibilidade e agilidade no processamento de dados. Um exemplo prático é o uso da inteligência artificial preditiva para identificar potenciais problemas de saúde pública, como prever o risco de infartos e diabetes em determinados grupos da população, com 18 meses de antecedência, a partir de dados rotineiros. “Nossa tecnologia permitiu, por exemplo, reduzir filas no SUS e melhorar a alocação de recursos de forma mais eficiente, gerando uma economia de até R$ 6 bilhões anuais”, explicou Lucia.

Ouça o Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no *Jornal da CBN*, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast.

Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Rafael Furugen, Priscila Gubiotti, Débora Gonçalves e Letícia Valente.

Mundo Corporativo: Tatiana Aloia e a integração entre tecnologia e cultura no mercado aeroespacial

Os bastidores da gravação do Mundo Corporativo Foto: Priscila Gubiotti

  “Nós temos diferentes culturas ao redor do mundo, mas o ser humano é o mesmo em todos os lugares.”

Tatiana Aloia, Aloia Aerospace

A liderança de uma empresa global exige mais do que estratégias de mercado, requer uma compreensão profunda das nuances culturais e a habilidade de integrar essas diferenças em um ambiente coeso. Essa foi uma das principais reflexões de Tatiana Aloia, cofundadora e CEO da Aloia Aerospace, em sua entrevista ao programa Mundo Corporativo, da CBN. À frente de uma empresa que atua no setor de reposição de peças aeronáuticas em diversos países, Tatiana destacou a importância de equilibrar a agilidade nos negócios com o respeito às particularidades de cada cultura, sem perder de vista o que é comum a todos: a natureza humana. “Nós passamos muitas horas da nossa vida, praticamente um terço do nosso tempo, trabalhando. Então, tem que ser prazeroso, tem que trazer alegria e bem-estar para todos”, afirmou. 

O aprendizado no início de carreira

Tatiana Aloia iniciou sua trajetória profissional aos 15 anos, movida pela vontade de trabalhar e aprender. Atuando inicialmente no setor automobilístico, ela se especializou em engenharia mecânica e gestão empresarial, o que a preparou para os desafios futuros. Após anos de experiência e aprendizados, tanto com colegas quanto clientes, surgiu a oportunidade de realizar um sonho antigo: fundar sua própria empresa. Em 2015, junto com seu irmão Tobias, Tatiana criou a Aloia Aerospace, levando sua expertise em gestão e atendimento ao cliente, enquanto Tobias contribuía com sua vasta experiência na aviação. “Unimos nossas forças e experiências para construir uma empresa que tem o cliente como foco desde o início”, relembra.

O foco no cliente como diferencial competitivo

A Aloia Aerospace tem se destacado no mercado global de peças de reposição aeronáuticas, não apenas pela eficiência logística, mas também pelo foco no atendimento ao cliente, de acordo com sua fundadora. Tatiana enfatizou que o cliente deve ser a prioridade em qualquer circunstância. “Muitas vezes o fornecedor pode ter falhado, mas nossa missão é resolver o problema do cliente, sem importar o que aconteceu nos bastidores.” 

Esse compromisso, segundo Tatiana, vem se consolidando como um dos pilares da empresa, que tem operações em diversos continentes e atende clientes de diferentes culturas. Calcula-se que existam 600 empresas que integram esse mercado competitivo. Para ela, respeitar as diferenças culturais e, ao mesmo tempo, manter o foco em elementos universais do relacionamento humano — como respeito e feedback constante — é o segredo para garantir um atendimento de excelência. “Temos que respeitar as culturas, mas em todo lugar, resposta rápida e educação são fundamentais.”

Investimento em IA 

A Aloia Aerospace já está implementando o uso de inteligência artificial (IA) em seus processos para otimizar o atendimento ao cliente e melhorar a eficiência na busca por peças aeronáuticas. Tatiana explicou que a IA está sendo utilizada para rastrear, em tempo real, a disponibilidade de peças em todo o mundo, facilitando o trabalho da equipe e agilizando as entregas. “Nosso objetivo com a IA não é substituir pessoas, mas fornecer ferramentas que aumentem a capacidade de resposta e precisão no atendimento. A tecnologia permite que nossa equipe tenha acesso a informações detalhadas e rápidas, o que faz toda a diferença em um setor onde o tempo é crucial”, ressaltou.

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Mundo Corporativo: Christian Gebara, da Vivo, fala do futuro da inclusão digital no Brasil

Christian Gebara, da Vivo, nos bastidores do Mundo Corporativo. Foto: Priscila Gubiotti

“Mesmo as relações digitais podem ser cada dia mais humanizadas. Não é porque elas são digitais que precisam ser apenas transacionais.”

