Netinho de Paula quer auditoria em jornais

 

adoteO vereador Netinho de Paula (PC do B) aproveitou a sessão ordinária da Câmara Municipal para criticar a cobertura jornalística sobre a prestação de contas dos vereadores da capital e esclarecer o contrato que assinou com a Mineral Comunicação, Imagem e Produção. Ele disse que a empresa foi contratada para prestar serviço de criação e manutenção do site do mandato dele. Quanto ao fato de o Estadão ter descoberto que a empresa não funciona no endereço registrado no CNPJ: “Mas o que eu tenho a ver com isso? Eu contratei a empresa e ele (sic) prestou um serviço”.

“Estou desconfiado que a imprensa, particularmente a imprensa paulista, está prestando um papel muito triste, um papel de desinteresse. Está querendo agir como um partido político”, disse no plenário.

Pediu também uma “auditoria dos editores, assim como nós, Vereadores, fazemos com o Executivo”.

Não sei como seria esta auditoria nas redações, mas a dos parlamentares em relação a administração municipal ainda deixa a desejar.

O cidadão Alecir Macedo, que “adotou” Netinho de Paula, cobrou um resposta do vereador pelo Twitter:

“@netinhocohab2 Vereador, como explicar a reportagem do Estadão sobre a Mineral Comunicação???”

Leia a resposta de Netinho, também pelo Twitter:

@AlecirMacedo A empresa está ativa na Receita Federal e paga os seus tributos. Válido lembrar que a verba é indenizatória. Pagamos primeiro. E depois, recebemos. Na Câmara, temos um setor que avalia as notas e empresas. Se estiver tudo certo, fazem o reembolso. Do contrário, não. Este setor segue as exigências do Tribunal de Contas do Município. Válido lembrar que a empresa nos fez o serviço de criação e manutenção do site do mandato.

No comentário postado no Blog Cuidando da Cidadania, Alecir identificou uma fato interessante. Apesar de a Mineral Comunicação ter sido contratada para criar e manter o site do mandato, quem assina a página digital do vereador é outra empresa, a PRS Comunicação.

Assim como o endereço da Mineral, talvez o nome também seja fantasia.

Voto e Adote: o cidadão tem de usar o jornalismo

 

Oficina de comunicação

Teve olhos lacrimejando, sorriso estampado, depoimentos sinceros, crítica aos jornalistas, gente nervosa e gente dedicada na Oficina de Comunicação que reuniu voluntários do Voto Consciente e integrantes do Adote um Vereador, nesse sábado, no auditório do Alumni, em Santo Amaro, zona sul. Por duas horas, tive a oportunidade de realizar a palestra “Jornalismo, use a seu favor”, com a intenção de apontar estratégias e promover exercícios para que o cidadão utilize de maneira mais produtiva as possibilidades à disposição na mídia.

Desde sempre entendo que é a sociedade organizada que defenderá o indivíduo diante das corporações empresariais e políticas – ou que ajudará este indivíduo a dialogar com estas corporações. Por isso, é fundamental que estes grupos estejam preparados para dar nova dimensão ao seu conhecimento e suas conquistas através dos meios de comunicação.

Haja vista os avanços que o Voto Consciente tem alcançado em 20 e tantos anos de trabalho, na Câmara Municipal e Assembleia Legislativa, de São Paulo. Na conversa com seus voluntários – justiça seja feita, a maioria voluntárias – ficou muito claro o respeito que esta organização construiu nas duas casas legislativas, mesmo que ainda encontre uma série de barreiras e limitações para atuar.

Para os ‘padrinhos’ do Adote um Vereador tenho certeza de que foi uma ótima experiência ver a mobilização das pessoas do Voto, pois enquanto estas militam no campo da cidadania de maneira explícita há duas décadas, aqueles mal começaram sua trajetória. Ouvi-las entusiasmadas e, às vezes, resignadas é motivador para quem ainda se frustra com avanços aquém do esperado.

É preciso paciência e persistência para que a ação cidadã não se esvazie no desânimo de uma vitória não alcançada. No caso do Adote, mesmo jovem, o movimento já se faz ouvir em alguns gabinetes e mostra que o eleitor tem muito mais poder do que imagina, como ressaltou em uma simulação de entrevista, o voluntário William Porto, que acompanha o desempenho da comissão de finanças da Câmara Municipal de São Paulo.

