Conte Sua História de SP: dos tempos da Vila Medeiros

 

Por Odnides Pereira
Ouvinte-internauta da CBN

 

Ouça esta história que foi ao ar no CBN SP, sonorizada pelo Claudio Antonio

 

Minha história com São Paulo começou quando em 21 de abril de 1959, nasci na maternidade de Vila Maria, meus pais moravam em um cortiço no bairro de Vista Alegre, já tinha um irmão de dois anos. Depois eles comparam um terreno na Vila Medeiros na divisa com a Vila Sabrina (todos esses bairros estão na zona norte), onde construíram nossa casa existente até hoje. Naquela época parecia não haver tanto perigo, tanto que minha mãe percebendo que choveria pediu que eu levasse um guarda-chuva para meu irmão que estava na escola de madeira (Escola Estadual Enéas de Carvalho Aguiar) onde estudava o primeiro ano primário. Bati na porta, a professora abriu, em um primeiro momento não me viu, eu tinha cinco anos. Depois pediu para meu irmão avisar minha mãe para não repetir essa façanha, pois eu poderia me perder.

 

Minha infância foi jogar bola, brincar de “manda rua”, esconde-esconde, raqueta ou taco, estreação de nova cela, bolinha de gude, pega-pega, entre outras brincadeiras sempre na rua que não era asfaltada. Quando chovia muito, além de jogarmos bola na chuva, e dava enchente por não existir as galerias de água, meus amigos e eu, entrávamos na correnteza no início da rua e só parávamos no final dela.

 

Onde hoje é o Jardim Guançã era o nosso Varjão, existiam por volta de dez campos de futebol de várzea. Aos domingos, assistíamos aos jogos. Como os campos eram muito perto um dos outros muitas vezes a bola de um jogo caprichosamente caía no campo do outro, mas nada disso atrapalhava ninguém. No caminho para o Vajão, existiam lagoas, pescávamos os pequenos lambaris. Era muito divertido.

 

Estudei o primário na escola de mesmo nome que meu irmão estudou, e já era de tijolo recém-reconstruída. Tive que fazer o exame de admissão e fui estudar o ginásio no Primeiro Colégio Estadual de Vila Medeiros. Às vezes tinha que correr da gangue da Turma do Coqueiro. Fiz a primeira comunhão na Igreja Nossa Senhora do Loreto também na Vila Medeiros.

 

Tinham os “bailinhos na garagem” com muito samba-rock, regado por Jacson Five, Billy Paul, Barry White e até Pink Floyd. Dançávamos até tarde ou seja onze e meia da noite.

 

Fiz o curso técnico de eletrônica, na Oswaldo Cruz – Paes Lemes, que era o colégio técnico, onde se fazia o colegial, também. O curso superior de Marketing, foi na faculdade IBTA.

 

Casei-me tenho um filho e um neto, sou aposentado, tenho uma chácara em Itu, mas continuo a morar na zona norte agora no Bairro do Mandaqui. Já pensei em mudar para a chácara, mas minha esposa não quer sair dessa nossa capital, que apesar da correria, trânsito, entre outras coisas, não conseguimos nos afastas de tudo isso, impregnou no nosso sangue! Adoramos São Paulo.

 

Conte você também mais um capitulo da nossa cidade. Agende uma entrevista em áudio e vídeo no site do Museu da Pessoa ou mande um texto para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: infância paulistana

 

Por Adriana Cavalcanti
Ouvinte-internauta

 

Ouça este texto sonorizado pelo Cláudio Antônio

 

Quando volto no tempo e penso em meus pais criando cinco filhos, sinto o maior orgulho de pertencer a esta família e a esta cidade tão linda chamada São Paulo. Uma das fases mais marcantes foi a minha infância. Imagine educar e ao mesmo tempo entreter cinco filhos na década de 1960.

 

Meus pais fizeram isso com maestria. Lembro como se fosse hoje de nossos piqueniques no Museu do Ipiranga e no Zoológico. Dentro de uma DKW Vemaguete Rio, de cor marrom, lá íamos nós – meu irmão e eu, os menores, no colo de minhas irmãs. No porta malas uma cesta com guloseimas e uma grande lata térmica na cor vermelha. Uma espécie de “cooler” à moda antiga. Inesquecível.