Christian Gebara, Vivo

Imagine um país continental, repleto de desafios de infraestrutura, que encontra na tecnologia um meio para transformar a realidade de milhões de pessoas. Para Christian Gebara, CEO da Vivo, a digitalização não é apenas uma tendência, mas uma ferramenta crucial para a inclusão social. Com a promessa de conectar quase a totalidade da população brasileira, a digitalização surge como um motor capaz de impulsionar educação, saúde e inclusão financeira. A importância dessa transformação digital e suas implicações para a sociedade foram o foco da conversa de Gebara no programa Mundo Corporativo

“Na minha opinião, é vital que um país como o nosso, que ainda enfrenta carências importantes de infraestrutura, possa aproveitar o investimento em digitalização para promover a inclusão social,” afirmou o CEO da Vivo.

A Vivo, como principal operadora de telecomunicações do país, se posiciona na linha de frente dessa transformação, com iniciativas que vão além da conectividade, incluindo educação, saúde e segurança digital. “A inclusão digital depende basicamente de três grandes coisas: cobertura, acessibilidade e letramento digital,” explicou Gebara, destacando o papel fundamental de políticas públicas que facilitem o acesso a dispositivos e reduzam a carga tributária sobre serviços de telecomunicações.

A Importância da Cobertura

No primeiro pilar, a cobertura, Gebara destaca a necessidade de uma infraestrutura robusta que chegue a todas as regiões do Brasil, não apenas nos grandes centros urbanos, mas também nas áreas mais remotas. “Hoje, estamos conectando quase 100% da população com 4G e já alcançamos cerca de 50% com 5G,” afirma. Esse avanço é resultado de investimentos significativos em redes de fibra ótica e na expansão de tecnologias móveis de última geração. Segundo Gebara, a digitalização oferece uma oportunidade sem precedentes para transformar a sociedade brasileira, desde que seja possível levar conectividade de qualidade a todos os cantos do país.

Acessibilidade e Letramento Digital

O segundo pilar, acessibilidade, refere-se à necessidade de tornar os dispositivos e serviços digitais economicamente viáveis para a população. “Grande parte da população não tem condições de comprar um aparelho 5G ou pagar por serviços de internet de alta qualidade,” explica Gebara. Ele defende a adoção de políticas públicas que reduzam a carga tributária sobre dispositivos e serviços digitais, facilitando o acesso para famílias de baixa renda.

O terceiro pilar, letramento digital, envolve capacitar a população para usar a tecnologia de forma produtiva e segura. Gebara enfatiza que o Brasil, embora seja um país com alta adesão às redes sociais e ao uso de smartphones, ainda carece de programas educativos que ensinem habilidades digitais. Ele cita, por exemplo, que apenas uma pequena parcela das escolas brasileiras possui computadores para seus alunos, em comparação com 98% das escolas americanas. “A inclusão digital não se resume a conectar pessoas. É preciso educá-las para que possam tirar o máximo proveito das ferramentas digitais em suas vidas diárias, seja para aprender, trabalhar ou acessar serviços de saúde,” argumenta.

Conectividade Humanizada

Uma preocupação constante para Gebara é garantir que a digitalização não afaste as pessoas umas das outras, mas que promova interações mais humanas. Ele defende a importância de combinar a tecnologia com um toque pessoal. “Nosso objetivo é que, mesmo com o uso de inteligência artificial, as interações com nossos clientes sejam humanizadas,” comenta. A Vivo investe em personalização de serviços e utiliza a inteligência artificial para oferecer um atendimento mais eficiente e adaptado às necessidades individuais dos clientes, seja através de aplicativos, WhatsApp ou atendimento em lojas físicas.

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Mundo Corporativo: Sidney Klajner, do Einstein, fala sobre como a tecnologia e a cultura organizacional transformam a saúde

Sidney Klajner na gravação do Mundo Corporativo. Foto: Priscila Gubiotti

“Aquele preconceito quando a gente fala de adoção tecnológica, eu acho que vai ser quebrado com o tempo à medida que o meu tempo é melhorado na interação com o paciente.”

Sidney Klajner, Hospital Albert Einstein

A crescente demanda por cuidados médicos de qualidade e a pressão para oferecer serviços eficientes, fazem da revolução tecnológica uma resposta indispensável. Essa foi um dos temas da conversa com Sidney Klajner, presidente da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein, no programa Mundo Corporativo.

Klajner falou do impacto da transformação digital na medicina, destacando como a inteligência artificial está sendo usada para aprimorar o atendimento ao paciente. Ele afirmou que “a interação com o paciente deve ser priorizada, deixando que a tecnologia cuide dos detalhes técnicos, como a análise de resultados de laboratório.” Essa abordagem, segundo o presidente do Einstein, otimiza o tempo dos profissionais de saúde e melhora a qualidade do atendimento prestado.

Cultura Organizacional e Propósito

Além da tecnologia, Sidney Klajner destacou a importância de uma cultura organizacional forte e alinhada ao propósito da instituição. “Cuidar bem daquilo que a gente recebe ou daquilo que a gente cria como legado cultural e transmitir é fundamental”, enfatizou. Segundo ele, a disseminação de uma cultura baseada em valores sólidos é crucial para o cumprimento dos objetivos de uma organização, especialmente em uma instituição de saúde que visa não apenas o lucro, mas também o impacto social.

