Uma estreia abençoada pelo Frei Damião

 

Frei-Damião

 

Uma pilha de DVDs está ao lado da mesa de trabalho no aguardo do cumprimento de uma das promessas que fiz no início desta quarentena que já se estende por mais de quatro meses. A primeira foi organizar a biblioteca —cumprida pouco depois de completar um mês confinado. Mesmo que os livros não tenham sido colocados de maneira que me ajude a encontrá-los com a rapidez que gostaria, acredito ter passado no teste de aprendiz de bibliotecário.

 

Desisti da promessa seguinte, assim que percebi que a quantidade de fotografias impressas —- sou do tempo em que este era um hábito comum na família brasileira, imprimir imagens —— superava minha capacidade de colocá-las em ordem cronológica nos álbuns disponíveis. Devolvi um monte delas para o baú. Quem sabe na próxima pandemia.

 

O que hoje é DVD já foi fita magnética com gravação helicoidal, que vinha enrolada dentro de uma caixa de plástico, que “desenrolava” quando introduzida em um aparelho de videocassete —- naquela época, comprado em consórcios organizados por amigos, conhecidos ou colegas de trabalho. A vida útil das fitas de videocassete era bem menor do que a dos DVS, tendiam a perder qualidade, “enrugavam” a imagem e criavam mofo se guardadas de maneira inadequada. Com a habilidade de um amigo, todas aquelas mídias mais antigas ganharam proteção digital. Foram convertidas em DVDs e ficaram por anos guardadas no fundo de um armário.

 

Nestes dias, decidi iniciar a tarefa de assistir ao que estava armazenado em cada uma dessas mídias. Empilhei o material e comecei abrir a caixa de pandora da minha vida profissional. Lá estavam minhas participações em um tempo em que ainda era Mílton Júnior — assim mesmo, com dois acentos agudos, um nome e nenhum sobrenome. Era como me chamavam em Porto Alegre e como migrei para São Paulo, em primeiro de janeiro de 1991.

 

Cheguei aqui com emprego garantido na TV Globo, algumas semanas depois de ter feito um teste meio sem querer quando estava de passagem pela capital paulista. Minha experiência em reportagem televisiva se resumia a algumas poucas pautas feitas na época em que trabalhei no SBT, em Porto Alegre, onde havia sido contratado para participar da equipe de coordenação do novo telejornal da casa. Isso lá em 1989.

 

Apresentei-me na sede da TV Globo, ainda na praça Marechal Deodoro, no bairro da Barra Funda, pouco antes da meia-noite do dia 6 de janeiro. Nervoso, deslocado, roupa pouco alinhada e uma franja do tamanho do meu atrevimento, fui apresentado à redação —- praticamente vazia naquele horário —- pelas mãos do chefe de reportagem da madrugada, João Montenegro, uma espécie de anjo da guarda que passou na minha vida. Ajudou-me a entender a cidade, levou-me ao primeiro ensaio de uma escola de samba, sentou-se comigo em um bar qualquer da região, compartilhou alguns amigos e tentou me guiar até onde era possível nos corredores do jornalismo global.

 

A primeira madrugada de trabalho passou em branco. Nenhuma ocorrência que merecesse registro. Era uma sensação estranha, entre o alívio de não ser testado e passar vergonha logo de cara e a decepção de não emplacar uma reportagem na minha estreia. Antes do dia amanhecer, porém, veio o desafio: fui escalado para entrar ao vivo no Bom Dia São Paulo, apresentado por Carlos Tramontina —- outro mestre na minha carreira. Para quem havia trabalhado até então a maior parte do tempo em rádio, falar ao vivo não chegava a ser um drama, desde que não tivesse uma câmera ligada à sua frente e milhares de pessoas assistindo você na maior emissora de televisão do país.

 

 

Meu cenário de estreia foi a fachada do Hospital São Paulo, na Vila Mariana, onde estava internado Frei Damião —- frade capuchinho, teólogo, considerado milagreiro, especialmente no Nordeste, onde fazia suas longas e corajosas caminhadas para pregar a palavra de Deus, apesar do encolhimento da coluna vertebral que o deixava cada vez mais corcunda com o passar dos anos. Na época estava com 92 anos —- viria a morrer seis anos depois —- e todos os seus passos eram acompanhados com veneração e generosidade. O estado de saúde dele, portanto, era notícia de interesse público.

 

Informações apuradas, texto pensado e a mente travada pelo medo antecederam a minha estreia naquela manhã. Pedi a quem pudesse me ouvir lá no alto — nem quem fosse logo ali no 13º andar, onde ficava o quarto de Frei Damião — que me desse uma luz para espantar o nervosismo e cumprir a tarefa da maneira menos constrangedora possível. Ensaiei o texto uma, duas, dez vezes. Minha entrada no jornal seria pouco depois das sete e meia da manhã. Uma hora antes, recebo uma ordem pelo rádio de comunicação: é preciso gravar um boletim para a TV no Recife, terra que o frade havia adotado como sua desde que veio da Itália, em 1931. Tudo o que havia preparado para dali a pouco, seria obrigado fazer aqui e agora.

 

Sem muito tempo para pensar —- ainda bem, porque se tivesse teria saído correndo —-, o cinegrafista deu o sinal e eu tive de mandar ver. Disparei a falar o texto que estava planejado. Fui sem respirar. Do início ao fim. Mal consegui prestar atenção no que eu mesmo dizia. Só queria encerrar em segundos aquele minuto de gravação. Assim que assinei a reportagem, com um “Mílton Júnior, de São Paulo”, ouvi alguém da equipe dizer: boa, agora vamos para o ao vivo.

 

O ao vivo não chegou. Um problema técnico impediu o envio do sinal para a sede da TV. Tudo que tive de fazer foi repetir para São Paulo o mesmo boletim enviado para o Recife. E, a partir daquele momento, com a certeza de que eu era capaz — com as bençãos do Frei Damião.

No rebobinar da memória, lembranças de meu cotidiano matinal no rádio

 

 

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Foto: Pixabay

 

 

Era cedo — mais uma vez. Tudo parece acontecer logo cedo comigo. Não só parece. Acontece mesmo, porque cedo é que o meu dia começa. Começou, nesta quarta-feira, em 15 de julho de 2020 com as principais notícias do dia. Para logo em seguida uma estranha reversão do tempo atingir minha mente.

 

 

Às 6h45 da manhã, voltei dois ou três anos ao informar que no centro da cidade a temperatura era de 14°C. Nem a sede da rádio, em São Paulo, está por lá — é na zona Sul — nem meu estúdio avançado da quarentena fica na região — é na Oeste. Costumava usar a expressão quando trabalhava no tradicional endereço da rua das Palmeiras, no bairro de Santa Cecília — este sim no Centro —, onde ficavam os estúdios da CBN e da rádio Globo. Foi lá que comecei a trabalhar. Onde cometi meus  erros e enganos. Onde também tive experiências profissionais memoráveis. Onde pratiquei jornalismo por 20 anos.

