Conte Sua História de São Paulo: a porta secreta da fábrica de chocolate

 

Eder Ziliotto
Ouvinte da CBN

 

 

São Paulo, 11 de março de 1959
Nasci! 
Rua Jackson de Figueiredo, 49
Bairro da Aclimação, Sampa

 

Sobradão delicioso de morar naquela rua gostosa. Escada de madeira e estuque no piso superior. A casa, à noite, gemia. A rua parecia mais uma vila mas com casas grandes e onde jogava-se bola descalço no paralelepípedo com a molecada do bairro, que ali eu trazia. Minha sorte é que eu tinha oito vizinhas garotas, duas em cada uma das quatro casas mais próximas. Até hoje não sei porque não me formei médico pois com elas brincava deliciosamente nessa prática ingênua sempre que me cansava das brincadeiras com os moleques. Não sei por que eu era tanto invejado por eles. Mas só eu tinha essa manha com as quatro mães das meninas.

 

Comprar na venda do Seu Izidro com caderneta era status. Tínhamos um arsenal de brincadeiras de rua que me deixava louco: peão, bola de gude, mãe da lata, fabricar maranhão, bilboquê, bafo, chiniquero livre 123, carrinho de rolimã, que a gente construía pra descer a Batista do Carmo … Ler gibi, também. A minha rua era um parque de diversões. Às vezes conseguíamos um exemplar usado de revistas de adultos com o homem da carroça trocando por algo que ele precisava, daí íamos dar risada nos fundos da sapataria do seu João, na minha rua mesmo.

 

Tínhamos uma redondeza de dar inveja. O quarteirão da caixa dágua com uma quadra de futebol; a quadra da Igreja Nossa Senhora Margarida Maria, na Lins de Vasconcelos; os espaços públicos do Parque da Aclimação a 800 metros dali; o cemitério da Lacerda Franco; a fábrica de chocolates da Basílio da Cunha; e até o Museu do Ipiranga, bastando descer de bicicleta insanamente a ladeira Coronel Diogo. Como ninguém morreu lá? Até hoje me pergunto. Éramos um pequeno bando de uns sete garotos entre sete e 10 anos de idade. Uma ganguezinha.

 

Tínhamos códigos para todas as atividades a qualquer momento do dia.

 

Entre aos 4h30 e 5h da manhã um dos integrantes da turma assobiava da janela do quarto — um fofiufofiu agudo — organizando a aventura. Saíamos sem nossos pais perceberem a essa hora e voltávamos geralmente antes das 6h30 direto pra baixo das cobertas, antes do dia começar.

 

Entre as “aprontações” tínhamos visitas à fábrica de chocolate por portas secretas; subíamos no topo da caixa d’agua sem permissão, eram mais de 30 metros de altura; entrávamos e saíamos do cemitério por acessos escondidos, só pra curtir o pavor e ouvir gemidos do além; no parque, a diversão era a pescaria proibida e, às vezes, entrar na água ou pegar um dos barquinhos de madeira que ainda existiam, só pela provocação; e, logicamente, na igreja, pra tentar fuçar no que não podia na sacristia e jogar bola quando o padre deixava ou não via. 

 

Do “Colégio 7 de Setembro”, na Lins de Vasconcelos, guardo lembranças preciosas de desfilar vários anos por aquela avenida, nas datas comemorativas tocando repique na fanfarra. Fui bicampeão com o colégio nessa modalidade pela mãos do maestro, o senhor Virgílio. Uma ocasião enganei meu pai na nota de uma prova e proibido de ir aos ensaios me arrisquei. Voltei pela orelha, do pátio do colégio até minha casa. Não teve surra, mas o vexame foi o suficiente.

 

Noutro dia numa mega festa do colégio, eu presenciei uma cena arrebatadora. Aguardávamos os ídolos da jovem guarda e eis que vejo com aqueles meus pequeninos olhos, de oito ou nove anos, na porta do colégio, saltarem de um  Cadillac conversível nada mais nada menos do que Roberto Carlos, Wanderleia e Erasmo Carlos. Eu lembro de ter tocado neles. Eles estavam se tornando estrelas na época.

 

Com 12 anos, ajudava meu pai no escritório, na rua São Francisco, no centro. Ia de ônibus elétrico CMTC, sozinho, da Margarida Maria até a Líbero Badaró ou a Praça da Sé — uma aventura, pelo menos duas vezes por semana. Conheci cada palmo  do centro de São Paulo e tinha um amigo que, desde pequeno, já era maestro e sua mãe nos levava na temporada lírica do Municipal. Eram duas atrações mágicas: as óperas e as visitas ao Mappin, naqueles elevadores estilo Bloomingdales.

