Sou maricas, sim!

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Foi o presidente Jair Bolsonaro quem disse: somos um país de maricas! Somos não! Se o significado for a covardia, como no espanhol, não somos, não!  Este é um país de brava gente. Porque é preciso muita coragem para sair da cama todas as manhãs sem saber o que será do amanhã. Se lá fora o vírus vai me matar. Uma bala vai me atingir. Um louco resolve se vingar porque ao fim da saliva apela à pólvora. Tem de ter muita coragem para enfrentar os desafios do escritório, do armazém e da rua; do medo do desemprego, da falta de educação e do hospital sem leito para me atender.

Agora, presidente, se maricas é ser afeminado, sou sim, maricas. Porque ter alma fêmea, feminina nos faz melhor. Nos torna acolhedor, solidário. Em Alma Feminina, canta Daniela Mercury: “… porque sou guerreira; tenho alma de mulher; sou fé, sou brasileira … tenho alma de menina e uso a força da voz para falar de amor”.

Então, sou maricas, sim!

E isso não me faz pior: tenho coragem de assumir minhas fragilidades. Não tenho medo de compartilhar essas fraquezas. De ter desejo de chorar diante da covardia de quem ataca os mais fracos. De sofrer ao assistir pusilames travestidos de líderes desdenhando  o peso de uma morte — uma não, mais de 163 mil mortes —; incapazes que são de identificar o quanto a violência por atos e palavras impacta a saúde mental de jovens, especialmente de jovens que na sala de aula, no pátio da escola ou na plataforma digital são vítimas de ataques, que agora chamamos de bullying —- palavra que para o presidente não faz sentido, porque com ele é na pólvora, é na porrada. 

Ele é machão — da pior espécie. Eu sou maricas, sim!

Tomado por essa alma feminina que todos devemos preservar sem medo, preocupo-me com a maneira como tratamos a morte de um rapaz de 33 anos que havia se colocado à disposição da ciência para salvar vidas e desistiu da sua própria vida, sabe-se lá por quê. Nesse caso, não apenas pelo presidente — que comemorou, sem aspas, a morte e a paralisação de testes de uma vacina que poderia dar vida a outras pessoas — mas pela maioria de nós que tratou o suicídio como algo banal, descreveu com detalhes o laudo e a jornada à morte. Uma morte sempre difícil de explicar, que leva embora jovens, muitos vítimas do bullying, do desrespeito, dos machões de taverna. 

É preciso que estejamos atentos em casa, com sensibilidade para ouvir o que nossos filhos, nossos jovens não são capazes de falar; nos mostrarmos sempre acolhedores para entender como está batendo o coração desse menino ou dessa menina; uma gurizada que tem seus sentimentos tolhidos por essa cultura machista em que tristeza é frescura, depressão é coisa de vagabundo. Depressão, tristeza, solidão …. um caminho que se for percorrido com gente acolhedora —- como somos os maricas, nós de alma feminina —- se torna mais fácil. E pode ser transformador no rumo que vamos tomar em vida.

O suicídio jamais pode ser tratado com a irresponsabilidade com que se tratou este tema nas últimas horas aqui no Brasil. É coisa muito séria. Quem tiver dúvidas de como abordar o assunto, seja politicamente seja jornalisticamente, busque orientação nos manuais da Organização Mundial de Saúde. Quem tiver dificuldade para falar do tema, busque o Centro de Valorização da Vida, que tem uma experiência incrível, formada por pessoas que estão sempre à disposição para ouvir, abraçar e ajudar. Para nos salvar!