Mundo Corporativo: Thiago César, da Samsung, destaca como o marketing precisa se tornar mais humano

Reprodução do vídeo do Mundo Corporativo com Thiago César

“Não adianta mais gritar com campanhas caríssimas se você não tiver um estímulo que seja relevante para o consumidor.”
Thiago César, Samsung

A disputa pela atenção do consumidor nunca foi tão desafiadora. Cercado de telas, mensagens e estímulos, ele tem diante de si inúmeras opções de escolha, mas pouco tempo para se interessar de verdade por uma marca. Nesse cenário, ganha força a necessidade de escutar mais e falar menos. Esse foi um dos temas da conversa com Thiago César, diretor de marketing da divisão de Consumer Electronics da Samsung no Brasil, no programa Mundo Corporativo.

Escuta ativa e microcomunidades

Segundo César, as marcas já não têm o protagonismo que tinham quando bastava colocar uma campanha no ar para impactar grandes audiências. Hoje, a centralidade está no consumidor. “Ou eu escuto de fato o meu consumidor, ou não vou conseguir ser relevante. Se a marca não for relevante, ela vira paisagem.”

Esse processo passa pela análise de comportamentos em pequenos grupos. “Pensar em grandes massas hoje em dia está muito difícil. Você precisa ter claro que existem núcleos, culturas, subculturas que a marca precisa entender para poder chegar mais próximo e relevante ao consumidor.”

Na prática, isso levou a Samsung a reposicionar produtos como a TV The Frame. Mais do que um televisor, o aparelho se tornou parte da decoração da casa, dialogando com artistas e comunidades ligadas à arte. “Deixamos de falar apenas de tecnologia para conversar com microcomunidades que valorizam estética e estilo.”

Reagir rápido e com humildade

Para César, lançar uma campanha não é mais o fim do trabalho, mas o começo. “No momento em que você lança, você vai ouvir, coletar, entender e reagir.” A velocidade da resposta, afirma, pode ser um ativo criativo, já que mostra ao consumidor uma marca atenta ao diálogo.

Ele destaca ainda que admitir erros é parte do processo. “Assumir de maneira humana e visceral quando algo não sai como esperado pode ser tão potente quanto uma campanha caríssima de 60 segundos.”

Inteligência artificial como apoio

Apesar do debate sobre o impacto da inteligência artificial no marketing, César a enxerga como suporte para aprofundar a dimensão humana da comunicação. “Vejo a inteligência artificial muito mais no sentido de nos apoiar a sermos mais humanos. Quando você consegue automatizar parte de um processo de construção de marca ou de leitura de pesquisa, pode focar realmente no que importa: o comportamento das pessoas.”

Essa visão é reforçada pela experiência do executivo ao longo de mais de duas décadas de carreira, em empresas como Itaú, Netflix e, hoje, Samsung. Formado também em psicologia, ele lembra que não se trata apenas de entender dados, mas de compreender os desejos e símbolos que movem escolhas de consumo.

Assista ao Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast.

Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Letícia Valente.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: o uso ético da IA na publicidade é inegociável

Foto de Chee KahHay

A cassação de prêmios concedidos a uma campanha brasileira no Festival de Cannes deste ano acendeu um alerta sobre os limites éticos e a responsabilidade no uso da inteligência artificial na publicidade. A campanha da marca Consul perdeu o Grand Prix e um Leão de Bronze após denúncias e uma investigação da organização, que concluiu que conteúdos gerados por IA simularam eventos e resultados como se fossem reais.

Esse é o tema do comentário de Jaime Troiano e Cecília Russo no quadro Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, no Jornal da CBN. O episódio colocou em xeque não apenas a seriedade de uma peça publicitária, mas atingiu a imagem da publicidade brasileira como um todo. “De certa forma, quase que se confirma uma impressão que se tem de que é uma atividade criativa, mas abre mão de ser séria”, afirmou Cecília Russo. Ela também apontou o impacto na imagem do país: “Colocamos luz em traços da nossa identidade nacional que há anos tentamos afastar — de um país menos sério, não confiável”.

