Avalanche Tricolor: Soy loco por ti !

O velho Grêmio Copeiro está de volta

Boayacá Chicó 0 x 1 Grêmio

Libertadores – Tunja (Colômbia)


O atacante deles está próximo da linha de fundo. Na posição onde, antigamente, aparecia o ponta esquerda. Quer chegar na área para o gol. Mas, precisa voltar com a bola. Há três jogadores do Grêmio na marcação. Assustado, procura um companheiro de time. Encontra, mas antes de a bola chegar até ele, um quarto gremista aparece. A bola é do Grêmio. O jogo está 0 a 0.

A cena descrita acima não vai aparecer nos melhores momentos da partida desta noite , no acanhado estádio La Independencia.  Os editores vão preferir o gol de falta de Souza, aos 32 do primeiro tempo; a incrível jogada de Jonas que conseguiu de uma só vez perder três oportunidades de marcar; os muitos chutes contra o goleiro Velásquez que foram para fora, que foram para o travessão, que foram parar nas mãos dele.

Para mim, porém, aquele lance do primeiro parágrafo, foi o mais significativo desta partida em que o Grêmio marca uma virada na sua trajetória de 2009 e na sua história de Libertadores.  Nunca antes – como diria o Presidente – havíamos vencido de um time na Colômbia. Nem mesmo quando conquistamos o bicampeonato da América, na casa do Nacional, em Medellin.

No instante em que vi os jogadores do Grêmio “caçando” o adversário, como se fosse um exército determinado a superar o inimigo, certos de que para vencer o jogo precisavam conquistar aquela batalha, naquele minuto, ficou claro para mim que o Imortal Tricolor estava de volta a Libertadores.

O que aconteceu dali para a frente, o único gol marcado em meio a uma centena de gols perdidos, a preferência ao toque de bola para “matar” o jogo em lugar do chutão, os desarmes do meio-campo, a firmeza da defesa e a presença segura de nosso goleiro nos poucos momentos em que foi exigido, não me surpreenderiam mais, após redescobrir o Grêmio Copeiro que já nos ofereceu dois títulos da América.

Que venha o terceiro, porque “soy loco por ti, América”!

Avalanche Tricolor: Prazer, Libertadores !

Jonas luta em mais um ataque do Grêmio

Grêmio 0 x 0 Universidad de Chile
Libertadores – Olímpico

Uma foi no poste. Outra foi no travessão. Teve a que o zagueiro tirou antes da linha do gol. Duas, três ou quatro que o goleiro se esticou todo e desviou para escanteio. Fora o chute prá fora. Os chutes, aliás. Em uma só jogada foram quatro e nenhum foi parar no fundo do poço, como diria aquele famoso locutor esportivo do Rio Grande do Sul que agora só quer saber de sofrer diante da televisão.

Houve dois penâltis, também. Nenhum o juiz viu. Nos restou reclamar dele. E quando ele acertou para nós, ao expulsar o defensor, pouco mudaria no jogo. Afinal, em Libertadores quem está em campo não se importa com quantos o adversário joga. Redobra-se a marcação; o carrinho sai mais longo; para alcançar a bola sobe-se bem mais do que as pernas permitem; chuta-se para qualquer lado. E fica tudo igual, novamente.

Ficou tudo igual mesmo, apesar da enorme diferença do futebol jogado pelo Grêmio em relação a Universidad. de Chile. Já havia acontecido isso com o São Paulo na estréia. E muitos mais vai acontecer daqui prá frente. Aliás, como bem lembrou o técnico campeão do mundo Valdir Espinosa foi também assim que aconteceu com o Grêmio na estréia da Copa Libertadores contra o Flamengo, no estádio Olímpico, em 1983.

E você sabe quem foi o campeão sul-americano e mundial daquele ano, não sabe?

Avalanche Tricolor: Que venha a Libertadores !