 

 

Imagino que tenha sido reflexo de outro recuo que minha memória me proporcionou um pouco mais cedo — não disse que tudo acontece muito cedo comigo?

 

 

Ainda eram 6h15 da manhã quando voltei mais de 30 anos no tempo. Já no bom dia da Aline Tochio, que atualiza a previsão do tempo no Jornal da CBN, e sempre recebe os ouvintes com muita simpatia e precisão, em vez de falar de São Paulo — como fazemos todos os dias —, resolvi perguntar sobre a temperatura em Porto Alegre, onde havia visto, minutos antes, que fazia um frio de renguear cusco — perdão pelo gauchismo.

 

 

Nossa meteorologista, sempre atenta aos monitores e radares, além de bem informada, confirmou que o frio era intenso: “neste momento, temos 5°C no Aeroporto Salgado Filho”.  Foi a senha para a fita rebobinar uns 30 e pouco anos. E eu me enxergar com 23 ou 24 anos de idade, época em que trabalhava na rádio Guaíba, e era o primeiro repórter a entrar no ar no programa matinal — sim, lá também as coisas aconteciam muito cedo para mim. Os termômetros do aeroporto de Porto Alegre faziam parte da minha fala na rádio, assim como as condições dos voos e uma ou outra notícia que surgisse no saguão do Salgado Filho.

 

A Cássia Godoy logo me cobrou que contasse essa história no ar. Não tive tempo. Preferimos tratar de coisas mais relevantes para os ouvintes.  Aqui no blog o espaço é livre e pode ser ocupado com reminiscência, por isso, reproduzo trecho de texto que publiquei no início desta pandemia, quando fui levado à reclusão. No qual comparava o momento que estou vivenciando com a apresentação do Jornal da CBN de casa e aquele tempo em que, de casa, entrava ao vivo na Guaíba:

“É estranho mas não inusitado. Em meus primeiros anos de rádio, nos anos de 1980, tive uma experiência curiosa. Na época, trabalhava na rádio Guaíba de Porto Alegre e fazia minha primeira participação, logo depois das seis da manhã, com informações do aeroporto Salgado Filho. Diante da necessidade de reduzir custos, a rádio combinou que eu continuaria atualizando as notícias do aeroporto — condições para voar, voos atrasados, lotação dos aviões entre outros assuntos —, mas diretamente de casa.

 

Era fim de madrugada quando acordava e ligava para os balcões das companhias aéreas — Varig, Vasp e Transbrasil —, para a torre de controle e para o telefone do ponto de táxi que ficava em frente ao aeroporto. Os motoristas descreviam o movimento de passageiros e informavam a temperatura registrada pelo termômetro de rua. Com esse arsenal de informações, me preparava para entrar no ar na Guaíba.

 

Encerrava meus boletins informando a temperatura na cabeceira da pista, uma forma que encontrei para dar um pouco mais de realidade aos fatos, quando de verdade eu estava falando, ao vivo, da cabeceira da minha cama. Registre-se que
em nenhum momento, no bate-papo com o âncora do Jornal, dizia que estava no aeroporto para não perder a confiança do ouvinte assim como não comentava que estava em casa — algumas vezes fui traído pelo nosso cachorro de estimação, que latia “diretamente do pátio”.

 

Se no ar tudo transcorria normalmente e a prestação de serviço atendia a expectativa do público, lá na minha casa, em Porto Alegre, eu me tornei um estorvo para meu irmão. Imagine que nós dividíamos um quarto e, portanto, todos os dias, às seis da manhã, ele era acordado aos berros por minhas notícias sobre saídas e chegadas de aviões e, claro, a temperatura na cabeceira da pista. Foi difícil para ele e constrangedor para mim, mas nada que estragasse nosso companheirismo, mantido até os dias de hoje”

Tantas lembranças, tão cedo e em tão pouco tempo talvez se justifiquem pelo que a psicóloga Simone Domingues nos ensinou recentemente em outro texto publicado neste blog. Escreveu que diante das restrições que vivemos, com o mundo praticamente parado, incapazes que estamos de projetar o futuro, tendemos a resgatar o passado. Um cenário de saudades que põe nossa memória em ação.

 

Ao menos desta vez, a memória levou-me a momentos felizes que vivenciei. Nem sempre tem sido assim.

A palavra bem escrita no rádio é a palavra falada

 

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Foto: Pixabay

 

 

O rádio é palavra falada. E por falada que é, muita gente pensa que não precisa ser bem escrita.

 

É, também, improviso. E em nome do dito cujo há quem justifique qualquer barbaridade cometida à língua.

 

Essa visão distorcida leva à redação de jornal, quem gosta de escrever; para as de rádio quem gosta de falar —- poderia completar a brincadeira e dizer que vai para a de TV quem quer aparecer, mas não vou dizer não porque é maldade das boas e desrespeito a colegas de muito talento que conheço.

 

Verdade que no rádio a dependência ao texto escrito é bem menor do que em outras mídias, mesmo se comparado ao tipo de televisão que assistimos nos canais dedicados ao jornalismo ao vivo, onde cada vez mais apresentadores e repórteres se desprendem do roteiro prévio para contar as histórias do cotidiano. Na TV, ainda existe uma burocracia técnica que exige uma disciplina maior dos profissionais para que a reportagem entre no ar. E os telejornais seguem tendo que rodar no teleprompter.

 

No rádio, a coisa funciona mais ou menos assim — e vou me basear no Jornal da CBN.

 

Das quatro horas de programa que vão ao ar, texto lido de verdade só na abertura, quando, ao lado da Cássia Godoy, apresentamos os destaques do dia, escrito pelo editor —- geralmente o Edmílson Fernandes (esse merece um capítulo especial). A cada meia hora tem, também, o Repórter CBN, obra do redator de plantão dedicado ao programa.

 

Daí pra frente, é um improviso só.

 

Chama a reportagem do Queiroz! Quem fez? Tem repórter de Brasília ao vivo na linha. Qual o assunto? O entrevistado está esperando. Me dá o crédito dele!

 

A conversa entre âncoras, produtores e operadores rola solta enquanto a programação está no ar. Hoje, no isolamento, sou obrigado a fazer esse bate-papo virtual. Perde-se um pouco de agilidade, mas nada que prejudique a performance e a dinâmica.

 

As reportagens gravadas têm textos de apresentação, escrito pelo editor ou pelo próprio repórter. Coisa de quatro, cinco, seis linhas no máximo. Mais do que isso é exagero. Servem de orientação para chamar o conteúdo preparado pelo repórter. Costumo passar por cima desse texto, porque escrito no bastidor tende a não ter o ritmo da minha fala.