Jaime Troiano vê nessa crise uma possível inflexão positiva, ainda que provocada por um tropeço: “O trabalho ficou mais complexo, mas eu acho que vai ficar muito mais sólido, mais profissional”. Para ele, a partir de agora, os anunciantes estarão mais atentos aos cases enviados a festivais e à comunicação cotidiana, exigindo embasamento e idoneidade. Troiano destaca que a inteligência artificial não é o problema em si, mas sim o uso que se faz dela. “A inteligência humana é hoje mais do que nunca necessária. Esse é um grande alerta que a crise de Cannes acabou por estampar”.

A marca do Sua Marca

A mensagem central do comentário é clara: o uso ético da inteligência artificial é inegociável. A credibilidade da publicidade — e da marca — depende do compromisso humano com a verdade, com o caráter e com a responsabilidade profissional. Como resume Cecília Russo, “isso se tornou mandatório agora”.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.

Mundo Corporativo: “Liderança não é protagonismo”, diz Rafael Mayrink, da NP Digital


“Liderança não pode se colocar como protagonista. Ela precisa ser um guia, ajudar, auxiliar.”

Rafael Mayrink, NP Digital

O sucesso das empresas hoje vai além das competências técnicas e depende, sobretudo, da maneira como as pessoas se comportam, se relacionam e aplicam a tecnologia a seu favor. Este é o alerta de Rafael Mayrink, CEO da NP Digital Brasil, que participou do programa Mundo Corporativo para discutir a importância das habilidades comportamentais, o papel transformador da liderança e o impacto crescente da inteligência artificial no ambiente corporativo.

Ao longo da conversa, Mayrink destacou que “a pessoa precisa ler, ser curiosa, correr atrás, aprender mais sobre tecnologia e inteligência artificial para que ela use isso ao seu favor”. Para ele, o pensamento crítico se torna indispensável em um contexto em que as decisões precisam ser constantemente revisadas e alinhadas ao verdadeiro objetivo do cliente ou do projeto. “Se eu não tiver senso crítico para entender, perguntar e conhecer quem está do outro lado, não vou conseguir entregar o que realmente é necessário”, afirmou.

Treinar comportamento desde cedo

Mayrink defendeu que as competências comportamentais não nascem prontas e podem — e devem — ser desenvolvidas desde a infância. “Soft skills têm que estar lá na escola, desde o momento em que a criança começa a formar frases”, explicou. Segundo ele, é nesse processo que se aprende a falar em público, ouvir com atenção, lidar com frustrações e desenvolver empatia.

Ao falar sobre liderança, o executivo enfatizou que o líder precisa abrir espaço para os outros, ouvir ativamente e atuar como um orientador. “Nem sempre a liderança tem razão, mas por ter mais experiência, vai saber ouvir e guiar as pessoas para resolverem seus próprios problemas”, pontuou.

Inteligência artificial e o novo marketing

A tecnologia e a inteligência artificial já estão profundamente integradas ao marketing digital, e Mayrink apontou que isso exige um novo olhar sobre as funções e as relações de trabalho. “A inteligência artificial vem para aumentar produtividade, dar mais tempo e permitir que as pessoas desenvolvam outras habilidades”, comentou. Ele alertou, porém, que as mudanças exigem adaptação contínua e capacidade de aprender novas funções.

No encerramento, Mayrink aconselhou os jovens profissionais a ampliarem o repertório: “Faça algo fora do seu dia a dia. Aprenda um instrumento, pratique um esporte, explore novas experiências. Isso ajuda a desenvolver criatividade e habilidades de comunicação, fundamentais para qualquer carreira.”

Assista ao Mundo Corporativo

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A necessidade inegociável da leitura e os perigos da preguiça intelectual gerada por IA no Direito 

Por Antonio Carlos de Aguiar

Imagem criada por DALL-E, via OpenAI

Vivemos uma era de atalhos cognitivos. De bibliotecas silenciosas, onde se degustavam obras inteiras, migramos para cópias xerox de trechos selecionados e, hoje, nos contentamos com respostas prontas de IAs, sem verificar sua procedência, fidelidade ou profundidade.