Para Klajner, a liderança pelo exemplo é uma peça-chave. Ele se mantém ativo na prática médica, realizando cirurgias e atendendo pacientes, o que, segundo Klayner, permite uma gestão mais conectada com a realidade do hospital:

“Estar na sala de cirurgia me faz viver o Einstein e entender as necessidades reais dos nossos colaboradores e pacientes. Essa vivência  é fundamental, até porque no meu caso, preciso gerar um resultado muito positivo para continuar empreendendo nas ações que buscam a realização do propósito, e isso é sentido vivendo o hospital no dia a dia, é  entendendo quais são os pontos que a gente tem que conhecer e investir para estar melhor”.

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O desafio de preservar a escrita de qualidade diante da tentação da IA

Imagem criada por DALL-E, via OpenAI.

Nesta semana, enquanto revisava arquivos guardados na memória do meu computador, deparei com dois textos que, apesar de publicados em momentos bastante distintos, dialogam de maneira surpreendente com o contexto atual em que vivemos. O primeiro, um artigo de Umberto Eco, publicado no jornal *La Nación*, da Argentina, em 1991. O segundo, um texto recente de Ruy Castro, que li na “Folha de São Paulo”, de 2023. Ambos os textos me levaram a refletir sobre um tema que tem estado cada vez mais presente em nossas discussões: a importância de exercitarmos a qualidade da escrita diante da ascensão da inteligência artificial.

No artigo de Umberto Eco, o filósofo, escritor e semiólogo italiano refletia sobre o temor que os sábios da Antiguidade tinham em relação à invenção da escrita e, posteriormente, dos livros. Eles acreditavam que esse novo instrumento poderia alterar o comportamento humano, limitando a capacidade de memória e de pensamento crítico. É curioso perceber que, mesmo tantos séculos depois, esses medos ainda ressoam, agora em um novo contexto. A inteligência artificial, com sua capacidade de gerar textos e ideias de forma quase automática, nos faz questionar: será que as máquinas poderão limitar ou até substituir a criatividade humana?

Já Ruy Castro, jornalista e escritor brasileiro, em seu texto mais recente, faz uma análise crítica e bem-humorada sobre o conceito de “escrever bem”. Para ele, ninguém realmente “escreve bem” de primeira. Escrever é, na verdade, um exercício de reescrita. É no processo de revisar, cortar excessos, eliminar palavras ou frases desnecessárias e clarificar a mensagem que reside o segredo de um bom texto. Castro nos lembra que a escrita é um ato de reflexão, que exige tempo, paciência e, acima de tudo, autocrítica.

Ao comparar essas duas leituras, fico impressionado com a atualidade das preocupações de Umberto Eco e a pertinência das observações de Ruy Castro. Eco nos alerta para o risco de confiarmos demais nas tecnologias que, embora úteis, podem nos afastar do processo criativo essencial para a produção do conhecimento humano. Por outro lado, Castro nos mostra que a boa escrita não é fruto de genialidade espontânea, mas de um trabalho árduo de refinamento e aprimoramento contínuo.

Nesse cenário, a inteligência artificial surge como uma ferramenta poderosa, capaz de produzir textos com uma velocidade e precisão impressionantes. No entanto, há uma preocupação legítima de que essa facilidade possa nos levar a perder a profundidade e a qualidade que caracterizam a escrita humana. Quando deixamos as máquinas fazerem o trabalho por nós, corremos o risco de nos distanciarmos do processo criativo, que envolve não só a reflexão e a dúvida, mas também a reescrita e, muitas vezes, a frustração de não alcançar imediatamente o resultado desejado.

Eco nos lembra que os livros prolongam a vida ao preservar a memória e o conhecimento. Mas esses livros foram escritos por mãos humanas, imbuídas de sentimentos, pensamentos e experiências únicas. A inteligência artificial, por mais sofisticada que seja, ainda não consegue capturar essa dimensão humana. Ela pode imitar estilos, reproduzir padrões, mas não substitui a alma que se revela em cada frase cuidadosamente escolhida, em cada ideia que emerge do conflito entre o que queremos dizer e o que conseguimos expressar.

Portanto, ao nos depararmos com o avanço da inteligência artificial, torna-se mais importante do que nunca exercitarmos a qualidade da nossa escrita. Devemos encarar a IA não como uma substituta, mas como uma ferramenta que pode nos ajudar a alcançar novos patamares de criatividade, desde que sejamos nós, seres humanos, a guiar o processo. A escrita é uma das formas mais íntimas de expressão do ser humano, não apenas para comunicar ideias, mas também para transmitir emoções, experiências e, em última análise, nossa própria humanidade.