 

E o bonde para Santo Amaro? Inesquecível! Visitávamos sempre tia Mariquinha a irmã rica e mais velha de meu pai que morava num palácio, na frente do Borba Gato, num quarteirão só dela, com meu tio, o amigão do Juscelino Kubitschek. 

 

Mas o que quero contar mesmo é que eu nunca tive medo de andar sozinho desde pequeno na cidade de São Paulo. Ela sempre foi minha amiga. Eu nunca presenciei ou sofri até hoje nenhuma violência nesta cidade que é uma das mais violentas do mundo. Eu só quero agradecer essa mãe  querida de quase 500 anos por me respeitar como cidadão; e desejo, e apenas quero, retribuir esse carinho.

 

Parabéns Sampa querida.

 

Eder Spencer Quinto Ziliotto é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva para milton@cbn.com.br. Para ouvir outras histórias, visite agora o meu blog miltonjung.com.br

Conte Sua História de São Paulo: a matraca do homem que vendia biju

 

Por Esperança Maria Domingos
Ouvinte da CBN

 

 

Cheguei a São Paulo no ano de 1949 vinda de Belo Horizonte, cidade em que nasci. Fui trazida pela minha mãe, que havia chegado à capital paulista alguns anos antes para trabalhar. A viagem de Belo Horizonte para São Paulo foi longa. Naquele tempo, o trajeto era feito de trem, e havia várias baldeações ao longo da viagem. O trem saía de Belo Horizonte com destino ao Rio de Janeiro, por isso era necessário descer e tomar outro trem com destino a São Paulo.

 

Desembarquei no dia 20 de fevereiro e três dias depois completaria onze anos. A cidade encantava, tudo me parecia lindo, uma “aparente” organização, “aparente” limpeza; digo aparente, pois com o tempo e à medida que eu crescia fui percebendo que a cidade já tinha seus problemas, que mais tarde se tornariam muito complexos, mas naquele tempo, eu ainda muito
jovem, a imagem primeira da cidade me deixou maravilhada.

 

O bonde era uma viagem gostosa, o clima era mais agradável e não nos deparávamos tanto com os problemas de enchentes e bairros inundados, bom pelo menos essas não eram as notícias que mais circulavam na imprensa como ocorre hoje em dia; outra coisa me deixou estupefata, “boquiaberta” foi o túnel Nove de Julho, a imensidão, o movimento dos carros.

 

Em seguida, aos poucos, fui descobrindo as matinês no Cine Metro, para assistir aos desenhos da Disney, como a Branca de Neve.

 

Fui estudar no Grupo Escolar do bairro do Brooklin Paulista, com professores, que se dedicavam com empenho ao seu trabalho de educadores … não há como não sentir alguma nostalgia do meu tempo, no que diz respeito à questão do sistema educacional.

 

Era uma vida mais tranqüila, mesmo com pouco dinheiro podíamos viver com alguma dignidade, andávamos sem medo e com alguma liberdade. Creio ter conhecido o lado melhor da cidade de São Paulo, uma metrópole que inspirava sonhos.

 

Os passeios em São Paulo eram divertidos e guardo muitas recordações e lembranças afetivas. Eu ainda consigo ver e ouvir o homem que tocava matraca anunciando o biju.

 

Aqui em São Paulo casei, morei em vários bairros da zona sul à zona norte, e três dos meus cinco filhos nasceram paulistanos.

 


Esperança Maria Domingos é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva seu texto para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo – 464 anos: uma lembrança que não é minha

 

 

 
Por Anna Frank
Ouvinte da Rádio CBN

 

 

 

 

 

 

Entre 1970 e 1973, estudei no Ginásio Estadual de Vila Nova Friburgo, próximo do bairro de Interlagos. Foi nesse período que conheci uma amiga que estudou comigo os quatro anos. Ela morava no bairro de Veleiros, que ficava próximo da escola. Tinha um pai muito bravo e de pouco diálogo com os filhos. Nas disputas, sempre prevalecia a vontade dele. Lembro que minha amiga tinha muito medo do pai.

 

 

Naquela época, as crianças podiam voltar à pé da escola para casa e nós duas, sempre juntas, caminhávamos falando de nossos sonhos e pensando em nosso futuro, casamento, filhos … Nós adorávamos ouvir Renato e Seus Blues Caps, que era o máximo do rock brasileiro. Também gostávamos de um doce puxa-puxa, um tipo de melado que toda garotada comia. Havia o guaraná caçulinha, o bolo Pulman – que delícia! Inesquecível!

