Conte Sua História de São Paulo: da ave grande ao rio dos bagres

Carlos Pañella

Ouvinte da CBN

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Tinha cinco anos quando o caminhão de mudança encostou na escura rua Parazinho — ares bem diferentes do interior. Armstrong e Aldrin estavam por pisar na Lua e Ho Chi Min por deixar o mundo. Na minha angústia, fixei a vista no Mickey estampado na lataria do ford baú. 

O bairro era Jaçanã, nome dado pelos índios a uma ave grande, mas ninguém a via mais por ali. Por pouco perdemos o trem de Adoniran. Não passava mais, nem “amanhã de manhã”. Foi aí que tive meu primeiro caminho suave. 

Logo mudamos para o Tucuruvi, “gafanhoto verde” do tupi. Só soube disso depois de grande; e a figura do gafanhoto no bolso do avental do grupo escolar agora faz todo o sentido. 

Descartado o inseto, mudaram o bolso, agora com um desenho de vulcão. Explicaram que era uma homenagem a um advogado e jornalista curioso tragado por uma fenda do italiano Vesúvio. Meus irmãos e eu brincávamos nas argilas da rua Bonita, onde ainda se via os antigos trilhos. Hoje, abaixo do berço do trem roda o metrô. 

Remudamos  — mudança era com a gente mesmo! — para o Mandaqui. Olha o tupi aí: “rio dos bagres” que já não havia, fora engolido pelo asfalto. Tempos de namoros na cidade. Nunca vou me esquecer dos trólebus, com a traseira encurvada e os janelões que abriam verticalmente por duas “borboletas” pressionadas, deixando o vento bater no rosto. 

Fazia educação física no Tremembé — “terreno alagado” para os tupiniquins. Quando conheci o bairro, felizmente já estava seco. 

Saí da Zona Norte para o Centro só quando casei. Trabalhava em São Bernardo à noite e tentava dormir de dia. Durma-se com um barulho desses!

Passei a vida dizendo a mim mesmo que um dia voltaria a viver no interior, mas fui crescendo, assim como a metrópole, sempre em construção, aos trancos e barrancos. 

E quem não ama a Pauliceia?!?

Vou ficando por aqui, preso por essa mãe e irmã. A essa cidade-imã.

Carlos Pañella é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie agora para contesuahistoria@cbn.com.br. Ouça outros capítulos da nossa cidade, no meu blog miltonjung.com.br e no podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Miss Indígena revela beleza e cobiça que causam ciúmes nas tribos

 

 

O concurso Miss Brasil Indígena, que será realizado em Brasília, tem sido a oportunidade para a apresentação da beleza das índias brasileiras e, ao mesmo tempo, para se descobrir como elas têm sido cobiçadas por homens que não fazem parte das populações indígenas. Devanir Amâncio, sempre atento ao comportamento humano, que por muito tempo colabora com suas histórias neste blog, conta que muitas dessas moças não se casam com índios mas seus maridos acabam vivendo nas aldeias, o que estaria aumentando à população de homens brancos nestes locais:

 

“Muitas delas nem sempre se casam com índios, mas com juruás ou brancos. Aumenta o número de brancos nas aldeias de São Paulo. Só são aceitos na Casa de Reza depois que ‘assimilam’ a cultura e comportamento dos índios. Há quem até se finge de índio para se casar mais rápido. Quando não são aceitos, roubam a índia de madrugada.

 

“Preteridos por belas índias, índios enciumados acusam os juruás de exploração do sentimento e busca de vida fácil nas comunidades indígenas. Muitos se encostam mesmo… a ponto de brigar com o governo por mais dinheiro, segundo um índio adolescente da favela indígena do Jaraguá, Zona Norte, São Paulo. “Alguns juruás se dão ao luxo de ter amantes brancas”, comenta Pedro, filho do cacique. A maioria se casa vivendo numa acomodação total na aldeia – desfrutando, sem esforço, de todos os direitos indígenas, critica um ex-cacique. Faz questão de lembrar que não são todos malintencionados”.

 

O concurso que está sendo divulgado por Olívio Jekupé, da aldeia Krukutu, em Parelheiros, na zona sul de São Paulo, e Carlos Alberto Dias, da Fundação Nacional do Índio, será no dia 14 de setembro, em Brasília. Desde já, muitas das concorrentes desfilam no perfil do Facebook de ambos.

Conte Sua História de SP: Um índio na Capital

 

Yaguarê YamãA vida na natureza e no centro urbano se misturam nas histórias contadas por Yaguarê Yamã, nascido na aldeia Yàbetué, na cidade de Nova Olinda do Norte, em Paraná do Urariá, no Amazonas.

Índio Maraguá passou sua infância no norte do País, chegando em São Paulo apenas quando já havia concluído o período escolar. Chegou para estudar, fez Geografia, escreveu livros, contou histórias para crianças e casou.

No depoimento gravado ao Museu da Pessoa, para o Conte Sua História de São Paulo, Yagaré fala das lições de criança e como aprendeu a desenhar usando uma espinha de peixe. Da cidade grande, reclamou do frio e da solidão, mas, por contraditório que pareça, foi aqui na capital que descobriu seu amor – uma descoberta que ainda causa espanto aos seus amigos da aldeia.

Ouça trechos do depoimento de Yagaré Yamã no Conte Sua História de São Paulo, sonorizado por Cláudio Antônio<

Você também pode registrar a sua história, grave seu depoimento no Museu da Pessoa. Agende uma entrevista pelo telefone 2144-7150 ou entre no site do Museu da Pessoa .