Conte Sua História de São Paulo: trabalhei na banca de revista em troca da leitura de gibis

Marcelo Bailão Silva

Ouvinte da CBN

Foto de João Saplak

Corria o ano de 1967 e minha família – eu, papai, mamãe e minhas duas irmãs – mudávamos de Santos para São Paulo. Na capital, papai recomeçaria a vida depois de momentos profissionais difíceis em Santos.

Viemos para o Itaim, na época um bairro de classe média baixa, recortado pelo Córrego do Sapateiro, que ligava o Ibirapuera à Marginal do Pinheiros e era circundado por uma enorme favela. Morávamos praticamente ao lado dessa favela. E estudávamos na escola pública, boa na época, Ludovina Credidio Peixoto, que existe até hoje. Meus amigos eram a turma favela, que frequentava minha cara e por quem sempre tive carinho e amizade. Alguns morreram, outro foi assassinado, houve os que se  perderam na vida e os que venceram as dificuldades e saíram da miséria.

Sempre amei ler, desde aquela época. Lia o que caía em mãos, principalmente gibis de heróis — (Homem-Aranha, Conan, .. ) — eram raros e caros.

Na minha esquina havia a banca do Seu José. Ele vendia revistas e jornais. Eu era conhecido dele porque vivia folheando os gibis. Com o apoio de minha mãe, fiz um acordo com Seu José: enquanto ele dava uma pausa para almoçar, eu tomava conta da banca e poderia ler as revistinhas. Maravilha! Melhor “salário”, impossível!

Durou pouco tempo – um tempo inesquecível. Alguns meses depois, papai começou a trabalhar na Editora Abril e voltava para casa com um caixote cheio de publicações da editora. Aí é que me afundei na leitura de vez.

Essa paixão perdura até hoje e consegui transmiti-la aos meus filhos Júlia e Vitor, ávidos leitores. Durante a infância deles, sempre frequentamos livrarias como a Cultura e a Martins Fontes. Eles sempre me ouviram falar:“escolham um livro, eu nunca vou negar um livro a vocês”.

Acredito que ler é viver. Fico triste sempre que uma livraria ou editora fecha e, se pudesse, acabaria com impostos sobre livros. Recuperar o prazer da leitura, seja em papel ou no digital, devia ser foco do ensino básico. Pobre país que se esquece do seu povo e de sua cultura. Se pudesse dar um presente à nossa cidade, daria um livro de para cada um que aqui vive.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Marcelo Bailão Silva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade você visita agora o meu blog miltonjung.com.br ou vai lá no Spotify e coloca entre os seus favoritos o podcast do Conte Sua História de São Paulo. 

De teatro

 

Por Maria Lucia Solla

 

carta

 

Olá,

 

sigo firme na tarefa da limpeza e organização do meu apartamento. Entro em contato com cada coisa, e me entrego. Mão na massa, e haja coração. Tem de tudo, meu Pai! Fiquei muito tempo na estrada, longe de mim.

 

Encontro coisas que fazem meu coração bater mais forte, outras me fazem sorrir. Tem as que me emocionam, e as que espremem meu coração.

 

Pilhas de livros me sequestram, e eu me rendo, mas quando paro porque sinto dor no pescoço ou porque uma perna começa a roncar, de tanto dormir, já passou o dia; é hora de acender as luzes. E vou selecionando, agradecendo cada coisa de que eu não preciso mais e empilhando para oferecer a quem precisa, para ir para o lixo, para arquivar…

 

Mas falando em precisar, nem preciso dizer que meu humor e meu raciocínio andam enlouquecidos. É muita coisa. Cada objeto me conta mais de uma história, que me leva para outra, e mais outra; e me perco ao me encontrar. Como é que eu faço para dar as costas aos relatos? Sento no chão e deixo que as coisas falem comigo. Tem sido mágico.

 

E em todos estes anos, eu não me lembrava que tinha uma cópia do script da minha primeira peça infantil, no Teatro Amador do Jaguaré, em 1959. Eu era Marisa, a filha. Também estive no elenco do Rapto das Cebolinhas, e do Chapeuzinho Vermelho… enfim, fazia o que mais gostava na vida, estudava e representava, no Externato Jaguaré, que era maravilhosamente dirigido por padres canadenses, onde o grupo apresentava as peças. Eu tocava harmônica, tocava violão, cantava, fazia de tudo. Amava e ainda amo o teatro.

 

Um dia, o diretor do grupo teatral veio pedir ao meu pai para que eu, além da escola, fizesse parte do grupo, me dedicando também ao teatro.

 

Não me lembro do nome dele, nem do seu rosto, mas tenho certeza absoluta de que deve estar correndo do meu pai, até hoje. Seu Solla não era fácil, não, mas depois desse incidente, eu ainda quis ser ‘aeromoça’, e meu pai quase teve um enfarto. Eram os tempos.