 

 

Ah, tinha a Jovem Guarda com suas guitarras e músicas barulhentas. Era moda usar calça boca de sino e blusa de seda com babado. Além da mini-saia, que minha amiga guardava na minha casa para vestir depois da escola sem que o pai dela soubesse.

 

 

Minha amiga gostava muito da mãe dela, que parecia uma pessoa muito doce e meiga, carinhosa com os filhos. Sempre tinha um sorriso e um beijo guardado no coração.

 

 

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Como nem tudo na vida é sonho, a mãe dela morreu de repente e a vida dessa amiga passou a ser um inferno. Além de sofrer a perda da mãe, tinha de suportar a tirania do pai. Sequer a morte da mãe podia chorar. O pai, numa atitude de desespero, trancou o quarto da mãe, proibindo para sempre que ela pudesse entrar lá. Com medo de perder todas as lembranças, essa amiga me incumbiu de guardar uma blusa que era da mãe dela. Disse que a pegaria mais tarde, quando as coisas estivessem mais calmas.

 

 

Nós estávamos no último ano do ginásio quando aconteceu essa tragédia. Eu fui para o Colégio Oswaldo Aranha fazer o colegial e perdi o contato com ela. Agora, após 30 anos, eu gostaria muito de poder devolver esse tesouro a essa amiga de infância, que guardo até hoje em memória de sua querida mãe.

 

 

Desculpe-me a falha de memória, mas infelizmente não lembro mais seu nome e também não sei se ela ainda lembra dessa triste história. Mas não gostaria de fazer minha transmutação sem cumprir esta missão tão importante que ela deixou em minha
vida.

 

 

Anna Frank é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Venha comemorar mais os 464 anos da nossa cidade: escreva seu texto para milton@cbn.com.br.

Desvendando fantasmas

 

 

Por Christian Müller Jung

  

 

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Quando tinha cinco de anos de vida, minha cama ficava voltada para porta do quarto. De lá podia ver a mureta que separava a escada que dava acesso ao corredor. Muitas das vezes em que de sobressalto acordava com um barulho ou tão somente para virar de lado, olhava rapidamente para aquela direção e via um vulto que descia.

  

 

Em algumas datas o formato era evidente: no Natal o Papai Noel e na Páscoa, logicamente, algo parecido com o coelho que viria depositar a tão esperada cesta com os ovos. Evidentemente que no despertar noturno, até a pupila fazer a movimentação necessária para suprir a falta de luz, aqueles fantasmas tinham o formato da minha imaginação. Assustadora na maioria das vezes, como são esses medos de dormir com a luz apagada. Poderia ser o tal “velho do saco” ou sei lá o que mais que passa por essas nossas cabeças infantis e muito criativa na época. Nem bicho papão e ninguém embaixo da cama: simplesmente um assustador vulto na escada.

  

 

Hoje, com 50 anos e ainda morando na mesma casa, agora ocupando o quarto do casal e, ao mesmo tempo, me vendo ali onde meus pais dormiam, os tais fantasmas já não me assombram quando abro os olhos durante a madrugada. Eles me aparecem quando fecho os olhos. Justo agora quando eu é quem os assustaria porque sei, conheço cada gemido do material que sustenta das paredes ao teto da casa.

  

 

É engraçado como o nosso cérebro funciona dando luz à imaginação, indiferentemente da idade. Somos tão absorvidos pelo susto que mesmo quando já temos consciência de que os vultos que eu via na infância não me levariam para um lugar desconhecido, ainda assim me surgem fantasmas.

  

 

A diferença é que agora eles se parecem muito mais reais e pertinentes com as minhas perspectivas diante da idade que tenho. São em forma de sucesso profissional que não vem na proporção como imaginei, de salário muito distante do que preciso, de relação mais racional sobre o tempo que me resta e do tanto que ainda tenho para absorver.

  

 

Pode ser do filho que se distancia porque vai seguindo o seu próprio caminho, pode ser pela minha filha que cresce e convive com uma paralisia e nunca se distanciará. Pode ser somente pelo tempo. A angustiante tarefa de ser adulto, como também é a de ser adolescente e de ser criança.

  

 

Fantasmas que hoje tem o formato desse paradigma que é a existência. Da forma como a gente imaginou que um dia seria o nosso “futuro”. Desse mesmo vulto inexistente que eu enxergava da cama do quarto e ainda teme em tentar me frear ou me direcionar ao desconhecido.