 

E foi também inesquecível nossa mudança do bairro do Ipiranga para o Jardim da Saúde. Foi em 1966 e eu tinha três anos, a menor da turma. Morávamos na Rua Loreto. Acho que na época havia cerca de quatro casas na rua, que ainda era de terra, assim como todo o bairro. Um lugar e uma época propícios para brincar sem se preocupar com os carros e a violência.

 

Um das brincadeiras era empinar pipa. Nos fins de semana, a família inteira empinava as pipas feitas por nós mesmos. Havia uma coleção delas pendurada na garagem de casa. Era uma delícia. Acho que meus pais se divertiam muito mais do que a gente.

 

Cresci naquele bairro. Meus irmãos e eu saíamos de casa cedo e só voltávamos na hora das refeições, geralmente acompanhados de alguns amigos. Brincávamos o dia inteiro nos fins de semana e durante as férias. O portão e a porta de casa ficavam sempre abertos.

 

As primeiras pedaladas também foram lá. Ganhei minha primeira bicicleta com seis ou sete anos. Era uma vermelha com rodinhas, que rapidamente foram retiradas pelo meu pai assim que aprendi a pedalar.

 

Um tempo que guardo bem na memória.

 

Hoje, tenho uma filha de 14 anos. Infelizmente, ela não sabe o que é brincar na rua. Mas com certeza aprendeu como aproveitar o que a cidade de São Paulo nos oferece. Ainda frequentamos o Museu do Ipiranga, o Zoológico e outros locais bacanas na cidade. Mas acabamos elegendo o Parque do Ibirapuera como o quintal de nossa casa. É lá que pratico as minhas corridas pela manhã e aproveito para assistir a São Paulo amanhecendo. É um momento único, encantador. É lá, no parque, que minha filha, desde pequena, e eu nos aventuramos pelas alamedas, brincamos, andamos de bicicleta e de patins. É lá também, no Ibirapuera, que conhecemos algumas pessoas maravilhosas que fizeram diferença em nossas vidas.

 

São Paulo é isso. Uma imensa cidade cheia de lugares especiais, para todos os gostos. Mas para aproveitá-la é preciso seguir o que aprendi com meus pais: viver intensamente ao lado de quem se ama.

 

Adriana Cavalcanti é personagem do Conte Sua História de São Paulo.Marque uma entrevista no Museu da Pessoa. Ou mande seu texto para Milton@cbn.com.br.

Meu presente de Natal

 

Por Milton Ferretti Jung

Quase às vésperas da data principal dos cristãos, entre os quais me incluo, elegi, para compor este papo de quinta-feira, um assunto natalino, embora de cunho pessoal. Lembro, com saudade, dos antigos Natais, o que não tem nada de espantoso. Afinal, creio que é imenso o número de pessoas que comunga de sentimento idêntico. As melhores lembranças, é claro, as minhas, pelo menos, são as que me remetem para a infância e a adolescência, épocas da vida em que aguardamos com ansiedade,  por dois dias do ano: 24 e 25 de dezembro. O Dia Santo de Guarda é aquele no qual recordamos o nascimento de Cristo, mas era – e ainda é – na véspera dele que os presentes esperavam por nós ao pé da árvore de Natal.

Eu gostava, como não, de todo e qualquer mimo natalino. Ano após ano, no entanto, torcia para que o meu pai lembrasse daquele mais querido por mim: uma bicicleta. Minha irmã, quatro anos mais nova, já ganhara a sua bike como presente de Natal. Fiquei magoado e, confesso, com inveja dela. Fez por merecê-la ao se sair bem no ano letivo, coisa que não ocorreu comigo, fato não incomum na vinha infância, adolescência e juventude. Ainda bem que ela costumava concordar em me emprestar a sua Monark. Era meu consolo. Mirian, este o seu nome, quando ganhou sua bicicleta, passara de ano, no colégio, com notas altas. Ao contrário, eu havia ficado em segunda época em matemática, o que acontecia quase todos os anos. Imaginei que talvez pudesse ganhar a minha no Natal de 1945.

Meu pai colocou à minha disposição um vizinho, que era professor universitário de física. Com este reforço, ele acreditava que me salvaria de uma repetência. E o mestre, realmente, deixou-me em condições de evitar o pior. Passei. Na esquina da rua em que morava minha família havia uma loja que vendia máquinas de escrever, calculadoras e outras coisas do tipo. Um belo dia, olhando pela vitrina, o que vi? Uma belíssima bicicleta. Sequer me atrevi a entrar para vê-la de perto. Nunca, evidentemente,eu ganharia uma igual. Talvez, quem sabe, teria de me contentar com uma usada, como uma Opel que foi emprestada ao meu pai por um amigo, mas apenas para ser aproveitada na nossa casa, na praia.