 

Prefiro um tom mais autoral. Que provoque no ouvinte a sensação de que o que ele vai ouvir em seguida faz parte daquela conversa que começou às seis da manhã e se estenderá até às dez. Por isso, gosto sempre de relacionar com algo que já havíamos falado ou falaremos mais à frente. De contextualizar o assunto para que a reportagem não caia como um paraquedas do céu. De esclarecer algum aspecto que ajude a mensagem a ser mais bem absorvida pelo público. Precisamos sempre lembrar: nunca se está só ouvindo rádio. Então, chamar a atenção do ouvinte para o que vem ou para o que foi, é essencial.

 

Disse que gosto de fazer isso. Não significa que o faça sempre assim. E, principalmente, que meu improviso seja melhor do que o texto escrito. Quando se fala ao vivo, tem dessas coisas. Aumenta-se o risco de errar. O que me consola é que erro por conta própria. Pior coisa que deve haver é a gente só cometer o erro dos outros. Tenho de ter, no mínimo, competência de errar por mim mesmo.

 

Aliás, errei muito nesta vida do rádio.

 

Dia desses, revendo CDs e DVDs do passado —- uma das tarefas que me impus para suportar esses mais de 90 dias de quarentena —-, encontrei e-mail do jornalista Eduardo Martins, o homem de um emprego só. Trabalhou no Estadão a vida toda. Começou lá aos 17 anos, fazendo palavras cruzadas como colaborador, virou redator, repórter e editor. Foi autor de “O Manual de Redação e Estilo”, que o jornal publicou em 1990 e guardo na minha estante com orgulho. Morreu em abril de 2008.

 

Sua missão em vida foi valorizar a boa língua portuguesa e em nome desta missão me escreveu em abril de 2001. No texto, convidou-me a visitar o site dele “para evitar alguns erros que cometemos diariamente”. Usou o plural, mas entendi que a crítica era singular. Foi gentil ao citar apenas um dos muitos erros que saem da minha boca: o uso inadequado da locução “em função de”.

 

Escreveu Eduardo Martins:

“1 — A locução em função de só pode ser usada quando equivale a finalidade, dependência:

 

O time jogava em função do adversário/ O político agia em função dos seus objetivos/ O homem vivia em função da família

 

2 — Ela não corresponde, porém, a em virtude de, por causa de , em conseqüência de ou por, casos em que deve ser substituída por uma dessas formas:

 

A entrega do navio foi antecipada pela (e não “em função da”) rapidez do trabalho do estaleiro./ A Justiça tomou a iniciativa em conseqüência do (e não “em função do”) grande número de processos à espera de julgamento./ Na década passada as montadoras pararam por causa das (e não “em função das”) greves. / Recebeu a promoção graças às (e não “em função das”) suas qualidades.”

Guardei esse e-mail por causa da consideração (e não “em função do”) que sempre tive por Eduardo Martins. E pela maneira como ele me considerou. Ao escrever uma carta digital de “próprio punho” para me corrigir, demonstrava respeito aos jornalistas de rádio. Sabia da responsabilidade e da capacidade que temos de influenciar outras pessoas.

 

Que se influencie de maneira certa: falando o bom português, enriquecendo o vocabulário do cidadão, evitando o lugar-comum, valorizando a nossa língua e seguindo o ensinamento do professor catalão Ivan Tubau de que “ao escrever para quem ouve, deve-se escrever como quem fala”. Ou seja, a palavra bem escrita no rádio é a palavra falada.

 

A boa entrevista que eu não fiz porque o omelete não virou

 

 

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Foto: Pixabay

 

 

Jornalista gosta de bom entrevistado. Gente que esclarece. Fala claro. Diz o que pensa. Ajuda o outro. Faz do fato, notícia. Gera aspas (sim, mesmo no rádio ainda usamos esta jargão do impresso). Um ou outro desses aspectos —- todos juntos é o ideal — faz uma boa entrevista. Ficar de fora dela ou não ter sequer a oportunidade de fazê-la, sempre frustra. Foi o sentimento que tive nesta sexta-feira.

 

 

O dia já não começou bem. De madrugada, ao acordar, o calendário da cozinha informou ser hoje o 90º dia de isolamento em casa — por mais que a turma daqui tenha me facilitado as coisas, o ritmo da redação e o contato com outras pessoas, diversas e diferentes, faz bem à alma.

 

 

Na sequência, a máquina de café quebrou e o omelete não virou. A regra é clara: quando essas coisas acontecem, liga para a firma, avisa que não vai dar e volta para cama. Eu não entendi o recado. Insisti.

 

 

O programa começou e logo descobri que o “moço da internet” não estava a fim de trabalhar, também. O sinal da rádio era entregue aqui em casa, mas não tinha ninguém para levar o meu para lá. Falava e interrompia. Voltava e caía. Troquei do cabo para o sem cabo, do sem cabo para o 4G, do 4G para o sinal de fumaça. E nada de a coisa funcionar como o encomendado (e pago).

 

 

Daí minha frustração. Hoje, tinha tudo para fazer uma boa entrevista, mas a telecomunicação não ajudou.

 

 

Nosso convidado no Jornal era o Dr Atila Iamarino; o rapaz da ciência que fala no YouTube e no Twitter e por lá atende por @oatila. Ele é biólogo por formação, doutor em microbiologia, tem pós-doutorado pela USP e pela Yale University. Para ser melhor: sabe traduzir tudo isso que aprendeu falando a língua da gente. Pelo conjunto da obra faz sucesso há algum tempo na internet —- não aquela que pifou aqui em casa, mas aquela outra que permite que informações circulem em grande volume e frequência e da qual conseguimos tirar muita coisa que presta. As do Atila prestam. Têm credibilidade.

 

 

O chamo de Atila, assim, pelo primeiro nome, sem a pompa do doutor e do senhor, como pedem os bons modos do jornalismo. Não apenas por ele ser jovem — nasceu no ano em que eu estreava no jornalismo profissional —, mas porque é assim que todos o chamam por aí. E foi dessa maneira que conquistou admiradores —- e detratores.

 

 

Sim, é impossível ser um sucesso no mundo virtual sem que o ódio dos medíocres se expresse. Eu escrevi ódio e medíocres. Não tem nada a ver com aquelas pessoas que discordam das ideias, identificam fragilidades nos argumentos, apresentam pensamentos lógicos e contrapõem com a gentileza dos civilizados, fazendo o bom debate. Esses serão sempre bem-vidos à conversa, pois permitem que, a partir da reflexão, sejamos provocados a pensar ainda mais e a recuar, se entendermos que erramos na forma ou no conteúdo. Perdão se usei o plural na frase anterior — é força do hábito. Não tive a intenção de me comparar à capacidade de doutores e professores em argumentar. Sou só jornalista. Sem direito à extensão do curso.