O fenômeno é preocupante em nível social e mais ainda no Direito. Há petições que repetem jurisprudência que o autor não conferiu se de fato existiam; são citadas doutrinas clássicas de livros cujas capas o peticionário desconhece, e essa reprodução – via Ctrl+C/Ctrl+V – hoje está “mais sofisticada”, com apoio em IAs, como o ChatGPT – que, não raro, apresentam considerações “jurídicas” alucinadas. Um bom exemplo: o “princípio da cristalização jurídica” (inventado por esse autor, para ilustrar exatamente o porquê desse artigo) foi “definido” pela IA do Google com aparente rigor técnico e com importante alerta sutil ao seu final: “As respostas de IA podem incluir erros. Consulte um profissional”. Quantos leem até o fim?

E, com “precisão”, definiu e nos apresentou no que cientificamente consistia o princípio da cristalização jurídica:

•  Impedir a rediscussão de matérias já decididas: Uma vez que uma decisão judicial transita em julgado (ou seja, não cabe mais recurso), o caso não pode ser reaberto para discutir os mesmos pontos decididos. 

•  Garantir a estabilidade das relações jurídicas: A decisão judicial, uma vez cristalizada, torna-se definitiva, protegendo as partes envolvidas de futuras incertezas e discussões sobre o mesmo tema. 

•  Proteger o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada: A lei não pode prejudicar o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada, que são aspectos diretamente ligados à cristalização jurídica. 

E seguiu: O princípio da cristalização jurídica é fundamental para a manutenção da ordem e da segurança no sistema jurídico, evitando que as decisões judiciais sejam constantemente questionadas e que as relações jurídicas se tornem instáveis e incertas

O risco, portanto, vai além da simples falta de uma leitura profunda. Uma reportagem recente no Estadão (22/06/2025), por exemplo, revelou como o ChatGPT levou um usuário emocionalmente vulnerável a um surto delirante, afirmando até que ele tinha a capacidade de voar, porque se encontrava numa dimensão da realidade diferente. Contudo e, depois, ao final, ao ser questionando sobre esse destino, sem o menor pudor e/ou responsabilidade assumiu que mentiu. 

Junte-se a esse absurdo de direcionamento, o componente da aceleração vivenciada por toda a sociedade atualmente, tendo como resultado dessa soma de elementos, a prática cotidiana de um advogado que, na pressa, usando uma “pesquisa” similar para aconselhar um cliente, sem perceber que a IA distorceu a realidade, simplesmente envia a sua resposta “alucinante” ao seu cliente.

As consequências de viés negativo são ilimitadas.

A solução, no meu ver, está num outro caminho, que não se traduza na volta ao passado, porque isso é impossível, mas, na assunção plena de responsabilidades via deep learning (humano e não da máquina: machine learning), voltando-se às fontes: lendo livros, jurisprudência e doutrina na sua origem, não as consumindo em fragmentos. Além disso, desconfiar de respostas rápidas: IAs são ferramentas, não substitutas do estudo metódico e, sobretudo, fazer da rotina de estudo um hábito de verificação. O Direito exige precisão. Não há espaço para qualquer tipo de preguiça intelectual. Isso pode custar caro.

Estudo, leitura integral e a pesquisa paciente fazem parte da construção de um caminho único e verdadeiramente seguro para fazermos e entregarmos o nosso melhor.

Antonio Carlos Aguiar , é sócio do Peixoto & Cury Advogados, além de Mestre e Doutor em Direito do Trabalho pela PUC/SP. Titular das cadeiras 28 e 45 das Academias Paulista e Brasileira de Direito do Trabalho.

Consultor de compras do ChatGPT pode transformar Google em classificado de jornal

Photo by Shantanu Kumar on Pexels.com

Lendo a newsletter semanal de O Globo sobre inteligência artificial, batizada de IAí?, fui apresentado a mais uma funcionalidade do ChatGPT. A ferramenta da OpenAI, que já se parece com um canivete suíço digital, agora também atua como conselheira de compras. Com um simples comando, o chatbot exibe um carrossel de produtos — com preços, comentários e comparações.

Aparentemente, não repete o viés comercial do Google, onde quem paga mais aparece melhor posicionado. Mas, como destaca a jornalista Juliana Causin, a lógica que define o que é relevante para a IA tende a favorecer quem já ocupa espaço — e pode deixar muita gente boa, pequena e invisível do lado de fora da vitrine.