Para minha surpresa, a alegria paterna com o meu avanço no colégio valeu-me não uma bicicleta, mas a que eu vira na loja da esquina, nada mais, nada menos do que uma Centrum, importada da Suécia. Possuía guarda-lamas e aros de alumínio, pneus do tipo balão, bagageiro com caixa lateral de ferramentas, banco com molas bem mais macias do que as encontradas em bicicleta modernas. E de cor azul, como se soubesse que o seu dono seria um gremista fanático. A linda Centrum ainda roda de vez em quando, pilotada pelo  meu filho Christian, seu herdeiro. Valeu a pena esperar por ela.

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

O Nascimento da Excelência

 


Por Cesar Cruz
Ouvinte-internauta da CBN

Imagino que deva ser uma experiência única presenciar o momento exato em que um prodígio, um gênio, dá o seu primeiro passo em direção à imortalidade. Fico imaginando quem foi o felizardo a presenciar as pinceladas iniciais de um Van Gogh, a primeira criação de um Da Vinci, ou os acordes prematuros do pequeno Beethoven… Ah, eu daria dias da minha vida para presenciar algo assim! Mas a verdade é que gênios são raros. A iniciação dos comuns, como eu e você, é o que mais nos interessa.

Nós, os comuns, temos que começar bem cedo a praticar se quisermos alcançar algum nível de excelência em nossos ofícios. Os atletas começam muito cedo; dizem que os ginastas, aos 4 anos, já ensaiam suas primeiras cambalhotas nos ginásios. E é justamente com essa precocidade que estão sendo treinados alguns segmentos profissionais atualmente.

Veja, por exemplo, a prematuridade dos meliantes no quesito iniciação. É de se tirar o chapéu! É dessa forma que precisamos preparar os nossos filhos para o futuro!

O que aconteceu à minha mulher num dia desses é um bom exemplo a ser seguido.

Ao parar o carro em um semáforo da Rua do Lavapés, no Cambuci, ela ouviu um aviso de assalto:

— Aí tia, seguinte: isso é um assalto, eu não quero machucar a senhora, é só entregar tudo.

Minha mulher olhou na direção da janela e não havia ninguém ali. De onde teria vindo aquela voz? Observou com mais atenção e percebeu que na porta repousavam duas mãozinhas e uma carinha miúda, apoiada pelo queixo.

— Que foi, menino?

Segundo a Vanessa, o pequeno meliante teria quando muito uns 5 anos, e com ele não havia nada que pudesse ser apresentado como arma. As sobrancelhas apertadas no centro da testa e o olhos espremidinhos, eram o resultado do esforço do menino em intimidá-la.

O garotinho repetiu exatamente a mesma frase, no mesmo uníssono monótono, sem pausas, como num mantra:

—Aí-tia-seguinte-isso-é-um-assalto-eu-não-quero-machucar-a-senhora-é-só-entregar-tudo.

— Não tenho nada não, menino! — disse ela, firme.

— Então me dá o rádio.

— Imagina!

— E aquela lupa ali? — e apontou um dedinho pros óculos de sol no console.

— De jeito nenhum!

A inadequada máscara de bandido já começava a se diluir, e, sem se dar conta, o pequeno assaltante voltava a ser uma simples criança.

— E aquilo ali? — agora curioso e pedinte.

— Não meu bem, aquilo ali é pra titia trabalhar.

A essa altura minha mulher já tinha assumindo aquela universal maternidade que todas as mulheres parecem ter com as crianças. Então se inclinou, pegou algo no porta-luvas e deu na mãozinha do menino

— Toma essa balinha.

O semáforo abriu e ele correu. Pelo retrovisor ela pôde vê-lo enfiando a bala na boquinha e saltitando até a calçada, naqueles pulinhos típicos dos meninos pequenos. Fora se reunir com os maiores, de 12, 15 anos que observaram toda a sua iniciação e certamente teriam comentários técnicos a fazer, sugerir pequenos ajustes, propor mais firmeza…

Apesar de tragicômico, o episódio reserva-nos uma grande lição: os profissionais do futuro já estão praticando desde pequenos, e em simuladores reais! É por isso que os nossos policiais, que entram na Academia já adultos e em poucos meses já são colocados nas ruas, nunca se mostram aptos a combatê-los.

