A maior rede pública de ensino dos Estados Unidos decidiu restringir o uso da inteligência artificial nas escolas. Em Nova Iorque alunos da educação infantil ao oitavo ano não poderão usar essas ferramentas. No ensino médio, o acesso será limitado, com programas selecionados e supervisão dos professores.
A decisão alcança cerca de 600 mil estudantes e levanta uma pergunta para os pais aqui no Brasil: qual seria a sua reação se medida semelhante fosse adotada na escola do seu filho?
O Brasil já restringiu o uso de celulares nas escolas públicas e particulares. A regra procura reduzir distrações, melhorar a concentração e recuperar a convivência entre os estudantes. O aparelho pode ser utilizado em atividades pedagógicas autorizadas pelo professor e em situações específicas.
O celular, porém, é um objeto. Pode ser guardado na mochila. A inteligência artificial é mais difícil de trancar no armário.
Ela já está presente em mecanismos de busca, editores de texto, aplicativos de estudo, programas de tradução e plataformas educacionais. Proibir a IA por completo seria como tentar fechar uma porta enquanto a tecnologia entra pelas janelas, pelo telhado e, provavelmente, pela própria lousa digital.
Há motivos legítimos para preocupação. Um estudante pode pedir à máquina que escreva a redação, resolva o exercício ou resuma um livro que não leu. Se entregar à inteligência artificial todo o esforço de pensar, corre o risco de economizar justamente aquilo que deveria desenvolver.
Crianças menores também precisam de proteção. Elas ainda estão formando o vocabulário, aprendendo a organizar ideias, conviver com dúvidas, errar e tentar novamente. Nenhum aplicativo deve substituir esse processo nem ocupar o lugar dos professores e dos colegas.
A proibição absoluta, porém, pode ser um pouco demais?
A escola não tem apenas a tarefa de proteger os alunos da tecnologia. Precisa ensiná-los a conviver com ela. Isso inclui saber fazer perguntas, conferir informações, identificar erros, reconhecer preconceitos reproduzidos pelos sistemas e entender por que uma resposta convincente pode estar completamente errada.
Talvez a discussão não deva ser simplesmente entre liberar e proibir. A questão é definir com que idade, para qual finalidade, durante quanto tempo e sob a orientação de quem a inteligência artificial pode ser utilizada.
Pais e professores precisam participar dessa escolha.
Se uma proibição como a de Nova Iorque fosse proposta no Brasil, você seria favorável? Consideraria a medida uma proteção necessária ou entenderia que a escola estaria afastando os alunos de uma ferramenta que eles precisarão aprender a usar?
Proibir pode parecer uma resposta simples. Educar para o uso responsável dá mais trabalho. E talvez seja exatamente esse trabalho que não possa ser terceirizado para uma máquina.
Leonardo Coelho no estúdio de podcast da CBN Foto: Priscila Gubiotti/CBN
“O grande segredo para qualquer pessoa que lida com riscos é não ignorá-los. Você precisa conhecê-los.”
Uma enchente pode interromper uma fábrica, comprometer fornecedores e afetar trabalhadores. Uma guerra distante pode encarecer energia, alterar rotas logísticas e atingir empresas brasileiras. Um ataque cibernético pode paralisar uma operação inteira. O desafio para as empresas é que esses riscos já não aparecem necessariamente de maneira isolada: clima, tecnologia, comércio, geopolítica e força de trabalho se cruzam e ampliam seus efeitos. Como administrar negócios diante dessa combinação foi o tema da entrevista de Leonardo Coelho, CEO da Aon para o Brasil, ao Mundo Corporativo, da CBN.
Coelho usa a expressão “riscos convergentes” para descrever esse ambiente. A lógica é relativamente simples: um acontecimento em determinada área pode desencadear consequências em várias outras. Por isso, mais do que tentar prever a próxima crise, as empresas precisam desenvolver capacidade para reagir quando ela surgir.
Na avaliação do executivo, identificar ameaças já não é necessariamente a parte mais difícil. O desafio está em criar estrutura, governança e planejamento de longo prazo para administrá-las. Segundo ele, mais da metade das empresas brasileiras já trata a gestão de riscos como assunto de conselho de administração ou de governança corporativa.
A existência dessa preocupação, porém, não significa que as empresas estejam suficientemente protegidas. Coelho cita os ataques cibernéticos como exemplo. Segundo os dados apresentados por ele durante a entrevista, apenas cerca de 24% das empresas avaliam proteção em seus contratos de seguro contra esse tipo de ataque.
Da enchente à geopolítica
As enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul ajudam a compreender a diferença entre reconhecer uma ameaça e estar preparado para suas consequências.
De acordo com estimativa apresentada por Coelho, apenas entre 30% e 35% das perdas físicas provocadas pelo desastre tinham algum tipo de cobertura de seguro. Nesse cálculo entram desde veículos de pessoas físicas até instalações e equipamentos industriais.
O episódio também mostrou que gestão de risco não pode se limitar à contratação de seguro. Prevenção, localização das instalações, planos para continuidade das operações e capacidade de recuperação precisam fazer parte da estratégia.
A mesma lógica vale para acontecimentos geopolíticos. Tensões em rotas internacionais podem atingir a cadeia logística, alterar preços de petróleo e gás e dificultar o acesso a produtos e matérias-primas. Para um país com participação relevante no comércio internacional e no agronegócio, como o Brasil, acontecimentos a milhares de quilômetros de distância podem rapidamente chegar ao balanço das empresas.
É nesse ponto que entram análise de dados, construção de cenários e planejamento. A intenção não é adivinhar qual será a próxima crise, mas calcular vulnerabilidades e preparar alternativas.
Entre os riscos identificados pelas empresas brasileiras nos estudos citados pela Aon está a interrupção dos negócios.
A origem dessa paralisação pode ser bastante diferente daquela que tradicionalmente se associa a uma fábrica fechada por um acidente. Em uma fintech, por exemplo, uma queda de energia ou invasão hacker pode comprometer toda a operação.
