Amigos permitem ser quem eu sou

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Imagem de Charles Bernie from Pixabay 

“Foi o tempo que perdeste com tua rosa que a fez tão importante”

Antoine de Saint-Exupéry

            Ao longo da história da humanidade, o convívio social sofreu mudanças importantes quanto as suas funções e características. Nos primórdios, manter vínculos com outros seres humanos é o que permitia a sobrevivência da espécie, através da colaboração mútua e da proteção. Na pandemia, o uso da tecnologia, seja com aplicativos ou através de redes sociais, se tornou uma das poucas maneiras de se estar socialmente conectado.  

            Diversos estudos destacam a importância das relações sociais, especialmente as que envolvem a amizade, durante o ciclo vital, contribuindo para o desenvolvimento cognitivo, psíquico e social.

Na infância, por exemplo, conviver com os amigos está diretamente relacionado com a formação do processo de socialização. Nessa fase, as relações estabelecidas envolvem afeto, diversão, colaboração mútua e resolução de conflitos.

Na adolescência, as amizades são importantes para a construção da identidade e da autoimagem. Nessa fase, talvez mais do que em qualquer outra, o bem-estar psicológico estará diretamente associado com a percepção da Cyro gostaria de fazer parte da sua redequalidade das amizades, por exemplo, se sentir aceito, valorizado pelo outro e estabelecer relações positivas, envolvendo confiança e disponibilidade.

No final da adolescência e início da vida adulta, as demandas que surgem, como ingressar na faculdade ou no mercado de trabalho, podem ser muito estressantes para os jovens e, nesse caso, os amigos são fontes de apoio social, auxiliando a lidar com esses desafios.

Infelizmente, na adolescência, nem sempre as relações estabelecidas são satisfatórias e muitos jovens experimentam um empobrecimento da interação social, gerando muita ansiedade. A piora do bem-estar psicológico pode favorecer o isolamento ou agravar as habilidades sociais, tornando a pessoa mais inibida, com impactos a longo prazo, como aumento da insegurança e redução da autoestima.

Na vida adulta, o trabalho, os relacionamentos afetivos mais estáveis ou filhos, podem diminuir o tempo disponível para o convívio com os amigos, mas há um aumento da qualidade das relações estabelecidas

No envelhecimento, a interação com os amigos também se modifica, se tornando menos frequente ou com encontros mais breves, porém, os amigos representam a maior fonte de proteção contra a solidão.

            A importância de se estabelecer bons relacionamentos foi evidenciada numa pesquisa realizada pela Universidade de Harvard (orginalmente Study of Adult Development), sendo apontada como um dos fatores que mais influencia o nível de saúde das pessoas, incluindo a longevidade.

            Seria possível detalhar inúmeros estudos que mostram os benefícios de se ter amigos, mas todos eles podem ser resumidos em uma frase: ter amigos torna a nossa vida melhor! 

            Em geral, as relações estabelecidas com os amigos são mais recíprocas, sofrem menos julgamentos e são menos estressantes.

            Amigos nos permitem companhia, apoio e riso solto. Amigos nos acolhem quando precisamos dividir as nossas dores, o nosso choro.

            São os laços que construímos ao longo do caminho… alguns se afrouxam, se desfazem, mas outros estão ali bem firmes. 

São presentes… Desses que a gente agradece todos os dias por ter recebido. Desses que estão sempre com a gente, não nos deixam sós.

Penso nos meus amigos e na importância que eles têm para mim. Me permitem ser quem eu sou e carregam um pouco de mim dentro deles.   

            Na impossibilidade do abraço, faço brigadeiros e envio para os meus amigos. Talvez seja sobre o tempo. Talvez seja sobre a dedicação. Mas acima de tudo, é sobre eles mesmos. 

            Feliz Dia do Amigo!

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Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Avalanche Tricolor: vitória da maturidade

 

Juventude 0 x 1 Grêmio
Campeonato Gaúcho – Caxias do Sul

 

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Caxias do Sul sempre foi uma espécie de parque de diversões. E não leia esta frase de forma invertida, não! Falo das lembranças de família e de juventude. Não me refiro ao futebol.  Foi lá que passei boa parte das férias na minha infância. Costumávamos dividir os 30 dias regulamentares de descaso do meu pai entre a praia e a serra. Também gostávamos de visitar a cidade dos Ferretti durante a Festa da Uva e assistíamos ao desfile na janela da casa de uma das tias de Caxias, na avenida principal. Na adolescência, passei a ir para lá com os amigos, pois éramos muito bem recebidos pela turma do basquete e batíamos bola na sede campestre do Recreio da Juventude. Gostávamos mesmo das festas à noite. Depois, foi a vez das namoradas caxiense que me faziam subir à serra gaúcha. Boas lembranças de uma época em que não cobravam maturidade nas minhas decisões!

