Mundo Corporativo: Joca Oliveira, da Unico Skill, explica por que educação deve ser benefício tão essencial quanto saúde

Entrevisa online com Joca Oliveira Foto: Priscila Gubiotti/CBN

“Daqui 5 anos a gente vai olhar para trás e vai ser que nem plano de saúde… algo super necessário e essencial para qualquer colaborador.”

Joca Oliveira, Unico Skill

A ideia de tratar educação como benefício corporativo — com acesso amplo a cursos, faculdades e certificações — ganhou corpo dentro de uma empresa de tecnologia e virou negócio próprio. A Unico Skill, liderada por Joca Oliveira, oferece às companhias um “plano de educação” ilimitado para colaboradores e dependentes, com rede de instituições no Brasil e no exterior. Os desafios para empreender neste setor foi o tema da entrevista no programa Mundo Corporativo, da CBN.

Joca descreve o modelo de forma direta: “A Unico Skill é o primeiro benefício de educação ilimitada do Brasil; de uma forma simples, é como um plano de saúde, só que para educação.” No desenho do serviço, a empresa escolhe entre quatro planos e o colaborador recebe uma “carteirinha” que dá acesso a uma rede credenciada. Segundo ele, “hoje a gente tem no total mais de 100 instituições de educação, são mais de 26 mil cursos… é acesso a fazer uma pós-graduação na GV, uma graduação, curso de inglês em mais de nove escolas, curso de tecnologia, inclusive no exterior”.

O produto que virou empresa

A tese nasceu dentro da Unico, companhia de identidade digital, e migrou para operação independente para ganhar foco e escala. “O spin-off é quando você separa esse produto e ele vira uma empresa com CNPJ próprio… com time isolado, processos e cultura, ainda conectado à holding, mas com muito mais independência.” A separação, relata, acelerou a tração e reduziu conflitos de prioridades.

No modelo de negócios, a Unico Skill atua como orquestradora B2B2C: “A gente basicamente compra educação no atacado… aplica muita tecnologia. Nós somos uma empresa de tecnologia, não de educação. A gente orquestra todo esse ecossistema, mas eu não crio educação.” A curadoria e a hiperpersonalização por IA buscam orientar o uso efetivo do benefício — inclusive por dependentes.

Engajamento e a pressão por requalificação

A demanda acompanha a mudança do mercado de trabalho. Joca cita o diagnóstico de que até 2030 a maior parte da força de trabalho precisará de requalificação, puxada por automação e inteligência artificial. “O colaborador tem visto isso como uma janela para continuar crescendo, e a empresa entende que ela precisa disso para manter a mão de obra extremamente qualificada.” Entre os conteúdos mais buscados estão tecnologia (IA, cibersegurança, dados), graduações e cursos técnicos, além de idiomas. No formato, cresce o interesse por cursos de curta duração com certificação e por aulas síncronas ao vivo: “Não é verdade que todo mundo só quer presencial; e o EAD sozinho, às vezes, faz falta na interação. O síncrono ao vivo tem sido um dos grandes formatos do futuro.”

Crescimento com qualidade e a dor de escalar

A expansão traz desafios operacionais. “A dor do crescimento ela é latente”, admite Joca. “Se a gente esperar tudo ser perfeito, às vezes a gente vai desacelerar crescimento, mas garantindo que eu consiga manter a qualidade e consiga manter tanto colaborador quanto a empresa extremamente satisfeitos com o produto e com a entrega.” Para sustentar o padrão, ele enfatiza pessoas e liderança: “Contratar pessoas melhores do que você… um talento bom toca o problema, resolve o problema, não esconde o problema.”

Educação como política estrutural do setor privado

A visão de longo prazo mira a mesma abrangência de outros benefícios já consolidados. “O acesso à educação privada no Brasil é um problema gigante… a gente, como parte da iniciativa privada, [precisa] resolver isso de forma estrutural.” Na comparação com outras políticas corporativas, a defesa é explícita: “A gente acredita que a educação, sim, deveria ser tão grande quanto o plano de saúde.”

Assista ao Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Luis Delboni.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: criatividade, até que ponto

Photo by Olya Kobruseva on Pexels.com

A criatividade está entre os maiores ativos e também os maiores riscos de uma marca. Quando bem dosada, ela alimenta inovação, diferenciação e conexão com o público. Mas, quando aplicada sem pertinência ou desalinhada da identidade, pode comprometer a credibilidade e até exigir um recuo doloroso, como já aconteceu com marcas de prestígio mundial. Esse foi o tema analisado por Jaime Troiano e Cecília Russo no quadro Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, do Jornal da CBN.