Também pode faltar gente com a qualificação necessária para manter o negócio funcionando.
Coelho explica que o surgimento de funções ligadas à inteligência artificial e ao aprendizado de máquina obrigou empresas a rever estruturas de cargos, salários e competências. Atrair e reter esses profissionais passa, portanto, a fazer parte da própria gestão de riscos.
Essa mudança amplia a ideia de proteção empresarial. O patrimônio de uma companhia não se resume a prédios, máquinas e estoques. Pessoas, conhecimento e capacidade de adaptação também determinam se o negócio conseguirá continuar funcionando depois de uma crise.
Inteligência artificial exige investimento nas pessoas
A relação entre tecnologia e trabalho ocupa parte importante dessa discussão.
Comprar uma ferramenta de inteligência artificial não significa automaticamente ganhar produtividade. Sem profissionais preparados para utilizá-la, o investimento pode produzir justamente o contrário: desperdício de dinheiro, ineficiência e perda de competitividade.
“A inteligência humana é insubstituível. Então, a decisão de negócio, ela precisa sempre estar do lado humano”, afirmou Coelho.
Para ele, a contratação também está mudando. As empresas passam a observar mais as habilidades e os comportamentos dos profissionais, e não apenas sua formação tradicional. Senso crítico e capacidade de tomar decisões ganham peso à medida que a inteligência artificial assume parte da execução e do processamento das tarefas.
O risco, portanto, está em investir na máquina e esquecer quem terá de decidir o que fazer com aquilo que ela produz.
“Investimento de tecnologia mal feito, ele gera ineficiência, perda financeira, mas sobretudo eu diria que um atraso estratégico e competitivo no longo prazo quando você coloca esse componente humano nessa combinação.”
A preparação das equipes, na avaliação de Coelho, ainda recebe menos atenção do que a adoção das próprias ferramentas de inteligência artificial.
Quatro gerações dentro da mesma empresa
A força de trabalho acrescenta outra camada de complexidade.
Coelho observa que as empresas convivem hoje com pelo menos quatro gerações trabalhando simultaneamente. Cada uma pode atribuir valores diferentes ao trabalho remoto, aos benefícios oferecidos pela empresa, à carreira e à própria aposentadoria.
Isso obriga os departamentos de recursos humanos a abandonar s.oluções uniformes e observar a trajetória do trabalhador de maneira mais ampla.
O custo da saúde é um exemplo. Segundo Coelho, a inflação médica brasileira permaneceu em dois dígitos durante boa parte dos últimos dez anos e está em torno de 9,5% neste ano, de acordo com os números apresentados por ele na entrevista. Para as empresas, administrar esse benefício tem impacto direto sobre custos e planejamento financeiro.
Ao mesmo tempo, perder profissionais difíceis de substituir ou não conseguir atrair pessoas com determinadas competências também pode comprometer os negócios.
A experiência de Coelho nessa área influencia sua visão sobre gestão. Antes de assumir a presidência da Aon no Brasil, em fevereiro de 2026, ele atuou principalmente com saúde e talentos, embora tenha iniciado a carreira no segmento de seguros patrimoniais.
Ao falar sobre liderança, resume sua lógica em uma sequência:
“Eu sempre tenho um mantra, que é: cultura, pessoas e performance, nessa ordem.”
Gestão de risco não pode virar medo de decidir
Conhecer as ameaças não significa tentar eliminar todas elas.
Coelho reconhece que seria impossível prever e proteger uma organização de todos os riscos existentes. Uma empresa precisa decidir quais ameaças pretende reduzir, quais pode transferir por meio de seguros e quais está disposta a assumir.
Esse processo envolve uma escolha que nem sempre é evidente: gastar mais dinheiro para se proteger também tem custo. Em determinadas situações, não contratar determinada proteção pode ser uma decisão empresarial deliberada.
O perigo aparece quando o mapeamento de riscos produz paralisia.
Por isso, Coelho defende que as empresas acompanhem historicamente sua exposição, meçam os impactos financeiros e avaliem o retorno dos investimentos destinados à proteção. Quanto maior a capacidade de prevenção, menor tende a ser a dependência de mecanismos destinados apenas a reparar o prejuízo depois que ele ocorreu.
Um seguro pode repor um bem ou compensar uma perda financeira. Não consegue, por si só, evitar que o problema aconteça.
Essa diferença ajuda a entender a transformação da gestão de riscos. O objetivo deixa de ser apenas pagar pelo prejuízo depois da crise e passa a incluir a construção de empresas capazes de continuar funcionando quando algo sai do roteiro.
E alguma coisa, cedo ou tarde, sempre sai.
Assista ao Mundo Corporativo
O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Letícia Valente, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti.
As redes sociais deram voz a milhões de pessoas, e também ampliaram a circulação de desinformação, discursos de ódio e outros conteúdos prejudiciais. O desafio é criar regras para as plataformas sem transformar a proteção dos usuários em instrumento de censura. Esse foi o tema da série 50 Debates para o Brasil, do Jornal da CBN, que teve as participações de Bia Barbosa, do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), e Rafael Pellon, advogado especializado em Direito Digital.
A principal divergência está menos na existência de regras e mais no alcance delas. Bia defende uma regulação que atue sobre o funcionamento e o modelo de negócios das plataformas. Rafael alerta para o risco de que essas regras avancem sobre o conteúdo publicado pelos cidadãos e restrinjam a liberdade de expressão.
Para Bia nem plataformas nem governos devem receber o poder de determinar o que é verdadeiro ou falso. Para ela, a regulação pode atuar por outros caminhos, como transparência, proteção de dados, combate à violência digital e identificação de conteúdos produzidos ou manipulados por inteligência artificial.
“Não se trata da gente dar para as plataformas o poder de definir o que que é verdade ou que não é, muito menos para o governo de plantão”, afirmou.
A representante do CGI.br também defendeu que a fiscalização das regras seja feita por uma autoridade independente, a partir de legislação aprovada pelo Congresso e submetida ao debate público.
