Por Carlos Magno Gibrail
Encontramos cada vez mais nos estacionamentos, espaços reservados para os idosos. Shoppings, clubes, restaurantes. Deduz-se, portanto, que são nestes lugares que se deseja que eles estejam.
Enquanto isso, em New York, na semana passada, um pré-idoso estava competentemente salvando a vida de 155 passageiros, ao mesmo tempo em que a mídia e a população colocavam-o como herói.
De lá até cá, não encontrei nenhum comentário que ressaltasse o curioso sistema em que vivemos, pois com a idade de Chesley Sullenberg, herói incontestável, dificilmente se ocupa cargo executivo em grandes e médias empresas. Nem mesmo no serviço público, a não ser como presidente da república.
Ou como artista, afinal de contas as gravadoras não decidem sobre a popularidade dos contratados. É a sorte de Elton John, Mike Jaeger, Roberto Carlos, Caetano Veloso, Gilberto Gil, João Gilberto, Chico Buarque, etc.
Se as atuais CNTP (condições normais de temperatura e pressão) tivessem valido no passado, certamente estaríamos com atraso secular.
Pensadores, cientistas e pesquisadores que trouxeram grandes descobertas e novos pensamentos, em boa parte o fizeram já em idade madura e até mesmo, considerados os padrões atuais, como idosos. Além de terem trabalhado até a morte, coisa que estariam provavelmente impedidos de fazer nos dias de hoje.
A saber, Albert Sabin vacina antipóliomielite, Tycho Brahe Introdução à Nova Astronomia, Karl Marx O Capital, Galileo Galilei Nova Ciência, Max Planck física quântica, Emil Fischer química orgânica, Jean Batiste Lamarck fundamentos da biologia, Gertrude Elion farmacologia, Nicolau Copérnico o universo heliocêntrico, etc…
Da Korn/Ferry International, conglomerado multinacional com presença em 41 países, especializado em recursos humanos, ouvimos Rodrigo Araújo, 34 anos, sócio-diretor sobre as razões deste preconceito com os talentos seniores.
“Nas áreas tecnológicas, nos processos industriais, as empresas dão espaço aos executivos maduros, pois são funções que não há possibilidade de abrir mão da experiência acumulada. Todavia, no buraco do furacão, acredita-se que profissionais mais velhos tenham dificuldades de agüentar extensas jornadas, viagens constantes, etc.”
Será que os clientes do “Head Hunter” Rodrigo, rejeitariam no coração Jatene, na plástica Pitangui ou Dráuzio na oncologia? E o piloto sumiu…
Socorremo-nos com o sociólogo Zygmunt Bauman:
“Entre as artes do viver moderno líquido e as habilidades para praticá-las, saber livrar-se das coisas, prima sobre saber adquiri-las”.
“O bem estar dos membros da sociedade moderna líquida dependem da rapidez com que os produtos fiquem relegados a meros desperdícios e da velocidade e eficiência com que sejam eliminados. A indústria de eliminação de resíduos se converte em um setor fundamental (senão o mais importantes) da economia. Inclusive em nossa vida privada, amorosa, o principal problema não consiste em como iniciar uma relação, mas sim em como terminá-la, como desfazer-nos dele ou dela, uma vez que o amor se foi (sempre tão rápido).”
“Mas, por mais velozes que possamos ser nada nos garantirá que, na próxima volta (que se joga agora mesmo), não sejamos passados para trás e passemos então ao grupo dos eliminados”.
Eu, 66 anos, continuo lutando e adotando Chesley como meu herói do ano, o piloto que apareceu e prevaleceu.
Carlos Magno Gibrail é doutor em moda, as quartas-feiras escreve no blog e dá risada sempre que é orientado a estacionar o carro na vaga dos idosos.