Exercitar a escrita frente a ascensão da inteligência artificial é reafirmar nosso compromisso com o que nos torna únicos. É garantir que, mesmo em um mundo dominado por máquinas, a essência do que significa ser humano – com toda a sua complexidade e profundidade – continue a ser preservada, celebrada e transmitida às futuras gerações.

Assim, a lição de Ruy Castro se torna ainda mais relevante: reescrever é essencial. É preciso ter a coragem de revisar o que as máquinas produzem, de refinar e humanizar, garantindo que a palavra escrita continue sendo uma extensão do pensamento e da alma humana, e não apenas um conjunto de algoritmos friamente calculados. Porque, no fim, é a nossa capacidade de criar, refletir e expressar que define a verdadeira qualidade da escrita – e isso, nenhuma máquina pode substituir. 

Não me faz te pegar nojo, Sam Altman

Photo by Shantanu Kumar on Pexels.com

Sou o que costumam chamar de ‘early adopters’. Perdão pelo anglicismo logo na abertura do texto, mas é assim que a turma que fala de tecnologia prefere chamar aquilo que lá no meu Rio Grande do Sul denominaríamos de ‘guri metido’ — aquele cara que não pode ver uma novidade e já se atreve a usar. Foi assim com o ChatGPT. No dia em que ouvi falar, já estava fuçando suas funcionalidades. Virei embaixador do negócio. Sugeri para colegas, amigos e parentes — até para o cunhado.

Fiz o primeiro curso que apareceu. Comprei o primeiro livro sobre o assunto. Entrevistei as fontes que entendi serem mais relevantes e acessíveis. O negócio cresceu em uma velocidade exponencial e tomou uma dimensão que não dei conta diante de todas as possibilidades. Mesmo assim, apaixonei!

As primeiras polêmicas se tornaram públicas. O CEO Sam Altman foi demitido e recontratado em um movimento tão rápido quanto as respostas que a inteligência artificial é capaz de nos oferecer. Questionamentos sobre segurança e responsabilidade causaram tanta ‘alucinação’ quanto o ChatGPT pode produzir frente a um ‘prompt’ impreciso.

A última polêmica foi a situação envolvendo Scarlett Johansson.  Após quase um ano de negociações para que a atriz emprestasse sua voz ao ChatGPT 4.0o, Johansson recusou. No entanto, a OpenAI lançou uma voz incrivelmente semelhante à dela, chamada Sky, sem sua autorização. Quando a estrela de “Encontros e desencontros” ouviu a demo, ficou chocada e irritada. Mesmo com a negativa clara da atriz, Altman pareceu brincar com a situação ao sugerir no Twitter uma referência ao filme “Her”, onde Johansson dubla uma assistente de IA.

Essa atitude de Altman lembra muito o que Elon Musk fez com o Twitter, agora rebatizado de X. Musk, em sua gestão tumultuada e desrespeitosa com o cliente, transformou a plataforma, outrora um espaço de troca de ideias e informações, em um terreno de controvérsias e desinformação. A marca Twitter, construída ao longo de anos, foi profundamente danificada pela conduta errática e decisões questionáveis de Musk. E agora, Altman parece trilhar um caminho semelhante com a OpenAI.

A comparação é inevitável. Ambas as situações envolvem líderes carismáticos que, ao invés de preservar e fortalecer as instituições que dirigem, parecem mais interessados em promover seus próprios egos e preferências pessoais. No caso de Altman, a obsessão com o filme “Her” e a tentativa de replicar a voz de Johansson sem sua permissão demonstra um desrespeito pelas normas éticas e pelos direitos individuais. Isso não só prejudica a imagem da OpenAI como também levanta questões sérias sobre a integridade da empresa.

A saída de Ilya Sutskever, cofundador da OpenAI, e de outros membros da equipe de superalinhamento, reflete o ambiente conturbado dentro da empresa. Eles faziam parte do time focado em garantir a segurança de possíveis futuros sistemas de inteligência artificial ultra-qualificados

A OpenAI, que deveria ser um exemplo de pesquisa e desenvolvimento seguro de IA, agora parece mais preocupada em lançar produtos chamativos e ganhar mercado a qualquer custo. Essa mudança de foco é preocupante, especialmente com relatos de acordos de confidencialidade abusivos e uma cultura de segredo.

Assim como Musk transformou o Twitter em um campo minado de controvérsias, Altman está levando a OpenAI por um caminho perigoso. A empresa, que nasceu com a missão de desenvolver IA de forma segura e ética, agora parece mais interessada em ganhar visibilidade e lucro rápido. As ações de Altman, como no caso de Scarlett Johansson, mostram um desrespeito pelos princípios que deveriam nortear a OpenAI.

A postura de “vencer a qualquer custo” não é apenas insustentável, mas também prejudicial. Quando líderes colocam seus interesses pessoais acima das responsabilidades institucionais, a confiança do público e a integridade da organização são comprometidas. O caso de Johansson é um alerta para todos nós sobre os perigos de uma liderança que negligencia a ética em favor do ganho pessoal.