Grêmio 3 x 0 Brasil-PE

Gaúcho – Olímpico Monumental

Herrera marca mais um gol
Herrera está em campo. Jonas, também. A bola vem dos pés de Jadilson. Vem pelo alto, girando sobre ela mesma. No momento em que começa a descer vai em direção a pequena área. É lá que o Grêmio tem seus dois atacantes. Estão prontos para concluir. Tem sede de gol. Aquele desejo que está no coração dos matadores. Eles já haviam tentado marcar de outras maneiras. Chutaram de fora da área, de dentro da área, de lado, de frente, de tudo que foi jeito.

A bola havia batido no poste, na trave, no zagueiro, havia parado nas mãos do goleiro Danrlei, que teve seu nome gritado pela torcida várias vezes durante o jogo, mesmo estando com a camisa do adversário, afinal poucos sabem valorizar seus ídolos como nós. A bola já tinha ido para fora, afastada pela defesa, em direção a linha de fundo, para lugar nenhum.

Naquele momento, porém, o Grêmio tinha Herrera e Jonas dentro da área. Tinha Vitor, o melhor goleiro do Campeonato Brasileiro de 2008. Tinha Leo, Makelele, Douglas Costa, e uns meninos de quem ainda não havia ouvido falar em campo. Tinha Orteman no banco, um daqueles jogadores que parecem fazer parte do plantel apenas para impor medo no adversário. Que está lá apenas para que ninguém esqueça o significado da palavra raça.

O Grêmio também tinha Maxi Lopez assistindo ao jogo das arquibancadas. Tcheco e companhia fora de campo a espera da Libertadores. E uma torcida que canta, pula e vibra sem parar.

Tudo isso e mais uma história de mais de 100 anos marcada pelo heroísmo estavam ali na entrada da pequena área, vestindo a camisa de número 9 com o nome Herrera nas costas, para recepcionar a chegada daquela bola lançada por Jadilson, lá no segundo parágrafo.

Gol do Grêmio.

Foi apenas o primeiro. Makelele e Orteman, que entrou no segundo tempo, fizeram mais dois. E o adversário era o esfacelado Brasil de Pelotas que ganhou espaço no noticiário devido ao trágico acidente no início do ano.  Sei disso, e talvez o texto acima seja lido por você apenas como resultado do exagero de um torcedor que não tem oportunidade de estar no estádio de futebol e se vê obrigado aos caprichos da sua operadora de TV a cabo para vibrar com seu time de coração.

Não é não. Estou apenas ensaiando, me preparando para o que realmente importa, a Libertadores da América. A Avalanche Tricolor está pronta. Que venha o Universidad do Chile.

É HOJE !

Da casa, na Saldanha Marinho, dá para ouvir o grito de gol e assistir ao desfile de uma torcida que no ritmo do hino de seu clube do coração segue a pé a caminho do Olímpico. Morei ali por quase três décadas. Em 1977, repetindo mesmo trajeto e gesto que havia anos realizava, deixei a casa para trás de mãos dadas com meu pai em direção ao estádio. Não era um jogo qualquer como tantos outros que acompanhara nos meus 14 anos de vida. Era o jogo.

O Grêmio não vencia havia oito anos o Campeonato Gaúcho. Com Telê Santana no comando montara um time e tanto: Corbo, Eurico, Oberdan e Ladinho; Vitor Hugo, Tadeu e Iura; Tarciso, André Catimba e Éder. Havia sido o melhor da competição e só, só precisa de mais uma vitória.

No caminho para o estádio, ouve-se apenas uma expressão: “É hoje”, repetem os torcedores que se engajam na caravana.

“É hoje, pai, que eu vou ser campeão ? “É hoje”, responde confiante.

O estádio lotado em azul, preto e branco. Das cadeiras cativas, como se fosse um presente, diante de mim, Iura passa para André que crava a bola na rede. É gol ! É gol do Grêmio.

Lembro como chorei, chorei muito. Era a primeira vez que via meu Grêmio ser campeão.

Daqui a pouco, deixo a mesma casa, na Saldanha Marinho. Como se estivesse de mãos dadas com meu pai, sigo para o Olímpico com a mesma confiança daquele menino. É hoje, é hoje que vamos construir mais um capítulo das façanhas do Imortal Tricolor.


Na cambalhota, André se machuca, sai de campo, mas já era campeão