Mundo Corporativo: influência institucional exige confiança, não apenas alcance, ensina Alexandre Loures, da FSB

Alexandre Loures, Sócio-Controlador e Líder da Área Privada da FSB Holding
Alexandre Loures no estúdio de podcast da CBN Foto: Priscila Gubiotti CBN

“O que a gente precisa, na verdade, é ativá-las pela confiança, credibilidade, profundidade naquele tema, não só pelo alcance.”

Mais de 90% dos líderes empresariais ouvidos em uma pesquisa da FSB Holding consideram alto o impacto da influência nos negócios, e mais de 80% pretendem ampliar os investimentos nessa área. Apenas 17%, porém, disseram contar com uma estrutura organizada e orçamento aprovado para cuidar do tema. A distância entre a percepção e a prática ajuda a explicar por que a influência institucional ainda é confundida com popularidade nas redes sociais, tema da entrevista de Alexandre Loures, sócio e líder da área privada da FSB Holding, ao Mundo Corporativo, da CBN.

Loures diferencia dois conceitos que costumam caminhar juntos, embora não signifiquem a mesma coisa. Reputação é a percepção que determinado público forma sobre uma pessoa ou organização. Influência é a capacidade de levar esse público a tomar uma decisão.

A diferença ganha importância quando uma empresa escolhe quem deve representá-la em discussões sobre seu setor, uma regra, uma decisão judicial ou um assunto de interesse público. Nessas situações, o número de seguidores não basta.

A liderança entra na conversa

A comunicação, segundo Loures, passou a ocupar o primeiro lugar entre os atributos esperados de um presidente de empresa. O motivo está na sucessão de mudanças tecnológicas, sociais, geopolíticas e econômicas, que obriga as organizações a renovar seus compromissos com empregados, clientes, investidores, órgãos reguladores e a sociedade.

“A necessidade que você tem é qual? É de refazer os seus contratos com os seus principais públicos e convencê-los a todos que aquele rumo, que aquele caminho da empresa é correto e envolvê-los e engajá-los.”

A presença de executivos nas redes amplia essa capacidade de diálogo. De acordo com Loures, perfis pessoais de presidentes de empresas costumam gerar mais engajamento do que os perfis institucionais porque as pessoas procuram conversar com outras pessoas, não com uma figura jurídica.

Essa presença não se limita à divulgação de mensagens. Ela também abre um canal para perguntas, críticas e sinais sobre os assuntos que mobilizam colaboradores, consumidores e outros públicos.

O risco de falar e o risco de ficar calado

O receio de crises e cancelamentos ainda afasta empresas e dirigentes das redes sociais. Loures reconhece o risco, mas afirma que a ausência não retira uma marca da conversa pública. Ela apenas deixa de participar da discussão sobre si própria.

“Você hoje não pode evitar que o seu nome ou a sua marca não esteja nessa conversa de redes. Você pode evitar não participar dela. E não participar não evita tanto o risco.”

Para reduzir a exposição desnecessária, ele recomenda planejamento, atuação profissional e apoio de uma equipe. O conteúdo precisa estar ligado ao negócio, ao público que se pretende alcançar e ao objetivo da comunicação. Uma empresa interessada em atrair profissionais de tecnologia, por exemplo, pode priorizar redes e veículos especializados. Outra, voltada ao consumidor final, provavelmente terá de recorrer a plataformas de maior alcance.

Loures também propõe que a reputação seja medida em quatro etapas: conhecimento, confiança, ação e defesa. Primeiro, o público identifica a empresa e sabe o que ela faz. Depois, passa a confiar. Em seguida, toma uma decisão, como comprar, contratar ou candidatar-se a uma vaga. Na etapa final, recomenda a organização a outras pessoas.

Inteligência artificial entre a autoridade e a repetição

A inteligência artificial aparece na entrevista como oportunidade e alerta. Para Loures, as novas ferramentas de busca tendem a valorizar autoridade, legitimidade e confiança, o que pode beneficiar executivos, pesquisadores e instituições que produzem conteúdo consistente.

O risco está na homogeneização. Como os sistemas trabalham a partir de conteúdos existentes, podem repetir interpretações, vieses e preconceitos, além de reduzir a diversidade de ideias.

“Tem que ter um cuidado, porque quando você faz uma pesquisa anterior para projetar o futuro, você nunca traz o novo. Porque as pessoas não sabem o que querem aquilo que elas não conhecem ainda.”

A recomendação vale para líderes e empresas: tecnologia pode acelerar a produção e ampliar a circulação de ideias, mas não substitui conhecimento, responsabilidade e voz própria. Influência institucional se constrói menos com o volume da fala e mais com a confiança que permanece depois dela.