Rafael concordou que determinadas regras podem existir, mas estabeleceu uma fronteira: elas deveriam se concentrar nos extremos e evitar interferência sobre a comunicação cotidiana entre os cidadãos.
“Na medida em que a gente tenta criar qualquer tipo de regulação que preveja algum tipo de avaliação prévia, a gente entra num risco de censura”, disse.
Outro ponto do debate foi a transparência algorítmica. Algoritmos são sistemas usados pelas plataformas para decidir, entre outras coisas, quais publicações serão recomendadas e ganharão maior visibilidade.
Bia argumentou que conhecer os critérios dessas decisões pode proteger o próprio exercício da liberdade de expressão. Ela citou casos de jornalistas e veículos que tiveram contas ou conteúdos suspensos sem explicações claras sobre os motivos ou sobre os mecanismos disponíveis para recorrer.
Para ela, o problema também está no modelo econômico das redes, construído para aumentar o tempo de permanência do usuário e, consequentemente, a coleta de dados e a receita. A regulação, portanto, deveria atuar sobre a arquitetura e os incentivos das plataformas, e não sobre cada conteúdo individualmente.
Rafael fez uma ressalva. O algoritmo também constitui parte do segredo comercial das empresas. Exigir sua abertura completa poderia prejudicar inovação e concorrência. A alternativa, segundo ele, seria exigir informações suficientes para compreender os efeitos do sistema sem obrigar as empresas a revelar todos os detalhes técnicos.
“Eu consigo divulgar os efeitos, mas não as regras exatas em que se trabalha”, afirmou.
O debate mostra que a discussão não cabe apenas na pergunta “regular ou não regular”. A questão central é definir o que regular, quem fiscaliza, quais informações as plataformas devem fornecer e onde estabelecer a fronteira para preservar a liberdade de expressão.
“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.
A inteligência artificial já influencia decisões em saúde, educação, finanças, segurança e comunicação, e o debate sobre quais regras devem guiar seu desenvolvimento e uso é inevitável. Por isso levamos o tema para a série “50 Debates para o Brasil” que apresentamos no Jornal da CBN.
Patrícia Peck, CEO e Fundadora do Peck Advogados, Presidente do Instituto Peck de Cidadania Digital e Membro Titular do Comitê Nacional de Cibersegurança (CNCiber), e Ronaldo Lemos, fundador e Cientista-Chefe do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS Rio) discutiram, no programa, se o país deve adotar uma regulação mais preventiva ou focar em um ambiente favorável à inovação.
Patrícia Peck defendeu que a inteligência artificial precisa seguir normas capazes de reduzir riscos sem impedir o avanço tecnológico. Ela alertou que a tecnologia geralmente evolui antes da legislação, mas a velocidade das transformações exige mecanismos que protejam os cidadãos. A especialista afirmou que garantir a transparência da relação entre pessoas e sistemas automatizados é um grande desafio.
“Uma IA bem treinada pode apoiar os seres humanos, mas uma IA mal treinada é pior do que uma criança mal educada”, disse Peck Para ela, o problema não é apenas a tecnologia, mas também a qualidade dos dados e as regras que governam a forma como a IA funciona.
A advogada também argumentou que a legislação brasileira deve deixar claro que os sistemas de inteligência artificial precisam cumprir as leis em vigor ao operar no país ou afetar cidadãos brasileiros. Para ela, não basta inventar novas tecnologias nacionais; é necessário que as ferramentas atualmente em uso respeitem os princípios legais e éticos existentes.
Outro ponto levantado por Patrícia Peck foi que o nível de risco deve ser determinado de acordo com a aplicação. Uma inteligência artificial usada em serviços médicos, jurídicos ou públicos, por exemplo, exigiria padrões de controle diferentes daqueles usados em aplicações de menor impacto.
Ronaldo Lemos focou seus argumentos em outro aspecto do debate: a capacidade do Brasil de desenvolver suas próprias tecnologias. O maior risco, disse ele, era a dependência de sistemas desenvolvidos em outros países e sujeitos a interesses econômicos e geopolíticos externos.
“Meu maior medo com a inteligência artificial é que o Brasil se torne dependente de inteligência artificial externa.”, comentou. Para Ronaldo, a legislação precisa ir além da supervisão e criar condições para fortalecer a produção nacional de inteligência artificial, infraestrutura tecnológica e desenvolvimento profissional.
Lemos também observou o impacto da IA no mercado de trabalho. Como ele explicou, as empresas já estão começando a substituir funções de nível inicial por sistemas de automação, portanto, políticas públicas como qualificação da força de trabalho e adaptação dos profissionais ao mundo em mudança serão necessárias.
Apesar das diferenças de foco, Patrícia Peck e Ronaldo Lemos convergiram em alguns pontos. Ambos defenderam o investimento no desenvolvimento tecnológico no Brasil e reconheceram que a inteligência artificial já está produzindo impacto suficiente no contexto da regulação.
Outra questão também foi discutida na última parte da conversa: eleições. Patrícia Peck alertou que as plataformas de IA precisam ser treinadas para respeitar as normas eleitorais brasileiras. Ronaldo Lemos reiterou isso com um estudo do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS Rio) dizendo que alguns sistemas ainda recomendam candidatos aos usuários, o que é contra as regras estabelecidas pelo Tribunal Superior Eleitoral.
O debate mostrou que a discussão sobre inteligência artificial não é apenas sobre regulação de um lado ou inovação do outro. A questão principal é encontrar mecanismos que minimizem riscos, protejam direitos e fortaleçam a capacidade tecnológica do Brasil.
“50 Debates para o Brasil”, realizado pela CBN, é produzido por Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas serão transmitidas de segunda a sexta-feira, logo após as 8h30 no Jornal da CBN.
Daniele Kleiner em entrevista no estúdio de podcast da CBN Foto: Débora Gonçalves/CBN
“Hoje eu vejo como primordial que as empresas entendam que a regulação, por exemplo, de inteligência artificial, que é algo que impacta todos os setores, não é algo de um setor específico, ela não é mais um problema só do jurídico.”