Sam Altman precisa reconsiderar suas ações e prioridades antes que a OpenAI sofra danos irreparáveis, assim como o Twitter nas mãos de Musk. A comunidade global de tecnologia e os usuários — especialmente aqueles que como eu nos apaixonamos pelo tema — querem confiar que essas ferramentas sejam desenvolvidas com responsabilidade e respeito. É hora de voltar aos princípios fundamentais e garantir que a OpenAI se alinhe novamente com sua missão original.

Recorrendo a um jargão consagrado pelo conterrâneo e humorista Andre Damasceno, criador do personagem o “Magro do Bonfa”: Altman, “não me faz te pegar nojo”, porque a OpenAI merece mais do que isso!

Campanha celebra a conexão humana e a inovação no Dia Mundial da Voz

Hoje é o Dia Mundial da Voz (16/04), data que surgiu por iniciativa de profissionais brasileiros. Na 19ª edição da Campanha Amigos da Voz, a Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia apresenta o tema “Minha voz, nossa voz: a força da conexão”. A ideia é conscientizar sobre a importância da voz nas relações humanas e alertar para os cuidados necessários diante de sinais de doenças que possam afetá-la.

Fatores como doenças neurológicas, refluxo gastroesofágico e o câncer de laringe são destacados como influenciadores da qualidade vocal. A estimativa de novos casos de câncer de laringe em homens adultos, por exemplo, foi de 6570 em 2023, segundo o INCA.

“Rouquidão, falhas na voz e cansaço para falar por mais de 15 dias, sem motivo aparente como infecções de garganta ou uma demanda atípica e temporária de esforço, não são esperados e precisam ser investigados”


dr.a Ana Carolina Constantini, coordenadora do Departamento de Voz da SBFa,

A campanha engaja na distribuição de materiais educativos e na realização de palestras abordando a saúde vocal, além de uma forte presença nas redes sociais para a promoção de conteúdos informativos. A cantora Ana Carolina, embaixadora da campanha, contribui significativamente para a divulgação das mensagens principais através de sua participação em um vídeo.

IA: benefícios e risco a voz

O aspecto inovador da campanha é evidenciado pelo destaque dado a novas tecnologias, como um dispositivo adesivo desenvolvido na UCLA que, através da detecção dos movimentos musculares do pescoço e aplicação de inteligência artificial, pode gerar voz. Este avanço representa uma esperança para pessoas que enfrentam dificuldades na fala devido a condições médicas diversas.

Por outro lado, a campanha também se volta para questões contemporâneas relacionadas à voz, como o desafio imposto pelo uso de inteligência artificial na geração de voz, trazendo à tona discussões sobre direitos autorais e a necessidade de proteção em contextos profissionais.

A iniciativa da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia enfatiza a importância de um diagnóstico e tratamento adequado para distúrbios da voz, visando a manutenção da qualidade de vida e da capacidade de comunicação dos indivíduos. Através de suas ações, a campanha promove uma maior conscientização e educação sobre a saúde vocal, contribuindo para o bem-estar da população.

IA: soluções para as cidades, muito além dos cones

Ao acionar o Waze para circular na cidade em que mora, você já deve ter percebido a existência de ícones no formato de cones, que alertam para a existência de buracos no meio do caminho. Há muito mais desses cones de sinalização entre ruas e avenidas do que sua vã percepção é capaz de enxergar na tela do celular. Os “laranjinhas” tem sido a solução para cruzamentos em que os semáforos estão queimados, crateras que crescem em velocidade superior a capacidade de conserto das prefeituras e desvios de obras inacabadas.

O caro e cada vez mais raro leitor deste blog, sabe do meu fascínio pela proliferação de cones nas cidades. São tantos que a impressão é de serem a única solução conhecida pelos gestores municipais. Ironia a parte, a inteligência artificial que, no caso do Waze, colabora no deslocamento dos motoristas, tem transformado o cenário urbano com inovações que simplificam a vida dos cidadãos e otimizam a administração das cidades.

Nesta semana, Aracaju (SE) sediará o evento Smart Gov NE 2024, reunindo representantes de 60 cidades brasileiras para debater o uso da IA na melhoria dos serviços públicos. Esta iniciativa, promovida pela Associação Nacional das Cidades Inteligentes Tecnológicas e Inovadoras (ANCITI), destaca a crescente compreensão de que a inovação tecnológica é fundamental para aumentar a eficiência da gestão pública e a qualidade dos serviços oferecidos à população.

Johann Dantas, presidente da ANCITI e CEO da Prodam SP, aponta que, apesar de o Brasil contar com algumas das cidades mais inteligentes do mundo, como São Paulo, Curitiba, Porto Alegre e Recife, a implementação de sistemas de IA ainda é incipiente na maioria dos municípios. Uma pesquisa da ANCITI revela que apenas 21,9% dos municípios brasileiros têm orçamento previsto para a implementação e desenvolvimento de sistemas de IA, dos quais somente 42,9% estão efetivamente destinando esses recursos para a tecnologia.