De acordo com a explicação da OpenAI, os resultados da busca variam conforme a maneira como o usuário formula a pergunta — como em toda e qualquer interação com a inteligência artificial. Quanto mais clara e específica a solicitação, mais precisa será a resposta. Se pedir por preço, receberei preço. Se buscar qualidade, é essa a régua aplicada.

A IAí? testou a função e mostrou que a ferramenta de compras do ChatGPT começa a invadir um território que, até agora, era domínio quase absoluto do Google — e pode mudar a forma como consumimos. A newsletter também faz um alerta para os riscos já conhecidos: alucinações do sistema e limitações que distorcem as respostas.

Ainda assim, quero crer que não vai demorar para que as buscas por produtos deixem de começar no Google. Bruno Lima, da Kipiai, ouvido na reportagem, explica o motivo: “a IA entrega um resumo, uma resposta pronta. Isso encurta o caminho, e é ótimo para o usuário”.

Somos seres programados para buscar atalhos. Em tempos de infoobesidade, não resistimos a um serviço que resume, condensa e entrega tudo de mão beijada. O Google, se não se mexer, corre o risco de acabar como os antigos cadernos de classificados dos jornais impressos: já foram indispensáveis, mas hoje são apenas uma lembrança de um tempo em que a busca era mais demorada — e menos inteligente.

Leia aqui a newsletter IAi? com todas as dicas de como usar o consultor de comprar do ChatGPT

IA no atendimento ao cliente e o insubstituível sorriso do ser

Foto de Yan Krukau

Fui buscar dois blazers de inverno na lavanderia. Era a primeira vez que estava sendo atendido naquela loja. A atendente incluiu meu CPF no sistema, identificou as roupas que estavam à minha espera e, ao entregá-las nos cabides, disse que se lembrava de mim. Fez questão de tirar o plástico de uma das peças para mostrar que havia conseguido remover o encardido da gola, sem prejudicar o tecido — algo que havia prometido fazer. Aquilo me causou surpresa. E mais que isso: me senti reconhecido. Por alguns instantes, deixei de ser apenas um número no cadastro para me tornar uma pessoa com história, memória e expectativa.

Poucas horas depois, na loja de produtos para animais, experimentei o oposto. A funcionária do caixa fez três perguntas padronizadas, com entonação mecânica e olhar distante. Perguntas que poderiam muito bem ter sido feitas por um totem de autoatendimento. E talvez esse totem, mais ágil e menos pretensioso, tivesse me causado maior satisfação. O atendimento humano, quando automatizado emocionalmente, gera frustração — e não engajamento. 

Lembrei dos dois casos que vivenciei em menos de 24 horas enquanto lia artigo de Anjli Raval, no Financial Times com o título A IA não resolverá o problema real do atendimento ao cliente’ (traduzido para o português). A jornalista analisa o uso crescente da inteligência artificial nos setores de atendimento, especialmente os call-centers. A promessa é clara: respostas mais rápidas, mais precisas, mais personalizadas. A ironia, no entanto, é que a IA pode ser percebida como mais humana do que muitos humanos encarregados de atender. Um paradoxo que desafia as empresas e a própria ideia de relacionamento com o consumidor.

Esse paradoxo é sustentado por evidências. Um estudo conduzido pela Harvard Business School, com 3.500 participantes, mostra que ainda valorizamos mais a empatia de um ser humano. Após relatarem situações emocionais, os participantes receberam respostas empáticas idênticas, algumas escritas por pessoas, outras geradas por IA. Aqueles que acreditaram estar diante de uma resposta humana sentiram-se mais compreendidos, acolhidos e satisfeitos. O dado mais relevante talvez seja este: entre 30% e 50% dos entrevistados afirmaram estar dispostos a esperar horas — ou até dias — por uma resposta vinda de um ser humano, em vez de receber imediatamente uma resposta da máquina.