Quanto à minha mulher, foi para casa agradecendo a Deus por ter sido vítima de um simples treinamento. Mas aquele que cair nas mãos do pequeno aprendiz daqui a alguns anos, certamente não terá a mesma sorte.

Éramos felizes e não sabíamos ?

 

Por Milton Ferretti Jung

“Éramos felizes e não sabíamos”. Ouve-se seguidamente essa frase. Quem ainda não a escutou? Ela serve para lembrar, com prazer, o passado, nem sempre se referindo ao que as pessoas viveram. Outro dia, por exemplo – socorre-me o Google – um diretor da Rede Globo disse que os radiodifusores sentem saudade do tempo em que não havia a ameaça das novas mídias em seu modelo de negócios.

Normalmente, porém, quem pronuncia a frase é gente que vivenciou na sua infância momentos inesqucíveis, comparando-os com a realidade dos dias de hoje.

Permitam-me que regresse aos meus oito anos ou pouco mais que isso. Minha família morava diante de uma pracinha. Essa não passava de um triângulo situado no encontro de duas ruas. A prefeitura tentou em vão transformá-la numa praça de  verdade, mas nós, seus usuários, nunca permitimos porque acabaria com nossos improvisados jogos de futebol, basquete, vôlei e outras brincadeiras. Na minha rua havia também muitos terrenos baldios, os quais, às vezes ,serviam para que uma turma maior participasse de “peladas”, eis que o chão da pracinha era não só inclinado como sem um mínimo de grama.

O tempo foi passando, a pracinha permaneceu incólume. Os terrenos baldios acabaram. Em seu lugar surgiram casas. Os guris cresceram, casaram, tiveram filhos, alguns edifícios substituíram as casas mais velhas. Ainda sobraram os que, na juventude,fundaram um clubezinho – o Tijuca – que congrega parte da turma antiga em jantares de confraternização.

Meus filhos, quando visitavam seus avós, que nunca se mudaram, chegaram a conhecer a pracinha. Meus netos, porém, nunca passaram sequer perto da residência avoenga. Eles estão noutra. Brincam,hoje,como muitas crianças da idade dele, com computadores,iPod,iPad,Nintendo,Play Station, etc.

O Fernando, mais moço da turminha, filho do Christian e da Lúcia,irmão da Vitória, possui até um blog e está tentando ensinar a tia Jacque a criar o dela. Gregório e Lorenzo, filhos do Mílton e da Abigail, desde menininhos lidam melhor com computadores  que muita gente grande. Eu jogo somente Tetris no PC. E olhe lá.

Quando paro para pensar, volta e meia me ocorre a frase com a qual iniciei este texto e me pergunto quem teria mais razão para usá-la: eu, meus filhos ou meus netos? Responda quem se achar capaz.

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista, trabalha na Rádio Guaíba de Porto Alegre e é meu pai. Às quintas, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Conte Sua História de São Paulo: A volta

 

No Conte Sua História de São Paulo, Vera Helena Praxedes, moradora do Jardim Jabaquara, lembra neste texto de quando veio morar na capital paulista:

Ouça o texto de Vera Helena Praxedes sonorizado por Cláudio Antônio

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Voltamos, deixando para trás a vida solta, o sol quente, a quiçaça, o pé no chão, as frutas do campo, as parlendas, enfim, parte da infância. Viemos morar bem longe, o interior de onde voltávamos parecia à capital e a capital parecia o interior. Lá o sol era claro e abrasador, aqui frio cinzento de garoa infinda. Ainda bem que chegamos no verão, mas em janeiro de chuvarada.

A casa grande de tijolos, pintada de amarelo, úmida, descobri o bolor, diferente da outra de madeira seca e aconchegante. Algo me causou espanto; o fogão, aqui de carvão, pequeno acanhado, levava horas para cozinhar feijão. Batia uma saudade do outro de lenha, grande, com fagulhas estralando feito fogos de artifício, água quente por todo o dia, pronta para fazer café.

A casa foi dividida para acomodar três famílias: a nossa, a dos meus avós e a de um tio. No total dezesseis pessoas. Lá no interior morávamos em casas próximas, mas aqui todos ficaram juntos. Mais tarde ao ler “O Cortiço” de Aluísio Azevedo me senti sua personagem.