 

 

Dito isso, vamos retornar ao episódio que se iniciou sem café nem omelete. Para a entrevista recebi um ótimo material da produção. Coisa de primeira. Muito mais do que precisaria. Suficiente para me dar segurança na conversa. Tinha tudo para dar certo. E até que começou certo.

 

 

Às vésperas de alcançarmos a marca de 1 milhão de infectados e termos nos aproximado em alta velocidade dos 48 mil mortos, quis logo entender o que é a estabilização da Covid-19, no Brasil, que havia ouvido na fala oficial do General que usa crachá de ministro interino e no comentário da OMS. Com a sabedoria de doutor e a transparência do Atila, ele explicou. Simples, direto e objetivo, seguindo o que assumi como sendo meu mantra da boa comunicação.

 

 

Entusiasmado, esperei o Atila responder à Cássia Godoy e engatei uma segunda pergunta. Explica aí por que o vírus está deixando o Norte, invadindo o interior e crescendo no Sul? O omelete não virou. Ops, a resposta não chegou. Não chegou para mim que estava apresentando o programa de casa. Menos mal que foi até os ouvintes que acompanhavam o Jornal no rádio. Minha internet —- com todos os sinais das operadoras que prestam o serviço — desapareceu. E com ela, eu.

 

 

Da entrevista não ouvi mais nada. Desconecta um cabo aqui. Conta até 30. Desconecta o outro ali. Conta de novo. Zera o sistema. Desliga o computador. Religa o celular. O que é que está acontecendo? É o upload que não sobe. É o download que não desce. É o Mílton que enlouquece.

 

 

A Cássia seguiu em frente em voo solo — com toda autoridade. E o Atila atendeu a expectativa do ouvinte — dele também não tinha dúvida. A mim restaram a frustração de ficar de fora de uma boa entrevista. E o consolo de Bocelli e Geromel, que se enroscaram nas minhas pernas, subiram na mesa e ronronaram no microfone para me acalmar.

 

 

Lição aprendida: se a máquina do café quebrar, o omelete não virar, a internet pifar e a boa entrevista frustrar, que ao menos tenhamos bons companheiros ao lado para nos consolar.

 

 

PS: a entrevista da Cássia com o Atila você ouve na sequência. Vale a pena!

 

 

miltonjung · Jornal da CBN entrevista Atila Iamarino sobre o estádio da pandemia no Brasil

Podcast: de sutilezas

 

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A conversa foi pré-Pandemia. E foi generosa. Recebi Paula Caubianco sem ter ideia até onde iria o nosso papo. Que assunto a interessava. E o que dizer sobre esses assuntos. O resultado está no MOMENTOCAST, que foi assim apresentado pela Paula a quem tive o prazer de conhecer:

Só de lembrar o dia que gravei esse episódio eu já fico emocionada… agitada. Eu fui muito ousada! Era manhã do dia foi 20 de fevereiro de 2020, quando eu saí da Mooca ( bairro na zona leste – onde eu moro) seguindo em direção à Marginal Pinheiros: eu tinha um grande encontro!… já era costume ouvir a rádio CBN no carro … mas aquele dia guardava um motivo especial. Eu fui ouvindo o Milton Jung, a Cássia Godoy e até o Dan Stubach noticiarem, com grande pesar, a morte ocorrida no dia anterior, do genial José Mojica Marins, conhecido como Zé do Caixão… o pai do terror brasileiro. Ele partiu aos 83 anos de idade… que perda irreparável…

 

Eu estava super ansiosa, mas ouvir as homenagens contando a trajetória e o estilo próprio do Zé do Caixão… foi me trazendo um alento… a sua irreverência me deu um ânimo extra: de certa forma, ele me dizia… Paula é preciso ter coragem para se conquistar o que se quer… vá e faça. Depois de 50 minutos lá estava eu… no saguão daquele edifício moderno… pegando minha credencial para subir até o andar da CBN… eu tinha uma hora marcada com o Milton Jung – e ele já me aguardava.

 

A maior satisfação que tenho em conceber e produzir o MOMENTOCAST é poder conversar sobre sutilezas com pessoas que admiro, respeito, e que sinto, que de alguma forma estão dispostas a compartilhar algum conteúdo de valor.

 

Convidei o Milton com minha cara e coragem, e recebi um saudoso sim! Nesse dia, minha palavra era ousadia. E a do Milton, sem dúvida alguma, generosidade! Espero que você goste desse episódio, nele eu compartilho com você o que ouvi e aprendi com esse grande ser humano que é o Milton Jung… e você, qual é a tua palavra?

 

Me conta sua experiência com o momentocast enviando um audio pelo link disponível no descritivo desse episódio. Assine o momentocast gratuitamente pelo seu spotify, deezer, apple podcasts, google podcasts e nos principais agregadores de áudio. Ou se preferir acesse anchor.fm/momentocast. Depois compartilhe esse episódio com seus amigos e familiAres, quanto mais gente escutar… melhor.

 

Interaja com o MOMENTOCAST nas redes sociais utilizando a hashtag #momentocasters e vamos acompanhar que palavras andam te definindo nesses tempos. Quando eu agradeci o MIlton por toda a generosidade em aceitar meu convite e me receber mesmo sem me conhecer… ele me disse: eu sei exatamente o que é estar no seu lugar… não se preocupe, só faça sempre um bom trabalho. E assim… eu venho seguindo… Obrigada por seu tempo, e até.


Ouça outros episódios e coloque o MOMENTOCAST entre os seus favoritos

Promessas de vacina contra Covid-19 ainda este ano alimentam falsas expectativas, dizem especialistas

 

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Foto Pixabay

 

Dia desses publiquei aqui no blog um texto  em que “acusava” cientistas e jornalistas de formarem o exército do estraga-prazer. Bastava surgir uma novidade no tratamento da Covid-19 para os pesquisadores virem a público e colocarem dúvidas sobre os resultados alcançados. Os jornalistas, como em uma estratégia combinada, apareciam na sequência para dar espaço a essas opiniões desestimulantes, em um momento que tudo que as pessoas buscam é uma salvação.

 

Há um outro lado desta moeda — sempre há.

 

Nas mesmas comunidades existem aqueles que estão prontos para vender ilusão — seja entre os pesquisadores seja entre os jornalistas, deixando as pessoas mais felizes (apesar de iludidas) e outras mais ricas.  Desde o início desta pandemia, temos assistido à publicação de uma série de informações, geralmente controladas por agências de comunicação, contratadas por laboratórios de pesquisa, que correm em busca de uma solução para conter o avanço do Sars-Cov-2. Toda vez que essas notícias são publicadas — além de alavancarem o preço das ações das empresas envolvidas — geram uma enxurrada de mensagens, enviadas às redações, questionando porque não anunciamos estas descobertas ou não damos o devido destaque, em lugar de ficar noticiando o número de pessoas mortas e infectadas. “Precisamos de boas notícias”, reclamam.

