Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: o que pensam e fazem as garotas equilibristas

 


 


As jovens querem uma vida com mais oxigênio, não querem ficar presas ou em uma vida profissional intensa ou em uma vida familiar única: elas querem flexibilidade. A constatação é de Cecília Russo após pesquisar meninas entre 20 e 24 anos com a intenção de entender como as universitárias brasileiras estão guiando suas futuras escolhas e expectativas em relação à carreira e vida pessoal. No programa Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, na rádio CBN, Cecília e Jaime Troiano apresentam alguns dos resultados deste trabalho que está publicado no livro “Garotas equilibristas, o projeto de felicidade das mulheres que estão chegando ao mercado de trabalho” (Pólen Livros).

 


Às marcas, Troiano recomenda que se conectem com essas jovens compreendendo que elas como equilibristas em suas múltiplas funções. Um dos aspectos que se percebe é o fato delas terem o interesse em trabalhar em empresas e marcas que tenham algo de bom a oferecer à sociedade, tenham uma função social.

Conte Sua História de São Paulo: a poesia da Terra da Garoa

 

Lúcia Edwiges Narbot Ermetice (Lu Narbot)
Ouvinte-internauta da Rádio CBN

 

 

A menina que eu fui
passeava às margens do Ipiranga
e imaginava o grito de D. Pedro I:
“Independência ou Morte!”

 

A menina que eu fui
brincava nas ruas sem asfalto e sem perigo,
e amava e se orgulhava de sua cidade,
a que mais crescia no mundo!

 

A menina que eu fui
ouvia a mãe falar dos antigos carnavais da Paulista,
desfile de carros enfeitados e gente chic,
o Corso, palavra reveladora das origens italianas.

 

Ah! A menina que eu fui!

 

O Ipiranga continua lá,
ecoando o grito de D. Pedro I,
mas as ruas em que eu brincava
hoje estão asfaltadas e perigosas.

 

No Carnaval da Paulista já não há mais Corso
e outros imigrantes somaram-se aos italianos
para fazer a cidade crescer.
E ela cresceu tanto, mas tanto, que virou um caos.

 

A menina que eu fui
e que hoje habita este corpo maduro
ainda assim ama e se orgulha
da cidade em que nasceu,
a sua Terra da Garoa!

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, aos sábados, logo após às 10h30, no programa CBN SP. A sonorização é do Cláudio Antonio e a interpretação de Mílton Jung

 

De emburramento

 

Por Maria Lucia Solla

 

IMG_7276 (1)

 

Quando eu era menina, ficava ‘emburrada’. Não falava com ninguém e ficava de ‘cara feia’. E não era só eu. Éramos uma legião de crianças emburradas. Longe de ser moda, era nossa expressão de descontentamento. Não vamos nos esquecer de que quando eu era ‘menina, o ‘emburramento’ era o máximo de expressão de revolta permitida a nós, os pequenos.

 

Não falava à mesa, não dava palpite, jamais interrompia quando um adulto falava, estudava e tirava notas excelentes, porque era o que se esperava de mim, e pronto. Meu pai dizia que eu não fazia nada além da minha obrigação. Ele tinha razão, e nesse ponto eu me dava bem porque sempre gostei muito de estudar. Agora, a parte do ficar quieta era a mais difícil. Engolia em seco o tempo todo, ‘tirava letra’ das músicas, e cantava, cantava, já que não podia falar. E escrevia. Diário, carta e desabafo. De lá para cá, vocabulário e regras podem ter mudado e evoluído, mas o homem.…

 

E fazer o quê, emburrar? Enredar pela via da crítica virulenta? Aquela do eu estou sempre certo, e você errado? Falar o tempo todo do descontrole e da selvageria que assola o planeta? E olha que não sei da missa um terço!

 

Tem solução? Está tudo errado? Não. Apesar do descontentamento individual e geral, nada está errado. A Natureza segue o seu caminho, de ação e reação, apesar de nós, e da nossa agressão a ela. Só isso. Há algum tempo, nós a violentávamos e assaltávamos, na calada da noite. Hoje, à luz do dia.

