Charge do @jornaldacbn: “Eu tô na lista!”

 

 

Oito ministros, três governadores, 24 senadores e 37 deputados federais — ao todo, 97 políticos com foro privilegiado no Supremo Tribunal Federal serão investigados na Operação Lava Jato após determinação do ministro Edson Fachin, relator do caso na Corte. É tanta gente que até já inspirou a criatividade do brasileiro.  O Jornal da CBN encerrou a edição desta quarta-feira (12/04) com um novo “hit musical”: o Forró da Lista.

Sucesso e fracasso fazem parte da mesma jornada

 

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Tenho por hábito guardar alguns arquivos de texto na tela do meu computador. Coisas que estava pensando em ler com mais calma em um dia mais calmo, que jamais chegará. Ou que poderiam me inspirar a escrever no blog, como, aliás, estou fazendo agora.

 

Imagino que haja maneira mais criativa e produtiva de se arquivar material pelo qual tanto prezamos. No entanto, ao tê-los ali ao alcance dos olhos penso que será mais fácil de me lembrar da importância que um dia dei a eles. O que a realidade me mostra não ser verdade: hoje mesmo, me deparei com alguns textos que estão pendurados na tela faz mais de ano. Fossem post-its já teriam descolado.

 

Um dos arquivos me chamou atenção e continha estas listas que costumam fazer sucesso na internet: neste caso, uma lista de fracassos ou com causas que nos levam ao fracasso. O tema pode não ser agradável para esta época, afinal quando um novo ano se inicia é sempre oportunidade para refazermos sonhos e desenharmos planos que nos transformarão naquilo que imaginávamos ser um dia. É o momento de pensarmos no que pode dar certo, no sucesso.

 

O problema é que nos iludimos com a ideia do sucesso, especialmente pela dificuldade de definirmos o que ele representa. De uma maneira geral, tendemos a ver o sucesso naquelas pessoas que chegaram ao topo da empresa, têm um crachá poderoso pendurado no pescoço, um bom salário na conta, casa própria e passaporte marcado pelas viagens internacionais. O tamanho do escritório, a quantidade de funcionários à disposição e de ações da empresa também servem de parâmetro.

 

Muito mais difícil é enxergar este mesmo sucesso em profissionais comuns, estabelecidos em atividades intermediárias na hierarquia da empresa e com salários que dependem do complemento do vale transporte e de alimentação. Mesmo que realizem suas funções com excelência e eles próprios se sintam realizados.

 

Um e outro, independentemente do posto que ocupem, podem se sentir bem sucedidos, mesmo porque este conceito não se restringe a vida profissional. O que se sucede bem está na nossa casa, na nossa família, no meio social em que vivemos; na espiritualidade e religiosidade, também. Limitarmos nossa satisfação aos resultados na empresa é tornar pequena uma vida que deve ser vivida em todas suas dimensões.

 

O sucesso é tão tentador que lá se foram três parágrafos dedicados a ele quando meu objetivo aqui é falar do fracasso, que costumamos experimentar em nosso cotidiano. O erro profissional muitas vezes nos envergonha, nos amedronta, pois pode custar uma promoção ou nos levar à demissão; revela nossas fragilidades em uma sociedade que preza o super-herói. Diante disso, tentamos escondê-lo, e assim que ocorre iniciamos a busca incessante pelos responsáveis. A culpa é sempre dos outros, e essa é a primeira causa do fracasso na lista que arquivei em meu computador.

 

Mas o erro é parte do processo e se não olharmos para ele desta maneira, tudo perde o sentido. Os que pensam que sempre acertam são desinformados ou arrogantes … Isso não significa que tenhamos de assumir toda a culpa pelo o que acontece de errado. Isso também nos encaminha ao fracasso, leio na minha lista. Agir dessa forma leva ao “coitadismo”, à ideia de que nascemos para sofrer e à crença de que devemos ser alvo da comiseração de outrem. É uma autodefesa.

 

Ter noção da realidade ajuda a conter o fracasso, foi o que aprendi ao reler minha lista. Portanto, ao decidir seus objetivos de vida seja explícito e factível nas escolhas. Se você desenha uma estrada muito longa é capaz de não enxergar o ponto de chegada, e a demora para alcançá-lo vai gerar frustração. Vejo isto em jovens que estão começando carreira e não têm paciência para aguardar o momento certo da promoção. Trocam de cargo, de emprego ou voltam para a casa sem noção do tempo de maturação que precisamos ter para ascensão profissional.