Para a realização desta oficina de comunicação contamos com o apoio técnico do Pascoal Júnior, que ao lado do Sílvio, cinegrafista, e do Zé Carlos, auxiliar, trabalharam voluntariamente e possibilitaram que o conhecimento teórico fosse levado à prática.

De minha parte, o agradecimento a quem atento não apenas absorveu a mensagem transmitida mas, principalmente, ofereceu material para a reflexão sobre o papel do jornalista e do cidadão.

Obrigado, Rosana Jatobá

 

O leitor atento do blog não demorou muito para sentir sua falta. Logo cedo havia quem perguntasse “onde está a Rosana ?”. Pelo Twitter, alguém anunciou a ansiedade a espera da publicação do texto dela. A sexta se foi, o vazio ficou e cabe a este admirador (e administrador) explicar a ausência dela.

Há dois meses, Rosana Jatobá se juntou a nós e agregou conhecimento e inteligência na abordagem do tema sustentabilidade. Os diálogos que trouxe até aqui provocaram debate e foram enriquecidos com os comentários publicados pelos leitores. Nem todos concordavam com as ideias que ela defendeu – nem era o que esperávamos – mas todos nos ajudaram a aprender um pouco mais sobre responsabilidade ambiental, mudança de comportamento e revisão nos hábitos de consumo.

Rosana tinha compromissos assumidos anteriormente. Na TV Globo, onde nos foi apresentada, na vida acadêmica, onde forja sua capacidade, e em diferentes projetos, nos quais desfila talento. Aceitou participar do Blog do Mílton Jung durante o tempo que lhe fosse conveniente. Isto nos possibilitou conhecer uma versão diferente daquela que admirávamos na televisão, seja com a apresentação das informações da meteorologia seja na ancoragem dos telejornais.

Nos apresentou ideais instigantes e nos ajudou a refletir um pouco mais sobre nossas vidas nestes dois meses e nove textos em que escreveu no Blog. Como informou durante o Programa do Jô – e agradeço pelo elogio público que recebi – a presença dela por aqui seria por prazo limitado; e muito bem cumprido, digo eu.

A experiência nesta mídia se reproduzirá em novos projetos para Rosana Jatobá, certeza que tenho sem nenhuma pretensão. Enquanto estes estão em processo de gestação, nos cabe apenas esperar e aproveitar os artigos que permanecem em nossos arquivos. Mas assim que as novidades surgirem eu me comprometo a contar para você aqui no Blog.

Que seja breve, Rosana ! Você merece, e nós, seus leitores, também.

Recado de Rosana Jotobá (publicado em 10.04.10, 21h18)


Queridos Milton e leitores do blog:

Nesta nova etapa da minha vida profissional carrego uma enorme gratidão por ter sido tão bem acolhida e respeitada aqui. Os novos projetos vão, sem dúvida, refletir esta experiência. Este espaço é nobre, habitado por pessoas sensíveis, antenadas e inteligentes, comandado por um dos maiores jornalistas deste país. Ao Jô Soares, que também me honrou com um convite pra falar sobre Sustentabilidade, depois de ter lido os textos, eu disse que estava imensamente grata ao Milton pela oportunidade de expor minhas idéias, sem qualquer restrição. Ele sabe o valor do livre exercício do intelecto. Deixo meu carinho e a promessa de avisá-los sobre os próximos passos nesta área tão valiosa. E continuo participando como leitora do blog, que aprendi a admirar pelo imporatnte conteúdo.

Beijo grande a todos, Rosana.

O talento de Armando Nogueira, por Milton F. Jung

 

“Pela primeira vez que ouvi falar em Armando Nogueira foi na época em que dirigiu o Jornal Nacional,da Globo. Depois,comecei a ler os seus maravilhosos textos que,de tâo bonitos,conseguiam dar ao futebol uma beleza que nem sempre ele tinha. Os jovens que não chegaram a conhecer o Armando Nogueira que,além de entender do riscado,escrevia sobre o esporte, que é a paixão dos brasileiros,transformando-o,muitas vez,em poesia pura,talvez não saibam o que perderam. Nós,que de alguma forma o conhecemos,sabemos que sua morte nos priva do autor dos melhores textos que eu li sobre futebol”

Milton Ferretti Jung, jornalista, 75 anos de vida, 54 de rádio, meu pai

A delicadeza de Armando Nogueira, por Juca Kfouri

 

A morte de Armando Nogueira, na manhã desta segunda-feira, vítima de câncer, aos 83 anos, foi lembrada por Juca Kfouri, amigo, aluno e fã do jornalista que criou o Jornal Nacional e foi dos mais talentosos cronistas esportivos que o país teve. Juca considera a “delicadeza” a marca principal do trabalho deixado por Armando. Foi assim que se manteve diante do principal telejornal do País em um dos momentos mais difíceis da política brasileira. “Ele foi, por isso, vítima de muita injustiça”, falou em conversa que tivemos no CBN São Paulo.