Cecília Russo destacou que a criatividade não deve ser gratuita, mas sim pertinente à estatura da empresa. Ela citou a fala de Gustavo Viana, diretor de marketing da Fisia, distribuidora oficial da Nike no Brasil: “Se uma ideia ou projeto não atinge essa barra de qualidade, simplesmente não avançamos. Isso garante que apenas o que realmente brilha siga em frente”. Para Cecília, esse princípio vale tanto para grandes organizações quanto para negócios de médio porte: “Marcas não aguentam desaforos”.

Jaime Troiano lembrou o caso da Jaguar, que em certo momento mudou radicalmente sua comunicação e acabou sendo forçada a voltar atrás. “O limite é aquilo que garante que a marca cresça na direção do que é sua identidade, no que se relaciona ao seu propósito. Fora disso, é pura falta de compromisso”, afirmou. Ele reforçou que ser criativo exige respeito pela empresa, pelas pessoas que nela trabalham e pelo público.

Lembre-se que os cães ladram

Para reforçar sua posição, Jaime citou uma frase atribuída a Truman Capote, escritor americano conhecido por obras como A Sangue Frio. A expressão “Os cães ladram e a caravana passa” tem origem árabe e chegou a Capote em uma conversa com o francês André Gide. Diante das críticas que recebia, o autor se mostrava incomodado, até que ouviu do colega a lembrança de que as vozes contrárias sempre existirão, mas não devem desviar o rumo de quem segue firme no seu caminho. No Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, Troiano recuperou a citação para destacar que, no universo das marcas, críticas também fazem parte, mas o essencial é preservar a identidade e o propósito.

A marca do Sua Marca

A principal mensagem é clara: a criatividade é essencial para fortalecer as marcas, mas deve ser usada com responsabilidade, alinhada ao propósito e à identidade. Caso contrário, pode se tornar um risco de intoxicação em vez de alimento.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.

Novo livro de Wálter Maierovitch provoca reflexão sobre a indústria da guerra

Algumas frases atravessam os séculos e parecem ganhar vida nova a cada vez que são pronunciadas. “Si vis pacem, para bellum” — “se queres a paz, prepara-te para a guerra” — é uma delas. Wálter Fanganiello Maierovitch a toma como ponto de partida em “O Mercado da Morte: conexões e realidades” e a conduz até o presente, quando já não soa como advertência, mas como justificativa para uma engrenagem global que transforma guerras em negócios.

A opinião do autor, meu amigo de décadas, é direta: o que se convencionou chamar de “indústria de defesa” nada mais é do que a indústria da guerra, abastecida tanto por Estados quanto por traficantes, mercenários e organizações criminosas. Ao longo do livro, desfilam personagens emblemáticos, como Sarkis Soghanalian, o “Mercador da Morte”, e grupos como o Wagner, que na África trocam armas por diamantes. A fronteira entre interesses de Estado e crime organizado se dilui, revelando um mercado em que tudo se compra e se vende, inclusive vidas.

Outro eixo forte da obra é a espionagem. Maierovitch descreve como a “inteligência de Estado” se tornou prática oficializada, mas muitas vezes serve de cortina para assassinatos seletivos e negociações obscuras. O Mossad, a CIA, a Abin — cada qual aparece como peça de um tabuleiro no qual soberania e direitos humanos são frequentemente atropelados.

O livro não poupa as instituições internacionais. Meu colega do quadro “Justiça e Cidadania”, do Jornal da CBN, insiste que a primeira vítima das guerras é o Direito Internacional Público. O Tribunal Penal Internacional e a Corte Internacional de Justiça aparecem como instâncias frágeis, incapazes de conter crimes de guerra ou genocídios. Em vez de freio, funcionam como palco simbólico, em que ordens de prisão são ignoradas e Estados seguem agindo impunes.

Maierovitch traz ainda para o centro da narrativa os conflitos contemporâneos — Rússia e Ucrânia, Israel e Hamas, a escalada com o Irã — tratados como laboratórios do “mercado da morte”. Drones, sistemas de defesa, armas nucleares, propaganda: tudo é testado em campo, e o lucro das empresas cresce na mesma proporção da destruição.