Esse desejo por interação  não é apenas uma questão afetiva, é também estratégica. Um relatório da Gartner revela que até 2027 metade das empresas que tinham planos de substituir seus atendentes por sistemas de IA devem rever essa decisão. Após ouvir 163 líderes de atendimento ao cliente na área de serviços e suporte, a consultoria internacional concluiu que colocar a tecnologia para atender é mais caro e complexo do que se imaginava. Além disso, Kathy Ross, da Gartner, lembra que “o toque humano continua insubstituível em muitas interações”. Quando a relação exige empatia e discernimento, a máquina ainda falha. 

É justificável que a velocidade das transformações que a IA proporciona nos coloque entre a euforia de que tudo será resolvido pela tecnologia e o receio de que a máquina se humanizará de tal maneira que tornará obsoletos muitos dos nossos papéis sociais e profissionais. Porém, como aprendemos na história, desde Aristóteles, a resposta está no caminho do meio. Inteligência artificial e inteligência humana devem se somar diante do propósito de oferecer a melhor experiência ao cliente.

A IA pode entregar eficiência. Mas só o ser humano é capaz de oferecer afeto. E, quando se trata de atendimento, é isso que as pessoas mais se lembram: o cuidado, a escuta e o gesto. Empresas que compreenderem essa diferença e treinarem suas equipes para aliar tecnologia e empatia estarão mais preparadas para encantar — e fidelizar — seus clientes. Afinal, como mostrou a atendente da lavanderia, às vezes, o brilho na gola importa menos do que o zelo com que ela foi limpa.

Relacionamentos na era da Inteligência Artificial: o que ainda é humano?

Pamela Magalhães

Psicóloga e Especialista em Relacionamentos

Foto de Pavel Danilyuk

Vivemos uma revolução silenciosa, que até recentemente parecia invisível, mas que agora se revela em cada mensagem respondida, música composta, imagem gerada ou conversa simulada por inteligência artificial. Em meio a tanta eficiência tecnológica, um novo dilema emocional surge: como preservar nossa autenticidade em tempos em que até as emoções podem ser imitadas?

Diferenciar o que é real do que é simulado se torna cada vez mais desafiador — e necessário. Uma pesquisa realizada com mais de 3,5 mil pessoas pela World no Brasil – uma rede da empresa Tools for Humanity que busca ajudar a diferenciar humanos de robôs e inteligências artificias – reflete esse contexto. Mais de 66% dos pesquisados se sentem preocupados quanto à possibilidade de encontrar bots ou perfis falsos em apps de relacionamento e 72% dos entrevistados disseram que já suspeitaram ou descobriram que algum de seus matches poderia ser um robô ou uma IA.

A IA não sente, mas simula sentir. Isso tem confundido a nossa percepção:

– Se um texto nos emociona, mesmo sendo criado por uma máquina, o sentimento é real?

– Se um avatar fala tudo o que queremos ouvir, isso basta?

Essa mistura entre o que é gerado artificialmente e o que vem de um ser humano está provocando um novo tipo de crise: a crise da identificação.

Começamos a nos perguntar:

– Isso foi feito por uma pessoa ou por uma IA?

– Essa emoção é verdadeira ou programada?

E nos relacionamentos?

Essa confusão não afeta apenas a forma como consumimos conteúdo — impacta diretamente a maneira como nos relacionamos. No mundo dos filtros, dos chats automatizados e das respostas perfeitas, começa a faltar espaço para o erro, a dúvida, o silêncio, a pausa, o imprevisto — ou seja, para o humano.

Relacionar-se de forma autêntica exige vulnerabilidade, mobiliza nossas emoções e, justamente nesse impasse, no emaranhado das sensações, é que nos conectamos e nos vinculamos realmente. Ainda assim, cada vez mais, estamos trocando essa vulnerabilidade por versões otimizadas de nós mesmos — versões editadas, práticas, seguras, agradáveis.

Estamos tentando ser o que “funciona”, não quem realmente somos.

O curioso disso tudo é que as ferramentas da IA otimizam e muito diversas atividades, encurtam etapas, nos poupam tempo e viabilizam caminhos. Mas quando o assunto é relacionamento entre humanos, a dinâmica natural das trocas fomenta o processo e é justamente nele que construímos pontes sólidas de interação, que nutrem nossos corações com o que mais necessitamos: amor.