  

 

A verdade é que todos os dias quando abrimos os olhos temos tão somente duas opções a tomar: ou deixamos que eles nos levem para o buraco infinito da falta de explicação; ou criamos nós mesmos o formato que queremos que eles se transformem.

  

 

Não! Eu conheço bem a minha casa.
Aviso aos fantasmas.
Eu ainda tenho muito para lhes assustar!

  

 

Christian Müller Jung é cerimonialista, palestrante e meu irmão (não necessariamente nesta ordem)

Conte Sua História de SP: nasci no apito do trem e fui morar no Jaçanã

 

Por Misael Soares Silva
Ouvinte da CBN

 

 

Nasci em 1944, no extremo sul da cidade de São Paulo, no bucólico distrito de Engenheiro Marcilac, quando fui saudado pelo apito estridente de uma Maria Fumaça.d

 

Por volta de meus quatro anos, fomos – eu e minha família – morar em Santo Amaro, bem ao lado do Condomínio da Chácara Flora que tinha 12 portões por onde se adentrava livremente em um mundo encantador, de onde resgato doces lembranças de minha infância.

 

Com um espírito movido por muita curiosidade, sempre quis saber como funcionavam meus brinquedos que, via de regra, acabavam quebrados; isso me fazia criar meus próprios brinquedos, como um trenzinho de latas de sardinha ou um jogo de botões feito com tampas de remédio.

 

Meus projetos se realizavam garimpando o que precisava nos lixos da própria “Chácra” (como a chamávamos) onde também encontrava brinquedos quebrados que muitas vezes eram recuperados.

 

Lá também funcionava o Instituto Metodista, que reunia as crianças da região para que as alunas aplicassem seus aprendizados em atividades lúdicas, como brincadeiras, teatros, corais entre outras.

 

O tempo se foi e, há poucos dias, passando por lá vi uma placa. Onde funcionou o Instituto estava escrito: VENDE-SE; que tristeza. Menos de um mês já havia outra: VENDIDO. A tristeza transformou-se em dor, pois senti que uma página da minha infância fora rasgada.

 

Hoje, moro no extremo norte da Pauliceia Desvairada, em Jaçanã, imortalizado por Adoniran Barbosa.

 

Lembro que em 1991, quando a Central Brasileira de Notícias nascia, comemorei minha bodas de prata; hoje, quando a CBN está se preparando para comemorar os seus 25 anos, também estou preparando-me para comemorar, coincidentemente no mesmo mês de outubro, meus 50 anos de casado.

 

De minha infância ainda me lembro de meu saudoso pai ensinando-me Meus Oito Anos, de Casimiro de Abreu, que agora canto baixinho:

 

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, aos sábados, logo após às 10h30, no programa CBN SP. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode enviar seu texto para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de SP – 462 anos: aquela turma do Itaim Bibi

 

Por João Batista de Paula

 

 

Minha rua era recheada de história. As pequenas casas com seus jardins sem padrão definido e flores de todas as espécies, que se confundiam com pequenas arvores frutíferas e arbustos; daí vinham os pássaros e as borboletas, e o cheiro de pessoas amigas, e a vida calma que levávamos.

 

A casa de número três da rua Mário de Castro era a primeira casa, morava o senhor Emílio; a minha era de número 7, há uns vinte metros, se tanto, do Córrego do Sapateiro, no Itaim Bibi, zona oeste da cidade.

 

Isso há uns bons 77 anos.

 

Seu Emílio era alto, parecia personagem das aventuras dos Sete Mares. Antes do dia escurecer, costumava ficar em seu portão vestido de branco. Ele não usava cinto, e sim uma larga faixa de tecido vermelho enrolada na cintura. Apesar dos meus 83 anos já vividos, ainda posso enxergá-lo com seu cigarro de palha, olhando o sol se por. Essa figura, embora gigante aos olhos de um menino, não metia medo. Seu semblante era de paz. Nos impressionava mesmo era a grande família que tinha: doze pessoas.

 

Vamos a elas, o casal Sr. Emilio Carota e Dona Julia Carota. os seus filhos por ordem de idade: Armando Alberto, Néca, Ermelinda a (Nuje) Rosa, Mafalda, Nélia, Olga, Lolita, e Nina.

 

Quantos casamentos nessa família, quantas festas juninas, quantas risadas e choros dessas pessoas que enfeitaram minha infância e adolescência.