Armando Nogueira também era um frasista de mão cheia. Fazia com as palavras o que os craques que ele admirava em campo eram capazes de fazer com a bola. Algumas dessas frases foram citadas por Juca Kfouri, na entrevista que você acompanha aqui.

A cidade de Kassab está no caminho certo

 

“Estamos no caminho certo”. Faça chuva ou faça temporal, o discurso do prefeito Gilberto Kassab (DEM) não muda. Nesta manhã, quando o sol ainda raiava sobre os paulistanos, ele foi entrevistado no CBN São Paulo, após a assessoria de comunicação dele ter sugerido a conversa para que esclarecesse os pontos polêmicos sobre a mudança no horário de funcionamento das feiras livres de São Paulo. Confesso que logo imaginei que Kassab iria anunciar um recuo na decisão, pois havia ouvido reclamações de feirantes e consumidores no fim de semana. Ao contrário, reafirmou que está correto na medida adotada e a população apenas precisava se acostumar a uma mudança de hábito.

Quanto às reclamações prefeito ? Não teria havido. Foram os repórteres que não entenderam a “sugestão” de uma senhora que trabalha em feira livre e ele respeita muito. “Lembro até o nome dela”.

Se o tema é feira livre, se é sujeira na rua, se é buraco no asfalto, não importa. A resposta é sempre a mesma.
Capa Época SP fevereiroParece estar convicto de que todas as medidas foram tomadas e o drama das famílias encharcadas que aparecem na televisão no fim da tarde é coisa de outro mundo – assim como as reclamações registradas pelos repórteres. Aliás, esta é outra estratégia do prefeito, repetida à exaustão na entrevista ao CBN SP: avaliar o trabalho da imprensa. Esta reportagem não está precisa, “mas eu respeito muito”. Aquela outra confundiu os números, “mas eu respeito muito”. E tem a terceira que Kassab também respeita muito e destaca para mostrar a exatidão das políticas que está implantando, apesar de todos os problemas provocados nas gestões anteriores, lógico.

Foi o que fez ao comentar a reportagem da Folha de São Paulo, publicada semana passada, sobre a coleta seletiva do lixo. A pauta era clara: as empresas Loga e Ecourbis não estariam cumprindo o serviço previsto em contrato, moradores chegaram a dizer que o caminhão não passava na rua há algumas semanas. Para o prefeito, a reportagem era o sinal de que o serviço de coleta seletiva estava melhor na gestão dele. “Não entendi, prefeito”, falei de bate-pronto. Ele me explicou, afinal “me respeita muito”. E prometeu enviar os números (talvez assim, eu consiga entender melhor).

A entrevista completa você acompanha no portal da rádio CBN que agora tem uma página que fala apenas de São Paulo. Clique neste link, ouça a opinião do prefeito e dê sua opinião.

Este comportamento do prefeito Gilberto Kassab diante dos problemas da cidade foi destaque na reportagem de capa da revista Época São Paulo com a manchete “Uma cidade que só Kassab não enxerga”. Cercado por números negativos, incluindo os de sua popularidade em queda, o prefeito aparece sorrindo em fotos feitas na época da eleição, em 2008.

A caçamba da discórdia

 

Na caçamba

Estadão e prefeitura discutem há dois dias sobre infração de trânsito gravíssima cometida por Gilberto Kassab (DEM) ao andar, ao lado do Secretário Municipal dos Transportes (e dos Serviços), Alexandre de Moraes, sobre a caçamba de uma picape, em visita no Jardim Pantanal, zona leste de São Paulo. A assessoria do prefeito inventou até uma “autorização especial” que Kassab teria recebido da autoridade de trânsito (no caso, Moraes) para se comportar daquela maneira.

Gilberto Travesso do blog Notinhas de São Miguel, contra-atacou e reproduziu foto na qual repórteres fotográficos e cinegrafistas andavam sobre a caçamba de outra picape para registrar imagens de Kassab na mesma visita.

Faz de conta que o assunto é importante. O fato é que nos dois casos, se houve alguma irregularidade de trânsito, a multa vai para a Defesa Civil, proprietária das picapes usadas pelas equipes do prefeito e dos jornalistas.