Os desafios são muitos, incluindo a falta de legislação específica, a escassez de pessoal especializado e a necessidade de conformidade com legislações como a LGPD. Ainda assim, os resultados positivos do uso da IA começam a surgir. Projetos como o diagnóstico de câncer de pele por análise de imagens, em desenvolvimento em Porto Alegre, e o planejamento de linhas de ônibus por IA em São Paulo, mostram o potencial dessa tecnologia para melhorar a eficiência dos serviços públicos e a qualidade de vida dos cidadãos.

Além disso, iniciativas como a assistente virtual Marisol, de Fortaleza, que auxilia na busca por serviços públicos, e as soluções de IA usadas pela prefeitura de São Paulo para identificar, validar, classificar e preencher documentos, exemplificam como a tecnologia pode agilizar processos e tornar a gestão pública mais eficiente.

Inovações internacionais em gestão urbana com IA

No exterior, há experiências ainda mais incríveis. Em Boston e Sacramento, por exemplo, a Verizon empregou tecnologia NVIDIA Jetson TX1 para analisar fluxos de tráfego, segurança de pedestres e otimização de estacionamentos, integrando a IA nas luzes de rua existentes. Isso ilustra como a infraestrutura urbana convencional pode ser transformada em uma plataforma inteligente, gerando eficiência e novos serviços para a população​.

Helsinki destaca-se por seu compromisso com a construção de uma cidade inteligente, respondendo ao aumento previsto da população através do suporte a startups e à inovação em transporte público, gestão de resíduos e consumo de energia. A cidade visa reduzir o uso de carros particulares e promover uma rede de transporte público integrada e eficiente, acessível através de um aplicativo que planeja viagens combinando diferentes modos de transporte​.

Singapura, por sua vez, está avançando para se tornar uma cidade-estado totalmente monitorada, com a instalação massiva de sensores e câmeras para controlar aspectos variados da vida urbana, desde a limpeza de espaços públicos até o monitoramento do fluxo de veículos.

Colaboração de cidades viabiliza investimento em IA

No Brasil, ainda há enormes desafios para a construção de cidades inteligentes. Um dos questionamentos levantados por Dantas é sobre o retorno financeiro do investimento público em tecnologia. Embora seja difícil mensurar em valores os benefícios proporcionados pela tecnologia, como a economia de tempo e o aumento da eficiência, é inegável que a adoção de soluções tecnológicas é um caminho sem volta para as cidades que desejam se tornar mais inteligentes e eficientes.

O compartilhamento de informações e o trabalho colaborativo entre as cidades é uma das soluções que podem viabilizar investimentos públicos. Por exemplo, a análise de crédito para empreendedores, criação de planos de negócio e confecção de currículos, que já são realidade no Recife graças ao uso de IA, logo serão adotadas, nos mesmos moldes, por Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Londrina. A aposta do Smart Gov NE 2024 é que parcerias como essas se reproduzam durante o evento, que será nos dias 10 e 11 de abril.

O certo é que a trajetória rumo a cidades mais inteligentes e tecnologicamente avançadas já começou. As iniciativas e projetos em andamento no Brasil mostram que, apesar dos desafios, há um comprometimento crescente com a inovação tecnológica na gestão pública. Compartilhar experiências e soluções, como promovido pela ANCITI, é crucial para acelerar esse processo e garantir que as cidades brasileiras não apenas acompanhem mas liderem a transformação digital global. Quem sabe, em um futuro próximo, os cones deixarão de integrar o cenário urbano.

Mundo Corporativo: Martha Gabriel apresenta a visão do líder do futuro

“O futuro não espera e não perdoa a falta de preparo.” 

Martha Gabriel, futurista

Navegar pelas complexidades e incertezas que a aceleração tecnológica impõe representa um grande desafio para os líderes contemporâneos. Essa é a premissa central da reflexão de Martha Gabriel, futurista, palestrante do TEDx e autora do best seller “Liderando o Futuro” (DVS Editora), compartilhada durante sua entrevista ao programa Mundo Corporativo. Sua análise, que abrange a influência da inteligência artificial (IA) nas corporações, destaca a necessidade urgente de os líderes aprimorarem habilidades para decifrar as transformações atuais e antecipar os cenários futuros:

“Não adianta só ter visão; é preciso traçar caminhos estratégicos e ser ágil na implementação de inovações”

A entrevistada destaca a importância de cultivar um pensamento crítico, capaz de questionar e adaptar-se rapidamente a novas realidades. Essa capacidade de inquirição tanto ilumina caminhos quanto define o perfil do líder que as organizações precisam para transcender os desafios atuais e futuros: 

“O líder do futuro tem que saber perguntar, lutar contra os vieses cognitivos e entender de argumentação lógica”

Navegando na Complexidade Tecnológica

A discussão sobre o impacto da IA e como esta redefine o conceito de trabalho e liderança é central na entrevista. Martha Gabriel pontua que, diferentemente de outras inovações tecnológicas, a IA penetra no cerne da atividade humana: a cognição. Essa penetração amplia as capacidades humanas e impõe a necessidade de repensar nossos papéis. 