 

Adoraria ser o porta-voz da boa nova. E espero conseguir fazer isso o mais breve possível. Lamento, porém, informar que aos jornalistas sérios, assim como aos cientistas, cabe a busca da verdade — independentemente de ser boa ou de ser ruim, a verdade é o objetivo.

 

Registre-se que a corrida pela vacina salvadora é bem-vinda, pois tende a acelerar uma resposta para um vírus que tem tirado o sono de boa parte do Planeta e, pior, a vida de 268.999 pessoas (número oficial registrado pela Universidade de John Hopkins até às 21h30 desta quinta-feira). O problema está em oferecer à opinião pública a informação de que a solução está logo ali.

 

Para colocar as coisas nos devidos lugares, o ideal é  recorrer a quem realmente entende do assunto. O Dr Luis Fernando Correia, comentarista de saúde da CBN, me apresentou, hoje, artigo publicado no STAT, site especializado em notícias sobre saúde, no qual são ouvidos especialistas por todo o mundo —- uma gente série, preocupada com a busca de um remédio ou vacina que nos protege tanto quanto em evitar que sejamos enganados por vendedores de óleo de cobra.

 

O título é claro na mensagem que o artigo pretende transmitir: “Promessas crescentes das vacinas Covid-19 estão alimentando falsas expectativas, dizem especialistas”.

 

Para o Dr. Luis Fernando, o texto traz uma visão coerente e lógica para as vacinas que somente devem surgir no horizonte para o público em geral, em 2021. As primeira levas serão para os profissionais de saúde e depois para os grupos de risco. “Mais coerência e menos marketing” foi o que meu colega de rádio sempre pediu na abordagem de temas relacionados a vacinas contra a Covid-19 e foi o que encontrou no artigo que reproduzo em partes aqui no blog.

 

No pé deste post você tem  o link para a publicação em inglês que vale ser lida ao menos para que você se convença de que não somos estraga-prazeres, apenas queremos que você esteja consciente da realidade:

As vacinas para prevenir a infecção pelo Covid-19 estão avançando em um desenvolvimento e velocidade nunca antes vistos. Mas as promessas crescentes de que algumas vacinas possam estar disponíveis para o uso emergencial já no outono (no hemisfério norte) estão alimentando expectativas simplesmente irrealistas, alertam os especialistas.

 

Mesmo que os estágios de desenvolvimento da vacina pudessem ser compactados e os suprimentos pudessem ser rapidamente fabricados e implantados, levariam muitos meses ou mais para que a maioria dos americanos pudesse arregaçar as mangas. E em muitos países do mundo, a espera pode ser muito mais longa — perpetuando o risco mundial que o novo coronavírus representa nos próximos anos.

 

Essa realidade está sendo obscurecida por relatos de que alguns dos primeiros candidatos a vacinas — incluindo um da empresa de biotecnologia Moderna e outro da Universidade de Oxford — podem, em meses, ter evidências suficientes para serem administrados em casos de emergência.

 

Michael Osterholm, diretor do Centro de Pesquisa e Política de Doenças Infecciosas da Universidade de Minnesota, está preocupado que as pessoas não estejam adotando as medidas para reduzir a onda de infecções — que alguns especialistas temem que seja maior do que vimos até agora — porque eles esperam que uma vacina esteja à mão.

 

“Na verdade, ouvi especialistas em ensino superior dizerem: ‘Bem, você sabe, estamos contando com a vacina talvez até setembro porque continuamos ouvindo sobre isso.’ … na mente deles, eles estão acreditando que as faculdades e universidades terão a vacina ”, afirmou ao STAT.

 

Osterholm e outros especialistas deixam claro que não haverá vacina suficiente para estudantes em idade universitária nesse período, mesmo no melhor cenário. É provável que todos os suprimentos que estarão disponíveis — se alguma das vacinas provar ser protetora, no outono — serão designados para os profissionais de saúde e outros na linha de frente do esforço de resposta.

 

“Eu não acho que estamos nos comunicando muito bem com o público, porque eu tenho que dizer a essas pessoas, mesmo se tivéssemos uma vacina que mostrasse alguma evidência de proteção até setembro, estamos muito  longe de ter uma vacina no braço das pessoas ”, disse Osterholm.

 

Supondo que uma vacina possa ser desenvolvida rapidamente, a questão da fabricação não é irrelevante. A produção de algumas  vacinas candidatas  poderia ser mais facilmente aumentada do que outras, observou Emilio Emini, que lidera o trabalho da Fundação Bill e Melinda Gates sobre o assunto.

 

Caso algumas das vacinas mais “escalonáveis” se mostrem protetoras, é possível que elas possam ser feitas nas fábricas existentes, em vez de exigir a construção de novas instalações. A produção desse tipo de vacina pode atingir centenas de milhões de doses em cerca de um ano, disse Emini. Mas qualquer vacina que exija construção de tijolo e argamassa obviamente levará mais tempo para atingir esses níveis de produção.

 

A Organização Mundial da Saúde, que está monitorando de perto o campo das vacinas candidatas ao Covid-19, lista mais de 100 projetos, embora muitos estejam sendo desenvolvidos em laboratórios acadêmicos sem capacidade comercial de produção. Do total, oito já estão sendo testados em pessoas, quatro delas na China.

…..

A OMS pediu um compartilhamento equitativo das vacinas Covid-19, insistindo que elas devem ser vistas como um recurso global. Mas, desde os primeiros dias dessa pandemia, houve preocupações de que os países que abrigam instalações de produção de vacinas nacionalizem qualquer produção para garantir que as necessidades domésticas sejam atendidas antes que a vacina possa ser exportada para uso em outro lugar.

 

Robin Robinson, que liderou a Autoridade Biomédica de Pesquisa e Desenvolvimento Avançado de 2008 a 2016, disse que a agência gastou bilhões de dólares desenvolvendo a capacidade de produção de vacinas nos Estados Unidos com base nessa suposição. 

…..

“Eu não acho que a população em geral tenha vacina provavelmente até a segunda metade de 2021. E isso se tudo der certo”, disse ele.

O texto completo, “Promessas crescentes das vacinas Covid-19 estão alimentando falsas expectativas, dizem especialistas”, da STAT, você encontra aqui.

Expressividade: minha carreira foi salva pela fonoaudiologia

 

Estamos quase chegando ao fim deste seriado composto por trechos do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressão”, escrito para o livro “Expressividade — Da teoria à prática” (Revinter), organizado pela fonoaudióloga Leny Kyrillos, em 2005. É minha homenagem a fonoaudiologia e em referência ao Dia Mundial da Voz, comemorado em 16 de abril:

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Foto Pixabay

 

ESTAS FONOAUDIÓLOGAS INCRÍVEIS E SUAS MARAVILHOSAS LIÇÕES!

 

O Colégio Nossa do Rosário sempre foi um dos mais completos de Porto Alegre. Lá passei boa parte da minha infância e adolescência. Aprendi muita coisa nas salas de aula, apesar de nunca ter sido um aluno exemplar. Aprendi mais ainda do lado de fora, convivendo com professores, comandando agremiação estudantil, trocando experiência com colegas e nos muitos treinos no time de basquete. Foi na escola, também, que me dei conta pela primeira vez das vantagens e desvantagens de ter uma voz grave mesmo na idade em que a maioria dos meninos ainda fala com o som de “taquara rachada”.

 

Não tenho dúvida de que minha voz — mais do que a personalidade —- colaborou muito para que eu assumisse posição de liderança nas discussões de política estudantil e nas atividades esportivas. Levava vantagem porque falava mais alto do que os outros. Mas ao mesmo tempo, o “vozeirão” me provocava constrangimento.

 

Foram muitas as vezes que, na dúvida entre uma resposta e outra no exercício de um exame qualquer, meu cochicho no ouvido do vizinho de carteira escolar reverberava no quadro negro e chamava atenção do professor. Outro motivo de incômodo era a brincadeira do dono da cantina que não se cansava em dizer: “enquanto os meninos trocam a voz fina pela grossa quando crescem, você vai mudar da grossa para a fina”.

 

Afinar não afinou, mas logo comecei a sentir problemas na garganta. Fosse depois de um recreio barulhento, uma festa com som alto, um discurso para o pátio repleto de gente, uma partida de futebol, sentado na arquibancada do estádio torcendo pelo meu Grêmio, o resultado final era o mesmo: rouquidão. Quase não conseguia falar. Situação que se agravou quando comecei a usar a voz profissionalmente. Os excessos foram tantos que o diagnóstico não tardou a surgir. Fui para a mesa de cirurgia tirar um nódulo nas cordas vocais, operação que me deixou sem falar por alguns dias e se tornou inócua por falta de orientação médica. Sem nenhum treinamento posterior, as dificuldades voltaram a aparecer.

 

Cheguei em São Paulo, em 1991, contrastado pela TV Globo. Um passo e tanto para quem ainda era inexperiente na profissão e havia trabalhado apenas um ano no veículo. A pressão psicológica se refletia na garganta. Algumas horas de trabalho e a voz começava a sumir. Foi quando conheci uma dessas figuras que se transformaram em ícone do jornalismo brasileiro, mesmo sem ser jornalista: Glorinha Beuttenmüller. Quase um mito, já que suas histórias —- muitas, lendas —- corriam o Brasil e, em cada estado que chegavam, recebiam uma nota mais alta. A fama era de que o sucesso dependia da palavra final dela. Só sobreviveriam os ungidos por sua benção.

 

Não precisei mais de um encontro para descobrir a verdade por trás daquela figura mística. Glorinha Beuttenmüller não era semideus. Era ser humano. Atendia a todos e tinha uma palavra para cada um dos seus ‘pacientes’. Ficou espantada quando lhe contei que apesar de ter feito uma cirurgia nas cordas vocais jamais havia sido orientado a procurar uma fonoaudióloga. Como sua presença na Globo de São Paulo não era frequente, dedicava seu pouco tempo comigo dentro de uma ilha de edição, reproduzindo minhas reportagens e chamando atenção para o forte sotaque gaúcho que marcava minha fala. Brincava —- ou seria uma ameaça? — ao dizer que iria proibir meu retorno ao Rio Grande do Sul, pois bastava um fim de semana nos pampas para o trabalho dela ir garganta abaixo.

Apenas alguns anos depois, quando ela e eu já não trabalhávamos mais na TV Globo, fui descobrir que Glorinha havia vivido boa parte de sua infância pelo interior gaúcho, tempo suficiente para detectar os defeitos da língua. Que fique bem entendida a frase anterior. A Globo, que fazia a primeira experiência de rede nacional de televisão, tinha como objetivo suavizar a pronúncia regional para não ferir os ouvidos alheios. O sotaque rasgado tem o mesmo efeito do excesso de gestos diante da câmera ou o uso de brincos, colares e gravatas extavagantes. Como bem define o jornalista Armando Nogueira, são vampiros que sugam a atenção do telespectador deixando a informação em segundo plano.

Lá no Rio Grande do Sul, além do sotaque trouxe algumas expressões, também. Goleira, atucanado, bragueta, pandorga, bergamota e barbaridade —- esta última podendo ser usada apenas pelo apelido, “bá”, ou acompanhada pelo polivalente “tchê” —- tornavam meu vocabulário exótico em terras paulistas e o trabalho de Glorinha mais difícil. Não havia erros de português ao utilizá-las mas atrapalhava o entendimento da mensagem. Parte pela insistência dela — que só não foi maior porque logo deixaria a emissora —- e parte pela facilidade que sempre tive em imitar a língua alheia, fui deixando o regionalismo de lado. Neste processo não poderia esquecer os puxões de orelhas do jornalista Carlos Tramontina, na época âncora do Bom Dia São Paulo, da TV Globo. Um professor na redação que quase perdia as estribeiras quando me ouvia dizer que “o fuca subiu a lomba e, em frente a lancheria, travou para não atropelar o guri com a pandorga na mão” (aperte a tecla sap: “o fusca subiu a ladeira e, em frente a lanchonete, brecou para não atropelar o menino com a pipa).

 

Apesar dos poucos encontros que tive com Glorinha, lembro de outra recomendação que fazia ao assistir às minhas passagens nas reportagens e participações ao vivo: “você tem de sentir os pés firmes e sentir o cóccix”. Era a a forma de explicar como manter uma postura equilibrada que transmitisse segurança. Em 1992, Glorinha Beuttenmüller deixou a TV Globo. Meu sotaque estava aparentemente dominado, mas ainda encontrava dificuldade para controlar a saúde vocal. De qualquer forma, minha primeira boa experiência com uma fonoaudióloga me abriu caminho para outras relações mais duradouras que me ensinaram a importância desta profissional.

Antes de seguir em frente, um pedido de desculpas: uso a palavra que designa o profissional responsável pela terapia da fala no feminino por força do hábito. Sempre trabalhei, entrevistei, fui entrevistado e li textos de fonoaudiólogas. Portanto, levando minha experiência em consideração, fonoaudiólogos que aí estão lutando contra a discriminação sofrida pelo sexo frágil, o masculino, me perdoem.

Os textos do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressividade”, publicados até agora, você tem acesso, na ordem decrescente, clicando aqui

O teste rápido na farmácia e a turma do estraga prazer na mídia

 

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ilustração Pixabay

 

O teste rápido para o novo coronavírus estará disponível na farmácia mais próxima da sua casa — notícia que deve ter agradado os ouvidos daqueles que reclamam por informações positivas nos meios de comunicação. Assim que a Anvisa anunciou a liberação para todo o Brasil, a mensagem correu por sites, blogs, redes sociais e afins.