A inteligência artificial, a proteção de dados e as novas regras para o ambiente digital passaram a influenciar diretamente o desenvolvimento de produtos, a estratégia de negócios e a competitividade das empresas. Diante desse cenário, acompanhar a evolução da regulação deixou de ser uma tarefa restrita ao departamento jurídico e passou a envolver executivos, engenheiros, profissionais de produto e comunicação. O tema foi discutido em entrevista de Daniele Kleiner, sócia-fundadora da Alandar, ao programa Mundo Corporativo, da CBN.
Segundo Daniele Kleiner, a regulação da tecnologia vive uma nova etapa. Depois de um período marcado por princípios gerais, as normas passaram a estabelecer exigências concretas que afetam a rotina das organizações.
“Dependendo da regulação, isso vai requerer adaptação do próprio produto e da forma como você vai oferecer esse produto, comunicar esse produto para os consumidores finais.”
Ela explica que o desafio das empresas vai além de compreender a legislação, é preciso traduzir suas exigências para quem desenvolve as soluções tecnológicas. Por isso, defende um trabalho integrado entre advogados, engenheiros e equipes de produto para evitar que novas regras se tornem obstáculos ao negócio.
Regulação exige atuação preventiva
Na avaliação da especialista, um dos principais erros das empresas é tratar o tema apenas como uma questão de conformidade legal, deixando de lado o planejamento preventivo.
“Eu acho que é importante acompanhar de perto essas mudanças e ter um time que tenha uma intersecção maior (…), porque ao ficar isolado no jurídico, a gente só vai conseguir fazer o compliance. A gente não vai conseguir fazer o preventivo.”
Ela afirma que esse acompanhamento permite incorporar requisitos regulatórios ainda na fase de desenvolvimento dos produtos, reduzindo riscos de sanções, adaptações futuras ou até da retirada de soluções do mercado.
Ao conversar com executivos, Daniele identifica uma dificuldade recorrente.
“No nível de CEO, o que eu mais percebo é que eles não acompanham a regulação.”
Como exemplo, Daniele citou o caso da empresa Tools for Humanity, que desenvolveu uma tecnologia para diferenciar seres humanos de inteligências artificiais por meio da leitura da íris. Segundo ela, o funcionamento do produto foi mal compreendido e a percepção de que a empresa coletaria e comercializaria dados biométricos acabou ganhando espaço no debate público, embora esse não fosse o propósito da tecnologia.
A repercussão levou a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) a restringir parte da operação da empresa no Brasil.
Para Daniele, o episódio demonstra que explicar corretamente o funcionamento e o valor social de um produto é tão importante quanto desenvolvê-lo. “A gente precisa explicar o produto”, afirmou. “Se a gente não souber explicar com clareza o valor social que esse produto cria para o Brasil, a gente corre o risco de acabar com uma regulação que vai prejudicar o negócio.”
Inteligência artificial amplia oportunidades e desafios
Daniele destaca que a inteligência artificial representa uma transformação comparável ao surgimento da eletricidade, por seu potencial de alterar diversos setores da economia. Ela lembra que os desafios envolvem mercado de trabalho, direitos autorais, soberania tecnológica, infraestrutura digital e formação de profissionais.
Ao mesmo tempo, vê espaço para o Brasil ampliar sua presença no desenvolvimento dessa tecnologia.
“Nós temos um mercado extremamente rico de empresas que estão criando IA e exportando IA.”
Ela cita como exemplo o crescimento das startups brasileiras que utilizam a API da OpenAI e empresas nacionais que já exportam soluções baseadas em inteligência artificial para outros países.
Comunicação também protege os negócios
Outro ponto abordado na conversa foi a relação entre comunicação, reputação e regulação.
Daniele afirma que empresas inovadoras precisam explicar com clareza seus produtos para consumidores, imprensa e órgãos reguladores. A falta dessa comunicação pode gerar interpretações equivocadas capazes de afetar diretamente o negócio.
Ela lembra casos em que tecnologias foram mal compreendidas pela opinião pública, provocando forte pressão regulatória.
“A comunicação é essencial. Na proteção do próprio negócio, na verdade.”
Para ela, preparar executivos para explicar produtos, antecipar dúvidas e dialogar com a sociedade faz parte da estratégia empresarial.
Críticas fazem parte do processo
Ao comentar sua experiência em empresas globais de tecnologia, Daniele defende uma postura preventiva na gestão da reputação.
“O que eu mais aprendi é que quanto mais você trabalha preventivamente para criar um colchão reputacional, melhor.”
Ela também considera que críticas não devem ser encaradas como ameaça.
“Eu falo para encarar as críticas ao seu produto com muita naturalidade, porque afinal de contas, isso é uma forma de diálogo também.”
Segundo a especialista, compreender essas manifestações e responder de forma transparente fortalece a relação entre empresas, consumidores e reguladores.
Assista ao Mundo Corporativo
O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Letícia Valente, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti.
A pergunta parece simples, mas toca em uma das questões mais profundas do nosso tempo. À medida que a inteligência artificial se torna mais sofisticada, cresce também a impressão de que ela poderia substituir atividades que, até pouco tempo, eram consideradas exclusivamente humanas.
A IA já consegue identificar padrões de linguagem, reconhecer emoções expressas no discurso, formular hipóteses interpretativas e até conduzir diálogos que, muitas vezes, parecem acolhedores e reflexivos. Está disponível a qualquer hora, responde sem julgamento aparente, possui acesso instantâneo a uma quantidade imensa de informações e não sofre os limites do cansaço ou da distração.
Diante disso, a pergunta que surge naturalmente é: seria possível substituir o psicoterapeuta por uma inteligência artificial?
A resposta exige compreender que a psicoterapia não se reduz a conselhos, interpretações ou à organização racional dos pensamentos. Ela é, antes de tudo, uma experiência de encontro. Um espaço relacional no qual uma pessoa pode entrar em contato consigo mesma por meio da presença de outra pessoa.
