Conte Sua História de São Paulo 465 anos: muito frio, pouca roupa e uma tremenda vontade de ser alguém na vida

 


Por Edileide Koller
Ouvinte da CBN

 

 

Tenho um orgulho danado de ser umbuzeirense. Nasci em uma casa bem grande, onde da metade para trás pertencia a Pernambuco e da metade para frente, a Paraíba. De Umbuzeiro, minha família e eu, com 4 anos, fomos morar em Orobó, cidade mais próxima e totalmente pernambucana, para que meus irmãos mais velhos pudessem estudar no ginásio. Quando eu tinha 9 anos, fomos morar em Recife — novamente por conta dos estudos dos meus irmãos que deveriam fazer faculdade para “ser alguém na vida”.

 

A partir daí, segue essa história que sempre me faz derramar um líquido salgado pelo rosto. Um típico exemplo de desigualdade no Brasil, pelo tanto de força e determinação que eu tinha para “vencer na vida”. Na época não entendia bem isso. Como é bom às vezes não entender bem o que se passa a nossa volta. Eu só tinha a certeza de que tudo dependia de mim, que se eu me esforçasse bastante, muito mesmo, eu conseguiria. Infelizmente, não é bem assim. Precisamos de oportunidade também. Faltou! Chorei agora. Literalmente chorei muito.

 

Pois bem, foi no Recife que comecei faculdade de Economia na UNICAP – Universidade Católica de Pernambuco e, no 3º ano, decidi morar em São Paulo a convite do meu querido irmão Walmir, que lá morava. Cheguei em 1987, com 22 anos.

 

São Paulo do frio, da garoa, do consolo. Cidade grande, linda, cheia de cinemas, teatros e parques. Cada dia mais a cidade me encantava e me seduzia. São Paulo sempre foi palco de grandes movimentos, sede de multinacionais e renomadas universidades. Me empolguei.

 

Sabe aquela guerreira nordestina, que sabia o que queria? Vencer na vida! Consegui uma transferência da faculdade para a PUC, de manhã. Não tinha como pagar. Consegui uma transferência para a FMU, à noite.

 

Comecei a trabalhar na primeira chance de emprego. Recepção.

 

Mas estava em São Paulo. Quantos queriam estar…

 

Um dia, em plena Avenida Paulista, voltando da faculdade para casa, o termômetro marcava 10 graus. Muito frio, pouca roupa. Muita fome, pouco dinheiro. E eu me perguntei se não era melhor estar no calor da casinha da minha mãe, tomando sopa de feijão e com a barriga cheia, lá no Recife. Realmente um dilema, porque só vivendo isso para saber.

 

Mas estava em São Paulo. Quantos queriam…

 

Somente em São Paulo, percebi o quanto era limitada, o quanto não sabia das coisas, o quanto tinha que correr contra o tempo para conquistar meus objetivos. O quanto tinha que ler, estudar, acordar cedo, dormir tarde e me privar de fazer lanches no meio da manhã e no meio da tarde. Mas as oportunidades eram maiores. Mesmo relativizando porque os salários em São Paulo são maiores, mas o custo de vida também. Tem mais empregos, mas a demanda por emprego é maior.

 

E eis que, no meio disso tudo conheci Celso. 1989.

 

Ufa!!! Um namorado. Pelas nossas diferenças, não sei como ficamos juntos. Devo ter conquistado aquele coração alemão pelo tanto de amor que tinha para dar e faltava a quem. E enchi o homem de amor. Até hoje, quase 30 anos.

 

E em São Paulo posso dizer que vivi os melhores momentos da minha vida. Me formei, trabalhei, casei, construí uma família linda, ganhei minhas duas meninas, Beatriz e Letícia. Conquistei coisas importantes da vida.

 

Pois bem, essa é a resumidíssima história sobre minha chegada a São Paulo. O tempo muda nossas perspectivas, nossos pensamentos e hoje não somos o que éramos há um ano, quanto mais há 30 anos. Mas mantive um pensamento que tenho desde pequena, desde sempre. O conhecimento é a principal riqueza. Através dele você faz conquistas e as mantêm. Durante todo esse percurso que acabei de contar, tentei aprender o máximo que pude, dentro das minhas possibilidades. E aprendi que nunca é tarde para isso. Eu não paro.