 

Imaginei algumas pessoas ligando para o telefone da farmácia que fica permanentemente colado na porta da geladeira para agendar data e horário. Sonhando com o dia que fariam o teste para pegar o passaporte imunológico e sair saltitante pelas ruas sem se preocupar com as fronteiras impostas pelo Sars-Cov-2. Dar aquele abraço!

 

Até que surgem os cientistas e começam a falar umas verdades. E a eles se juntam os jornalistas que adoram ouvir a verdade. A Turma do Estraga Prazer está formada.

 

Não demora muito para os primeiros questionamentos aparecerem no rádio, na TV, nos jornais e em todos os espaços digitais que investem em jornalismo profissional.

 

O que era sonho … (vocês só gostam de notícia ruim, né!)

 

Logo se descobre que o teste é ineficiente. A margem de erro varia mais que pesquisa eleitoral (mas nessa você não acredita, não é mesmo?): vai de 20% a 70% dependendo o fabricante.

 

Começa que não foi feito para indicar quem está ou não com o vírus. Foi feito para dizer se a pessoa tem os anticorpos para o vírus — e, mesmo assim, com aquela margem de erro que a gente falou.

 

De acordo com a doutora Natália Pasternak, presidente do Instituto Questão Ciência e pesquisadora do Instituto de Ciências Biológicas, da USP, o teste rápido pode dar uma falsa sensação de tranquilidade.

“… imagine que essa pessoa tenha um pouco de sintoma, ela vai até a farmácia e faz um teste rápido destes que não medem o vírus, mas medem anticorpos. Se ela estiver no começo da doença, o teste de anticorpos não vai acusar, porque não deu tempo dela ainda produzir os anticorpos — a gente começa a produzir os anticorpos a partir de uns 10 dias da infecção. Então, ela vai à farmácia, vai fazer o teste, tá lá com um pouquinho de sintoma, e o teste vai vir negativo. Se ela não for muito bem orientada o que esse negativo quer dizer, essa pessoa pode sair da farmácia pensando ‘ufa, não estou com o vírus, estou livre, posso abraçar meus pais idosos’ ….”.

Sai da farmácia sem saber o que realmente interessa e com R$ 200 a menos no bolso — é o que se diz que pode custar cada um desses testes. Imagine quanta gente não vai faturar alto. E quantos vão botar dinheiro fora.

 

Para que servem os testes rápidos? Foi a pergunta que Cássia Godoy e eu fizemos na entrevista de hoje, no Jornal da CBN, para a doutora Natália, que você pode ouvir no arquivo a seguir. Ou seguir lendo até o fim:

 

“Coletivamente podem ser úteis mais para à frente, quando a curva (de infecção) estabilizar, para gerar dados epidemiológicos, mas não para embasar políticas públicas de ‘vamos liberar a quarentena’”

Como jornalista nunca está satisfeito com a resposta, pergunta: quais os testes que são eficientes?

“O melhor teste para dizer se o paciente está com o vírus ou não é o teste (de biologia) molecular, que a gente chama de RT-PCR. Esse teste vai determinar o material genético do vírus, o RNA do vírus. Esse teste é muito sensível, é muito eficiente, se feito da maneira correta. Mas precisa ser coletado em locais adequados, e ele precisa ser avaliado em laboratórios de segurança e adequados para manuseio desse material”

Então é só ir na farmácia e pedir esse teste, ora bolas — logo pensa o amigo ouvinte que está pronto para disparar um e-mail para o apresentador e chamá-lo de alarmista juramentado.

 

Não é bem assim.

 

Como explicou doutora Natália o material tem de ser coletado em locais apropriados, além de serem mais caros e mais demorados. Não são vendidos em farmácia. Hoje, estão disponíveis apenas em hospitais que atendem pacientes internados com suspeita de Covid-19, mesmo porque faltam reagentes. Não têm suficientes para a maior parte da população infectada.

 

E aí mora o problema: somente com testes em massa —- e com esse teste mais caro e em falta —- é que se consegue desenvolver uma política pública eficiente e com menor taxa de risco. Sem eles, toda decisão de liberar comércio, restaurante, salão de beleza, clube de tiro (sim, tem gente preocupada com isso) ou as portas do seu escritório é uma loteria em que o grande prêmio é um vírus daquele tamanho. E mais um monte de gente contaminada, sofrendo no tratamento e podendo sair do hospital para o cemitério —- onde houver covas.

“No Brasil, a gente tem de lembrar que o país é enorme, e a doença afeta de maneira diferente as regiões. Então, o ideal é que cada região faça a sua testagem e trace o seu panorama … Precisamos fazer testes com amostras representativas da população, fazer amostras representativas de municípios e isso precisa ser muito bem planejado. Mas é a melhor maneira de otimizar os testes que por ventura tenha. Por enquanto a gente tem bem pouco”.

Por que vocês só ouvem quem é do contra? Calma lá, a gente ouviu mais gente, também, no Jornal da CBN. Ouça as entrevistas e reportagens que foram ao ar apenas nesta quarta-feira sobre o assunto, e tente entender que o papel do jornalista não é dar notícia ruim ou boa, é procurar a verdade.

 

“Pessoas com sintomas da Covid-19 não devem fazer teste em farmácia, diz Opas” — ouça aqui o que disse o vide-diretor da entidade, Jarbas Barbosa, ao Jornal da CBN

 

Liberação de teste rápido para detectar coronavírus fragiliza isolamento — ouça o comentário do Dr Luis Fernando Correia, no quadro Saúde em Foco, no jornal da CBN

 

E aqui a justificativa da Anvisa para liberar o teste rápido em farmácia

Triste de quem é refém de heróis e mitos

 

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Site CBN/Foto: Pablo Jacob, Agência O Globo

 

As últimas horas têm sido intensas. Mais intensas do que as anteriores. Seja porque a extensão do confinamento nos exige mais da mente, do corpo e da alma, seja porque a cada dia, o número de mortos aumenta e esses mortos ganham nome e sobrenome —- às vezes, muito mais próximos de nós do que desejaríamos.

 

Fosse apenas o risco que a doença nos traz, já seria suficiente para termos dias com sofrimento e preocupação. Soma-se a esse cenário inédito nas nossas vidas, porém, comportamentos estranhos de autoridades públicas e cidadãos anônimos.

 

No Palácio, o discurso do confronto prevalece, independentemente de quem seja o inimigo. A impressão que tenho é que o Governo tomou das mãos da oposição a bandeira  do “quanto pior, melhor”. Se não, o que foi este início de semana, em que o Presidente — às vésperas de assistir à ampliação de brasileiros infectados e mortos, e hospitais lotados —- ameaça demitir o líder da equipe que combate a doença, em mais um declaração marcada pelo desatino, no domingo.

