Sou maricas, sim!

Foto: Pixabay

 

Foi o presidente Jair Bolsonaro quem disse: somos um país de maricas! Somos não! Se o significado for a covardia, como no espanhol, não somos, não!  Este é um país de brava gente. Porque é preciso muita coragem para sair da cama todas as manhãs sem saber o que será do amanhã. Se lá fora o vírus vai me matar. Uma bala vai me atingir. Um louco resolve se vingar porque ao fim da saliva apela à pólvora. Tem de ter muita coragem para enfrentar os desafios do escritório, do armazém e da rua; do medo do desemprego, da falta de educação e do hospital sem leito para me atender.

Agora, presidente, se maricas é ser afeminado, sou sim, maricas. Porque ter alma fêmea, feminina nos faz melhor. Nos torna acolhedor, solidário. Em Alma Feminina, canta Daniela Mercury: “… porque sou guerreira; tenho alma de mulher; sou fé, sou brasileira … tenho alma de menina e uso a força da voz para falar de amor”.

Então, sou maricas, sim!

E isso não me faz pior: tenho coragem de assumir minhas fragilidades. Não tenho medo de compartilhar essas fraquezas. De ter desejo de chorar diante da covardia de quem ataca os mais fracos. De sofrer ao assistir pusilames travestidos de líderes desdenhando  o peso de uma morte — uma não, mais de 163 mil mortes —; incapazes que são de identificar o quanto a violência por atos e palavras impacta a saúde mental de jovens, especialmente de jovens que na sala de aula, no pátio da escola ou na plataforma digital são vítimas de ataques, que agora chamamos de bullying —- palavra que para o presidente não faz sentido, porque com ele é na pólvora, é na porrada. 

Ele é machão — da pior espécie. Eu sou maricas, sim!

Tomado por essa alma feminina que todos devemos preservar sem medo, preocupo-me com a maneira como tratamos a morte de um rapaz de 33 anos que havia se colocado à disposição da ciência para salvar vidas e desistiu da sua própria vida, sabe-se lá por quê. Nesse caso, não apenas pelo presidente — que comemorou, sem aspas, a morte e a paralisação de testes de uma vacina que poderia dar vida a outras pessoas — mas pela maioria de nós que tratou o suicídio como algo banal, descreveu com detalhes o laudo e a jornada à morte. Uma morte sempre difícil de explicar, que leva embora jovens, muitos vítimas do bullying, do desrespeito, dos machões de taverna. 

É preciso que estejamos atentos em casa, com sensibilidade para ouvir o que nossos filhos, nossos jovens não são capazes de falar; nos mostrarmos sempre acolhedores para entender como está batendo o coração desse menino ou dessa menina; uma gurizada que tem seus sentimentos tolhidos por essa cultura machista em que tristeza é frescura, depressão é coisa de vagabundo. Depressão, tristeza, solidão …. um caminho que se for percorrido com gente acolhedora —- como somos os maricas, nós de alma feminina —- se torna mais fácil. E pode ser transformador no rumo que vamos tomar em vida.

O suicídio jamais pode ser tratado com a irresponsabilidade com que se tratou este tema nas últimas horas aqui no Brasil. É coisa muito séria. Quem tiver dúvidas de como abordar o assunto, seja politicamente seja jornalisticamente, busque orientação nos manuais da Organização Mundial de Saúde. Quem tiver dificuldade para falar do tema, busque o Centro de Valorização da Vida, que tem uma experiência incrível, formada por pessoas que estão sempre à disposição para ouvir, abraçar e ajudar. Para nos salvar!

13 comentários sobre “Sou maricas, sim!

    • Parabéns Milton por seu texto preciso e sensível.

      Ouvi hoje, ao vivo, no Jornal da CBN seus comentários sobre esse assunto. Suas palavras me emocionaram

      E obrigado por traduzir em palavras o sentimento de muitos brasileiros, maricas como nós 🙂

  1. Belas palavras. Um grande profissional e um grande ser humano. A polarização orquestrada por líderes sem juízo, cérebro e sensibilidade, nos faz pessoas irracionais. É bom ver palavras e atitudes que nos fazem lembrar que somos humanos. Parabéns.

  2. Sensibilidade, Afeto e Empatia são artigos de luxo! E a gente vê aquele outro “ser espumante de raiva” louco para poder ser um maricas e não passa de um pobre coitado cuja desgraça é a de estar nu de afetos e de possibilidades humanas agonizando em praça pública. O Brasil está assustador, mas não me mete medo!

  3. Caro Milton

    Parabéns pela manifestação e posicionamento. Estou plenamente alinhado com suas colocações. Também sou “maricas” e tenho muito orgulho disso. Fica a pergunta: até quando vamos aturar um boçal como nosso presidente.
    Por fim, onde consigo a gravação da sua fala de hoje cedo? Quero compartilhar para todos que me seguem.
    Abração e juntos vamos provar que hoje e sempre sempre é muito bom ser maricas.
    Sucesso sempre.
    João Castanheira Filho

  4. Parabéns Milton.
    Ouvi hj cedo na rádio e me emocionei. Cresceu muito minha admiração pelo seu senso jornalístico. Vc falou por muitos de nós.
    Tomara CBN reprise sua fala por várias vezes na programação.

  5. Excelente o texto e colocações sobre os jovens e sobre sensibilidade. O verdadeiro homem é aquele que não tem medo de expor suas vulnerabilidades. Num país machista como o Brasil, isso sim é sinônimo de coragem. Que sejamos mesmo um país de ainda mais maricas em 2021, já todos e todas fartos de tanto discurso odioso, de tanto ataque gratuito e dessa linguagem chula e ignorante e que possamos eleger um novo líder como acabaram de fazer os americanos. Um (a) lider (a) muito marica, de espírito e inteligência elevados, que nos represente com dignidade no cenário internacional e que contribua para tornar o Brasil, o país que nos merecemos ser.

  6. AMEI TEU TEXTO!SIM É VERDADE SOBRE BOWLING!CADA PESSOA É DIFERENTE NAS REAÇOES , QUANDO É HUMILHADO!UNS ENGOLEM TUDO E ACABAM OU SAFENADOS, OU LOUCA COMO SOU CHAMADA, OU COM GASTRITE, OU COM NÓDULOS …OS MEDICOS SABEM O QTO O EMOCIONAL INTERFERE NA NOSSA SAUDE!SOU FUI UMA SIMPLES APRENDIZ NA VIDA E SOFRIDA,LUTEI MUITO PARA SUPERAR TUDO O QUE ME FOI E AJNDA É DISCRIMINADO!TIMIDEZ E NAO ORGULHO MAS JULGARAM ME ERRADAMENTE!DESDE MEUS 25 ANOS LUTO PARA SUPERAR ESSA DIFICULDADE .CADA SER HUMANO É UNICO!PORTANTO O RESPEITO À CADA SER HUMANO É O MÍNIMO E SEM CUSTOS !TODOS PASSAMOS POR DIFICULDADES.NESSE MOMENTO DE PANDEMIA PRECISAMOS UNIR ESFORCOS E NAO PROVROCAR MOS RUPTURAS.ABR!

  7. Seu texto é um manifesto que representa um monte de homens como eu, você que acreditamos na sensibilidade, na solidariedade e na possibilidade de fazermos um mundo menos violento e mais tolerante. Parabéns!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s