“Temos que nos preparar para um mundo onde a criação de conteúdo, a tomada de decisões e até mesmo aspectos da nossa criatividade serão influenciados, se não conduzidos, por sistemas inteligentes” 

A futurista nos provoca a pensar sobre o potencial transformador da inteligência artificial na produção de conteúdo próprio. Ela argumenta que, ao invés de ver a IA apenas como uma ferramenta de automação que pode limitar a criatividade humana, devemos abraçá-la como um catalisador para expandir nossa capacidade de criação. 

Martha Gabriel sugere que a IA pode ser empregada para gerar novas formas de expressão, ajudando-nos a transcender as barreiras tradicionais do que é possível produzir individualmente. Essa perspectiva reforça a ideia de uma simbiose entre humanos e máquinas mas também nos desafia a repensar nosso papel como criadores na era digital, incentivando-nos a explorar o potencial ilimitado da tecnologia para amplificar nossa própria voz e visão criativa.

Além do domínio técnico, ela ressalta a importância inegável dos valores humanos, posicionando-os como um contraponto vital à objetividade impessoal das máquinas. Em suas palavras, a liderança eficaz no futuro não dependerá apenas da capacidade de integrar avanços tecnológicos, mas também da habilidade de harmonizar essas ferramentas com os valores e qualidades intrinsecamente humanas.  Martha Gabriel sugere que o sucesso na era digital e além será determinado pela capacidade de entrelaçar as competências tecnológicas com a compreensão, a empatia e a ética humanas, criando um equilíbrio onde a tecnologia amplia as capacidades humanas sem suplantar os princípios morais e emocionais que definem nossa humanidade.

O líder do futuro não é só o cara que sabe perguntar. Ele sabe articular as pessoas certas para que tenham as melhores perguntas, os backgrounds distintos, para que você consiga ter um nível maior de pensamento”.

Reconhecida internacionalmente e uma das principais pensadoras do cenário digital, Martha Gabriel salienta a necessidade de adaptabilidade e resiliência frente às rápidas mudanças trazidas pela digitalização e pela IA. Ela menciona que os líderes devem estar preparados não apenas para adotar novas tecnologias, mas também para enfrentar os desafios e as incertezas que acompanham essas mudanças, garantindo a sustentabilidade e a relevância contínua de suas organizações no futuro.

Para você aprender ainda mais

Ao fim da entrevista, Martha Gabriel prometeu compartilhar algumas fontes de informação que nos ajudam a aprofundar o conhecimento sobre inteligência artificial, liderança e outros assuntos sobre os qquais conversamos. Seguem as sugestões:

TEDx Martha Gabriel

Filmes/Séries para entender o mundo digital

Livro “Liderando o Futuro”

Livro Inteligência Artificial: do Zero ao Metaverso

Livro Você, Eu e os Robôs

IA Generativa vai reduzir o uso de buscadores em 25% até 2026

Geração Z prefere mentoria com ChatGPT do que com gestores

5 Habilidades para o Futuro do Trabalho

Empresas querem mais Soft Skills na Era da IA

Tendências do mercado de trabalho no Brasil

IA atual não supera humanos na maioria das tarefas

Megatendências que moldarão o futuro

IA consegue decifrar senhas apenas “ouvindo” o som das teclas digitadas

Como a IA está avançando?

41% das posições de trabalho do Brasil podem ser afetadas por IA

TEDx Sam Harris

Ouça o Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN; domingo, às dez da noite, em horário alternativo; e também fica disponível em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Rafael Furugen, Débora Gonçalves, Priscila Gubiotti e Letícia Valente.

A inteligência artificial no divã: o risco à autonomia e à critividade do profissional

Imagem criada no Dall-E

Fui surpreendido recentemente com a fala de alguns alunos de uma turma de psicologia que alegaram não conhecer o ChatGPT. Não é que nunca tenham usado. Não sabiam o que era! Menos ainda tinham ideia do potencial desta ferramenta de Inteligência Artificial. Fui rasteiro na minha “pesquisa” e, portanto, não sei com clareza os motivos que levam esses futuros profissionais a desdenhar esse conhecimento. Com o devido cuidado para não ser tomado pelo Efeito Bolha, me impressiona que pessoas que já estejam no ensino superior ainda não tenham tido contato com essa revolução tecnológica que estamos assistindo desde a popularização da IA, há pouco mais de um ano. 

Se ainda temos uma camada considerável da população sem acesso ao acessível ChatGPT e seus primos-irmãos, imagino que boa parte de nós — os da Bolha — ainda use os recursos de IA de forma infantil. A quantidade de possibilidades que essas ferramentas nos oferecem para elaboração de texto, análise de pesquisa, desenvolvimento de projetos ou criação de produtos e procedimentos é inalcançável. Todo dia, você que tenha um pouco de interesse no assunto, encontrará uma nova solução de IA.

