O rádio em que narrei meus jogos de botão

 

Por Milton Ferretti Jung

 

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Em sua última Avalanche Tricolor antes do recesso do futebol dos clubes – o que mais me agrada,diga-se de passagem – o Mílton filho me surpreendeu quando, no seu blog,a foto que ele usou me despertou o tipo de saudade que vai e que vem e, mesmo às vezes tardando, ressurge na minha mente. Ocorre que ele colocou uma foto de seus velhos botões,inclusive com o rosto do Danrlei em um deles.

 

Para quem não leu a Avalanche que me trouxe boas lembranças,explico que os “jogadores” eram azuis e o Mílton,no seu texto,escreveu que eles deveriam estar em algum lugar entre Porto Alegre e São Paulo. Disse-lhe que estavam comigo,guardados há não sei quantos anos. Valeu a pena o meu zelo não apenas com esses botões azuis,mas com todos os demais,guardados com carinhoso cuidado em uma caixa de sapatos,na companhia das goleiras,essas roídas e cansadas de tanto esperar por Danrlei.

 

O meu passado com botões é bem mais antigo do que o do Mílton. Os meus primeiros adversários em campeonatos e amistosos ocorreram no pátio da minha casa,na inesquecível Rua 16 de Julho. Não é só dos botões que lembro com saudade,mas dos meus adversários,amigos que cultivei até e mudar de residência. Deixei a casa paterna e fui morar sozinho já me considerando maduro e pronto para casar com Ruth,cujo pai,que era construtor,havia erguido um pequeno edifício. Casei e,finalmente,fiquei acompanhado pela minha jovem mulher.Jacqueline e Mílton nasceram quando ainda morávamos na Cairu,ambos no Hospital Cristo Redentor. O Christian veio à luz no Moinhos de Vento.

 

Com um ano,o Mílton fez companhia aos pais e aos irmãos.Então,havíamos nos mudado para a Saldanha Marinho. Os botões do Cruzeiro,Grêmio,Barcelona e Santos,foram chamados à luta novamente. Os amigos de minha infância ficaram na 16 de Julho. Eu já estava na Rádio Guaíba. Primeiro,jogávamos na casa de um deles. Depois,nas mesas da Associação dos Cronistas Esportivo. Os meus adversários eram os colegas da Guaíba e do Correio do Povo.

 

Sou obrigado a confessar que o episódio mais marcante deste botonista teve lugar na mesa do pátio da casa da 16 de Julho. O meu pai comprara um rádio – o Wells – importado dos Estados Unidos.Descobri, não queiram saber como, que o aparelho possuía uma entrada para toca-discos. Não sei o que deu na minha cabeça,mas resolvi plugar um par de fones de ouvido na tal entrada. Usei um dos fones como se fosse um microfone e,”milagre”,a minha voz saiu clara pelo alto-falante do Wells. Os vizinhos não devem ter ficado contentes com a narração dos nossos jogos de botão feitas por mim.

 

Não recordo se foi nos fones de ouvido que, pela primeira vez, ouvi minha voz não no “rádio”. Logo eu estava dando pitacos na “Voz Alegre da Colina”. Com certeza, foi a primeira vez que falei alto e bom som em um microfone de verdade. “A Voz Alegre da Colina” foi o primeiro movimento para que se angariasse fundos destinados a fazer da igreja situada no topo de uma colina a Paróquia do Sagrado Coração de Jesus.

 

Depois disso,parei de bancar o locutor:fiz um teste na Rádio Canoas,passei e nunca mais deixei o rádio tendo trabalhado apenas em duas emissoras:a Canoas e a Guaíba.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista,radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Minha profissão dos sonhos de infância

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Sou ouvinte assíduo da primeira edição do Jornal da CBN. Em geral, ouço o programa a partir das 8 horas ou pouco antes. Costumo acompanhar a ancoragem do Mílton pela internet ou, quando estou dirigindo, pelo rádio do carro. Gostei muito da pergunta que os ouvintes foram instados a responder, nessa terça-feira, durante o Jornal, ou seja, qual a profissão sonhada por eles quando crianças. Nem todos chegaram, como contaram, a realizar o sonho de infância. O próprio comandante deste blog foi um deles. Confesso não me lembrar que o Mílton tivesse a pretensão de ser lateral esquerdo do Grêmio. Logo esquerdo. Afinal, ele é destro. Tenho, no entanto, absoluta certeza de que o meu filho está exercendo a profissão que lhe caiu como uma luva. Não digo mais, para não ser acusado de pai coruja. Mílton chegou a cursar a Faculdade de Educação Física, mas descobriu que poderia fazer carreira como jornalista e radialista. E acertou em cheio.  
 