A “Coda” final sintetiza a visão impetuosa do autor. Citando Lampedusa, ele lembra que é preciso mudar tudo para que tudo permaneça como está. O que vale para a política italiana de O Leopardo serve também para o mercado da guerra: mudam-se os atores — gattopardos, leões, chacais ou hienas —, mas a engrenagem continua a mesma. O exemplo do Haiti, onde grupos armados dominam a capital, funciona como alerta de que não se trata apenas de conflitos entre Estados, mas de colapsos sociais que a comunidade internacional se mostra incapaz de conter.

“O Mercado da Morte” é um livro que incomoda, porque mostra que a paz armada é, no fundo, um grande negócio. A leitura sugere que a indignação é o mínimo que nos cabe diante de um sistema que se perpetua à luz do dia. E Maierovitch nos entrega todo esse conteúdo embalado em um texto escrito com esmero. Não me surpreendo: o autor já foi agraciado com o Prêmio Jabuti, o mais tradicional prêmio literário do Brasil, concedido pela Câmara Brasileira do Livro, com a obra “Máfia, poder e antimáfia — Um olhar pessoal sobre uma longa e sangrenta história”.

Participe do lançamento de “O Mercado da Morte”.

O livro “O Mercado da Morte: conexões e realidades” (Editora Unesp) será lançado no “Encontro com os escritores”, promovido pela Universidade do Livro, nesta sexta-feira, dia 26 de setembro, às 19h, na Biblioteca Mário de Andrade, na rua da Consolação, 74, centro de São Paulo. Para participar, faça aqui a sua inscrição, de graça. Eu terei o privilégio de mediar esta conversa com Wálter Fanganiello Maierovitch.

Dez Por Cento Mais: Daniel Soares fala sobre o valor do vínculo humano na prevenção do suicídio

“Ferramentas fazem, humanos curam.”
Daniel Soares, psicólogo

Setembro nos convida a encarar um tema duro sem perder de vista aquilo que sustenta a vida: sentido, diálogo e presença. Em uma conversa que percorre do consultório às relações cotidianas, o psicólogo e professor Daniel Soares defende que a prevenção começa quando alguém é visto, ouvido e acolhido; e não substituído por respostas automáticas. Esse foi o assunto da entrevista no programa Dez Por Cento Mais, apresentado por Abigail Costa, no YouTube, inspirado no Setembro Amarelo, uma campanha brasileira de prevenção ao suicídio, iniciada em 2015.

Vínculo, não algoritmo

Para Daniel, falar de prevenção é, antes de tudo, falar de sentido. Ele recorre à logoterapia para lembrar que é possível “dizer sim à vida, apesar de tudo” e “quem tem um porquê enfrenta quase qualquer como”. Considerando o crescimento de pessoas que têm buscado nos chatbots de Inteligência Artificial ajuda psicológica para soluções de problemas relacionados à saúde mental, ele faz um alerta: “Máquinas não sentem”, e a IApode ajudar com informações, mas não substitui a relação que cura”. O ponto central, resume, está no encontro entre pessoas: “Ferramentas fazem, humanos curam”.

A tecnologia, observa, oferece um “pseudo-relacionamento” que reforça o que o usuário já traz, sem continuidade afetiva: “A IA responde; quem acompanha, se preocupa e permanece é o humano”. Por isso, ele insiste no papel de pais e responsáveis no uso de ferramentas: acompanhamento, limites e, principalmente, conversa.

Como conversar com quem sofre

No dia a dia, o primeiro passo é reconhecer a dor do outro. “Não negue nem minimize o sofrimento”, diz Daniel. Evite atalhos como o “pensa positivo”. Em vez disso, ofereça presença: “Posso te ouvir? Estou aqui com você”. A validação, sem julgamentos, abre espaço para que a pessoa busque ajuda e se reconecte com motivos para viver.

Ele também chama atenção para o envelhecimento e a solidão. Mensagens curtas não substituem um encontro: “Presença, olho no olho, abraço e rotina compartilhada protegem”. Reativar pertencimentos — família, vizinhança, grupos, projetos — ajuda a restituir sentido e continuidade às histórias que cada um carrega.