O que a IA já é capaz de fazer
Cabe aqui uma observação. A qualidade de um processo terapêutico não depende apenas da abordagem utilizada, mas também da formação, da experiência e da capacidade de escuta de quem o conduz. Existem profissionais altamente qualificados e pessoas que, após formações muito breves, oferecem atendimento clínico sem a preparação necessária para lidar com a complexidade do sofrimento humano.
Nesses casos, é possível que uma inteligência artificial, alimentada por um amplo conjunto de conhecimentos psicológicos e disponível continuamente, ofereça reflexões mais consistentes do que aquelas produzidas por profissionais insuficientemente preparados. Isso, porém, não diminui a importância da psicoterapia. Ao contrário, evidencia o quanto a formação, a supervisão clínica, a experiência pessoal de análise e o treinamento contínuo são fundamentais para o exercício responsável da profissão.
Digo isso porque a mudança terapêutica não ocorre apenas porque alguém recebe informações sobre seus problemas. Ela acontece porque determinados aspectos da experiência humana só se tornam acessíveis dentro de uma relação. É no encontro com o outro que percebemos padrões que, sozinhos, não enxergamos, reconhecemos sentimentos que evitávamos sentir e construímos novas formas de compreender nossa própria história.
O psicoterapeuta escuta não apenas o que é dito, mas também aquilo que se manifesta nas pausas, nas repetições, nas contradições, nos silêncios e nos afetos. Muitas vezes, a transformação não resulta de uma fala brilhante, mas da experiência de ser acolhido, compreendido e reconhecido por outro ser humano.
De fato, na psicoterapia, o próprio psicoterapeuta torna-se um instrumento de compreensão do outro, pois, na relação terapêutica, tudo aquilo que sente pode constituir um dado importante para compreender a comunicação que está sendo estabelecida. Daí a necessidade de anos de estudo, supervisão, psicoterapia e treinamento.
Às vezes, uma narrativa aparentemente tranquila desperta tristeza; outras vezes, um relato de sofrimento provoca estranhamento ou até uma sensação inesperada de leveza. Há momentos em que o paciente sorri enquanto comunica algo doloroso ou chora ao falar de algo que parece não lhe causar sofrimento. Tudo isso comunica.
Os afetos que emergem no terapeuta não são, necessariamente, respostas pessoais; muitas vezes, fazem parte da própria dinâmica relacional que se estabelece no encontro terapêutico. Por isso, a formação e a experiência pessoal de psicoterapia são fundamentais. Ao conhecer melhor seus próprios conflitos, limites e sensibilidades, o terapeuta torna-se mais capaz de distinguir aquilo que lhe pertence daquilo que emerge da relação com o paciente. Assim, pode envolver-se profundamente com o sofrimento do outro sem confundir-se com ele, transformando sua própria experiência emocional em um instrumento a serviço da compreensão e do cuidado.
O que acontece em uma relação terapêutica
A relação terapêutica é construída ao longo do tempo. Ela envolve confiança, vínculo, frustrações, descobertas, resistências e transformações. Não se trata apenas de um processo cognitivo, mas de uma experiência humana compartilhada. Em muitos casos, é justamente essa experiência relacional que promove mudanças profundas.
Isso não significa que a inteligência artificial não tenha valor. Ao contrário. Ela pode oferecer informações, auxiliar na organização de pensamentos, estimular reflexões, sugerir perspectivas diferentes e funcionar como um recurso acessível para quem busca compreender melhor a si mesmo. Em muitos contextos, pode representar um importante instrumento de apoio emocional e de ampliação do acesso ao conhecimento psicológico.
Entretanto, existe uma diferença fundamental. A inteligência artificial pode processar informações sobre a experiência humana, mas não possui experiência humana. Não sente medo, amor, perda, esperança ou sofrimento. Não atravessa conflitos existenciais. Não se transforma a partir do encontro com o outro.
É justamente nessa dimensão que a psicoterapia encontra uma de suas bases mais importantes. O psicoterapeuta não é apenas alguém que compreende teoricamente o sofrimento. É alguém que também participa da condição humana. Sua escuta é atravessada pela própria experiência de viver, sofrer, desejar, perder e transformar-se.
Talvez a questão mais importante não seja saber se a IA pode substituir o psicoterapeuta, mas compreender como ela pode contribuir para o cuidado psicológico. Ela pode tornar-se uma ferramenta valiosa de apoio, reflexão e autoconhecimento. Pode complementar processos terapêuticos e ajudar muitas pessoas a iniciar uma jornada de compreensão de si mesmas.
A psicoterapia, porém, em seu sentido mais profundo, continua sendo uma experiência humana. Uma experiência construída no vínculo, na presença, na confiança e na possibilidade de um ser humano encontrar a si mesmo por meio do encontro com outro.
Por mais sofisticada que seja uma tecnologia, ela ainda não ocupa o lugar de uma presença humana genuína. Talvez isso nos lembre de algo essencial: existem experiências cuja força não está apenas na informação que recebemos, mas na relação que nos transforma.
Na psicoterapia, a mudança não nasce apenas do que é dito, mas do que é sentido. É preciso sentir para mudar. O silêncio, a hesitação, um sentimento que surge sem nome, um afeto que atravessa a relação e encontra acolhimento: tudo isso comunica. E é justamente nessa linguagem dos afetos que a presença humana continua sendo insubstituível.
Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad
“A IA deixa de ser algo adicional, um luxo, e passa a ser algo nativo, essencial para o crescimento daquela companhia.”
A inteligência artificial até recentemente ocupava um espaço experimental dentro das empresas. Agora já é tema central das estratégias corporativas. Ricardo Mucci, presidente da Cisco Brasil, em entrevista ao Mundo Corporativo da CBN, disse que, de acordo com pesquisas, a tecnologia aplicada aos negócios e cibersegurança passaram a figurar entre as principais preocupações dos CEOs em todo o mundo. Estão diretamente relacionadas ao crescimento das receitas e à sustentabilidade das operações.