De retrospectivas a perspectivas

 

Por Carlos Magno Gibrail

Retrospectiva 2009

Os últimos dias do ano são os de menor audiência nos meios de comunicação.

É por que não há interesse das pessoas? Ou por que os assuntos apresentados não são desejados?
Efeito Tostines reverso (vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais?), porém decifrável, pois manter hábitos e sistemas do passado, como repetir programas e fazer retrospectivas de notícias, é no mínimo desconsiderar o presente. E, não testar o futuro.

Segundo a BBC o diário inglês “Financial Time” constituiu um painel de jornalistas para efetivar previsões sobre o ano novo, 2010. Ao invés de gastar espaço com noticias e fatos passados, que estão á mão de leitores, ouvintes e telespectadores através da contemporânea internet.

Cada um respondendo pela sua respectiva área fez a previsão – política, econômica, esportiva, etc. Nada mau um dia de economista para jornalistas.

Os jornalistas britânicos do “Financial Time” previram, do campeão da Copa do Mundo de futebol até o próximo presidente do Brasil.

E, por que não seguir o raciocínio Freakonomics (o economista Steven Levitt e o jornalista Stephen Dubner, descobriram que nos Estados Unidos as piscinas matam mais crianças do que os revólveres, a legalização do aborto diminuiu a criminalização em New York, porque os homens-bomba devem fazer seguro de vida, ou porque o preço do sexo oral caiu tanto nos últimos anos), e indagar se os veículos de comunicação não estão deixando de atender uma demanda potencial pela oferta de produtos?

Se existem mais pessoas de férias não há mais tempo para leitura de jornais e revistas, para ouvir programas de rádio ou para assistir a televisão?

Vale a pena investigar e analisar. Mas, jornais e revistas com conteúdo reduzido e amanhecido, rádios e TVs acionadas pelo terceiro escalão e reprisando programas e entrevistas, não servem como base de estudo.

Um dia de economista para renomados jornalistas prevendo 2010 nas suas respectivas áreas de especialização seria no mínimo divertido, atraente e de interesse para cada uma das matérias em que atuam e certamente para os consumidores – leitores, telespectadores, ouvintes e internautas. Sem considerar a torcida posterior para acompanhar o alcance do acerto ou do erro. Dependendo da aposta.

Eu pagaria para ver. E você?

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve às quartas no Blog do Mílton Jung. E deve aos seus leitores as previsões para 2010.

Ex-Observer aposta em jornalismo no “livro eletrônico”

Kaplan aposta na paixão americana por novos brinquedos. O brinquedo eletrônico certo, ele promete, pode salvar a indústria da mídia e tirar do exílio bons editores que vão oferecer ao leitor uma nova estética e preservar o poder democrático do jornalismo.

Texto de Lúcia Guimarães publicado no caderno dominical Aliás, do Estadão, sobre entrevista com Peter Kaplan, consagrado como editor-chefe do New York Oberver e agora na editora Condé Nast Traveler, na qual ele aposta que a solução tecnológica do tablete, leitor eletrônico que deve ser lançado pela Apple, será uma espécie de tábua da salvação do jornalismo impresso. Para ele, os anúncios se tornarão mais atraente e será criado um novo modelo de receita. Otimista, fala, também, em novo modelo de jornalismo.

Coisas da Vida

 

Por Christian Jung
Do Blog MacFuca

Milton Ferretti Jung, ontem e hoje

O título do texto parece bem atual, mas na verdade reproduz o nome de um comentário que era redigido e lido pelo meu Pai, lá pelos anos de 1950 na então Rádio Canoas. Tenho vários deles em casa e me impressiono como o conteúdo na época era praticamente o que se vê ainda hoje. Reclamações ao prefeito Leonel Brizola do aumento das passagens de ônibus, a avenida São Pedro alagada após a chuvarada, o bonde que não conseguia passar, os carros que se arriscavam e os transeuntes chegando atrasados ao trabalho.

Bom, o que me traz aqui não é o conteúdo dos textos isso pode ficar para outro dia. O que me traz aqui mesmo é o locutor em questão.

Destes anos que já vivi, me dou o direito de analisar determinadas situações, visto que o tempo nos dá ao menos a possibilidade de refletirmos.