 

Ah, São Paulo! Quantos queriam…

 

Edileide Koeller é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe desta série especial de aniversário: envie seu texto agora par contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo 465 anos: a catarina que adora ser paulistana

 

Por Brigitte Ramos
Ouvinte da CBN

 

 

Taió, Santa Catarina, 29 de janeiro de 1957. Nasce a filha do padeiro da cidade, e recebe o nome de Brigitte, mesmo nome da filha do pastor recém-chegado da Alemanha. Naquela época muitos pais escolhiam esse nome devido à Brigitte Bardot. Essa pequena, típica alemãzinha, sempre de tranças, contra a vontade, lógico, desde que se conhece por gente adorava cidade grande, praças, igrejas, muitas ruas iluminadas e andar em ruas de paralelepípedo. A maior cidade que tinha acesso até os sete anos era Rio do Sul.

 

Alguns anos depois, mudamos para Blumenau, e de lá um dia na minha adolescência tive a oportunidade de vir para São Paulo, com minha mãe, de ônibus, para o casamento de um tio. Foi apaixonante conhecer a cidade. Disseram que era terra da garoa e era, não tivemos nenhum dia de sol. Me levaram ao Museu do Ipiranga. O casamento foi numa igreja na Avenida Rio Branco, no centro da cidade, e a festa num grande buffet.

 

Até a sinalização das obras com luzes dentro de baldes vermelhos e a iluminação dos carros parados no trânsito eram belas. Pequenos detalhes me deixavam muito felizes, como andar de elevador e admirar a Avenida Paulista do oitavo andar de um prédio, próximo ao MASP. Lá morava uma tia e de lá eu podia ver pessoas trabalhando nos outros prédios e ficava imaginando, como seria bom trabalhar num lugar destes. Nessa viagem plantei uma semente de esperança para realizar meu sonho.

 

Quando tinha entre 18 e 19 anos, o sonho se realizou. No inicio morei com meus tios, aqueles para cujo casamento eu vim na adolescência. Era no Itaim. Mas eu  queria independência e fui morar numa casa em que se alugavam quartos, na Rua Conselheiro Ramalho. A dona da pensão sempre pedia para o filho me acompanhar de manhã quando saía para o trabalho e à noite quando eu voltava da escola de ônibus. Eram só três quarteirões da Brigadeiro Luis Antonio. Só mais tarde fiquei sabendo o quanto não era seguro morar ali, próximo a uma tal de Madame Satã.

 

Por pressão de meus parentes fui morar num apartamento com outras moças do interior de São Paulo e uma de Minas, um pouco mais próximo da Avenida Paulista, saindo assim da zona de perigo. Foi em uma discoteca na Faria Lima, a Papagaios, que conheci meu marido. Era a balada da época com luz negra e um decoração bem diferente dos bailinhos da minha cidade.

 

Conheci a cidade andando de ônibus e, às vezes, até de trem, atrás de um emprego, escolhido em algum anúncio de jornal ou por indicação de uma agência da Rua Barão de Itapetininga, próximo ao Mappin —- que era a loja de departamentos onde todo paulista fazia compras. Trabalhei em algumas empresas alemãs. Atualmente trabalho numa em São Bernardo do Campo.

 

Uma sensação gostosa é pousar em Congonhas, ver a cidade lá de cima  e saber que tem um cantinho lá em baixo que é meu. Outro prazer é fazer ginástica e caminhadas no Parque do Povo — sinto-me no Central Park de Nova York. No entorno do sossego do parque, aviões no céu de minuto em minuto, luzes na Marginal, bicicletas nas ciclovias, pessoas caminhando, trens passando ao lado do Rio Pinheiros e os arranha-céus antigos e novos, cercando o parque, iluminados. De vez em quando você pode até acompanhar o pouso de um helicóptero no topo de um deles.

 

Apesar de ser uma grande cidade estamos muito próximos uns dos outros graças aos avanços da tecnologia e da comunicação. Lá nos meus sonhos de criança e adolescência, nunca pensei que um dia estaria ao volante de um carro indo trabalhar e ouvindo uma amiga de colégio da minha filha narrando o trânsito da cidade de São Paulo do alto de um helicóptero.