Assista ao Mundo Corporativo

A entrevista completa com Alexandre Loures está disponível no canal da CBN no YouTube, no Spotify e no podcast mais próximo do seu celular. O Mundo Corporativo vai ao ar aos sábados, às 8h10, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 22h, em horário alternativo. O programa tem a colaboração de Carlos Grecco, Letícia Valente, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti.

Entre a urgência do rádio e o tempo da ciência

No jornalismo de rádio diário, estamos sempre em busca da notícia mais recente. Aquilo que está acontecendo em tempo real. A operação da polícia, o anúncio do governo e o congestionamento da hora tomam espaço da reportagem produzida com antecedência — para desespero do repórter que investiu seu tempo e talento. Nesta semana, por exemplo, as raquetadas ao vivo de João Fonseca se impuseram ao crime que abalou o ouvinte no dia anterior — que assim seja nesta sexta-feira que está para começar. Em uma competição jamais confessada, o papel do radiojornalismo é deixar o jornal da banca um pouco mais velho. Não me queiram mal, colegas de impresso. Admiro muito o trabalho que vocês fazem — é o que nos sustenta naqueles momentos em que o noticiário de rádio está ‘fraco’.

Na edição desta quinta-feira do Jornal da CBN, os personagens da política de Brasília, da economia da Faria Lima ou dos eventos internacionais foram preteridos por alguns instantes. Convidamos dois pesquisadores brasileiros para conversar simultaneamente: Mariangela Hungria, da Embrapa, e Luciano Moreira, da Fiocruz, que entraram na lista das 100 pessoas mais influentes do mundo, segundo a revista Time. Que privilégio!

Mariangela pesquisa há mais de quatro décadas o uso de micro-organismos do solo para reduzir a dependência de fertilizantes químicos. Em um país que importa a maior parte desses insumos, o efeito é direto na economia e na produção de alimentos. Em uma única safra, segundo ela, a tecnologia desenvolvida gerou economia de dezenas de bilhões de dólares.

Luciano atua no combate às arboviroses. Lidera um método que utiliza mosquitos com uma bactéria capaz de bloquear a transmissão de doenças como dengue, zika e chikungunya. O projeto já está presente em diversas cidades brasileiras e em outros países.

Não havia um factual, uma ocorrência bombástica ou o escândalo que viraliza. O trabalho dos dois começou há décadas, sem alarde. No laboratório das instituições públicas em que trabalham, feitos com baixo investimento e sob alto ceticismo. Uma trajetória marcada por falhas e frustrações. Que, para muitos dos colegas deles, se encerrará no anonimato e na dúvida se as pesquisas que desenvolveram se tornarão legado nos estudos de seus sucessores.

Apesar da ausência da urgência do noticiário, entrevistá-los foi muito especial para nós, que fazemos o Jornal da CBN. E motivo de satisfação para os ouvintes. Aquele mesmo que nos cobra a informação imediata, a atualização do trânsito, a previsão do tempo, a denúncia contra agentes públicos por atitudes erráticas, a notícia do aqui e agora, dispendeu seu tempo para ouvir o relato de dois cientistas.

Claro que o reconhecimento da Time os fez notícia. Dar tempo para que pesquisadores falem das suas angústias e orgulhos não é comum no cotidiano dos programas radiojornalísticos matinais. Por isso, gostei tanto da conversa com eles. Sem contar que os dois são ótimos entrevistados, com bom domínio da comunicação.

A propósito, foi a dra. Mariangela quem chamou atenção para a importância de se investir em comunicação para o bem da ciência:

“Se eu fosse uma ministra de ciência e tecnologia, para quem eu mais daria dinheiro seria para a área de comunicação, ciência da comunicação, porque vocês precisam ensinar para a gente. Tem que ter alguma coisa disruptiva para eu conseguir entender por que a gente traz uma mensagem correta e tem 5 mil likes, e vem um influenciador que fala tudo diferente e tem 500 mil likes”.

Como fazer com que a informação correta, capaz de ajudar as pessoas, consiga ganhar tração e influenciar a sociedade de forma positiva é apenas mais um dos muitos desafios que os cientistas têm pela frente. Um desafio que nos aproxima, pois, como comunicadores que somos, temos a responsabilidade de ampliar o alcance dessa mensagem.

Pela repercussão da entrevista desta quinta-feira, no Jornal da CBN, encerro o dia com a sensação de que vale a pena abrir espaço para histórias que não cabem na urgência do noticiário. Nem sempre o mais importante chega primeiro. Às vezes, ele precisa apenas de tempo — e de escuta — para ser compreendido.