 

Depois me perguntam porque eu lia no telhado, quando era adolescente…

 

Ora, mas você também deve ter os teus guardados, que provam que somos todos heróis de mil faces, com batalhas, vitórias e derrotas, gente que vem e gente que se vai. É o jogo da Vida, do ganhar e do perder.

 

Tenho percebido que se a gente não se atira e não bate os pezinhos no chão do Shopping, pela perda, sai sempre ganhando!

 

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Escreve no Blog do Mílton Jung

Por que ler e escrever?

 

Por Julio Tannus

 

Seguem algumas citações:

 

O verdadeiro analfabeto é aquele que aprendeu a ler e não lê – Mário Quintana
A leitura é uma fonte inesgotável de prazer, mas por incrível que pareça, a quase totalidade, não sente esta sede – Carlos Drummond de Andrade
A leitura nutre a inteligência – Sêneca
A pessoa que não lê, mal fala, mal ouve, mal vê – Malba Tahan

 

Guimarães Rosa me disse uma coisa que jamais esquecerei tão feliz me senti na hora: disse que me lia “não para a literatura, mas para a vida” – Clarice Lispector
A leitura de um grande livro é muito mais rica que assistir a um grande filme – Steven Spielberg
Meus filhos terão computadores, sim, mas antes terão livros. Sem livros, sem leitura, os nossos filhos serão incapazes de escrever – inclusive a sua própria história – Bill Gates
O importante é motivar a criança para leitura, para a aventura de ler – Ziraldo

 

Sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de livraria – Jorge Luis Borges
É preciso fazer compreender a criança que a leitura é o mais movimentado, o mais variado, o mais engraçado dos mundos – Alceu Amoroso Lima
Amar a leitura é trocar horas de fastio por horas de inefável e deliciosa companhia -
John F. Kennedy

 

Creio que uma forma de felicidade é a leitura – Jorge Luis Borges
A verdadeira filosofia é reaprender a ver o mundo – Merleau-Ponty
Há pessoas que nos falam e nem as escutamos; há pessoas que nos ferem e nem cicatrizes deixam, mas há pessoas que simplesmente aparecem em nossa vida e nos marcam para sempre – Cecília Meireles
A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo – Nelson Mandela

 

Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela, tampouco, a sociedade muda – Paulo Freire
Escrevo sem pensar, tudo o que o meu inconsciente grita. Penso depois: não só para corrigir, mas para justificar o que escrevi – Mário de Andrade
Escrever é gravar reações psíquicas. O escritor funciona qual antena – e disso vem o valor da literatura. Por meio dela, fixam-se aspectos da alma dum povo, ou pelo menos instantes da vida desse povo – Monteiro Lobato
Escrever é fácil: você começa com uma letra maiúscula e termina com um ponto final. No meio você coloca as ideias – Pablo Neruda

 

Escrever é estar no extremo de si mesmo – João Cabral de Melo Neto
Escrever é um ócio muito trabalhoso – Goethe
Não se é escritor por ter escolhido dizer certas coisas, mas sim pela forma como as dizemos – Jean-Paul Sartre
A poesia é a música da alma, e, sobretudo, de almas grandes e sentimentais – Voltaire
Poesia é quando uma emoção encontra seu pensamento e o pensamento encontra palavras – Robert Frost
A Matemática pura é, à sua maneira, a poesia das ideias lógicas – Albert Einstein

 

Contribuição da professora Malu Zoe:

 

“Quando somos adolescentes, gostamos da ideia de sermos os descobridores de pequenos universos. Mas, depois de uma certa idade, preferimos voltar aos lugares que já conhecemos, onde não precisamos nos apresentar. Gosto das velhas companhias e dos velhos livros” – Manguel, escritor argentino

 

“Folheada, a folha de um livro retoma
o lânguido vegetal de folha folha,
e um livro se folheia ou se desfolha
como sob o vento a árvore que o doa;
folheada, a folha de um livro repete
fricativas e labiais de ventos antigos,
e nada finge vento em folha de árvore
melhor do que o vento em folha de livro.
Todavia, a folha, na árvore do livro,
mais do que imita o vento, profere-o:
a palavra nela urge a voz, que é vento,
ou ventania, varrendo o podre a zero.
João Cabral de Melo Neto

 


Julio Tannus é consultor em Estudos e Pesquisa Aplicada e co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier). Às terças-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung

Quem não lê, encolhe

 

Por Devanir Amâncio
ONG Educa SP

A Estrada de Itapecerica,altura do número 1.530, região do Campo Limpo , Zona Sul, tem um dos grafites mais provocativos da Cidade: O “Leia Mais ! Gente Muda” , que retrata uma figura humana  encolhida  – parecida com extraterrestre –  olhando um livro aberto.  Não é possível identificar o autor da obra de arte. Seu nome foi manchado pela pichação.