 

Brigitte Ramos é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: escreva para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo 465 anos: lembranças de uma cidade que o Alzheimer insiste em tirar de mim

 

Por Mário Curcio
Ouvinte da CBN

 

 

No Conte Sua História de São Paulo as lembranças de Sidnea Rodrigues Curcio, escritas por Mário Curcio:

 

Já contei minha história antes, mas como tenho o Mal de Alzheimer, dei-me o direito de esquecer para poder contar outra vez, agora sob o ponto de vista de quem convive comigo no dia a dia.

 

Cheguei a São Paulo na metade dos anos 1950, recém-casada, para trabalhar numa escola aqui na zona sul. Logo surgiu a possibilidade de pegar uma classe e comecei a trabalhar. Pouco depois disso apareceu uma oportunidade no ensino municipal. Fui das primeiras professoras da rede municipal.

 

Sempre morei aqui em Santo Amaro, na zona siul. Não só andei de bonde, mas também fiz a última viagem de bonde da cidade, ao lado do então prefeito Faria Lima. Também acompanhei, aqui em Santo Amaro, a grande migração dos nordestinos. Num primeiro momento, eles se concentravam numa travessa da Avenida João Dias, perto da atual Catedral da Fé, aquela grande igreja Universal, próximo da da ponte João Dias. Eles eram determinados a trabalhar e ajudaram a erguer nossa cidade.

 

Já contei aqui também que vi o artista Julio Guerra erguendo a estátua do Borba Gato no quintal de sua casa, pertinho da 11ª Delegacia de Polícia, que continua ali na rua Anchieta. Hoje passo pela estátua mas minha doença não me deixa reconhecer o Bandeirante — virou apenas um homenzarrão de botinas e com uma baita espingarda na mão.  O Teatro Paulo Eiró também não diz muita coisa para mim.

 

O mais triste dessa doença é quando olho para a escola municipal Linneu Prestes. Ali eu dei aula por mais de 10 anos e por tantos outros fui assistente da diretora Dorothi, já falecida. Foram tantos alunos, tantas colegas de ensino, mas mal consigo recordar o nome da escola. Atualmente, eu caminho ali dentro em dia de eleição, mas não reconheço mais o corredor onde ficava minha sala, a horta, a secretaria, apesar de tudo estar muito parecido como era 35 anos atrás.

 

Para entender o que acontece com quem tem essa doença, imagine que seu cérebro é uma memória de computador cheia de pastas, cada uma com recordações de diferentes épocas de sua vida, mas todas interconectadas. E de uma hora para outra essas conexões entre uma e outra começam a falhar e, pior que isso, as pastas começam a se apagar também. É isso o que acontece com a gente.

 

Vim de Rio Claro, no interior, há muito tempo, mas vivi a maior parte de minha vida em São Paulo, sempre ao lado de meu marido, o João. Moramos aqui no Jardim Hípico, um pequeno condomínio ao lado da Granja Julieta. Vi vários vizinhos partindo daqui para sempre. Eu continuo aqui, já não tão firme. Duro mesmo é ter vivido tanta coisa boa e não ter mais esses fatos vivos na memória para poder contar. 

 

Sidnea Rodrigues Curcio é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Venha participar desta série em homenagem aos 465 anos da nossa cidade: escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo 465 anos: na minha loja de R$ 1,99

 


Por Carlos Assis
Ouvinte da CBN

 

 

Avenida Inajar de Sousa, zona norte. Todo mundo passa correndo, todo mundo com pressa. Carros, caminhões, motos, ônibus articulados. Eu atravesso no farol, cautelosamente. Sete horas da manhã vou comprar pão na Sabor de Mel — gosto de acordar cedo e andar um pouco.

 

Tenho uma lojinha de 1,99, bem pequena, comércio de bairro. Que se mantém mais por teimosia dos donos que por lucro, as vendas foram muito fracas o ano todo. Abro às nove horas, na rua Reverendo José Carlos Nogueira. Pego uma cadeira de plástico e sento na porta da loja. As pessoas passam para ir a o trabalho, ao banco ou quaisquer outros afazeres. Dizem bom dia … o movimento está fraco estes dias. Mas eu e minha mulher não temos outro negócio, precisamos ganhar dinheiro. Temos de manter o negócio aberto .