Ao longo da conversa, Mucci destacou que a transformação digital não pode mais ser entendida apenas como aquisição de tecnologia. Para ele, as organizações que avançam de forma consistente são aquelas que incorporam a inteligência artificial à estratégia da companhia e não apenas a iniciativas isoladas em departamentos específicos.
“A aplicação da visão da IA em modelo estratégico da companhia e não modelo mais departamental” é o que diferencia as empresas que obtêm resultados mais expressivos, afirmou.
Segundo o executivo, a inteligência artificial atravessa uma nova etapa de desenvolvimento. Se antes predominavam chatbots e sistemas generativos voltados à produção de conteúdo, agora surgem agentes capazes de interagir entre si, trocar informações e executar tarefas sem intervenção humana direta. Essa evolução exige uma infraestrutura tecnológica robusta e uma abordagem mais ampla de governança e segurança.
Infraestrutura e segurança passam a ser prioridades
Para Ricardo Mucci, um dos principais aprendizados dos últimos anos é que não existe transformação digital sustentável sem investimentos em infraestrutura. Redes, processamento de dados e segurança precisam ser tratados como elementos integrados.
“Não há como se dizer agora que você constrói uma camada de segurança separada da infraestrutura convencional de rede.”
Ele explicou que o crescimento do uso da inteligência artificial gera um aumento exponencial no tráfego de dados e na demanda por processamento. Por isso, empresas que investem apenas nas aplicações e ignoram a modernização de sua infraestrutura correm o risco de encontrar limitações operacionais no futuro.
A preocupação com segurança também ganhou nova dimensão. Segundo Mucci, a cibersegurança deixou de ser vista apenas como proteção da reputação corporativa e passou a ser tratada como elemento fundamental para evitar perdas financeiras e interrupções nos negócios.
Entre os riscos estão sequestros de dados, vazamento de informações, roubo de identidade digital e ataques potencializados pelo uso da própria inteligência artificial por agentes mal-intencionados.
O Brasil na vanguarda da adoção da IA
Contrariando a percepção de que o país costuma chegar atrasado às grandes transformações tecnológicas, Ricardo Mucci afirmou que o Brasil ocupa posição de destaque na adoção da inteligência artificial.
“O Brasil hoje está na vanguarda na utilização de IA.”
De acordo com dados apresentados durante a entrevista, 66% das empresas brasileiras já possuem algum nível de implementação ou maturidade na utilização da tecnologia. O executivo também destacou o crescimento do ecossistema de startups voltadas à inteligência artificial e a capacidade dos empreendedores brasileiros de desenvolver aplicações para setores diversos.
Entre os exemplos citados estão soluções para saúde, educação, mineração e petróleo. Na área médica, ele mencionou sistemas capazes de realizar a coleta inicial de informações do paciente, estruturar relatórios e sugerir encaminhamentos ao profissional de saúde, reduzindo tempo de atendimento e aumentando a eficiência dos processos.
O custo da inteligência artificial
A popularização da IA trouxe também um novo desafio: controlar os custos associados ao uso dessas tecnologias.
Durante a entrevista, Mucci chamou atenção para a importância de utilizar de forma eficiente os tokens, unidades de processamento consumidas pelos modelos de inteligência artificial.
“Não dê bom dia para a IA, porque na hora que você der bom dia para a IA, ela vai te responder e você vai consumir um token ali.”
A observação foi usada para ilustrar um problema que muitas empresas começam a enfrentar: a conta do uso intensivo da tecnologia. Segundo ele, organizações mais maduras já buscam modelos híbridos, combinando recursos próprios e serviços em nuvem para equilibrar desempenho e custos.
Pessoas continuam no centro da transformação
Embora a inteligência artificial automatize tarefas e aumente a produtividade, Ricardo Mucci rejeita a ideia de que a tecnologia substituirá amplamente os profissionais.
Segundo ele, a tendência é que as pessoas passem a desempenhar funções mais estratégicas, supervisionando sistemas inteligentes e tomando decisões de maior valor agregado.
“Vai perder o trabalho possivelmente não aquela pessoa que não saiba nada de IA, ou que não conhece o negócio, mas vai perder para aquela pessoa que esteja utilizando melhor as plataformas de IA.”
O executivo destacou ainda a necessidade de investir em capacitação. Citou como exemplo o programa Cisco Networking Academy, iniciativa de formação tecnológica mantida pela companhia há mais de duas décadas, e defendeu maior participação das empresas na preparação dos profissionais para o mercado de trabalho.
Educação, adaptação e liderança
Filho de professora da rede pública e formado em escola técnica estadual, Ricardo Mucci atribui à educação boa parte de sua trajetória profissional. Ao recordar o início da carreira, destacou a influência da mãe, que repetia constantemente uma mensagem que o acompanhou ao longo da vida:
“Só tem uma coisa que vai mudar sua vida: é a educação.”
Ao falar sobre liderança, ressaltou a importância da aprendizagem contínua, da capacidade de adaptação e da abertura às mudanças tecnológicas. Para ele, as transformações são inevitáveis e exigem profissionais preparados para aprender continuamente.
Ricardo Mucci resumiu sua visão sobre o papel da tecnologia na sociedade:
“A transformação só vale a pena se for para melhorar a vida das pessoas.”
Assista ao Mundo Corporativo
O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Letícia Valente, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti.
Nos bastidores do Mundo Corporativo. Foto: Priscila Gubiotti/CBN
“Hoje o estacionamento passa a desempenhar um papel que eu diria básico de ser muito além do que isso.”
Os estacionamentos deixaram de ser apenas espaços para guardar carros e passaram a integrar estratégias de mobilidade, experiência do consumidor e geração de negócios. Em alguns casos, já funcionam como pontos de conexão entre diferentes meios de transporte, centros de serviços e fontes de dados para empresas. O assunto foi tema de entrevista ao programa Mundo Corporativo, da CBN, com Thiago Piovesan, CEO da Indigo no Brasil.