A vila distante, com ruas sem calçamento e transporte. Fazendo todos caminharem por quilômetros para chegar ao trabalho. Quando chovia carregávamos outro par de sapatos para trocá-los antes do destino final.

Os donos da casa amarela eram um casal de negros. Morava no mesmo quintal, nos separando apenas um terreiro. A esposa com cinqüenta e poucos anos, o marido já bem idoso, um neto criança e uma filha viúva por uma tragédia, isso havia a alguns meses enlutada a família.

O genro dos velhos em um ato transloucado, havia se suicidado, envenenando-se, mas antes disso matou a filha de dois anos, deixando a mulher grávida ainda sem sabê-lo.

A mudança causou espanto e surpresa a mim e minhas três irmãs e, sem dúvida, também para as outras crianças da família.

Minha pobre avó não tirava o agasalho de lã um só dia, parecia não parar de chover nunca. O frio, por falta de costume, deixou-a jururu e adoentada por todo o ano.

Mas aqui, ao chegar, fiz uma grande descoberta, a mulher do nosso senhoril possuía um rádio e adorava ouvir novelas à noite. Logo após nossa chegada, engajei-me junto a ela, o marido mais o pequeno neto e, ouvíamos todos os dias às 21:00 horas uma rádio novela.

Dona Dita, esse o seu nome. Sentávamos em uma copa cimentada com móveis coloniais; um tajer, uma cristaleira sem cristais, sobre ela uma garrafa, representando um velho, inclinado sobre o peso do líquido azul por papel crepom.

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Conte Sua História de SP: Brincadeira de criança

 

Roberto Samuel da Silva nasceu em 1962 em Alvorada do Sul, Paraná. Mas é a cidade de São Paulo, em especial o bairro Jardim Japão, que povoa suas memórias de infância. Para relatar essas lembranças, ele escreveu ao Museu da Pessoa em agosto de 2010.

Ouça o texto de Roberto Samuel da Silva sonorizado por Cláudio Antônio

Chegamos a São Paulo num dia frio e de muita garoa no ano de 1968, não sei em que mês. Viemos de trem da cidade de Alvorada do Sul, Paraná. Lembro-me pouco da viagem. Tenho uma vaga lembrança do trem. Na verdade, não sei se são lembranças ou histórias que meus pais contaram depois. Dizem que, durante a viagem, eu saí andando pelos vagões e teria me perdido. Meu irmão, João, é que me encontrou “vagando”.

Fomos morar no Jardim Japão, na rua Nigata. Acho que, na época, o povo chamava essa rua de Niagata. Ali passei minha infância e fiz meus primeiros amigos. Lembro-me do senhor Zacarias. Ele trabalhava em uma grande fábrica de pneus e me ensinou a torcer pelo Santos Futebol Clube. Esse senhor tinha três filhos e uma filha: Carlos, o mais velho, depois o Airton, o filho do meio, apelidado de Tito e o Rui, o mais novo dos meninos. A menina era a mais nova, chamava-se Sonia. Ela tinha a mania de chupar os dedos indicador e médio. De tanto chupá-los, ela ganhou duas verrugas neles. Ouvi essa história da matriarca dessa família, Dona Isolina. Achava-a bonita, no entanto, não lembro mais de seu rosto.

Eu era um “televizinho” deles, ou seja, um sujeito que não possuía televisão e ia à casa do vizinho para aproveitar um pouquinho daquela maravilha. Era uma TV da marca Telefunken.

Com mais ou menos a minha idade, havia uma garota chamada Marlene e um garoto chamado Cido. Brincávamos nas ruas e na enorme praça. Aliás o pai do Cido, “Seo” João, era vigilante e morreu, durante o serviço, no início dos anos 70, não lembro se foi de enfarte ou derrame. O então menino chorou muito. Coube à dona Maria Teixeira (lembrei do nome dela) conduzir a vida. Essa família era muito amiga da nossa.

Minha primeira escola foi a Escola Imperatriz Leopoldina, até hoje na rua Togo. Ali estudei até o quarto ano do primário. Dessa fase, guardo o nome de apenas duas professoras: Cecília, minha primeira mestra, e Sonia Agosto, a professora do segundo ano primário. Ah, havia também a toda poderosa diretora: Dona Ada.