 

Do outro lado da rua tem uma mecânica. Zezinho, filho e genro. Vivem empurrando carros velhos que os clientes largam na oficina, porque não têm dinheiro para pagar pelo serviço. Então tem sempre carro parado na minha porta. Mas não reclamo, o pessoal é boa gente.

 

Bom dia, vai com Deus! — fala a dona Dora, minha vizinha. Essa senhora e o cachorro ficam o dia inteiro no portão. Horas e mais horas de pé, cumprimentando todos que passam na calçada. Sempre alguém para e conversam, as mesmas pessoas todo dia.

 

De repente, entra uma cliente, compra um pano de chão e prendedor de roupa. Paga oito reais, rezo para que dê o dinheiro trocado. Ela paga e vai embora. Assim de grão em grão, faço algumas vendas, nada que me anime. Alguns clientes entram, olham os produtos, perguntam o preço e não compram nada. Digo até logo.

 

O rádio FM toca música sertaneja o dia inteiro, eu gosto de ouvir notícias na CBN, mas minha mulher colocou um aviso que é proibido mudar de estação. Cansei de brigar por isto. Vem algum conhecido, conversamos sobre política, falamos mal do governo. Nenhum governo é bom o suficiente para os mais necessitados. Reclamamos de tudo: dos buracos no asfalto, dos preços dos alimentos no supermercado, da falta de remédios no posto de saúde aqui do bairro. E só concordamos que a roubalheira é geral: — culpa do PT, eles dizem. Nem tento disfarçar o meu descontentamento com tamanha insensatez, afinal quem manda em São Paulo é o PSDB há muitos longos e penosos anos.

 

Espero o Metrô da Freguesia do Ó há mais de trinta anos e agora as obras estão paradas, caminham no tempo do SUS, vagarosamente como uma tartaruga ou um caramujo na grama. Como dizia o grande Adoniran Barbosa : – Paciência!

 

As pessoas começam a voltar para os seus lares, começa a escurecer — os dias são mais longos neste horário de verão . O bar da Teka na esquina já abriu, e o pessoal da mecânica e de uma serralheria aqui perto vai tomar uma cerveja. Ponho as coisas para dentro e baixo a porta de aço. Estou cansado, vou para casa. Outro dia se foi na minha folhinha do calendário.

 

Carlos Assis é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe desta séria em homenagem aos 465 anos da nossa cidade: escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos de São Paulo visite o meu blog miltonjung.com.br

 

Conte Sua História de São Paulo 465 anos: até o último bonde que passou em Santo Amaro

 

Por Rubens Cano de Medeiros
Ouvinte da CBN

rcm.rhda.sp@gmail.com

 

 

Eu, um anônimo passageiro

 

Entro no túnel do meu tempo. E retrocedo de uns 60 anos. Eis-me, então, moleque de dez! Quando minha mãe dizia que, eu, molequinho de colo, dedinho esticado apontando para um deles, na rua… dizia que a primeira palavra que balbuciei foi um substantivo que rolava pesadão nos trilhos, rangendo ferragens e madeira, soltando azuis faíscas da roldana contra o fio trólei; e embaixo, entre as rodas dos truques.

 

“Bon-de” —- foi o que disse.

 

Lembro, sim! Vinha um adulto e dizia. Ah, que os bondes, anterior à cê-eme-tê-cê, eles tinham sido da Light: –- “Você sabia, menino?”. Eu? Sabia… que da Light –- meu pai era lighteano do Cambuci – eram postes e lâmpadas. Postes de ferro, de cimento e uns remanescentes de toras de eucalipto. Lâmpadas de filamento, e que acendiam em série, notava-se fácil, iluminando ruas de paralelepípedos, as asfaltadas e as ruas de terra que – claro! – sob chuva, eram de lama!

 

Ah,eu adorava bondes e ônibus! E a própria Companhia Municipal de Transportes Coletivos – aquela, de entre os anos 1950 e 1960. Nossa! Quantas garagens! Que enorme frota! Quantos muitos funcionários! Diziam, lembro, “a CMTC é da Prefeitura”, referindo que a municipalidade a gerenciava – instituída que houvera sido em 1947. Eu gostava do vermelhão dos bondes e ônibus, embelezado por singular e indefectível logotipo, que eu chamava “emblema”.