Thiago Piovesan explicou como a transformação do setor foi acelerada por mudanças no comportamento das cidades, pela digitalização dos serviços e pela necessidade de melhorar a experiência dos consumidores desde o momento da chegada aos empreendimentos. Segundo ele, o estacionamento passou a ser parte da jornada do cliente.
“Do ponto de vista de experiência do usuário, o estacionamento precisa se colocar como parte integrante daquele local onde ele vai visitar e oferecer tanta comodidade, tanta experiência, tanta complementaridade quanto o propósito principal”, afirmou.
O executivo destacou que a lógica de operação muda conforme o ambiente atendido. Em hospitais, por exemplo, o acolhimento humano ganha protagonismo. Já em arenas esportivas e eventos, o digital domina boa parte da experiência. No Mineirão, uma das arenas que a Indigo opera no Brasil, mais de 95% dos usuários usam sistemas digitais de acesso e pagamento.
Outro ponto abordado foi a influência do estacionamento sobre a fidelização dos clientes. Piovesan comparou a experiência de estacionar à experiência de frequentar um restaurante. Um bom atendimento logo na chegada pode influenciar diretamente a decisão de retorno do consumidor.
“Você deixa de frequentar um restaurante, por mais que a comida seja de alto nível, se você não tem uma experiência de chegada do mesmo nível”, observou.
Mobilidade urbana e cidade de 15 minutos
Na entrevista, Thiago Piovesan também explicou como os estacionamentos passaram a integrar projetos de mobilidade urbana. Ele citou o conceito da “cidade de 15 minutos”, em que os serviços essenciais devem estar acessíveis em pequenos deslocamentos.
Segundo ele, o estacionamento pode funcionar como ponto intermediário de conexão entre diferentes meios de transporte.
“Você pode planejar uma ida do ponto A ao ponto C, sendo o ponto B um estacionamento. Você sai daqui, vai no estacionamento, deixa seu carro, pega uma mobilidade mais inteligente, pode ser um patinete, um transporte público, enfim, um carro locado e termina essa jornada no ponto C”, explicou.
A Indigo, empresa de origem francesa, já opera mais de 350 estacionamentos no Brasil, com cerca de 350 mil vagas e aproximadamente 5,5 milhões de usuários por mês. A empresa atua em shopping centers, aeroportos, hospitais, parques, arenas esportivas e centros de eventos. Em 2025, teve um faturamento de R$ 1,7 bilhão.
Dados, inteligência artificial e novos serviços
Outro eixo da conversa foi o uso de inteligência artificial na gestão dos estacionamentos. A empresa já utiliza sistemas capazes de analisar sazonalidade, eventos nas cidades, comportamento do consumidor e ocupação dos espaços para sugerir estratégias operacionais, especialmente em aeroportos.
“O estacionamento vai começar a ganhar um protagonismo no core business, nas vendas ou na operação principal”, afirmou.
Segundo Piovesan, a tendência é que os estacionamentos se transformem em plataformas de serviços e relacionamento com os clientes. A partir da análise de dados, será possível oferecer promoções, serviços e experiências mais alinhadas ao perfil de cada usuário.
Ele também chamou atenção para a necessidade de os pequenos e médios empresários passarem a olhar o estacionamento de maneira estratégica. Para o executivo, ainda existe no Brasil uma visão limitada sobre o potencial desses espaços.
“Estacionamento nunca teve um protagonismo, nunca foi pauta da agenda estratégica deles”, disse.
Liderança e transformação
Na parte final da entrevista, Thiago Piovesan falou sobre os desafios de liderar uma empresa em um setor que passa por mudanças aceleradas. Para ele, o principal desafio está em equilibrar inovação tecnológica, adaptação cultural e gestão de pessoas.
“Estacionamento são pessoas cuidando de pessoas”, resumiu.
O executivo afirmou ainda que pretende atuar de maneira mais protagonista na transformação da mobilidade urbana brasileira, trazendo experiências internacionais adaptadas à realidade local.
“Eu tenho pessoalmente a missão de fazer parte dessa transição e dessa transformação no Brasil de maneira proativa”, afirmou.
Assista ao Mundo Corporativo
O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Letícia Valente, Karen Lemos, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti.
Guilherme Horn no estúdio do Mundo Corportivo Foto: Priscila Gubiotti/CBN
“Precisamos todos experimentar essa tecnologia.”
Uma mãe no interior da Índia, sem acesso à educação formal, passou a ajudar os filhos nas tarefas escolares com o apoio da inteligência artificial disponível no WhatsApp. Fotografava as lições de casa e pedia para a IA explicar o conteúdo. O recurso funcionou como um professor particular, gratuito e acessível a qualquer hora. Entusiasmada, ensinou outras mães a usar essa tecnologia. Meses depois, o professor da escola em que as crianças estudam disse que jamais havia visto um avanço tão significativo no desempenho dos alunos.
A história que abre o livro “O Midset da IA — Ela pensa, você decide” (Gente), foi, também, a que escolhi para iniciar a entrevista com o autor do livro Guilherme Horn, head do WhatsApp para Mercados Estratégicos. O exemplo revela de forma concreta, como a IA já altera rotinas e amplia possibilidades, tema da nossa conversa no programa Mundo Corporativo, da CBN.
Redesenhar processos é onde está o valor
Nas empresas, a inteligência artificial ainda está em diferentes estágios de adoção, segundo Horn que é responsável no WhatsApp pelos mercados do Brasil, Índia e Indonésia. Parte das organizações começa pela automação de tarefas já existentes. É um primeiro movimento, mas não resolve o principal. “O valor tá quando você começa a redesenhar os seus processos”, disse Horn.
Na prática, isso significa mudar a forma de trabalhar. Um exemplo citado por ele ajuda a visualizar esse cenário: empresas já criam agentes digitais que representam executivos e funcionários. Esses agentes analisam informações, trocam dados entre si e tomam decisões preliminares. Reuniões podem deixar de existir porque o debate acontece antes, de forma digital e assíncrona.