Ao final, Daniel deixa uma imagem que atravessa a conversa: “A vida é uma viagem, passagem só de ida”. Cabe a cada um, afirma, levar para essa viagem valores, cuidados e gente por perto — e oferecer ao outro a mesma companhia que gostaríamos de receber.

Busque ajuda agora:

Centro de Valorização da Vida – CVV

O CVV – Centro de Valorização da Vida realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo, por telefone, e-mail, chat e voip 24 horas todos os dias.

A ligação para o CVV em parceria com o SUS, por meio do número 188, são gratuitas a partir de qualquer linha telefônica fixa ou celular.

Também é possível acessar www.cvv.org.br para chat, Skype, e-mail e mais informações sobre ligação gratuita.

Assista ao Dez Por Cento Mais

O Dez Por Cento Mais traz uma entrevista inédita para você, às quartas-feiras, ao meio-dia, pelo YouTube. Você pode ouvir, também, no Spotify. Aproveite e coloque o canal entre os seus favoritos para receber alertas sempre que um novo conteúdo for publicado.

O que o sono faz pelo seu bem-estar

Entre todos os pilares do bem-estar, o sono é o que mais me inquieta. Minha rotina começa às 4h15 da manhã, e não há despertador que convença o corpo de que acordar tão cedo é algo natural. Talvez por isso eu esteja sempre à procura de novas explicações que me ajudem a entender como lidar melhor com esse descanso tão necessário, e tão desafiador, para quem vive entre programas de rádio, entrevistas, leituras e outras tarefas essenciais (?) como assistir ao meu time de futebol jogar até tarde da noite..

O que a ciência revela apenas reforça essa inquietação. Não se trata apenas de dormir um certo número de horas; trata-se da qualidade do percurso que o cérebro faz durante a noite. Estudos mostram que noites interrompidas, sejam por insônia, apneia ou despertares frequentes, aumentam o risco de demência e comprometem funções como memória, atenção e velocidade de raciocínio anos mais tarde.

Duas fases, em particular, cumprem um papel decisivo nessa história: o sono profundo e o sono REM. No primeiro, o cérebro regula hormônios, organiza o metabolismo e ativa seu sistema de “lavagem interna”, removendo resíduos como as proteínas associadas ao Alzheimer. No segundo, processa emoções, consolida lembranças e ajusta os circuitos que usamos para aprender e tomar decisões.

Quando essas etapas falham, o desgaste aparece. Pesquisas de longo prazo mostram que a falta crônica dessas fases acelera a atrofia de áreas ligadas à memória — um declínio semelhante ao observado nos estágios iniciais do Alzheimer. Não se sabe ao certo se a privação de sono causa a demência ou se as duas condições se alimentam mutuamente. O que os cientistas afirmam, com segurança, é que o sono ruim cobra um preço.

O desafio, para quem acorda antes do sol, é encontrar algum equilíbrio. Sete horas por noite é a recomendação mais clara, porque permite ao cérebro completar ciclos suficientes para se recuperar. Exercícios físicos, aprender algo novo e manter horários consistentes também ajudam a aprofundar o descanso. No fim das contas, o melhor termômetro é simples: como me sinto ao despertar? E quanto tempo demoro para adormecer de novo quando a noite é interrompida?

Continuo ajustando essa equação, ciente de que dormir bem não é luxo — é manutenção preventiva. Quando o cérebro consegue apagar a luz, reorganizar a casa e limpar o que não serve, a vida clareia. Mesmo para quem madruga.

Carlo Acutis: santo de jeans, tênis e rosário

Li hoje, no New York Times, a reportagem da jornalista Elisabetta Povoledo, que me levou até Assis sem que eu saísse da cadeira. Pela tela, entrei no santuário onde está o corpo de Carlo Acutis, um adolescente que morreu em 2006, aos 15 anos, e que, neste domingo, será canonizado no Vaticano pelo Papa Leão XIV.

Enquanto lia, parecia ouvir o murmúrio das orações que Povoledo descreve — em italiano, espanhol, inglês, português. Um coro de línguas diferentes diante de um jovem que será o primeiro santo millennial da Igreja Católica.

E confesso: mais do que os dados, foi a cena que me prendeu. O corpo repousa num túmulo parcialmente transparente. Jeans. Tênis. Jaqueta esportiva. Um rosário nas mãos. Não se vê um manto dourado, não há hábito de freira ou sandálias de frade. Ali está um santo com cara de quem poderia estar passando por nós na rua, mochila nas costas e celular no bolso.

A reportagem conta que um milhão de pessoas visitaram o túmulo de Carlo só no ano passado. A média de idade dos peregrinos caiu “algumas décadas”, disse o bispo de Assis. Jovens que haviam se afastado da Igreja agora se aproximam. Por quê?

Talvez porque Carlo seja deles. Jogava videogame, tinha amigos, ria, rezava, navegava na internet. Entendeu cedo o impacto da rede e decidiu usá-la para espalhar fé. Criou um site para catalogar milagres eucarísticos, antecipando o que muitos adultos ainda não sabem: a internet é só ferramenta; o sentido está no uso que fazemos dela.

A professora Kathleen Cummings, especialista em santos, disse ao Times:

“Num momento em que a sociedade e a Igreja estão preocupadas com o impacto corrosivo da tecnologia, Carlo mostra que é possível usar o digital como ponte, não como barreira.”

Talvez seja isso que atraia tanta gente: Carlo viveu na mesma frequência dos jovens que agora se aproximam dele.

Outro detalhe chama a atenção: a rapidez com que a devoção cresceu. Desde que o corpo de Carlo foi levado a Assis, em 2019, surgiram capelas, escolas e grupos nas redes sociais dedicados a ele. Há dezenas de páginas no Facebook, lembranças espalhadas por lojas e até souvenirs com a imagem do garoto de camisa polo vermelha e mochila.

Ele se tornou símbolo num tempo em que, paradoxalmente, a fé institucional parece perder espaço. Um estudo citado pela reportagem, feito pelo Instituto Giuseppe Toniolo, mostra que 30% dos jovens italianos não têm crença religiosa — o mesmo percentual dos que se declaram católicos praticantes. Carlo, dizem os especialistas, virou um ponto de convergência entre os que buscam espiritualidade e os que se afastaram da Igreja.

Uma peregrina entrevistada pelo Times, Nerea Rano, resumiu talvez o maior segredo da atração que Carlo exerce:

“É fácil rezar para ele porque ele é jovem. Ele fala com os jovens. É como olhar para um espelho.”

Um espelho, penso eu, que devolve a imagem de um santo real, de carne, osso e tênis, com gostos comuns e linguagem próxima. Carlo não fundou escolas, não abriu hospitais, não escreveu tratados de teologia. Vivia a fé no cotidiano. O Papa Francisco dizia que “a santidade está no próximo” e Carlo parecia acreditar nisso com naturalidade.

Neste domingo, na Praça de São Pedro, Carlo será declarado santo. Não sei o que isso mudará para a Igreja — talvez muito, talvez pouco. Mas, para quem lê a história, fica a sensação de que a santidade deixou o pedestal e sentou no banco ao nosso lado.

Santo de jeans, tênis e rosário. Um garoto que entendia de internet e, ainda assim, acreditava profundamente. Talvez por isso, mais do que um exemplo distante, Carlo Acutis pareça um convite próximo: ser santo pode caber na nossa rotina, no nosso feed, no nosso silêncio.

E, de algum jeito, isso me fez pensar que a fé, como a boa comunicação, acontece quando encontramos a linguagem certa.

PS: Se você estiver na cidade em São Paulo, uma das formas de conhecer de perto a história desse jovem é visitar a exposição com informações, imagens e pertences de Carlos Acuti, no Salão Paroquial da Paróquia de Santa Suzana,  na rua David Ben Gurion, 777.

‘Roubo de boné’ no US Open transforma inocente em alvo de linchamento virtual

Reprodução de vídeo na internet

Foi um gesto rápido, quase instintivo. No último fim de semana, durante o US Open, o tenista polonês Kamil Majchrzak decidiu coroar uma vitória de virada presenteando um garoto, chamado Brock, que estava na plateia, com o chapéu que usara na partida. O menino, nas primeiras fileiras, esticou a mão, mas um adulto avançou antes dele e pegou o boné.

O vídeo do momento se espalhou como pólvora. O homem foi identificado como Piotr Szczerek, CEO da empresa polonesa Drogbruk. Bastaram alguns segundos de exposição para que ele se tornasse um dos personagens mais criticados da internet.

Pressionado, Szczerek pediu desculpas públicas, admitindo o erro e explicando que acreditava que o boné era para seus filhos. Devolveu o chapéu, enviou presentes para Brock e publicou uma retratação. O caso parecia resolvido — mas estava apenas começando.

A fúria da internet

A viralização do vídeo acendeu uma reação coletiva. Milhares de comentários, mensagens e avaliações negativas tomaram as redes sociais. Porém, num detalhe que passou despercebido, parte dessa fúria foi mal direcionada: os “justiceiros digitais” confundiram a Drogbruk, empresa de Szczerek, com a Drog-Bruk (com hífen) — outra companhia de pavimentação polonesa, sem relação alguma com o episódio.

O dono da Drog-Bruk, Roman Szkaradek, acordou no dia seguinte ao jogo com mensagens de estranhos o chamando de “ladrão de chapéu”. Em poucas horas, seus perfis pessoais e os canais da empresa foram inundados com ataques, xingamentos e até ameaças.

“Sou um empreendedor honesto. Construí minha marca por mais de uma década, e, em dois dias, ela foi destruída”, disse Szkaradek ao New York Times.

O bombardeio de avaliações negativas derrubou a reputação online da Drog-Bruk para 1,2 estrelas. Telefone e redes sociais ficaram incontroláveis. Mesmo explicando que não tinha qualquer ligação com o episódio, Roman viu suas tentativas de defesa apenas multiplicarem as ofensas.

Troca de identidades

O equívoco se deu por um detalhe quase imperceptível: Drogbruk e Drog-Bruk são nomes parecidos, separados apenas por um hífen, mas pertencem a empresas distintas, com sedes a mais de 160 quilômetros de distância uma da outra.

Enquanto Piotr Szczerek tentou contornar o erro e reparar o dano com o garoto, Roman Szkaradek segue tentando salvar sua própria reputação — atingida por algo que não fez.

Um especialista ouvido pelo NYT resume bem o fenômeno:

“A internet adora um pouco de caos. E adora ainda mais punir”, afirma Felipe Thomaz, professor da Universidade de Oxford.

O preço do tribunal digital

O episódio evidencia como a reação coletiva nas redes sociais pode atropelar fatos e transformar inocentes em vilões. Um gesto impensado de um adulto virou um incêndio virtual que consumiu duas reputações: a de quem errou — e se desculpou — e a de quem nunca sequer esteve lá.

O garoto Brock, por sua vez, recebeu o chapéu de volta, presentes do tenista e, provavelmente, um aprendizado precoce sobre a velocidade com que a internet transforma histórias simples em tempestades globais.

Até este momento não se tem registro de que os “justiceiros virtuais” tivessem assumido o erro dos ataques indevidos.

Dez Por Cento Mais: Ilvio Amaral e Maurício Canguçu refletem sobre a vida diante do Alzheimer

Imagem da peça Maio, antes que você me esqueça

“Não adianta pesar o que já é pesado.”
Maurício Canguçu, ator

A perda da memória, provocada pelo Alzheimer, não atinge apenas quem recebe o diagnóstico. Ela se espalha pela rotina da família, redefine papéis e exige novas formas de afeto. Foi dessa experiência pessoal que nasceu Maio, antes que você me esqueça, peça protagonizada pelos atores Ilvio Amaral e Maurício Canguçu, em cartaz há quase quatro anos. O tema foi assunto da entrevista no programa Dez Por Cento Mais, apresentado por Abigail Costa, no YouTube.

Do luto à cena

A ideia de montar a peça surgiu após momentos difíceis vividos pelos dois atores: Ilvio perdeu o pai em consequência do Parkinson, enquanto a mãe de Maurício foi diagnosticada com Alzheimer. “Nós começamos a conversar sobre isso e falamos: vamos pedir para o Jair escrever uma peça para nós dois fazermos”, contou Ilvio, lembrando da parceria com o dramaturgo e neurocirurgião Jair Raso.

Mesmo com o texto pronto em meados dos anos 2000, os atores adiaram a montagem. “Eu disse: ‘não tenho estrutura para fazer essa peça agora’”, recorda Ilvio. Só durante a pandemia, diante das leituras feitas em casa, perceberam que era o momento de encarar o palco. A montagem estreou em formato reduzido, em uma live para a UFRJ, e rapidamente ganhou corpo e público.

O peso da doença e a leveza do afeto

No espetáculo, Ilvio interpreta um pai de 85 anos com Alzheimer, enquanto Maurício faz o papel do filho. A relação conflituosa entre eles se mistura à fragilidade trazida pela doença. “O Alzheimer não é uma doença só do paciente. Ele afeta muito mais quem está em volta, a família que convive todos os dias”, disse Ilvio.

A peça mescla humor e drama. Os atores lembram que, durante o espetáculo, as pessoas riem muito da inocência do personagem com Alzheimer e, em seguida, são levadas a refletir sobre perdão e reconciliação. De acordo com Maurício, o humor não vem de um esforço cômico, mas da própria realidade: “A gente não faz nada para ser engraçado ou emocionante. Nós apenas contamos a história. O público é quem encontra as emoções.”

Entre memória e esquecimento

As histórias de bastidores também revelam a força do tema. Ambos os atores passaram por episódios de amnésia global transitória, uma súbita perda temporária de memória. Para eles, a experiência pessoal reforçou ainda mais o vínculo com o espetáculo.

No palco ou fora dele, a peça desperta identificação imediata. “Tem gente que sai chorando e diz: ‘eu achei que só eu sentia isso em relação à minha mãe’. A peça mostra que não estamos sozinhos nessa experiência”, contou Maurício.

No fim, a reflexão que fica é sobre a permanência do afeto. “Se não há amor e respeito, não tem como ser feliz”, resumiu Ilvio.

Vá ao teatro

Maio, antes que você me esqueça

Teatro Estúdio

R. Conselheiro Nébias,891, São Paulo – São Paulo

Até 14 de Setembro

Sexta e Sábado às 20h30, Domingo às 18h00

Compre seu ingresso aqui

Assista ao Dez Por Cento Mais

Toda quarta-feira, ao meio-dia, tem um novo episódio no canal Dez Por Cento Mais, no YouTube. Você pode ouvir as entrevistas, também, no Spotify.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: como o luxo está redefinindo o conceito de exclusividade

Foto de Natalya Rostun

A disputa pelo comprador de imóveis de luxo ganhou um novo patamar: mais do que mostrar plantas, maquetes e apartamentos decorados, as incorporadoras estão investindo alto, muito alto, em experiências para seduzir futuros moradores. No Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, no Jornal da CBN, Jaime Troiano e Cecília Russo analisaram como o mercado imobiliário vem criando estratégias ousadas para se diferenciar e de que forma essas experiências servem de inspiração para as marcas de todos os tamanhos e públicos.

Cecília Russo explica que “elas oferecem aos potenciais compradores aulas de tênis, passeios de lancha e jantares com chefs renomados, antes mesmo de qualquer terra ter sido mexida”. A aposta é ir além do convencional, criando uma sensação imediata de pertencimento ao estilo de vida prometido. Segundo reportagem do Metro Quadrado, incorporadoras passaram a investir mais de 5% do VGV — valor geral de vendas — em ações para criar experiências exclusivas, percentual bem acima dos tradicionais 2% a 3% aplicados na estruturação de estandes, maquetes e apartamentos decorados.

Jaime Troiano amplia a análise ao conectar essa tendência a um fenômeno mais amplo: “As marcas de luxo, assim como em outros patamares do mercado, apoiam-se em produtos cada vez mais similares. Abre-se a necessidade de buscar novas zonas de diferenciação”. Ele cita o exemplo do Terminal BTG, no aeroporto internacional de Guarulhos, inaugurado no fim de 2024, que cobra cerca de R$ 3.000 por pessoa para oferecer três horas de serviços exclusivos: sala com decoração de alto padrão, catering de chef premiado, raio-X e alfândega privativos, além de acesso direto ao avião por carro particular. Para o BTG, a experiência reforça o posicionamento de uma marca que vai além dos serviços bancários.

Segundo os comentaristas, o movimento atende não só a uma estratégia de negócios, mas também a uma necessidade humana. Para Cecília, trata-se de “antecipar os sonhos e tangibilizar os desejos do comprador no presente”. Jaime complementa que viver e compartilhar essas experiências “diferencia incorporadoras e, ao mesmo tempo, diferencia as pessoas”, uma vez que postar nas redes sociais e falar sobre elas também gera prestígio pessoal e publicidade indireta para as marcas.

A marca do Sua Marca

A principal lição do comentário é clara: a busca por diferenciação dita o jogo. Cada mercado e cada público exigem estratégias específicas para criar experiências que aproximem consumidores do futuro que desejam viver.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.