Dos riscos que corremos, assim como acontece com todas as demais tecnologias à disposição, um deles é o deslumbramento e a hiper-dependência. As IAs generativas facilitam uma série de atividades como a elaboração de um texto sobre qualquer assunto que você se propuser a escrever (ou copiar). Porém, se você, refém desse nosso cérebro que está sempre em busca de atalhos para facilitar a sua vida, entregar apenas à IA essa tarefa, sem interferência e referências, corre perigo enorme de ver sua criatividade definhar, com a perda da capacidade de refletir e desenvolver pensamento crítico, que são as habilidades que nos oferecem vantagens competitivas. 

Um estudo recente que investiga equipes de trabalho e a Inteligência Artificial (IA), principalmente o uso do ChatGPT, esclarece realidades que tanto surpreendem quanto instruem. Este estudo, conduzido por Kian Gohar, CEO da GeoLab, e Jeremy Utley, da Universidade de Stanford, revela nuances importantes sobre a aplicação da IA em processos criativos de resolução de problemas nas organizações.

Colaboradores de quatro empresas, duas na Europa e duas nos Estados Unidos, foram divididos em equipes para enfrentar desafios empresariais específicos. Alguns grupos contaram com a assistência do ChatGPT, enquanto outros abordaram os problemas sem qualquer apoio da IA. O objetivo? Avaliar o impacto prático da IA generativa na geração de ideias e solução de problemas em equipe.

Os resultados, porém, foram modestos. Enquanto as equipes assistidas pela IA demonstraram um aumento significativo na confiança em suas habilidades de resolução de problemas – um salto de 21% –, as ideias geradas, em média, superaram apenas ligeiramente aquelas criadas pelos grupos de controle, com um modesto aumento de 8% no volume de ideias. Mais intrigante ainda foi o fato de que, embora as ideias geradas com a ajuda da IA tendessem a ser menos ruins, elas não eram necessariamente mais inovadoras ou criativas.

O foco aqui, segundo Gohar, não reside na capacidade da tecnologia, mas na abordagem e utilização desta tecnologia. A experiência demonstrou que a incorporação eficaz da IA em processos criativos requer uma redefinição do fluxo de trabalho e o desenvolvimento de novas competências. As equipes que se saíram melhor foram aquelas que trataram a IA não como um oráculo infalível, mas como um parceiro numa conversa contínua, explorando e aprofundando as ideias através de interações com a ferramenta.

Dentre as recomendações para maximizar o potencial da IA, destacam-se a necessidade de definir com precisão o problema a ser resolvido, dedicar tempo à discussão de ideias antes de consultar a IA, e treinar rigorosamente a ferramenta com informações detalhadas e específicas do contexto em questão. Além disso, a importância de manter um diálogo crítico e construtivo com a IA, desafiando-a e refinando as sugestões oferecidas, foi uma lição valiosa.

Joe Riesberg, vice-presidente sênior da EMC Insurance, uma das organizações participantes, reforça essa visão, destacando a importância de questionar e desafiar a IA para extrair respostas mais criativas e úteis. Sua experiência pessoal reflete um aprendizado crucial: a interação eficaz com a IA requer uma postura ativa, questionadora e, por vezes, crítica.

De volta a surpresa pelo desconhecimento de parcela dos estudantes de psicologia: volto a eles para lembrar que, enquanto muitos não se interessaram por essa tecnologia disruptiva, outros tantos engatinham ao explorá-la, e alguns se preocupam com a perda de autonomia ou criatividade, já temos profissionais bastante avançados nesse mercado.

Um dos usos frequentes entre os “vanguardistas do divã”  é a combinação do ChatGPT com ferramentas de análise de linguagem. A partir de textos escritos por pacientes, revelam-se aspectos significativos do estado emocional ou de processos cognitivos do paciente, auxiliando na formulação de abordagens terapêuticas mais direcionadas. 

É possível ainda criar cenários detalhados e realistas que podem ser utilizados em terapias baseadas em simulação. Isso é particularmente útil em abordagens como a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), onde a exposição simulada a certas situações pode ajudar os pacientes a desenvolver estratégias de enfrentamento mais eficazes.

Entre riscos e possibilidades, minha sugestão: desdenhar das oportunidades em virtude dos perigos ou do medo do desconhecido é muito mais nocivo à sua formação profissional. Nessa encruzilhada entre a inovação tecnológica e o genuíno potencial humano, está a chave para uma nova era de descobertas e crescimento profissional: não é a ferramenta que define nosso futuro, mas a maneira como escolhemos usá-la. E a inteligência artificial será tão melhor quanto for a inteligência humana.

Foi graças ao The Shift que tive acesso ao estudo publicado na Harvard Business Review que me inspirou a escrever esse texto.