 

Eu? Ora, nunca trabalhei na CMTC – que pena! Fui somente um anônimo passageiro. De bondes que circularam nas minhas infância e adolescência; de ônibus como os sacolejantes ACLO, de mecânica inglesa e que davam tranquinhos mudando marchas “semiautomáticas” –- nas linhas 11, 12 e 13. Ou 47 e 48. Que saudadizinha!

 

Quando, em 1961 – lembro bem – Adhemar de Barros cedeu lugar para Prestes Maia, então o vigoroso vermelho da CMTC virou – bondes e ônibus – um apático laranja clarinho… anêmico.

 

Os velhos bondes – obsoletos, de há muito – a cor laranja lhes era a da própria agonia. Pois, sabemos, o último camarão deu seu suspiro final em Santo Amaro, em 1968, numa viagem ironicamente festiva. Nela, o prefeito Faria Lima, que tornou de um azul escuro a cor da “Nova CMTC”.

 

Olha, bem melhor que eu… que o diga um ex-ceemeteceano: quão imponente, a CMTC! Que reformava bondes, na Araguaia; montava carrocerias de ônibus na colossal Santa Rita e mantinha uma Escola Senai, na Ponte Pequena! Oficinas e garagens? Eram muitas: Jabaquara, Santo Amaro e Lapa; Sumaré, Barra Funda, Cambuci. Depois, enorme, Vila Leopoldina. Uma, exclusiva de ônibus elétrico, na Machado de Assis. Era pouco? Era muito!

 

Os bondes? Lembro, igual. Três gares – herdadas da Light – curiosamente denominadas de “estações de bondes”: Vila Mariana, Brás e Alameda Glete. Exagero, dizer da CMTC, “imponente”?

 

Que o amanhecer de 25 de janeiro, em que Piratininga soprará 465 velinhas … que a efeméride traga consigo, tal qual um ônibus traz um passageiro, uma lembrança! Ao mesmo tempo, reconhecimento e gratidão de nós, concidadãos. Enfim, uma homenagem à CMTC, digo melhor, às gerações de paulistanos que por meio século a conduziram! E, assim, nos conduziram! A CMTC é uma história de São Paulo: nada é mais paulistano que ela! Uma nostalgia vermelhona.

 

Rubens Cano de Medeiros é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe desta homenagem a nossa cidade: envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo 465 anos: a árvore de Natal da estação de ferro Sorocabana

 

Por Evelyn Bighetti
Ouvinte da CBN

 

 

Morei no bairro da Penha por muitos anos. Eram duas casas. Na da frente, moravam meus pais, eu e meu irmão. Na dos fundos, meus avós, pais do meu pai. Na lateral das casas, tinha um jardim muito florido, um galinheiro, algumas árvores frutíferas e um corredor comprido e largo.

 

De tempos em tempos, meu pai nos levava, eu e meu irmão, para passear no Jardim da Luz. Um lugar lindo, com chafariz, peixes no lago, muitas árvores, bancos e mesas para fazer piquenique. Lá perto ficava a Estação de Ferro Sorocabana, hoje conhecida como Estação Júlio Prestes. Na época do Natal, bem na entrada da estação, era montada uma árvore muito linda, repleta de bolas coloridas, enfeites imitando neve e pisca-pisca. Era tão alta que alcançava o teto. Meu pai sempre nos levava lá para vê-la. Para mim, ela era enorme e linda.

 

 
Perto da Estação de Ferro Sorocabana ficava o principal Terminal Rodoviário da Luz, o único da cidade de São Paulo naquela época. Quando meu pai resolvia e ir para o litoral, ele comprava só duas passagens de ônibus. Uma para ele e a outra para minha mãe, sobrando o colo deles para mim e meu irmão — um desconforto total.

 

Atualmente, perto desses lugares, foi construído o SESC Bom Retiro, onde duas vezes por semana faço aulas de natação. Para chegar até lá, passo próximo do Jardim da Luz, da extinta Estação de Ferro Sorocabana e dos escombros do Terminal Rodoviário da Luz. Fico muito triste com o que restou de toda aquela região, hoje numa decadência total. As ruas estão deploráveis, com lixo em toda parte.Roupas jogadas pelas ruas. A rodoviária foi demolida, talvez por tantas invasões de usuários de crack — esses farrapos humanos, jogados pelas ruas, escondidos em tendas para ninguém vê-los fumar o cachimbo.