 


O meu sonho foi diferente. Eu queria ser aviador,talvez influenciado pelos aviões que passavam sobre a casa em que eu morava roncando forte, tanto os de dois quanto os de quatro motores, ainda  movidos a hélice. A residência ficava bem próxima do Aeroporto Salgado Filho e ao descerem as aeronaves já voavam com  o trem de pouso pronto para a aterrissagem. Talvez isso tenha me levado a sonhar em, um dia, estar pilotando um desses aviões. Mas, confesso, nada fiz para concretizar o meu primeiro sonho. Na minha adolescência, costumava brincar de narrar futebol quando, com os meus companheirinhos, jogávamos botão. Até descobri que podia plugar um par de fones de ouvido na entrada de toca-discos de um rádio da marca Wells,importado dos Estados Unidos pelo meu pai. E minhas narrações, para desespero dos vizinhos, passaram a contar com amplificação.

 

Quando tinha dezoito anos, minha experiência com microofones já havia crescido comigo. Não só soltava a voz nos alto-falantes da Voz Alegre da Colina, nas quermesses da minha paróquia, como enviava por esses aparelhos as notícias e avisos que os irmão maristas do Colégio Nossa Senhora do Rosário pediam-me que passasse para os meus colegas no momento em que entravam nas sala de aula. Minha “experiência” microfônica me levou a fazer um teste numa rádio que funcionava ainda em fase experimental, chamada Canoas, mas, apesar de ter tal nome, com estúdios em Porto Alegre. Entre 200 candidatos, três foram aprovados. Fui um deles.

 



Os pais também sonham que os seus filhos sejam médicos, advogados e engenheiros ou algo semelhante. O meu gostaria que eu fosse para uma faculdade de Direito. Inicialmente, pelo menos, não aprovou a minha escolha. Creio que ele teria sido um excelente advogado. Costumava assistir a julgamentos. Obrigou-se, entretanto, a se contentar com um diploma de guarda-livros, sem tempo para frequentar uma universidade, porque tinha  família para sustentar. Papai acabou aceitando – e bem – a minha eleição, especialmente após perceber que eu progredira como radialista, quando fiz teste e fui aprovado para compor o quadro de locutores da Rádio Guaíba, onde estou desde 1958.  

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Lembranças de Pedro Carneiro Pereira

 

Por Milton Ferretti Jung

 


Em minha carreira de narrador de futebol, que eu me lembre, não consegui narrar apenas dois jogos. Um deles – não me perguntem o ano, por favor – foi Atlético x Grêmio, no Estádio Independência. Já contei, em uma dessas quintas-feiras, o ocorrido com a transmissão da Rádio Guaíba, nesse jogo. Em resumo, a RADIONAL deixou-me na mão: narrei 85 minutos e só parei quando, nos meus fones, ouvi a voz do meu colega Marco Aurélio, que apresentava o rádio jornal noturno. O motivo que me impediu de relatar uma partida pela segunda vez foi, porém, bem mais sério. Fui escalado para narrar, pelo Campeonato Brasileiro, Desportiva x Grêmio em Vitória, capital do Espírito Santo. A equipe que eu comandava desembarcou no sábado, descansou e, no domingo, rumou para o Estádio Engenheiro Araripe. Em Porto Alegre, Armindo Antônio Ranzolin já começara a narrar Inter x São Paulo. O jogo, em Vitória, começa mais tarde. No Autódromo de Tarumã, localizado no município de Viamão, bem próximo da capital gaúcha, o repórter Clóvis Rezende, acompanhava a 4ª Etapa do Campeonato Gaúcho de Turismo. Antes que se estabelecesse o nosso contato com a central técnica da Guaíba, alguém comentou que um grave acidente havia ocorrido no Autódromo. Tão pronto fizemos contato, fomos informados pelo operador da central que deveríamos retornar para Porto Alegre. O nosso companheiro Pedro Carneiro Pereira envolvera-se num acidente com Ivã Iglesias ao tentar ultrapassá-lo. Os carros se chocaram e ambos bateram no muro de proteção dos boxes. Imediatamente se incendiaram. Os pilotos não puderam ser retirados em tempo de serem salvos. No Beira-Rio, o árbitro Arnaldo César Coelho, ao ser informado do ocorrido, interrompeu a partida por alguns minutos. A Rádio Guaíba encerrou a jornada esportiva e passou a rodar músicas. Saímos às pressas do Engenheiro Araripe, corremos até uma agência da Transbrasil e conseguimos voar, debaixo de mau tempo, para o Rio de Janeiro. Lá,embarcamos no “corujão” da Cruzeiro. Eu e meus companheiros largamos nossas bagagens em casa e rumamos para o velório do Pedrinho. Corria, então, o ano de 1973. Estávamos no dia 21 de outubro