 

A Mário de Castro até já mudou de nome. Agora é a Fernandes de Abreu. Mas, se me concentrar bem, ainda lembro das brincadeiras naquela rua. Éramos uns 20 ou mais meninos e meninas.

 

A noitinha, quando estávamos no auge das brincadeiras, vozes vindas das casas, chamando Olguinha, Nélia, …. tá na hora, a mãe tá chamando … Dito, Nelson, Lúcia, Guiomar … Tchau, tchau, amigos! E disparavam em direção a suas casas. Minha mãe sempre me consolava: dê tempo ao tempo!

 

Uma grande verdade. O tempo é senhor de tudo e de todos. Sem nos darmos conta fomos seguindo nosso rumo. Assim como nos encontramos naturalmente e, por acaso, também nos separamos.

 

Às vezes nos meus devaneios, tenho vontade de gritar bem alto para toda aquela turma do Itaim Bibi: Tchau, tchau – ate amanhã!

 

João Batista de Paula é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A narração é de Mílton Jung e a sonorização de Cláudio Antonio

 

Lembro do tempo em que jogávamos bola na pracinha

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Tenho por hábito ler,quando tomo o meu café da manhã, as páginas da Zero Hora que tratam de esportes. As que mais me interessam são as que versam sobre futebol,automobilismo de competição e basquete e tênis,nessa ordem. Não deixo também de dar uma olhada na que ZH batizou como “De Fora da Área”. Confesso que nem sempre,dependendo do assunto,sigo lendo o texto do dia até o fim. O dessa segunda-feira,17 de novembro,foi um dos que chamaram a minha atenção.Li-o de cabo a rabo.

 

Cristiel Gasparetto,editor de esportes do Diário Gaúcho,um dos jornais que fazem parte do Grupo RBS,informo aos que não são de Porto Alegre,assinou um texto com o seguinte título:”Menos Videogame e mais campinhos”. Lembra adiante que,na sua infância,na década de 80 em Santa Maria,os espaços para a prática do futebol eram fartos”. “Passávamos horas jogando bola em campinhos ou mesmo no meio da rua de paralelepípedos que quase não tinha movimento”,escreveu Gasparetto. No texto,propriamente dito,queixa-se que vê crianças hipnotizadas diante de monitores. Essas,hoje em dia,passam o seu tempo livre,desde que sejam controladas por seus pais para que não exagerem,jogando videogame.

 

Ocorre que, se os jovens da década de 80,foram talvez os primeiros a ver minguarem os espaços livres,onde jogavam futebol,o que dizer dos que vieram ao mundo bem depois. Gasparetto lembra como era fácil montar projetos de goleiras e improvisar outros apetrechos parecidos com os do futebol de verdade,o dos estádios, e jogar mil peladas,de pés descalços,os mais ricos com chuteiras,aquelas com uma proteção na frente,que facilitava dar bicos na bola quando isso se fazia necessário.

 

Eu,que nasci na década de 30,ainda aproveitei muito os espaços vazios. Morei grande parte tanto da minha infância quanto da adolescência,até me casar,na Rua 16 de Julho,157,que era separada da Zamenhof por uma pracinha. Foi o único espaço livre, depois que todos os terrenos baldios foram ocupados,no qual jogamos vários arremedos de esporte:futebol,vôlei,basquete e até tênis.A prefeitura de Porto Alegre tentou plantar flores no local,mas quando os trabalhadores terminam o serviço e iam embora,recuperávamos o “nosso” espaço.

 

Trabalhei 60 anos na Rádio Guaíba e várias vezes fui a São Paulo para transmitir futebol. Em um hotel no qual nossa equipe se hospedou,havia um computador e nele era possível jogar o tataravô dos videogames. Os jogos,pouco depois,foram se sofisticando e ficaram cada vez mais atraentes,que o digam os meus netos homens: Gregório e Lorenzo,paulistanos; Fernando,gaúcho de Porto Alegre.

