Conte Sua História de São Paulo: um chorinho que expressa o amor pela cidade

Anita Costa Prado

Ouvinte da CBN

Foto: arquivo CBN SP no Flickr

São Paulo era minha musa de concreto: poesias, contos e letras de música, enchiam as páginas dos meus cadernos. O amor pela metrópole estava em cada palavra, mesmo quando a abordagem tinha conteúdo crítico. 

Na década de 1990 haviam os mesmos problemas de hoje — trânsito intenso, poluição, … — mas sendo paulistana apaixonada,  sempre relevei os defeitos da cidade que aprendi a amar desde pequena, ouvindo minha mãe dizer: “Saí do interior da Bahia para nunca mais voltar. Adoro esta cidade que me deu trabalho, casa e estabilidade”

Ao compor a letra de um chorinho, eu necessitava de alguém para musicá-la.  Na época pré-virtual, a opção foi colocar anúncio em um jornal. Um compositor entrou em contato comigo e marcamos um encontro na região da Praça Roosevelt. Ele e seu violão levaram poucos minutos para transformar a letra em um belo chorinho. Mas nada ficou registrado ou gravado. O tempo passou, acabamos perdendo o contato e o choro se transformou em lembrança. A letra foi publicada em impressos variados e, hoje, compartilhada com os ouvintes da CBN:

Cinza Agonia

Corta min’alma lhe ver

deixar a calma se perder

por entre carros apressados,

prédios frios, 

corações dilacerados.

Ardem meus olhos em seu centro,

talvez pela fumaça ou tormento

que dão vontade de chorar 

e bem alto gritar 

pois estão lhe transformando

dia a dia,

pintando o seu corpo de cinza agonia

e progredir até parece algo sem valia

Se por isso perde-se a poesia.

Corta minh’alma lhe ver…

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Anita Costa Prado é personagem do Conte Sua História de São Paulo.  A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Noel Rosa sabia mesmo das coisas

 

 

Os 80 anos da morte de Noel Rosa, lembrados em reportagem especial no Jornal da CBN, produzida pelo colega Gabriel Sabóia, desta quinta-feira (4/5), trouxeram à memória algumas das mais belas músicas produzidas pelo ‘Poeta da Vila’, que fez muito e fez bem, apesar de ter vivido pouco. Foram mais de 200 letras compostas com tom de poesia, em um dos maiores legados do samba brasileiro. A boemia e seus excessos, porém, deixaram-lhe doente, e de tuberculose Noel morreu aos 27 anos, no auge da carreira.

 

Gosto de uma música em especial, talvez sem a mesma fama de “Conversa de Botequim”, “Fita Amarela” e “Com Que Roupa?”, que levaram o samba para o rádio e até hoje tocam nas emissoras que dão preferência à qualidade. Gosto de “Seja Breve”, que teria sido gravada em 1932 e me foi apresentada por um ouvinte da CBN há cerca de cinco ou seis anos.

 

O ouvinte acabara de acompanhar uma entrevista que tentei fazer com um médico. Era coisa importante. O doutor havia publicado pesquisa em revista científica no exterior. Mestre da ciência, porém, exagerou nas explicações e em seis minutos de entrevista foi incapaz de descrever para mim e para o público o significado de seu trabalho. Era craque na saúde. Não tinha o mesmo desempenho na oratória.

 

Perdemos a oportunidade de esclarecer o assunto, mas ganhei um ‘causo’ para minhas palestras. Pelo Twitter, o caro ouvinte – lamentavelmente não guardei o nome dele – me sugeriu Noel Rosa e a letra a seguir:

 

Seja breve, seja breve
Não percebi porque você se atreve
A prolongar sua conversa mole
(E não adianta)
Seja breve (conversa de teso)
Não amole
Senão acabo perdendo o controle
E vou cobrar o tempo que você me deve

 

A letra reforça a genialidade de Noel. Lá nos anos de 1930, ele já nos ensinava como nos comunicarmos de maneira eficiente nos tempos de agora em que o excesso de mensagem deixa tudo nebuloso e sem relevância.

Quem não ouviu Lupicínio, perdeu a mágica

 

Por Milton Ferretti Jung

Esses moços,pobres moços,
Ah,se soubessem o que eu sei,
Não amavam,
Não passavam aquilo que
Eu já passei…

 

Como de hábito,acordei cedo nesta terça-feira,dia em que já levanto pensando no que escreverei para o blog capitaneado pelo Mílton. Já na primeira edição do Jornal da CBN,fui alertado para um fato que começou a ser comentado desde muito cedo e que de maneira alguma eu não abordaria no texto que o meu filho posta na quinta-feira:neste 16 de setembro,um dos maiores sambistas deste país,o meu patrício Lupicínio Rodrigues estaria fazendo 100 anos. Fiquei muito satisfeito ao ouvir,durante o Jornal,elogiosas referências ao compositor,autor de inúmeras músicas que fizeram grande sucesso em uma época na qual o Lupi teve de concorrer com inúmeros sambistas altamente criativos. Afora o seu vasto repertório de músicas populares,Lupicínio Rodrigues só deixou de lado o samba para assinar o Hino do Grêmio. Reza a sua biografia que Lupe,como era chamado desde pequeno,cultivava três grande paixões:a música,o bar e as mulheres. Será que exagero se acrescentar uma quarta paixão às outras três? Lupicínio não comporia o Hino do Grêmio se não fosse torcedor do Imortal Tricolor. Se ele tivesse criado apenas esta música, eu seria seu fã.

 

Abri o meu texto desta quinta-feira lembrando o início daquele samba que ele chamou de “Esses Moços”,um dos meus preferido dentre o seu vasto repertório. E olhem que é difícil pinçar uma de suas criações no meio de tanta música inspirada. Criei-me em uma época de grandes sambistas e quando virei locutor de rádio,Lupicío Rodrigues,o velho Lupe,já encantava os ouvintes das duas únicas emissoras nas quais trabalhei,fora,é claro,a Voz Alegre das Colina,o serviço de alto-falante que rodava sambas de um compositor que inventou o termo dor-de-cotovelo ou,se fosse sob “a égide” da nova ortografia,sem hífen. Desculpem-me,mas já estou aproveitando ouvir no meu computador, para matar a saudade, os sambas de Lupe. Quem não ouviu Lupicínio,perdeu a mágica.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)