De Fogo

 


Por Maria Lucia Solla

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Faz um frio danado, em São Paulo. Ajoelho na frente da lareira, pela terceira vez hoje; me esforço para acender a fogueira, e nada.

Fogo não pega assim fácil, não. Sei disso. Fogo chega no tempo dele. Tem vezes que é um zás-traz, e o fogaréu assobia para as labaredas dançarem; noutras, como hoje, exige rendição total para que a alquimia se processe; e eu, então, finalmente me rendo.

Deixo tudo de lado, me esvazio e me entrego. Examino o arranjo no braseiro e acho, numa acha aqui, noutra ali, marcas de tentativas anteriores; e cavouco para ajeitar os cavacos. Ponho álcool no copo, só que desta vez estou presente em cada gesto, em cada ação. De piloto automático desligado, ajoelho novamente aos pés da lareira e banho o feixe de lenha. Desta vez com reverência.

Fogo não costuma atender à primeira chamada. Exige paciência, e não aceita menos que atenção e dedicação, no tempo necessário para que se dê a simbiose. Só então a magia acontece. Aí é só beleza, força, e o fogo fala, o fogo grita, traz memórias de encontro, de esperança e da falta dela, de riso e choro, de real e do nem tanto.

Fogo é luz e revelação, na fogueira ou na chama da vela, e seus elementais, através da manifestação dele, podem se expressar; e se expressam.

O fogo só chegou a nós quando a Vida acreditou que estávamos prontos para interagir com ele. E a gente nem mesmo se dá conta da sua grandeza e do privilégio que é tê-lo como aliado. Somos crianças mimadas; queremos sempre um brinquedo novo e perdemos o interesse pelo conquistado. Só nos damos conta da força e da importância do fogo, quando ele se exalta e invade e toma o que está à sua volta, ou quando precisamos dele e não o temos.

Como sempre, fiquei fascinada pelo seu poder e fotografei, fotografei sem parar. E neste ponto, chego à conclusão de que é melhor que eu me cale para deixar que ele se expresse.

Escolha um ponto das imagens para fixar o olhar. Não procure nada, e deixe que as imagens se revelem para você.


Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung