Rádios precisariam de mais de 10 dias para anunciar os mortos da Covid-19, no Brasil

Na época da escola — e estamos falando lá do fim dos anos 1970 e início de 1980, em Porto Alegre —, nosso sonho de consumo era passar no vestibular e entrar em uma das duas grandes universidades à disposição: a PUC, a melhor das particulares, e a UFRGS, que pronunciados URGS, sem o F de Federal. No ritual de passagem, havia um hábito que sempre achei curioso — e não sei isso acontecia aqui pelas bandas de São Paulo: a lista de aprovados era anunciada no rádio, com a leitura de curso após curso e de nome após nome. As famílias colavam o ouvido no aparelho e ficavam chuleando para que o nome do rebento fosse anunciando pelo locutor. 

Nome lido na rádio era motivo de festa em casa. Lembro de minha mãe, todas as vezes que ouvia o nome de um dos filhos na lista, corria para pintar uma faixa e estender na frente da casa — desconfio que até tivesse a faixa pintada de antemão. Naquela época, claro, não havia rede social, whatsapp e internet na forma que conhecemos. E a única maneira de ostentar o orgulho da família, era com um trapo de pano e mal pintado pendurando na frente de casa: “aqui tem um bixo” —- assim mesmo com “x”. Fui exposto duas vezes, na primeira quando passei no curso de jornalismo na PUC, na segunda quando passe no vestibular para educação física na federal. 

De minha parte, o que me chamava a atenção era a forma como os locutores de rádio anunciavam o nome de cada candidato e curso, em uma velocidade incrível e entendível. Ocupavam parte da tarde com aquela transmissão que era interrompida apenas para a leitura dos reclames comerciais —- os cursinhos pré-vestibulares eram os principais anunciantes.

Por que lembrei dessa história? 

Na sexta-feira, fui levado a falar sobre a triste marca de mais de 400 mil pessoas mortas por Covid-19, no Brasil. Logo me veio à mente o site Inumeráveis, criado no início desta tragédia, que decidiu registrar o nome e, na medida do possível, a história de cada uma das centenas de milhares de vidas perdidas durante a pandemia. Imaginei que pudéssemos, para marcar a importância de cada um na vida deste país e, em particular, na vida de suas famílias, abrir nossa programação de rádio para ler o nome e o sobrenome dos mortos:

“Abadia de Fátima Alves, Abdiar Martins de Moura, Abdon Albuquerque Cavalcante, Abel Augusto Teixeira, Abel da Cruz Neto, Abel Jorge Cassimiro, Abein Maria Pereira Cardoso, Aberal Riberia, Abigail  Pinto Magalhães, Abila Silveira Bueno …..”

Decidíssemos ler a lista de nomes aprovados para essa passagem da vida para a morte — e aqui deixo que cada um dos raros e caros leitores deste blog dê a conotação que sua crença e religião oferece ao momento — não bastaria dedicar apenas uma tarde da programação de rádio. Um dia inteiro não seria suficiente para ler o nome dos mais de 404 mil mortos por Covid-19 — número superado neste sábado, quando escrevo este texto. Uma semana teria se passado e os locutores continuariam a divulgar o nome e o sobrenome, naquela que seria a mais extensa transmissão de rádio ja ouvida neste país. Mesmo assim, a lista não estaria completa. 

Considerando que um minuto seria necessário para que 30 nomes fossem registrados; as rádios teriam de dedicar mais de 10 dias de sua programação para nominar todos os mortos, no Brasil. Talvez fosse o caso de alguma emissora dedicar-se a essa missão — o que seria um marco na história diante dessa que é a maior tragédia vivida pela nossa geração. Anunciante não faltaria: a programação seria patrocinada pelo Governo Federal – Pátria Amada, Brasil.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s