 

Quando o assunto era futebol, porém, a coisa ficava mais complicada. Jogar contra o Caxias ou o Juventude, assistir aos jogos nas arquibancadas do Centenário e do Alfredo Jaconi e cobrir as partidas no gramado dos dois times da cidade costumavam provocar alguns surpresas desagradáveis. Além de torcidas aguerridas, as equipes da casa sempre foram bastante competitivas e o Grêmio, apesar de algumas vitórias históricas, enfrentou muitas dificuldades. Por tudo isso, o jogo dessa tarde de domingo trazia momentos marcantes à memória, para o bem e para o mal. Era de se esperar dificuldade maior do que a que encontramos. Digo isso não para desmerecer o adversário. Pelo contrário: enalteço aqui a maturidade do time gremista.

 

Fizemos um gol cedo, em lance que teve o mérito de Brain Rodriguez e o talento de Giuliano. Nosso gringo acreditou em bola que estava quase perdida pela lateral. Pouco antes já havia dado um carrinho e encarado os zagueiros na linha de fundo. Mesmo que siga sem marcar com a frequência que um centroavante precisa, mostrou-se muito mais participativo nesta tarde. E graças a isto, recuperou a bola e deu de bandeja para Giuliano, permitindo que este completasse o contra-ataque com bom domínio e chute preciso, no ângulo. Aliás, um dos únicos chutes que demos a gol. Nem precisava mais. A vitória simples, fora de casa, nos colocaria em excelentes condições de chegar à final do Campeonato Gaúcho.

 

No restante da partida, o Grêmio soube como poucas vezes acabar com o jogo sem correr riscos, exceção a um ou outro lance adversário. Segurou a bola, trocou passes à exaustão, não se precipitou, cavou faltas, dominou o jogo nos 90 e poucos minutos de disputa. Ao contrário de outras oportunidades, em que passamos sufoco e não conseguíamos manter a bola entre os nossos, fiquei impressionado com a personalidade de nossos jogadores. E, além do golaço de Giuliano, foi o que mais me agradou nesta tarde em que Caxias do Sul voltou a me dar alegrias.

Desprendendo-me

 

Por Abigail Costa

A maternidade chegou, digamos, na fase madura. Depois dos 30. Estava tão acostumada em ser eu – e quando tinha que dividir era só com meu marido – que quando aquele pequeno homem chegou em casa desorganizou minha vida.

As noites não seriam mais as mesmas. De fato não foram. E quantas delas passei em claro com ele berrando no colo. O pensamento era só esse:”acabou meu sossego”.

Era uma sensação de perda de liberdade, de tranquilidade, de sono gostoso depois de namorar muuuuuuuuuuito.

Agora, eu tinha uma responsabilidade que pesava. Não só porque tinha sono e não podia ir pra cama. Vestir aquela blusa cheias de botões, durante meses (não por opção) para ter praticidade na hora de amamentar, confesso nem sempre me dava prazer.

Mas o tempo, sempre ele, se encarregou de colocar os pingos dos is.

Daquelas noites sobraram as olheiras na fotografia; das mamadas do meu bebê, saudade.

Ele se desprendendo, a vida voltando ao jeito que era.

Meu pequeno grande homem já tem suas responsabilidades e as desempenha muito bem. A mim cabem pequenas complementações como mãe.

Você já não é tão requisitada como antes. Definitivamente, ele não morrerá de sede sem você.

De vez em sempre um carinho, que mal tem ?

Numa dessas voltas, eu, cortando as unhas naqueles dedinhos já crescidos, comecei a fazer perguntas com aquela voz quase idiota que usamos para conversar com animais e crianças:

– Já não precisa mais da mamãe pra trocar as fraldas, não é? Nem pra mamar?

Consegui perguntar mais meia dúzia de besteiras até cair em prantos.

Ele “pensando” ser mais uma das minhas brincadeiras disse inocentemente:

– Você é uma atriz e tanto, não é mamãe?

– Pois é – respondi, passando as mãos no rosto e disfarçando as lágrimas.

Fui pro banheiro pra me olhar sozinha no espelho. “Tá louca mulher?” Perguntei pra mim mesma.

Passei uns dias pensando nesse episódio.

Louca não. Lúcida.

Estamos nos desprendendo.

Assim como foi preciso me acostumar com a chegada do meu bebê, estou me acostumando com as outras etapas. Sofrer como lá atrás sofri quando ele chegou mudando a minha vida, sei que não vai dar pra escapar. Sofrerei.

De novo me lembro da frase preferida da minha mãe.

“Com o tempo tudo passa”.

Abigail Costa é jornalista e escreve às quintas-feiras no Blog do Mílton Jung