Leis para evitar tragédias têm de ser drásticas e rápidas

 

Por Milton Ferretti Jung

 

O incêndio da Boate Kiss ficou marcado por ter sido a maior tragédia a enlutar uma cidade brasileira,a gaúcha Santa Maria. O fogo,que matou e mutilou inúmeras pessoas,a maioria composta por jovens que imaginavam passar o sábado se divertindo,nunca será esquecido. Mãe e irmã de sócio da boate depuseram,recentemente,durante mais de três horas,a portas fechadas,na 1ª Vara do Júri,no Foro Central de Porto Alegre. O processo está em fase de instrução e tudo indica que ainda ouviremos fala dele por muito tempo. Era de se acreditar que o incêndio da Boate Kiss,entre outras coisas,servisse de dura lição às autoridades de todos os níveis,capazes de produzir leis que evitem a repetição do terrível acidente.

 

Eis,entretanto,que uma notícia divulgada pela mídia,referindo-se ao ocorrido,em Porto Alegre, na Stuttgart Danceteria, de Porto Alegre – suposta briga de gangues com troca de tiros – provocou a morte de um jovem e mais 17 feridos. Este tipo de ocorrência,dependendo da zona da capital e dos hábitos dos frequentadores de casas noturnas,não me causa espécie. Espanta-me,isso sim,que os proprietários da boate ainda não foram ouvidos sobre o tiroteio. Pior ainda,está aberta,desde 2012,graças a uma liminar.Foram várias as tentativas frustradas visando à proibição de sua abertura. A Stuttgart possui um processo numa Vara da Fazenda Pública,contra a prefeitura da Capital gaúcha,exigindo a liberação do local,desde 2010. Ainda não houve sentença nesse processo.A danceteria tem capacidade para 700 pessoas,mas o número de presentes,por sorte, era bem menor na hora da troca de tiros. É inadmissível que as leis que visam evitar tragédias como a da Boate Kiss não sejam mais drásticas e se arrastem durante anos. Repito o que escrevi faz pouco:as autoridades de todas espécies têm de fazer valer as leis em vigor,que pelo jeito não são levadas muito a sério.

 

Bem ao contrário agem as autoridades que cuidam do trânsito. Quem não quiser pagar caro por conduzir o seu veículo fora das leis deve ter ficado arrepiado ao tomar conhecimento de que as multas,agora,ficaram 900% mais caras. Era mesmo imprescindível que esta drástica providência fosse tomada. Basta olhar para o percentual do aumento para que se perceba que os motoristas têm de se dar conta do custo altíssimo das infrações mais graves e tratem de ser comportar corretamente,algo que muitos,principalmente os mais jovens,costumam não levar a sério. É possível que,com o aumento e o peso deste no bolso,os moços corram menos e deixem de representar 25% dos mortos em acidentes no ano de 2014. E prestem atenção,estou me referindo somente aos gaúchos. Conforme Diza Gonzaga,presidente da Fundação Thiago de Moraes Gonzaga,queixa-se,com razão,que campanhas pontuais,como essas que são feitas em vésperas de feriados prolongados. Sempre que falo em trânsito,lembro que é de pequenino que se torce o pepino. O trânsito deve ser matéria obrigatória nos colégios. Eu disse,OBRIGATÓRIA.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, publica seu texto no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

As leis e os homens na tragédia de Santa Maria

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Foi preciso uma tragédia da enormidade dessa ocorrida em Santa Maria, causadora de comoção não só no Brasil, mas no exterior, que enlutou, no mínimo, 230 famílias em nosso país, para nos alertar sobre o que sempre desconfiávamos: temos leis pontuais, tal qual as que se referem à abertura de boates e estabelecimentos similares, absurdamente falhas. Algumas são estaduais, outras municipais. Umas e outras, porém, seja porque não preveem todos os quesitos imprescindíveis para as qualificar, seja porque quem tem a obrigação de fiscalizar a sua aplicação, por vários razões, certas delas condenáveis, faz vistas grossas.

 

Pergunto-me como uma lei que não liga para aquela que seria uma exigência obrigatória visando à liberação de casas de espetáculos, especialmente as que pretendem receber número elevado de clientes, não prevê que essas possuam portas suficientes para facilitar, em situações normais ou, acima de tudo, em emergências, a saída rápida das pessoas. Ou será que as leis existentes não tratam desta necessidade? Quem sabe, no entanto, isso esteja escrito, mas os fiscais, por isso ou aquilo, descumpram a exigência? Se a boate Kiss, por omissão da lei ou não sei de quem, tivesse, pelo menos, duas portas e não uma miserável saída apenas, provavelmente, a madrugada de domingo não terminaria de maneira tão trágica, mesmo que houvesse sido consumida pelas chamas provocadas pelo “sputnik” lançado contra o teto de espuma por um idiota.

 

Como de hábito, sempre que há uma tragédia, discutem-se leis e outras providências para evitá-las Essas, passado um tempo, acabam caindo no esquecimento A de Santa Maria, talvez, pela sua desgraçada magnitude, venha a receber outro tratamento. Oxalá isso aconteça. Senti-me ao tomar conhecimento do trágico episódio como se fosse um indiano ou morador de um desses países orientais, pródigos em desastres provocados pelos homens ou pela natureza. Mesmo sem confiar muito nisso, espero que os culpados pelo domingo mais trágico dos gaúchos, sejam punidos. Seja lá como for, nada, nada mesmo, será capaz de aliviar a dor das mais de 200 famílias que perderam seus entes queridos.

 

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)