Esse modelo altera custos, tempo e dinâmica de trabalho. Ao mesmo tempo, exige um limite claro. “A execução pode ser transferida para IA, mas o julgamento ainda deve ser do ser humano.”
Medo, substituição e novas funções
O receio de perda de emprego aparece com frequência quando o tema é inteligência artificial. Horn reconhece esse temor: “A substituição, ela vai acontecer, é inevitável.” Ele observa, no entanto, que novas funções já surgem. Profissionais que treinam sistemas, definem contexto e orientam o uso da IA passam a ser necessários. O movimento segue uma lógica conhecida: algumas atividades desaparecem, outras são criadas.
A mudança também atinge quem já está no mercado. “Vai ter que sair da sua zona de conforto, vai ter que aprender um pouco sobre a tecnologia.” Hoje não se imagina um profissional sem domínio básico de ferramentas digitais, por exemplo uma planilha eletrônica. Em pouco tempo, o mesmo deve ocorrer com a inteligência artificial.
O risco de produtividade ilusória
O aumento de produtividade, frequentemente associado à IA, ainda não é uniforme. Em muitos casos, há uma expectativa maior do que o resultado. “Às vezes é uma ilusão esse aumento de produtividade.”
O motivo é simples. Parte do tempo ainda é gasto ensinando a ferramenta a executar tarefas. Em algumas situações, fazer manualmente pode ser mais rápido. Esse cenário tende a mudar com o amadurecimento do uso e das ferramentas.
Pequenos negócios e operação 24 horas
No caso de pequenas empresas, o uso da inteligência artificial já traz efeitos diretos. O WhatsApp, por exemplo, permite a criação de agentes treinados com informações do próprio negócio. O empreendedor pode alimentar o sistema com catálogo de produtos, histórico de conversas e regras de atendimento. Com isso, passa a oferecer respostas automáticas e personalizadas.
Horn destaca um ponto prático: “Transformar o seu negócio em 24/7”. O atendimento deixa de depender do horário comercial. O cliente envia uma mensagem e recebe resposta imediata, mesmo fora do expediente. Essa disponibilidade amplia a chance de fechar negócios.
A relação com o consumidor também muda. Sistemas tradicionais, baseados em menus e opções limitadas, tendem a perder espaço. “O consumidor quer conversar com uma pessoa.”
A inteligência artificial permite respostas mais próximas da linguagem humana. Em vez de escolher entre alternativas, o cliente descreve o problema e recebe uma solução específica. Essa diferença reduz frustração e melhora a experiência.
Experimentar é a principal recomendação
Para quem ainda observa a tecnologia com distância, a orientação é direta: testar. “A palavra-chave nesse momento é experimentação.” O acesso a ferramentas gratuitas facilita esse processo. Criar um agente simples, testar aplicações e entender limites são passos necessários para acompanhar a transformação.
A mudança não depende apenas de tecnologia. Lideranças precisam criar ambiente que aceite erro como parte do aprendizado. Horn lembra que inovação envolve tentativa e falha — e que esse ciclo precisa ser incorporado à cultura das empresas.
Assista ao Mundo Corporativo
O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Wender Starlles, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti.
O avanço da inteligência artificial já impacta a forma como empresas produzem conteúdo, constroem campanhas e definem estratégias de comunicação. O ganho de velocidade é evidente. O risco, menos visível, aparece na perda de identidade. Como trabalhar diante do aumento de eficiência que a IA proporciona e o risco de perda de originalidade foi o tema da conversa com Jaime Troiano e Cecília Russo, no Sua Marca Vai Ser Um Sucesso.
Cecília chama atenção para um movimento que contraria avanços recentes na representação de pessoas na publicidade. “Eu vejo que um dos riscos que a IA traz para a comunicação é a de estarmos dando um passo atrás em algo que já achávamos que estava resolvido.” Ela se refere ao esforço das marcas, nos últimos anos, para mostrar pessoas mais reais e diversas.
Segundo Cecília, a tecnologia pode recriar um padrão artificial ainda mais distante do cotidiano. Imagens com traços irreais, imperfeições exageradas e ausência de expressão humana voltam a ocupar espaço. O efeito prático é um recuo em uma agenda que buscava aproximar marcas e consumidores por meio da autenticidade.
Esse ponto exige equilíbrio. A comunicação também trabalha com aspiração — aquilo que desejamos ser. O desafio está em não perder o vínculo com a realidade ao tentar projetar esse ideal.
Jaime aborda outro risco: a dependência intelectual. Para ele, o uso excessivo da IA pode limitar a capacidade criativa. “Estamos cada vez mais reféns da IA”, diz. A consequência aparece no resultado final das marcas: soluções parecidas, previsíveis e pouco distintas.
Ele recorre a uma referência cultural para ilustrar o problema. “A desobediência é uma virtude necessária à criatividade.” A frase, associada a Raul Seixas, reforça a ideia de que inovar exige romper padrões. Quando todos recorrem às mesmas ferramentas e bases de dados, a tendência é a padronização.
Na prática, isso significa campanhas que se parecem, discursos que se repetem e marcas que perdem aquilo que as torna reconhecíveis. A identidade — construída ao longo do tempo — passa a ser diluída por respostas automatizadas.
O alerta não é contra o uso da tecnologia. Pelo contrário. Ambos destacam que a IA traz benefícios importantes e deve ser incorporada ao trabalho. A questão central está no modo de uso. A ferramenta não pode substituir o pensamento crítico, a intuição e a criatividade humana.
A discussão reforça um princípio básico do branding: valor de marca está ligado à diferença. Quando todas falam do mesmo jeito, deixam de ser lembradas.
A marca do Sua Marca
A tecnologia deve servir como apoio, não como substituição da inteligência humana. Marcas relevantes combinam eficiência com criatividade própria e mantêm sua identidade mesmo diante de novas ferramentas.
Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso
O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.