 

A Estação de Ferro não tem mais aquele glamour, está meio abandonada. Os trens que partiam de lá para vários municípios de São Paulo só vão, agora, até a Barra Funda. 

 

Só não levaram as minhas boas lembranças da cidade.

 

Evelyn Bighetti é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio e a interpretação de Mílton Jung. Para participar deste quadro, envie seu para contesuahistoria@cbn.com.br

 
 
 

Conte Sua História de São Paulo 465 anos: a travessia na ponte de canos para nadar no lago da “Cidade Universitária”

 

Eduardo Coelho Pinto de Almeida
Ouvinte da CBN

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Hoje, levando minha esposa para fazer um exame com o médico que a operou há 15 dias, colocando uma prótese na cabeça do fêmur, atravessei a ponte que sai da Praça Panamericana e vai para a Rua Alvarenga. Reparem quando passarem nesta ponte, neste sentido, do lado esquerdo, sobre o Rio Pinheiros: existe uma outra ponte, somente para suportar canos enormes, penso eu que de água potável.

 

Quando eu era criança, hoje tenho 81 anos, só existia aquela ponte, não existia esta que atravessei hoje. Eu morava em Pinheiros e do lado de lá, do lado do Butantã, onde hoje é a Cidade Universitária, existia uma lagoa, penso eu que era no lugar onde está a raia olímpica da USP, não tenho certeza, mas era por ali e o lugar era conhecido como Cachoeirinha.

 

Era costume das crianças da nossa vizinhança, ou como diziam os vizinhos, os moleques, irem nadar na Cachoeirinha. Era costume mas nossos pais proibiam. E por isso íamos escondidos. Meu irmão Mário era, e é, cinco anos mais velho do que eu. Penso que ele tinha 12 e eu sete anos de idade. Eu queria ir também sempre que os ouvia combinando de nadar lá. Mas eu morria de medo para atravessar por cima dos canos daquela ponte e talvez por isso ou porque era realmente perigoso ele nunca queria me levar.

 

Criança que eu era, não sabia que é muito feio fazer chantagem, e então eu fazia: “ou me leva ou conto pra mãe que você foi nadar escondido”. E ele me levava. Coitado, pagava do mesmo jeito porque nadávamos de cueca, que eram brancas, antes de nadar, e chegavam em casa cor de barro. O castigo vinha da mesma forma, mas eu conseguia ir nadar na cachoeirinha.

 

Eduardo Coelho Pinto de Almeida é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe da série em homenagem aos 465 anos da nossa cidade: envie seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo 465 anos: na porta do Mappin, o encontro dos jovens negros da cidade

 


Por Antonio Carlos Arruda
Ouvinte da CBN

 

 

Tenho 66 anos. Sou paulistano da Vila Guarani, no Jabaquara. Negro, advogado formado pela PUC. Quero contar um fenômeno da década de 1970: o encontro da juventude negra, toda sexta-feira, na porta do Mappin, a grande loja de departamentos paulista.

 

Era uma coisa mágica, uma expectativa e uma ansiedade que mexia com o nosso sentimento, jovens negros, de todos os lugares de São Paulo. Sem que ninguém marcasse nada, comparecíamos ali espontaneamente. Sexta, sim, e a outra, também. Não havia motivação política, muito embora pude entender tempos depois, que havia de maneira subliminar a procura por uma situação de igualdade — infelizmente, ainda não alcançada pela nossa gente.

 

Mas o importante aqui é que íamos para a porta do Mappin para encontrar jovens, negras e negros, onde rolavam por certo as paqueras –- muitos casamentos saíram dali. Mas, especialmente, para saber onde seriam as festas, os bailes de fim de semana, nas casas de família e nos salões da cidade. Falávamos de música, dos últimos lançamentos e dos sucessos dos nossos ídolos brasileiros e americanos. Desfilávamos com nossas melhores roupas —– calças bocas de sino; as meninas com suas blusas colantes, saltos altíssimos e cabelos afros mais incríveis e grandes que pudéssemos armar.

 

Algumas explicações para esse fenômeno:

 

Éramos o segmento mais pobre da população, raríssimos tinham telefone em casa. Se uma garota passava o número, era uma referência de “gente fina”, coisa que só os brancos tinham. Desde muito jovens trabalhávamos de office-boys, auxiliares de escritório, bancários. As meninas também em escritório, poucas lojas as aceitavam como vendedoras; eram faxineiras nas empresas do centro e, outras tantas, empregadas domésticas nos Jardins.