Filho de radialista, me criei sempre com a desconfiança e a palavra coerente de minha mãe dizendo que tudo que eu reclamava em frente ao rádio (em relação a ela, é lógico) meu Pai escutava na rádio. Sempre olhei para aquele aparelho de madeira sobre o balcão com desconfiança e, por vezes, resolvi mudar o teor da conversa para possíveis cobranças ao fim do dia. Sabe como é, entre falar e correr o risco, o silêncio era a melhor opção. Evidentemente que minha mãe contava tudo e sempre quando aquela “voz do rádio” chegava em casa era informada sobre os ‘acontecidos’ do filho mais novo. (Certamente da irmã mais velha e do irmão do meio, também, mas esses assuntos não eram de minha alçada). Afinal de contas ele era o locutor oficial do Correspondente Renner, como o é até hoje.

As cobranças dele sempre foram brandas, eu é que me apavorava. Sabe como é, Pai é Pai.

Lá em casa se acordava, almoçava e dormia com a característica de abertura do Correspondente Renner (hoje, atropelada pela tecnologia e falta de sensibilidade). Até mesmo quando pegava carona de carro com os pais de alguns colegas de colégio lá estava ele. Meu Pai! Trazendo as últimas informações das agências de notícias. Rádio ligado era como uma transferência à distância da relação afetuosa de alguém que me ensinou desde pequeno que “pano que cai no chão não se esfrega no carro”. Filosofia masculina de quem não passa o domingo sem um paninho na máquina.

Ainda se não bastasse a leitura do noticiário, tinha a locução esportiva, narração essa que lhe deu o apelido de o “Homem do Gol, Gol, Gol”. Bordão gravado em muitos discos de vinil da história do futebol brasileiro. Caminhar pela rua com ele era escutar no mínimo duas ou três vezes alguém gritando “Milton Gol-Gol-Gol Jung”. Era sempre isso. Bem, tinha também os dias de jogos. Morávamos, aliás, moro ainda perto do Olímpico e de fato meu Pai nunca escondeu ser gremista. Essa coisa de ficar fazendo gênero não é com ele. Dependendo do resultado, ao fim da partida, sempre tinha um cidadão que passava em frente de casa, esses vizinhos meio descompensados, que gritava: “Milton Jung, gremista filha da p…”. Já era folclor, eu dizia pro Pai. Olha só, o Vitor Hugo passou por aí (esse era o nome do artista que fazia os elogios). E assim me criei neste meio radiofônico tendo como rotina as visitas à Rádio Guaíba e ao Correio do Povo, de onde pegava os restos de chumbo dos linotipos pra colocar dentro dos carrinho de plástico para ficarem pesados e não capotarem nas brincadeiras.

Enfim, desde que me dei conta de identificar de quem eram as vozes que escutava quando ainda bebê, nunca mais parei de ouvir a voz do meu Pai. E lá em casa, a palavra voz tem uma poesia incrível porque se vive dela também. Aprendi a relação que tem ler e interpretar ou somente ler. Que quem te escuta, visualiza as palavras. Que da voz que produzimos, o oxigênio é a nossa gasolina. Que a quem nos ouve, devemos respeito, e para isso precisamos ser confiantes, fortes, alegres e, principalmente, coerentes com a informação que estamos passando.

Se ele algum dia me disse isso?

Não, nunca precisou, porque a admiração que sempre tive e tenho até hoje e a postura correta de bom profissional, sempre me fizeram entender que esses que gritam o seu nome na rua, gritam porque o que lhes chega é muito mais que notícias, é a mais pura poesia de quem nasceu com o dom de transformar um simples aparelho de rádio em um companheiro inseparável.

Por isso Pai, depois de um tempo te vendo afastado do rádio e mesmo com todas as mudanças na nossa velha e eterna Rádio Guaíba, tenho que te dizer que o sentimento de saber que tu estás ali dentro daquela caixa de madeira que eu achava que tu me escutavas, me dá a completa percepção que o teu tempo ainda não se acabou, que o velho microfone Neumann de Fita continua lá, no mesmo lugar, te esperando, esperando a pressão da tua voz pra funcionar. Porque não só ele, mas todos os teus fiéis ouvintes, os que virão a ser, e, principalmente, eu nos meus 43 anos, preciso muito ouvir a tua voz.

Volta Pai, porque estas coisas que aconteceram e as que estão por vir, “São Coisas da Vida.”

Um grande beijo!

Christian Jung é mestre de cerimônia, meu irmão e filho e radialista. Este texto foi escrito originalmente no Blog Mac Fuca do qual ele é o autor.