 

Selvagens, brincamos de cidadãos. Temos sempre uma palavra de crítica ao outro, e espantosamente sabemos a receita para todos os problemas. Do outro. Filho mata mãe, mãe não fica atrás. Rico come bem, estuda e saqueia o semelhante. Pobre passa fome, não estuda e faz o mesmo. Apesar do preconceito que devasta qualquer possibilidade de entendimento, de acordo e paz.

 

Tem juiz que se degrada, condenado que se recupera. Tem justiça e seu avesso. Em todo lugar, em todo posto. A qualquer preço.

 

E eu? Se tenho receita? Vivo como posso, me aninho como fazia quando criança , me acomodo na solidão que se acomoda em mim, reconheço no espelho a tristeza nos sulcos que não havia ali, e entendo que tenho ainda muito a aprender.

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Escreve no Blog do Mílton Jung

Uma garrafa no Mar de Gaza: mais um de Guillaume, sem floreios

 

Por Biba Mello

 

FILME DA SEMANA:
“Uma Garrafa no Mar de Gaza ”
Um filme de Guillaume Galliene.
Gênero: Comédia
País:FRANÇA

 

 

Uma menina judia, classe média, nascida na França, de 17 anos, foi morar em Jerusalém com a familia. Em meio a guerra entre Israel e Palestina, tenta encontrar uma resposta do porquê desta guerra que a assusta e faz tantas vítimas. A garota pede ao irmão, que está no exército, para que jogue uma garrafa ao mar com uma carta que ela escreveu. Um rapaz de Gaza, mulçumano, encontra a garrafa. Na carta, a menina pede que eles se comuniquem por email e, então, nossa história fica bastante interessante.

 

Por que ver: A diversidade cultural é o que mais me encanta neste filme. De um lado, os judeus; vivem com conforto e são os que mais se aproximam da cultura ocidental. De outro os palestinos; sofridos, pobres e com limitacões impostas pela religião que não se assemelham em nada com nossa cultura. É um filme profundo, quase documental, sobre essa guerra. A atuação é bem próxima da realidade, sem floreios.

 

Como/quando ver: Toda vez que sentir raiva da situação política atual. No meu caso, toda vez que assisto ao jornal. Pense que a situação poderia ser pior. Ao menos não estamos em guerra. Será?

 

Quando não ver: com aquele seu amigo de “esquerda radical”. Vai deixar de ser um entretenimento e sua casa vai virar um palanque político.

 

Biba Mello é diretora de cinema, blogger e apaixonada por assuntos femininos. Sugere ótimos filmes aqui no Blog do Mílton Jung, todas as semanas.

Carta aberta

 

Por Maria Lucia Solla

 

PastedGraphic-1

 

Olá, ‘caro e raro’ leitor,

 

não deu para resistir!
E por favor me desculpa (tira de mim a culpa) pela repetição deste texto, postado aqui no blog do Mílton, em 2007. Mas hoje é o dia do aniversário dela!
Aqui vai:

 

Ley, minha prima querida, nem acredito que já tenha passado um ano inteiro desde o teu último aniversário. Você estava viajando, e não nos falamos naquele dia. Não é que agora o tempo voa de verdade? Voar deixou de ser prerrogativa de passarinho, avião e pensamento, e deixou a categoria de licença poética. As distâncias também assumiram velocidade e textura completamente diferentes, só que mesmo sendo capazes de domar e de quase neutralizar tempo e distância com uma tecnologia nova a cada dia, inimaginável há não muito tempo, ainda não encontramos substituto à altura da pele, do beijo, e do abraço. Não têm similar virtual.

 

O dia do aniversário é um dia muito importante, e eu fico pensando nas nossas histórias e no significado e influência que você sempre teve na minha. A gente precisa ter consciência do quanto se imprime e se entrelaça nas histórias de quem faz parte da nossa, porque é desse jeito que se vai tecendo a vida, não é?

 

Na minha, a tua tessitura tem sido linda. Você me levou ao cinema pela primeira vez, no dia do meu aniversário, para ver um desenho de Walt Disney. Da história e do nome do filme eu não me lembro, mas me lembro da alegria, da aventura, de tanta cor e som, e da sensação de liberdade. Lembro de me sentir importante e segura pela tua mão, caminhando pelo centro da cidade. Teu gesto amoroso encontrou terreno fértil; continuo amando o cinema e sentindo a mesma magia da primeira vez. Que presente eu um dia poderia reciprocar, que fizesse você se sentir tão especial como você me fez sentir?