 

Não ter objetivos claros, escolher objetivos errados ou imaginar que será possível pegar atalhos para chegar lá, fazem parte do mesmo capítulo dessa história que nos leva ao fracasso

 

Temos de nos proteger também do consolo alheio, exercício típico dos que ao não enxergarem solução no momento tentam nos contentar com previsões otimistas em um futuro sem data.

 

Na infância, a chatice da ordem unida é amenizada pela liberdade que teremos na adolescência. Os limites que encontramos nessa serão superados com a autoridade que alcançaremos na fase adulta. Na universidade nos vendem o sonho do primeiro emprego. E assim que o conquistamos, descobrimos que haverá uma vida melhor quando assumirmos o primeiro cargo de líder, gestor e diretor. Agora, se você quer mesmo a felicidade plena espere a chance de ser o CEO da empresa. Assim que se sentar na cadeira dele, vai descobrir o isolamento e a pressão. E diante da sua apreensão, ouvirá do conselheiro que toda esta jornada tem um prêmio: a aposentadoria.

 

Sem entender que nossos fracassos diários podem nos ajudar a crescer, nos consolamos com a promessa de que o futuro nos reserva algo melhor e desperdiçamos a oportunidade de aproveitarmos o mérito de cada etapa. Esquecemos de sermos felizes agora, mesmo que nem sempre as coisas deem tão certo quanto imaginávamos que deveriam dar.

 

O sucesso eterno não existe. O fracasso haverá de se apresentar. Eles fazem parte da mesma jornada.

Tô de saco cheio: qual produto é essencial para você?

 

Quando surrupiaram o que podiam da minha casa, fui correndo a uma loja comprar o notebook. As televisões, o computador de mesa, o equipamento de som, os video games e o Ipod deixei para substituir mais tarde. Meu MacBookPro era essencial para tocar a vida profissional, responder emails, preparar projetos, escrever os textos encomendados e buscar informações na internet. Nem mesmo o telefone celular – graças a Deus este ficou comigo – seria imprescindível diante da urgência daquele computador.

 

Entender quais produtos são essenciais na vida de um cidadão é o que o Governo brasileiro está tentando desde o dia 15 de março quando a presidente Dilma Roussef lançou o Plano Nacional de Consumo e Cidadania. O Plandec – adoro estas siglas inventadas nos gabinetes – prevê a criação de uma lista de produtos essenciais para troca imediata de artigos com defeito, dentro do prazo de garantia.

 

Qual produto é essencial para você?

 

As prioridades mudam de acordo com as peculiaridades de cada família, meio social e profissional. Há produtos, contudo, que não devem ficar de fora. Com 261,8 milhões de linhas de telefonia móvel (Anatel/2012) e sua multifuncionalidade, o celular estará no topo da lista, com certeza. Geladeira, fogão e computador, também vão aparecer com destaque.

 

Apesar de a resposta parecer simples para muitos de nós, até agora Governo, ministérios da Justiça e do Desenvolvimento, a indústria e o varejo não conseguiram entrar em acordo. A lista, inicialmente com 50 itens, deveria ter sido apresentada no dia 15 de abril, mas houve pedido para se estender o prazo sem que nova data fosse decidida. Nem mesmo sobre o número de itens que devem compor a lista há consenso. Nesta semana, haverá mais uma rodada de negociação.

 

Na reportagem de O Globo, o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Andrade, faz declaração que evidencia a dificuldade para o acordo. Ele diz ser um “absurdo” elaborar a lista de produtos essenciais, na medida em que esta criará uma insegurança jurídica enorme: “Por que existe assistência técnica, garantia? É para que os produtos que têm algum defeito de fabricação, algum vício, possam ser recuperados, mas não para serem trocados imediatamente”.

 

Como será que ficaria o presidente da CNI se o smartphone recém comprado por ele apresentasse vício de qualidade (é como os burocratas chamam equipamento com defeito)? Gostaria de ficar esperando dias ou semanas pela devolução? Sem telefone? Provavelmente, compraria outro. Dinheiro não deve lhe faltar. O mesmo não se pode dizer da maioria acachapante dos consumidores desrespeitada pelos fabricantes e varejistas. No ano passado, foram 2,03 milhões de queixas devido a produtos com defeito nos Procons e esta insatisfação foi o terceiro item mais reclamado dos órgão de defesa, atrás apenas de assuntos financeiros e telecomunicações.