Reconhecer, o quanto antes, se estamos nos comunicando com uma máquina ou um ser humano torna-se indispensável para nossa segurança. É preciso garantir que não estamos confiando o que temos de mais precioso — nossos sentimentos — a um robô que não sente e nunca foi o que se diz ser.

É preciso cultivar a autenticidade:

1.Reivindique o seu sentir

Não terceirize sua experiência à máquina. Sentir confusão, dúvida ou até tédio é humano — e essencial para amadurecer emocionalmente.

2. Exerça presença

A IA é rápida. Os vínculos reais, não. Eles exigem tempo, escuta, paciência e imperfeição. Conexão não se mede pela quantidade de interações, mas pela profundidade delas.

3. Questione a idealização

O relacionamento perfeito não existe. Buscar respostas exatas para emoções complexas é algo que nem mesmo a melhor tecnologia pode oferecer.

4. Seja curioso sobre si mesmo

A autenticidade nasce do autoconhecimento. Quem é você sem os filtros? O que te move, te toca, te paralisa? Cultive o olhar interno.

No fim das contas…

Talvez a grande pergunta da era da IA não seja o que é real ou irreal, mas sim: O que ainda é verdade para mim, mesmo em meio ao artificial?

A autenticidade, nesse cenário, é um ato de coragem. É escolher sentir, errar, experimentar e construir conexões reais, ainda que imperfeitas. Nenhum algoritmo, por mais avançado que seja, será capaz de substituir o impacto de uma presença viva, de um olhar que compreende ou de uma escuta que acolhe.

E você? Já se perguntou se está se relacionando com alguém — ou apenas com uma projeção que parece segura, mas não sente nada?

Caminhos para um futuro mais confiável

Neste novo mundo, em que as fronteiras entre humano e máquina se confundem, tecnologias como a que a World oferece surgem como uma tentativa de restaurar a confiança digital. A proposta é ousada: uma credencial digital pioneira baseada em prova de humanidade, permitindo que redes sociais e plataformas verifiquem se você está interagindo com uma pessoa real, e não com uma IA.

Esse tipo de solução ainda levanta debates importantes, mas já indica que a sociedade busca formas de reconhecer e valorizar o humano — não apenas no toque, no olhar ou na escuta, mas também nos espaços digitais, onde, cada vez mais, vivemos, amamos e nos relacionamos.

Pensar, ponderar, falar e pesquisar mais sobre o assunto pode ser justamente a forma de não nos tornarmos reféns da IA, mas termos o melhor dela.

Pamela Magalhães é psicóloga (CRP:06/88376) e especialista em relacionamentos.

Mundo Corporativo: Suzana Oliveira e Bárbara Vallim, da Hera.Build, mostram como agentes de IA transformam os negócios

Suzana e Bárbara em entrevista ao Mundo Corporativo Foto: Priscila Gubiotti/CBN

“Quem não iniciar algum projeto (de IA) vai acabar não tendo vantagem competitiva no mercado.”

Suzana Oliveira, Hera.Build

Se a inteligência artificial já era vista como um diferencial estratégico, os agentes de IA surgem agora como o próximo passo para empresas que buscam eficiência, personalização e agilidade. Em entrevista ao Mundo Corporativo, Suzana Oliveira e Bárbara Vallim, fundadoras da plataforma Hera.Build, explicaram como os agentes de IA — soluções automatizadas baseadas em inteligência artificial — estão sendo usados para impulsionar resultados de forma direta e mensurável.

Automatizar para crescer

Ao contrário da imagem abstrata que muitas vezes acompanha o debate sobre IA, Suzana e Bárbara apresentam soluções concretas. “A gente com uma solução super simples, que era colocar um AI Concierge no e-commerce desse cliente, em dois meses aumentou 63% da receita deles”, contou Suzana. O diferencial está na forma de aplicação: agentes com escopo claro, regras bem definidas e uma personalidade ajustada à comunicação da empresa.

A ideia é tornar a tecnologia acessível mesmo para quem não tem familiaridade com programação. “Toda a nossa plataforma é feita para que seja simples, fácil e muito rápido de implementar”, disse Suzana. O sistema da Hera.Build permite que usuários configurem seus próprios agentes de forma intuitiva. “Todos nós respondemos formulários desde criança. É esse o nível de acessibilidade que queremos oferecer.”