 

Também porque festa de preto não era igual festa de branco. Não gostávamos de Jovem Guarda. Nossas referências eram Wilson Simonal e sua pilantragem; Jorge Ben com seu samba-rock; Tim Maia com seu soul americanizado e parecido com James Brown, Billy Stuart, Aretha Franklyn, o exotismo de Miriam Makeba; os sambas de Elza Soares, Elis Regina, Originais do Samba e por aí afora.

 

Eram tantos negros naquele espaço, que se estendia por um pedaço do Viaduto do Chá defronte a antiga Light até a Galeria Nova Barão, num vai e vem que ia das seis da tarde às dez da noite.

 

Além de quase todos sermos clientes do Mappin e aproveitarmos para pagar nossos carnês e fazer novas compras, outra explicação para o local do encontro era a facilidade para depois cada um tomar o rumo do seu destino.

 

Foi tão marcante a presença de negras e negros, que as escadarias do Teatro Municipal foram o local de lançamento do Movimento Negro Unificado, numa sexta-feira, dia sete de julho de 1978.

 

Antonio Carlos Arruda é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe da série em homenagem aos 465 anos da nossa cidade: envie seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo 465 anos: imaginava que era um disco voador

 

Ao longo das duas próximas semanas, o quadro Conte Sua História de São Paulo ganha uma versão especial, em homenagem aos 465 anos da cidade. Serão publicados, diariamente, no Jornal da CBN, textos de ouvintes, que foram selecionados a partir de histórias enviadas para o e-mail contesuahistoria@cbn.com.br. Acompanhe as histórias, inspire-se e participe, pois durante o ano, o quadro Conte Sua História de São Paulo segue em sua versão tradicional: aos sábados, logo depois das 10h30, no CBN SP.

Por Lea Maria Martins Passos
Ouvinte da CBN

 

 

Passei minha infância no Jardim Paulista. Morava num sobrado. Na parte de cima havia um terraço e eu gostava de olhar a vista. Lá para baixo via-se apenas um prédio que existe até hoje na esquina. No mais, era só o topo das árvores e telhados das casas.

 

Em um belo dia, do ano de 1954, começou a aparecer uma grande estrutura, muito grande mesmo. Ela ia sendo construída aos poucos, aos gomos, como uma enorme mexerica prateada, que brilhava muito.

 

Eu gostava de imaginar que os homens estavam construindo um disco voador. Era o tempo da “Marcianita” … do Sputinik …. e das primeiras viagens pelo espaço sideral.

 

Passaram-se três anos desde o início daquela obra. Três anos mexendo com minha imaginação, até que a construção foi concluída com todos os seus gomos prateados, desenhados por Ícaro de Castro Mello.

 

Era o Ginásio do Ibirapuera!

 


Léa Maria Martins Passos é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio e a narração de Mílton Jung.

Sua Marca: a estratégia do varejo ao lançar marcas próprias

 

 

 

 

 

“A marca própria para ser de valor precisa obedecer os mesmos princípios de branding das demais marcas, se não acaba sendo esquecida e tratada apenas como uma marca barata” — Jaime Troiano

 

 

A criação de marcas próprias começou no setor de supermercados e hoje já é prática comum nas demais redes de varejo. A estratégia surge como defesa do varejo contra a pressão de marcas líderes. Além disso, proporciona aumento de lucratividade ao varejista e oferece alternativa aos consumidores.

 

 

De acordo com Jaime Troiano e Cecília Russo, existem dois grupos de marcas próprias: aquelas lançadas apenas para ter um preço mais baixo e as que trazem uma promessa de marca ao consumidor. Alguns exemplos de marcas que fazem parte deste segundo grupo são a Taeq, da rede Pão de Açucar, com uma linha de produtos saudáveis, a Qeshua, da Decathlon, a Oxer, da Centauro, a Needs, da Droga Raia e Drogasil. Uma curiosidade, contada no quadro Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, é que a Amazon, gigante do e-commerce, já lançou mais 70 marcas próprias.

 

 

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, 7h55, no Jornal da CBN.