 

Por procuradores e poderes independentes

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

Ao não acatar a eleição de Felipe Locke Cavalcanti como Procurador do Estado no próximo biênio, o Governador de São Paulo sinaliza poder político que evidencia e minimiza a esfera do Ministério Público.

 

Eleito democraticamente pelo voto, Geraldo Alckmin decidiu não dar a sequência natural no processo eleitoral para escolha do Procurador. Agiu de forma ditatorial, seguindo Covas há anos quando empossou Marrey ou, mais recentemente, quando outro correligionário, José Serra, optou por não colocar como reitor da USP o mais votado. É um artifício bem antigo, pois o Império Bizantino dominou a Igreja através de expediente semelhante, chegando séculos depois a D.Pedro II, que controlava o Senado desta maneira.

 

Após a democratização, tivemos poucos episódios iguais, o que deve levar esta exceção a repercutir favoravelmente no andamento da PEC 31/2009 que propõe acabar com a nomeação política para os Procuradores Gerais pelos governadores. Esta proposta de autoria do deputado Francisco Praciano – PT AM foi aprovada no dia 3 pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados.

 

Felipe Cavalcanti, em depoimento ontem, a par da situação de ganhar sem levar, nos disse que o aborrecimento pela perda sem derrota, é efetivamente uma frustração inigualável. Entretanto ao mesmo tempo em que não abrigará expectativa de mudança na lei, continuará trilhando o mesmo espaço com a independência que o caracterizou. Como membro do CNJ ou do MP. Mesmo considerando que esta postura possa ter custado o cargo que ganhou e foi impedido de ocupá-lo.

 

A separação dos poderes, Executivo, Legislativo e Judiciário, é a forma mais salutar e a maneira mais eficaz de manter o sistema de poder fortificado e equilibrado. As democracias refletem este cenário, tão abatido pelas ditaduras.

 


Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos, e escreve às quartas-feiras, no Blog do Mílton Jung

Listas, muros e bons pagadores

 

Por Carlos Magno Gibrail

Innocente

Os muros, por mais que a história das civilizações demonstre que nunca funcionaram, são usados até hoje com o propósito de proteger ou de isolar. Foi assim em Berlim, está sendo no Oriente Médio. Bem, em São Paulo crescem para proteger moradores que ainda não perceberam que os bandidos chegam pela entrada social, com metralhadoras ou controle remoto.

As listas, intencionadas em premiação ou punição, dificilmente conseguem alcançar funcionalmente o objetivo inicial. Com o decorrer do tempo as de privilégios são aumentadas e as punitivas reduzidas.

Em suma, listas e muros não se sustentam, nascem com o mesmo objetivo e morrem do mesmo modo. Imprestáveis.

O Legislativo nacional acaba de aprovar o Cadastro Positivo, uma lista que pretende beneficiar os totalmente adimplentes. E, que mesmo depois de vetado pelo Executivo e receber muitas retificações, não deve beneficiar os consumidores, foco aparente do projeto.

A redução do custo do dinheiro, argumento básico do lobby do sistema financeiro é falácia, pois hoje existem vasos comunicantes afiados dentro destas entidades e o inadimplente é automaticamente identificado.

A autorização do cidadão à inclusão do seu nome no Cadastro Positivo é discutível, pois a negação levará a considerá-lo mau pagador, e ficar do outro lado do muro.

Ao permitir incluir o seu nome, estará dentro do muro, mas correndo o risco de informações financeiras particulares serem divulgadas e manipuladas para ofertas comerciais e financeiras.

A advogada Maria Inês Dolci, Coordenadora do Pro Teste (Associação Brasileira de Defesa do Consumidor) questiona: “Pessoas que atrasaram parcelas de um empréstimo não são, necessariamente, péssimos pagadores ou caloteiros. Podem ter enfrentado problemas de saúde ou desemprego. Governos caloteiam os precatórios. Estarão fora da lista positiva? E quem garante que os cadastros positivos não serão vendidos em CDs, na Rua 25 de março, em São Paulo, como as nossas declarações de Imposto de Renda?”.