Falando nisso, dia desses aconteceu algo muito estranho. Eu estava tomando uma cerveja com um amigo, hoje secretário de Esporte de Guarulhos, e falávamos do passado quando ele revelou que estudou nessa escola, na mesma época que eu, e era morador da rua Osaka, rua paralela à minha querida rua Nigata. Incrédula, pedi que ele dissesse o nome da diretora e confirmou: “Dona Ada”. Lembrou inclusive do “grande” porte físico que nos parecia ainda maior quando sua poderosa voz ecoava pelos corredores da escola.

A história parece-me ainda mais inverossímil quando esse meu amigo revela: “Morava ao lado da fábrica de balas”. Eu vivia por ali. Apenas para constar, todas as balas tinham o mesmo sabor: eram de açúcar puro, apenas açúcar. Mas havia papéis de várias cores e com desenho de diversas frutas. Um verdadeiro engodo. Mas eu olhava para o papel cheio de desenhos de abelhas e sentia o sabor de mel. Para complementar a renda familiar, era comum as pessoas pegarem essas balas para embalar em casa. Havia uma família na rua Osaka, com muitas crianças, que embalavam as balas e também ensacavam figurinhas.

Lembro-me do início das obras do Praça Oyeno, situada no centro do bairro e em frente à minha casa. Minha mãe chegou a fazer lanches e vender aos trabalhadores da obra, mas não deu muito certo. O parque ficou muito bonito. Muitas árvores foram plantadas e tinha até minas de água. Ele começava na avenida das Cerejeiras, seguia até próximo à rodovia Presidente Dutra. O lugar era bonito, pois as transportadoras ainda não tinham se instalado naquela região.

Morei também um tempo em uma casa da avenida das Cerejeiras. Foram tempos de muitas dificuldades. Meu pai lutava muito, éramos oito. Meu irmão João casou pouco depois de chegarmos a São Paulo e foi morar na Vila Maria Baixa, perto da avenida Guilherme Cotching. Apenas meu pai trabalhava. De vez em quando faltava alguma coisa, o feijão, a carne, o pão… Minhas irmãs, a Cida e a Cícera, começaram a trabalhar muito cedo para ajudar. Tenho um carinho e um respeito muito grande por elas. Se você acha que hoje existe exploração, nos anos setenta havia muito mais.

Em 1974, deixamos São Paulo e mudamos para a cidade de Guarulhos. Perdi o contato com meus amigos de infância e com os vizinhos. Tentei, ainda manter contato, mas meus amigos ficaram no passado.

Você participa do Conte Sua História de São Paulo enviando seu texto para o site do Museu da Pessoa ou agendando entrevista para gravar seu depoimento em áudio e vídeo

Conte Sua História de SP: Meu avô, meu ídolo

 

Por Suely Montenegro
Envaido ao Museu da Pessoa

Ouça este texto com a sonorização de Cláudio Antônio

Nasci em São Paulo, Capital, em março de 1954, no bairro do Belém. Neste ano tivemos um acontecimento importante que foi a morte do Getúlio Vargas, presidente do Brasil.

Sou neta de imigrantes que fugiram da Primeira Guerra.

Meus avós paternos vieram de Portugal e meus avós maternos da Espanha.

Meus avós portugueses me contavam muitas histórias sobre sua cidade, Trás dos Montes, por isso sei muita coisa do que acontecia em Portugal. Por outro lado, não sei quase nada da Espanha. Minha avó espanhola já havia falecido quando eu nasci e meu avô não contava histórias.

O que eu sei é que, por uma incrível coincidência, ele trabalhou como administrador em uma fazenda cafeeira na cidade de Bocaina, cujo proprietário era avô do meu atual marido. Só fui descobrir isto depois de casada.

Minha infância foi muito gostosa, pois no bairro em que morava todos se conheciam, coisa que atualmente é muito difícil.

Brincávamos na rua sem problemas. Quase não tinha carros e não corríamos o risco de sermos atropelados, a não ser pelas bolas dos diversos jogos que brincávamos.

Me lembro que éramos muito criativos, pois quase não tínhamos brinquedos, exceto alguns carrinhos e bonecas. Então nós “fabricávamos” nosso brinquedos com barro, madeira, mato, etc. Fazíamos panelinhas, mesas, cadeiras e tantas coisas que hoje penso como deve ser sem graça pegar os brinquedos prontos e não inventar nada.

Creio que seja por isso que hoje as crianças ficam tanto tempo no computador.

Subíamos em árvores, abríamos túneis através dos matos que cresciam bem alto nos terrenos baldios, enfim, inventávamos o que fazer. E não tínhamos nenhum problema de picada de inseto, medo de seqüestro e todos os outros problemas comuns nos dias de hoje.