 

Dos meus filhos,apenas o Mílton se dedicou a jogar futebol,primeiro na escolinha do Grêmio e após,basquete,também pelo Imortal Tricolor,começando no infantil e chegando ao time adulto. Fernando,filho do Christian,joga basquete no Colégio Nossa Senhora do Rosário. Ah,Malena e eu,diariamente,jogamos Tetris,um game que nos acompanha faz muitos anos. Seja lá como for,gostei do texto do Gasparetto. Ele me fez lembrar do tempo da pracinha,que nunca foi ocupada. Não sei se os meninos que moram nas duas ruas ainda a usam para praticar esportes. Acho,porém,que preferem videogame.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, publica seu texto no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Conte Sua História de SP: rodei o mundo e vivo no Copan

 

Por Edyr Sabino
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Eu era pequeno quando vim à São Paulo pela primeira vez. Foi há 50 anos. Eu tinha apenas 7 anos de idade. Minha família havia comprado nosso primeiro apartamento na Capital. O termo metrópole estava começando a fazer sentido para mim. Nossa vida no interior, Penápolis, era bem mais tranquila. Eu não me lembro muito bem da viagem de lá para cá, pois dormi a maior parte do tempo. Acho que me deram algum remédio para dormir durante a viagem e não vomitar. Mas me lembro do dia quando cheguei aqui pela primeira vez na minha vida. A cidade de São Paulo era grande. Era década de 1960.

 

Atravessar a Av. Ipiranga era um desespero. Minhas tias Elmaza e Geni apertavam as minhas mãos, dizendo que era para eu não escapar. Elas não contavam que estavam com medo de atravessar a rua sem serem atropeladas. Elas eram músicas e acho que já haviam ouvido Adoniram Barbosa cantar sobre uma moça chamada Iracema, que morreu atropelada num esquina ali perto, na Av. Sao João. Eram aqueles ônibus Mercedinho, azul e creme, que passavam.

 

Eu gostava do que via. O Edifício Copan ainda tinha andaimes, ainda estava em obras, e nos já tínhamos apartamento quitinete no bloco B, 8º andar. Aquele monte de botões nos elevadores me impressionavam. Ver aquelas rampas que sobem ou descem naquele bloco e o corredor enorme e tortuoso, cheio de portas uma ao lado da outra. Parecia ter uns 20 apartamentos por andar, com muito eco. Tínhamos que caminhar em silêncio, senão poderia chamar a atenção dos outros moradores. Mas não tinham muitos moradores ainda. O prédio ainda não havia sido oficialmente inaugurado. Meus tios pisavam forte e minhas tias, bastavam chinelos. Som que gerava um eco inconfundível.

 

A cidade era cinza. Foi quando eu aprendi o termo garoa! Terra da Garoa!

 

Não nasci em São Paulo. Adoraria sair desta cidade, mas é nela que vim morar e é nela que eu vivo. Rodei o mundo, e vivo no Copan, na cidade de São Paulo até hoje

 


Edyr Sabino é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio.

Conte Sua História de SP: do cheiro de café na padaria à serração

 

Lia Araujo
Ouvinte-internauta da CBN

 

 

 

Tenho muito carinho em falar sobre a São Paulo querida dos paulistanos! Sempre que penso sobre minha cidade natal tenho um sentimento relacionado à infância. Acordando cedinho em casa, sentia o cheirinho  do café de coador e do filão de fresquinho da padaria mais próxima. Acompanhando minha mãe à feira livre, abarrotada de pessoas apressadas e feirantes animados. Parando na banca de pastel com garapa. Aos domingos, vendiam até frangos e pintinhos vivos.

 

Sou do tempo que era possível atravessar tranquilamente a praça da Sé ou o Vale do Anhangabaú ou a Praça do Patriarca, mesmo em altas horas da noite sem medo. Sim, São Paulo já foi uma cidade tranqüila durante à noite. Antes do metrô, os ônibus eram seguros e em número suficientes, também. A população era apenas a metade da atual.

 

Todas as manhãs e no inverno à noite, por conta da densa vegetação,  havia serração, às vezes acompanhada de garoa, a famosa garoa que caiu no esquecimento, após o advento da poluição proveniente de tantas indústrias e veículos. As indústrias já estão se diluindo pelo interior; enquanto os carros aumentam cada vez mais em número e modelos variados. Até o bonde agora é motivo de folclore na lembrança dos cinqüentões.

 

Impossível lembrar-se de São Paulo sem falar dos inúmeros migrantes e descendentes de imigrantes. Havia o bairro dos italianos, dos japoneses, dos árabes, dos judeus, dos libaneses, dos portugueses. Muito interessante como essa gente miscigenou-se e transformou São Paulo nesta terra tão pródiga para todos. A megalópole de milhões de habitantes. A cidade que não pára, não dorme, não cala.

 

Prezo em manter esta memória que passo para os jovens, divido com eles todo o encanto que um dia me proporcionou esta São Paulo.

 

Lia Araujo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: agende entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Ou envie seu texto para milton@cbn.com.br.