Até o Estadão de domingo em seu editorial vê que a vantagem será apenas do gestor das listas. Poderá trabalhar com a segmentação de mercado, que irá informar os diferentes perfis de consumidor, gerando um banco de dados sofisticado e devastador como privacidade para os participantes na lista.
Estamos caminhando para uma dura realidade, em que o cidadão comum ficará cada vez mais exposto e imposto, enquanto os blindados pelo poder político e/ou econômico, menos sujeito a prestar contas, e, portanto, acima do muro.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve, às quartas-feiras, no Blog do Mílton Jung


A foto deste post é do álbum digital de Funcky64, no Flickr

Equívocos do voto em lista

 

Por Antônio Augusto Mayer dos Santos

Em países onde há um número menor de partidos e há expressa limitação ao exercício de mandatos sucessivos, o Voto em Lista é uma forma racional de preenchimento das vagas nos parlamentos, sobretudo onde o índice de corrupção eleitoral é excepcionalmente menor. No Brasil, onde os Tribunais Eleitorais cassam mandatos às dezenas e existem 27 partidos (ou siglas) habilitados às disputas, não há menor condição para esta realidade.

O país não pode absorver de forma acrítica e meramente idealizada um sistema de escolha inspirado em países onde os partidos políticos ostentam histórias de 70 anos ou mais. Outras circunstâncias evidenciam o equívoco da sua introdução num país onde os dirigentes partidários não tem o hábito de estimular renovações em cúpulas nacionais.

A primeira, amparada em rumorosos episódios de corrupção parlamentar (“Mensalão”, “Sanguessugas”, etc), de que há o risco das listas serem desviadas de sua finalidade precípua para, na penumbra dos oportunismos partidários, viabilizar abrigo a filiados punidos buscando imunidade parlamentar ou expulsos de agremiações, dentre outras hipóteses.

A segunda, que pelo fato da redação do caput do art. 14 da Constituição Federal dispor que “A soberania popular será exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, com valor igual para todos”, a lista, seja o formato que tiver, poderá sofrer questionamento judicial, leia-se Supremo Tribunal Federal, sob o poderoso argumento de que a seleção de nomes foi referendada diretamente pela esfera partidária mas indiretamente pelo eleitor. Ora, o eleitor é o destinatário da representação popular.

Este é um elemento substancial porque a Carta Republicana não prevê critérios intermediários para determinar a representação popular. Neste sentido, pode-se inclusive dizer que os filiados passarão a gozar de um status de “mais cidadãos” que os demais eleitores, o que equivale estabelecer uma hierarquia neste setor. Quanto mais não fosse, o Congresso Nacional não está analisando sequer o item dos quocientes (partidário e eleitoral). Logo, há uma notável contradição em propor o gênero sem alterar a espécie.

Terceira, que não haverá nenhum impedimento legal para que partidos cujas nominatas não aglutinem densidade suficiente lancem – sabe-se lá sob que critério – no topo da lista alguma personalidade para captar os sufrágios necessários e, com isso, eleger uma nominata de coadjuvantes sem expressão política.

Por fim, a elaboração das listas preordenadas remeterá às Comissões Executivas e Convenções Partidárias um conjunto de atribuições e responsabilidades sem precedente na história da legislação eleitoral, o que escancara a complexidade de um instituto jurídico desta dimensão. Com isto, sem o estabelecimento de critérios legais diretos para reprimir falcatruas ou fraudes partidárias, o processo fica imperfeito e pior que o vigente. Afinal, o voto de cada convencional ou filiado passa a ser estratégico para uma (boa) colocação na lista. E os projetos legislativos que tramitam se omitiram deste “detalhe”.

O eleitor brasileiro merece ter preservado o seu amplo direito de escolha nominal dos candidatos às assembléias políticas sob pena de se determinar o renascimento de oligarquias partidárias ao estilo daquelas que infelicitaram a República Velha e levaram este País a uma revolução, em 1930. Por conta de tudo isso, é possível conjecturar que o sistema de lista fechada poderá se erigir num poderoso obstáculo à renovação dos quadros partidários, tornando as cúpulas imbatíveis. Como bem sintetizou o jornalista Igor Paulin em matéria da revista Veja (nº 2217, 18.05.2011, pp. 75), “Na geléia geral dos partidos brasileiros, em que há gente que que admite não ser “nem de direita, nem de esquerda, nem de centro”, não há menor justificativa para isso”.

Em suma: este não é um modelo sensato para um país como o Brasil.


Antônio Augusto Mayer dos Santos é advogado especialista em direito eleitoral, professor e autor do livro “Reforma Política – inércia e controvérsias” (Editora Age). Às segundas, escreve no Blog do Mílton Jung.