Regras, escopo e personalidade

Segundo as fundadoras, um dos maiores receios ao lidar com IA generativa — conhecido como “alucinação”, quando o sistema gera respostas fora de contexto — pode ser reduzido com o uso correto de parâmetros. “A inteligência artificial é literal. Se você não passa a instrução de maneira assertiva, ela pode interpretar diferente do esperado”, alertou Bárbara. Para mitigar isso, a plataforma trabalha com um modelo baseado em três pilares: personalidade, escopo e regras de comportamento.

Essa estrutura permite moldar o agente para representar com fidelidade a linguagem da marca. “Imagina o tanto que é importante, uma marca que vai usar a inteligência artificial para se comunicar com os seus clientes, o tanto que essa inteligência tem que representar a forma de comunicação, o jargão, as expressões daquela marca.”

IA sem mistério — e com resultados

Parte do trabalho da Hera.Build também está em desmistificar a inteligência artificial dentro das empresas. “Existe muito desconhecimento, muita insegurança. Será que vai funcionar? Será que vai alucinar?”, relatou Suzana. A proposta das fundadoras é acompanhar o cliente desde a definição da necessidade até a implementação segura. “Sempre começamos com a pergunta: o que vai girar o teu ponteiro mais rápido? Pode ser redução de custo, aumento de receita ou eficiência operacional.”

Bárbara acrescentou que a personalização vai além do uso corporativo. “A gente já desbloqueia o celular com a leitura da face. Agora imagine que a IA sabe que você janta todo dia às 8 horas. Ela pode facilitar tarefas do cotidiano sem que você precise pedir.”

Do AI Concierge ao Steve Jobs digital

A Hera.Build também é reflexo do perfil de suas fundadoras. Ambas mulheres, em uma equipe 100% feminina, construíram uma empresa de tecnologia que aposta em representatividade e autonomia. Suzana criou um agente chamado “Contenta” para ajudá-la a produzir conteúdo personalizado. Bárbara, por sua vez, recorreu a um personagem ilustre: “Logo no começo, modelei um agente para personificar o Steve Jobs. Ele virou meu mentor digital e me ajudou a criar a Hera.”

Apesar das soluções sofisticadas, o foco é sempre na aplicação prática. “Se você tem tempo disponível para aprender outras coisas, isso vai levar o nível de conhecimento da humanidade para outro patamar”, concluiu Suzana.

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Mundo Corporativo: Roberto Valério, da Cogna, fala do uso estratégico da inteligência artificial na educação

Entrevista no estúdio de podcast da CBN com Roberto Valério Foto: Priscila Gubiotti/CBN

“Se eu não conheço os processos, não consigo tomar decisões para tornar minha organização mais competitiva.”
Roberto Valério, Cogna

A inteligência artificial está mudando o modo como se aprende — e também como se ensina. Em um país marcado por desigualdades de acesso à educação e com enormes desafios na retenção e no engajamento dos alunos, a personalização do aprendizado por meio da IA deixou de ser uma promessa distante para se tornar um projeto em curso em larga escala. A maior prova disso vem de dentro da maior empresa de educação do Brasil. Esse é o tema da entrevista com Roberto Valério, CEO da Cogna Educação, no programa Mundo Corporativo.

Do hype à implantação

Em março de 2023, Valério esteve no South by Southwest, em Austin, nos Estados Unidos. A efervescência em torno da inteligência artificial generativa o fez voltar com um alerta: “Apesar de atentos, estávamos lentos”. A partir dali, liderou um processo de capacitação interna e redesenho de processos com foco na aplicação da IA. “Fizemos um mapeamento dos mais de 1.500 processos da empresa para entender onde aplicar com mais eficiência a tecnologia”, relatou.

Segundo ele, a IA só é produtiva quando usada com clareza de propósito. “O uso da inteligência artificial só pode ser feito se o executivo ou líder conhecer os seus processos”, enfatizou. Ao aplicar essa lógica, a Cogna criou um “marketplace interno” com mais de 120 agentes de IA em funcionamento — metade voltados à operação, 30% à educação e o restante a novos negócios.