 

A turma do deixa disso entrou em ação, na segunda-feira. O STF falou. O Congresso ameaçou. Os generais apaziguaram. E o Presidente recuou fazendo cara de mau — de criança que foi contrariada. Em seguida, e já era noite em Brasília, o Ministro da Saúde Luis Henrique Mandetta fez um pronunciamento com críticas veladas e ironia em relação ao Presidente. Até ao sugerir leitura para acalmar, mandou recado: disse que leu o Mito da Caverna, de Platão — e não entendeu. Nós entendemos o recado dele.

 

O inacreditável é que o Presidente e o Ministro são partes de um mesmo Governo que diz ter um só inimigo com “nome e sobrenome”: Sars-COV-2. Não têm, não. Sinalizam o tempo todo que um é inimigo do outro, nenhum aceita ser coadjuvante, enquanto o novo coronavírus protagoniza uma devassa na vida dos brasileiros.

 

Em meio a tudo isso, a massa se digladia na praça pública que se transformou as redes sociais. Agride com palavras, usa informações falsas, ataca sem dar atenção à lógica e enxerga em qualquer análise que se faça uma teoria da conspiração.

 

Nesta terça-feira, das mensagens que recebi, várias alertavam para o risco de quem defende o Ministro da Saúde, que não seria flor que se cheire, estaria comprometido com manobras políticas e planos de saúde. Seu herói tem pés de barro, dizia uma delas. Outros traziam críticas ao Presidente e vinham acompanhadas de coisas do tipo: “vocês é que elegeram o Mito, agora embalem”.

 

Como jornalista, cubro fatos, apuro a verdade e contextualizo o cenário. Não tenho ídolos, menos ainda mitos e heróis. Se o caminho percorrido é o certo, relato; se é o errado, denuncio. Se usa a ciência como pauta, pergunto para esclarecer. Se usa as crenças, questiono. Evito confundir mensagem e mensageiro. E se esse aponta o rumo certo pela maneira errada, digo o que entendo ser o certo e o errado. Não tenho compromisso com personagens nem narrativas. Se acerto, cumpro minha obrigação; se encerro, peço desculpas.

 

Herói? Mito? Triste de quem vive em busca de um. Vai se frustrar, com certeza; e afundar na ilusão. Vai se transformar em refém de sua idolatria. Perder a capacidade de discernimento e a análise crítica. Desperdiçar a beleza do livre pensar. De sonhar!

 

A cara do Tito

 

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Quando era guri, a imagem que tinha do jornalista era a de um moço com expressão de curioso e olhar de desconfiado, que vestia uma roupa pouco cuidada e nas mãos levava um bloco de anotações e uma caneta. Na minha imaginação também haveria de ter uma máquina de fotografia a tiracolo. De todos os jornalistas da minha família o que mais se encaixava nesse perfil —- apesar de jamais vê-lo em posse de uma máquina de fotografia, que eu lembre —- era meu tio, Tito Tajes, casado com a tia Miriam, irmã do meu pai, e pai de quatro dos meus primos.

 

Tio Tito nasceu em Santa Maria, em 1933, trabalhou como repórter na Última Hora, no Correio do Povo e na sucursal de O Globo, em Porto Alegre. Foi ainda editor do Diário Catarinense, em Florianópolis. Esteve no campo de batalha e participou de coberturas importantes mundo afora.

 

Lembro dele fechando a edição dominical do Correio — o que fazia com enorme precisão, como meu pai atestou em um dos artigos publicados neste blog. Tio Tito me levava a passear na oficina do jornal e aquela imagem era fascinante tanto quanto insalubre. Do cheiro das máquinas rodando e dos fragmentos dos clichês que imprimiam o jornal sobraram ótimas lembranças na minha mente e uma quantidade de partículas suficiente para entupir as veias do tio e, muito provavelmente, levá-lo a morte, em 1995. O tio morreu de jornalismo, é o que penso.

 

Era crítico, também. Muito crítico. Chegava a ser engraçado ouvi-lo durante os almoços de domingo em família quando comentava sobre colegas de profissão, textos mal-escritos e o abuso do lugar-comum no discurso jornalístico. Ele próprio se divertia com esse jeito. Depois de uma sequência de broncas dirigidas às redações, se voltava para mim e dizia: “Miltinho, bom mesmo só nós dois”. Caíamos os dois em gargalhada.

 

Mesmo que costumasse maldizer o jornalismo me apoiou na decisão de seguir a carreira e ganhei dele de presente o livro que marcou minha caminhada e guardo até hoje: a Regra do Jogo, de Cláudio Abramo. Tentou me levar para Florianópolis quando do lançamento do Diário Catarinense, ideia frustrada por um desentendimento familiar. Se não fui para Santa Cataria acabei anos depois em São Paulo e foi uma troca de cartas com ele —- sim, escrevi muitas cartas na minha vida —- que me fortaleceu para ficar por aqui, quando eu mesmo questionava minha capacidade de trabalhar na capital paulista.

 

As histórias vividas com o tio Tito voltaram à mente semana passada quando soube que o Movimento de Justiça e Direitos Humanos havia lhe concedido in memorian o primeiro lugar, na categoria crônica, do 36º Prêmio de Jornalismo, que permite a inscrição de textos que não foram publicados devido à censura. “Voos da Morte” foi escrito em 1985, época em que Tito trabalhava na sucursal do jornal O Globo, e resultado de reportagem investigativa que confirmou que dois cadáveres encontrados durante o fenômeno que ficou conhecido por Maré Vermelha do Hermenegildo, no Rio Grande do Sul, em 1978, eram vítimas da ditadura argentina.

 

A Maré Vermelha é bastante conhecida entre os gaúchos, ao menos os mais vividos, dela pouco se conseguiu esclarecer e as mais variadas versões persistem até hoje. Dos crimes da Ditadura —- seja na Argentina seja no Brasil —- muito se contou até agora, mas se sabe que outro tanto morreu juntamente com suas vítimas. A reportagem escrita pelo jornalista Tito Tajes, meu tio, e jamais publicada é oportunidade para refletirmos sobre os riscos que corremos diante de uma gente que constantemente ameaça a paciência e a consciência do cidadão brasileiro com declarações que flertam com o autoritarismo e põem em risco a Democracia.

 

Por curioso que pareça, esta é a primeira vez que li um texto escrito pelo tio. Cada linha, cada frase construída e cada descrição dos fatos revelados em “Voos da Morte” serviram para redesenhar na minha imaginação a figura daquele cara com expressão de curioso e olhar de desconfiado, que vestia uma roupa pouco cuidada e nas mãos levava um bloco de anotações e uma caneta. A cara do jornalista. A cara do Tito.