Vi muitas avenidas que hoje são congestionadas serem construídas, como a 23 de Maio.

Era gostoso andar de bonde, pisar no barro…

Adorava ir para a casa dos meus avós paternos. Meu avô era meu ídolo. Eu absorvia tudo o que ele me contava, pois ele me abria um mundo que eu desconhecia. Passava todas as férias na casa dele, era muito divertido.

Foi muito difícil aceitar a morte dele, pois só tinha 11 anos e era a minha primeira perda importante. Era também o início da minha adolescência.
Mas isto é uma outra história.

Conte a sua história de São Paulo, também. Agende uma entrevista pelo telefone 2144-7150 ou escreva seu texto no site do Museu da Pessoa.

Conte Sua Historia de SP: As crianças, a chuva e a ladeira

 

Débora Dias Carneiro
Ouvinte-internauta

Ouça o texto “As crianças, a chuva e a ladeira” sonorizado por Cláudio Antonio

Ríamos, ríamos muito…. nem vovó Cecília escapou às nossas incontroláveis gargalhadas, vitimada que foi por um tombaço que, por sorte, só lhe quebrou os óculos de grau.

O motivo de tanta alegria era a incrivelmente íngreme e assustadora ladeira da Rua Caiowáa (chamada por muitos de Caiovas), ali entre as ruas Cajaíba e Capital Federal, rua essa muito conhecida lá pelas bandas do bairro do Sumaré por começar praticamente em frente à entrada principal do Palestra Itália. A única que conheci, até hoje, a contar, em um de seus lados, com um reforçado corrimão!

Tínhamos, eu e meus dois irmãos mais novos, Cláudio e Guto, aproximadamente nove, cinco e três anos, respectivamente, lá pelos idos de 1975. Morávamos com nossos pais e irmãs mais velhas, Fernanda e Cecília, de dezenove e dezessete anos, no primeiro sobrado de um dos topos da ladeira. Dois quartos, sala, copa/cozinha e banheiro e dependências de empregada. Obviamente, pouco espaço para brincar. Mas não importava. A nossa rua era a nossa maior diversão.

Nos dias de sol, despencávamos ladeira abaixo, a pé ou a bordo de carrinho de rolimã, tábua parafinada ou bicicleta (o que custou, num tombo tipo “beija-lona”, os dois dentes da frente do Cláudio), para nos reunirmos com os amigos na primeira transversal, conhecida como “Moitinho”. Travessinha pacata, poucas casas, muito mato e areia. Perfeita.

Mas bom mesmo eram os dias de chuva… acontece que a tal ladeira era toda revestida de paralelepípedos, que, molhados, transformavam-se em verdadeiras placas de sabão. E a calçada, do lado onde hoje está o corrimão, inexistente à época, era feita de cimento e pedrinhas lisas, arredondadas, que mesmo secas já escorregavam um bocado. Ou seja, quedas e acidentes eram inevitáveis naqueles dias.

Ao primeiro sinal de uma simples garoa, íamos, eu e os dois irmãos mais novos, para a sacada do quarto de nossos pais, Arlette e Narciso. E lá permanecíamos até que ocorresse o sinistro. E quantos houve! Kombi capotada, caminhão-baú tombado no topo da pirambeira, bloqueando a rua; motoqueiros em quedas cinematográficas; carros que queimavam os pneus, tentando subir; mulheres se equilibrando em sandálias-plataforma imensas; homens engravatados, deslizando feito sabonete em seus sapatos de sola de couro; bombeiros, ambulâncias, polícia… uma verdadeira festa para crianças de um tempo em que não havia video-game, computador ou TV a cabo!

Aí veio o progresso, a ladeira foi asfaltada – o Moitinho também –, crescemos e mudamos cada qual para o seu canto. Mas ficaram as lembranças.

E os dias de chuva em São Paulo, antes de me causarem a inevitável irritação com o trânsito ainda mais caótico do que de costume, me levam de volta àquelas tardes úmidas e felizes da minha infância… mas trazem, também uma pontinha de culpa por haver, mesmo criança, me divertido tanto com a desgraça alheia!

Conte Sua História de São Paulo vai ao ar sábados, logo após às 10 e meia da manhã, no CBN SP. Você participa enviando seu texto ou arquivo de áudio para contesuahistoria@cbn.com.br. Conheça outros capítulos da nossa cidade aqui no Blog.