Moradores de Bento Rodrigues querem garantir o direito à vizinhança

 

Fotos produzidas pelo Senado

Bento Rodrigues destruida pela negligência Foto: RogérioAlves/TV Senado

 

Bento Rodrigues já havia completado 317 anos quando a negligência de uma empresa que explora a região causou o maior desastre ambiental do mundo envolvendo barragens de rejeitos. Apesar dos mais de três séculos de vida, o subdistrito de Mariana com cerca de 600 moradores somente foi apresentado para a maioria dos brasileiros após a Samarco despejar toneladas e mais toneladas de lama sobre casas e pessoas.

 

A Tragédia de Mariana foi em cinco de novembro de 2015 e mesmo com o passar do tempo a empresa não só é incapaz de impedir que a lama siga escorrendo como também não tem demonstrado competência para solucionar o drama das famílias.

 

Hoje cedo, na programação da CBN, ouvi mais uma reportagem com os moradores do antigo Bento. Gente de voz humilde que teve sua história atolada no descaso da Samarco e agora tenta a reconstrução da sua vida.

 

Um dos habitantes pedia que a empresa respeitasse a arquitetura do povoado e reconstituísse o ambiente em que viviam, mantendo a mesma divisão territorial.

 

O que os moradores pedem é que a casa do Zé seja construída ao lado da casa do Pedro e esta construída ao lado da casa do João, como era no Velho Bento. Que a venda da Maria esteja no quarteirão seguinte e a Igreja um pouco mais à frente. Os vizinhos querem continuar vizinhos, não perder seus laços. Querem o direito de poder sentar na calçada e receber os parentes que moravam em frente, como sempre foi.

 

Desde o início desta tragédia, a Samarco, assim como a Vale e a BHP, que são as donas da empresa enlameada, têm revelado incompetência para gerenciar a crise. Erraram no trabalho de preservação, erraram na contenção, erraram na comunicação, erraram no atendimento dos cidadãos e parece que vão continuar errando.

 

Ao acompanhar a reportagem que foi ao ar na CBN, fiquei imaginando a oportunidade que a empresa e seus controladores estão desperdiçando. Já que causaram este drama humano e ambiental, deveriam ser corajosos e criativos na oferta de solução.

 

Respeitando o espaço de cada família e mantendo o mesmo desenho urbano, poderiam investir nas mais avançadas tecnologias ambientais, transformando o Novo Bento em um exemplo para o mundo.

 

Começariam pela escolha do material de construção, privilegiando os de baixo impacto ao meio ambiente.

 

No meu cenário ideal, as casas teriam telhados cobertos por placas fotovoltaicas e produziriam a própria energia. Todos os dejetos e resíduos orgânicos seriam coletados por tubulação e transferidos para uma usina que transformaria este material em biogás para uso residencial. Resíduos sólidos seriam reciclados. E a água, reaproveitada.

 

Diante do custo mais elevado desta reconstrução, a Samarco poderia mobilizar empresas que desenvolvem esses sistemas e equipamentos, que fariam de Bento Rodrigues vitrine dessa tecnologia verde.

 

Um delírio da minha parte, sem dúvida, pois a empresa não estaria cumprindo sequer o mínimo que se comprometeu como contratar mão de obra local para execução dos serviços de manutenção e reconstrução de áreas atingidas, como reclamou dia desses o prefeito de Mariana, Duarte Eustáquio Gonçalves Junior.

 

Que ao menos devolva o direito à vizinhança para o Seu Zé, o Seu Pedro e o Seu João de Bento.

Sete meses da Tragédia de Mariana, e daí?

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

23029923542_22dc223604_z

Tragédia de Mariana em foto do Greenpeace Brasil no Flickr

 

Cinco de junho é o Dia Internacional do Meio Ambiente cujo propósito é divulgar e conscientizar a importância da preservação dos recursos naturais. Portanto, há três dias o mundo deveria ter se ligado a questão ambiental. O Brasil também.

 

No dia Cinco de Novembro de 2015, no distrito de Bento Rodrigues, em Mariana, uma barragem da Samarco, da Vale do Rio Doce, se rompeu, vazando lama de minério que inundou vilas e cidades. A devastação foi total, destruir e matou o que encontrou pela frente. Minas Gerais e Espírito Santo ainda hoje e por tempo ainda não determinado pagam caro pela irresponsabilidade de poucos.

 

Vinte dias após essa tragédia, os deputados mineiros aprovaram (57 a 9) projeto de lei comandado pelo governador Fernando Pimentel do PT que acelerava as licenças ambientais.

 

Há cinco meses, entrou em vigor o Programa das Nações Unidas que propõe os OBJETIVOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL. Entre tantos, o combate ao desmatamento, ao aquecimento global, à degradação ambiental, ao uso excessivo de agrotóxicos, ao uso criminoso do solo, das florestas, das águas e demais recursos naturais.

 

Também há cinco meses, o senador Romero Jucá do PMDB/RR apresentou projeto no sentido de liberar o licenciamento ambiental de grandes obras dos setores de transporte, energia e telecomunicações; de se sujeitar à audiência pública, além de especificar e reduzir prazos. É o projeto de lei 654/2015 apresentado dentro do pacote “Agenda Brasil” de Renan Calheiros do PMDB/AL para enfrentar a crise econômica e está há um mês em fase de análise e votação no Congresso.

 

Ao mesmo tempo, a Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou a Proposta de Emenda Constitucional do senador Arcir Gurcacz do PDT/RO, que determina que a apresentação de estudo prévio de impacto ambiental é suficiente para que se autorize a execução da obra, sem possibilidade de suspensão ou cancelamento. Ou seja, essa PEC acaba com o licenciamento.

 

E daí? Éramos felizes e não sabíamos.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung, às quartas-feiras.