 

Conheci Pedro Carneiro Pereira quando a Rádio Canoas, cujos estúdios situavam-se em Porto Alegre, chamou interessados em fazer carreira no rádio. Entre os inúmeros candidatos a uma vaga de locutor, estava um jovem pouco mais moço que eu. Não me esqueço, sei lá a razão, que vestia uma camisa esporte quadriculada. O teste não era dos mais fáceis. Não bastava, para quem buscava lugar na Canoas, ler, sem errar, textos comerciais e noticiários. Exigia-se, também, que falassem de improviso sobre assunto que desse na cabeça do testado. Somente um dos candidatos passou no teste: Pedro Carneiro Pereira. Em 1958, deixei a Rádio Canoas e sentei praça na Guaíba, onde estou até hoje. Pedrinho e eu narramos várias provas automobilísticas quando ambos ainda estávamos na Emissora da Caldas Jr. Pedro saiu da Canoas, fez teste na Rádio Difusora e,claro,foi aprovado. Indiquei-o para Mendes Ribeiro, diretor de broadcasting da Guaíba. Ele foi contratado e voltamos a trabalhar lado a lado, fazendo dupla, às vezes, na locução comercial. Naquela época éramos dez locutores. A Rádio não aceitava jingles nem spots. Era tudo ao vivo. Acabamos os dois trabalhando na equipe esportiva. A história do Pedrinho, porém, não termina aqui. Na próxima quinta-feira, contarei como foi a estreia dele no automobilismo de competição.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Há 48 anos narrando notícias no rádio

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Acredito que os leitores mais idosos deste blog (se é que tenho leitores) têm bons motivos para apreciar as histórias de rádio que, por sugestão do Mílton, venho contando em algumas quintas-feiras. Particularmente, é o assunto de que mais gosto. Vivencio-as desde 1954, data em que me atrevi a fazer um teste numa emissora que estava para ser inaugurada e buscava profissionais do ramo ou, no meu caso,de quem se dispusesse a passar da condição de ouvinte à de radialista, mesmo alguém cuja única experiência diante de microfones fosse mínima: era, na paróquia que frequentava, um “speaker” de esporádicas quermesses e cuja “rádio” se chamava Voz Alegre da Colina. No Colégio Nossa Senhora do Rosário, tradicional educandário marista de Porto Alegre, último dos muitos em que estudei, havia uma equipezinha de locutores que, antes das aulas, levava aos colegas todo tipo de informação que lhes pudesse interessar.

 

Havia, no mínimo, duzentos candidatos. No teste, tínhamos de ler anúncios e notícias. Depois, os candidatos recebiam folhas com a programação musical da Rádio Canoas. Queriam saber se a gente sabia pronunciar os nomes de músicas em diversas línguas. Três apenas foram aprovados. Um era radioator, outro trabalhara na Rádio Difusora, hoje Bandeirantes. O terceiro foi este “que lhes fala”. Fiquei por quatro anos na Canoas que, embora usasse o nome de um município da Grande Porto Alegre, sempre teve sua sede em Porto Alegre. Transferi-me, em 1958, para a Rádio Guaíba, emissora da Companhia Jornalística Caldas Jr., que foi ao ar com uma proposta diferente das suas concorrentes. Seus dez locutores comerciais (eram nove homens e um voz feminina) liam os textos ao vivo. Somente os programas de radioteatro – Mestre Estrela e Teatrinho Cacique e o Grande Teatro Orniex, esse apresentado aos domingos, eram gravados. A Guaíba (alguém me corrija se estiver enganado) não aceitava propaganda em jingles e spots. Era um grande diferencial. Fez diferença na época, igualmente, o fato de, em 1958, com pouco mais de um ano de existência, ter feito a cobertura da Copa do Mundo, disputada na Suécia. Seu diretor-técnico, Homero Simon, graças à sua “expertise”, criou um sistema que proporcionou à Guaíba a possibilidade de acompanhar a vitória Brasileira na competição, com narração de Mendes Ribeiro. Foi ele que me transformou em narrador de futebol e outros esportes. Eu tivera uma experiência em narração na Rádio Canoas. Transmiti um jogo entre o Cruzeiro e o Renner. Creio que vivi essa experiência em 1957. A partida foi disputada no Estádio da Montanha, onde se vê, hoje, o Cemitério João XXIII. Comecei a apresentar, na Guaíba, em 1964, o seu principal noticiário: o Correspondente Renner. Hoje,a síntese informativa é patrocinada pelo Banco Renner. Das suas quatro edições, me encarrego, hoje, apenas a da uma da tarde. Creio que nenhum apresentador de notícias está faz tanto tempo no ar quanto eu: 48 anos.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)