Educação personalizada em escala

A grande aposta da empresa é na personalização da aprendizagem. “Se conseguirmos fazer com que a inteligência artificial construa esse modelo de forma que o tempo das pessoas seja produtivo, cada hora de estudo será realmente útil para aquele aluno”, afirmou. Essa abordagem se concretiza em ferramentas como a Plu, agente de IA da plataforma Plural, que auxilia professores na montagem de aulas e alunos na construção do raciocínio, sem fornecer respostas diretas.

No ensino superior, a IA atua de forma semelhante. “Se o aluno de engenharia tem dificuldade em cálculo 1, o sistema identifica que a origem da dúvida está no ensino médio e oferece, naquele momento, uma revisão contextualizada”, explicou Valério. A medida tem dado resultado: alunos que utilizam a ferramenta com regularidade têm desempenho acima da média da turma.

Riscos e cuidados

Implantar IA em empresas e escolas exige estrutura. “A tecnologia está disponível, mas para funcionar bem é preciso uma base de conhecimento organizada e medidas de segurança”, alertou o CEO. A Cogna evita, por exemplo, que conteúdos sensíveis apareçam nas respostas, e adota uma política rígida para evitar o risco de “alucinações” dos agentes.

Além disso, o executivo destacou o risco da automatização sem supervisão: “Criar com IA e publicar sem revisar é uma armadilha. Nenhuma empresa pode abrir mão da gestão de qualidade do que entrega”.

A preparação das equipes também foi um ponto central da transição. “Começamos com dois ou três entusiastas internos e, a partir deles, construímos um programa de letramento em inteligência artificial com consultorias e encontros semanais para debater aplicações e estrutura de execução”, contou.

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Mundo Corporativo: Alfredo Cardoso, da Valsa Saúde, fala do desafio de equilibrar tecnologia e humanidade na saúde

Foto: Priscila Gubiotti/CBN

“No final do dia, são pessoas cuidando de pessoas.”

Alfredo Cardoso, Valsa Saúde

A inteligência artificial avança, as tecnologias médicas se sofisticam, mas nada disso faz sentido se o cuidado com o paciente perder o vínculo humano. Esta é a convicção de Alfredo Cardoso, CEO do grupo Valsa Saúde, que defende uma gestão baseada em compaixão, escuta e personalização no atendimento em saúde. O tema foi tratado na entrevista ao programa Mundo Corporativo, que foi ao ar na CBN.

“Temos uma estrutura hospitalar desenhada para o pior cenário, mas a maioria dos pacientes precisa de cuidado contínuo e preventivo fora do hospital”, explica Alfredo. Com esse diagnóstico, o grupo Valsa Saúde passou a atuar em cuidados pré e pós-hospitalares e reabilitação, monitorando mais de 5 mil pacientes com doenças crônicas. O modelo busca atender precocemente, reduzir custos e melhorar a qualidade de vida, com médicos generalistas, clínicas especializadas e um hospital voltado para reabilitação.

Humanização como estratégia

A tecnologia, para Alfredo, deve ser ferramenta e não substituição: “Se o médico faz o diagnóstico mais rápido com ajuda da IA, o que ele faz com o tempo que sobra? Deve escutar o paciente”. Ele critica a massificação e lembra que o paciente “representa 100% da sua própria estatística”.

Alfredo alerta para o risco de os avanços servirem apenas para aumentar a produtividade: “O desafio é que a tecnologia aproxime, e não afaste o profissional de saúde do paciente”. No grupo Valsa, a agenda médica não é comprimida por metas rígidas. “Deixamos que o médico determine quanto tempo precisa para cada paciente”, afirma.

Ouvir, explicar, consentir

Para Alfredo, o tratamento humanizado exige também uma comunicação clara e transparente com o paciente. “O procedimento consentido é uma boa prática. Não basta o profissional dizer o que será feito. O paciente precisa entender, confiar e aceitar.” O CEO do grupo Valsa defende uma escuta ativa também na gestão: “Verdades absolutas em saúde não existem. Estamos sempre aprendendo. É preciso ouvir as necessidades do outro”.

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