 

Ah, você também me ensinou a dar os primeiros passos na cozinha. Arroz branco e soltinho, com milho, no apartamento da Praça Roosevelt, e as vitaminas de frutas no liquidificador que você lavava batendo água com detergente, e o Lúcio, acostumado com as gostosuras que você fazia, passou pela cozinha e se serviu de um copão. Só não me lembro se você chegou a tempo de impedir o primeiro gole.

 

Você foi a ponte firme entre meu mundo de menina e o mundo dos meus pais, incompreensível e hermético demais para mim, e me levou aonde meus pés não teriam ido sozinhos.

 

Você também foi madrinha no meu casamento, e estava linda. Você, não eu. Olhe as fotos, eu era menina de tudo, despreparada, confusa, mas você já era uma mulher linda, independente, inovadora, culta, exemplo para quem estivesse por perto; e eu estava. Aprendi com você a olhar para frente sem perder a perspectiva do que ficou para trás, e se hoje, mesmo buscando novos caminhos, ainda cultivo os não tão novos, devo muito a você.

 

Espero que todo mundo tenha ao menos uma pessoa especial de quem possa lembrar coisas boas, com carinho e gratidão.

 

Amo você.

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

Conte Sua História: Nariz de palhaço

 

Por Tony Marlon
Ouvinte-internauta

Ouça o texto de Tony Marlon sonorizado por Cláudio Antonio para o CBN SP

Quinta-feira. Ônibus Paraíso – Parque do Engenho. Caminho Avenida Paulista. Meu amor.

Depois de noite mal dormida, o primeiro banco vazio era um, antes da catraca. Ali mesmo me sentei. Próximo ao Shopping Eldorado entra uma menina. Eu tenho quase certeza que ela era uma princesa daquelas bem lindas que gostam de se disfarçar pra ver o que anda acontecendo no seu reino.

Entrou, e com o ônibus cheio, ofereci meu lugar. Sua mãe a pegou, e a colocou no trono. No banco. Encostei na porta do outro lado do ônibus, bem longe dela, séria. Muito séria. De repente, um restinho de olhar passou rápido por mim. Pensei: opa. Eu vi direito?

Ela olhou de novo. Tentou disfarçar, mas não deu tempo. No canto da boca um sorriso bem do arteiro. E eu entre jogadas de corpo e desvios de puro reflexo da porta que não parava de abrir, pensei: é agora. Os olhares se intensificaram. Os sorrisos também, praticamente num filme de Chaplin: tudo em silêncio em nossa relação.

De repente, a mãozinha acena para que eu atrevesse o ônibus. Atravesso; pedido dela é uma ordem.

– Qual é o seu nome?
– Tony.
– Ah. Toony?
– Isso. E o seu?
– Maria Eduarda.
– Que lindo nome, Maria Eduarda.
– É. Eu sei.
– Quantos anos você tem?

Neste momento desaparece o som. Quem fala agora é a mão: quatro dedinhos convictamente estendidos.

Me afasto. Volto pro meu lugar. Longe. Sem som. E as brincadeiras continuam. Ela e eu vivemos uma realidade que não é a mesma do restante do ônibus. Nela, eu sou motorista até mesmo sem colocar a mão no volante.

– Tony, deixa eu ver sua mão?
– Claro. Olha.
– Nossa. Sua mão parece de mulher. Olha a sua unha!
– Mas é bonita?
– É. Muito bonita.
– Então melhor assim, né?!
– É. Olha a minha.
– Linda também.
– É. Eu sei.

E tudo para de novo. Cada um pro seu canto. E vamos brincar de Chaplin; num silêncio cheio de coisas mágicas que somente ela e eu entendemos. E ela ri muito.

De repente meu nariz imaginário cai. Procuro desesperado naquele chão sujo do ônibus e não o encontro. A minha cara de preocupação e choro encontra o rostinho da Maria Eduarda, também preocupado. Deve estar pensando ela: como este menino perde o nariz dele assim? No meio do ônibus? Que desastrado.

Passa um senhor de cabelo longo em minha frente e eu, claro, desconfio que ele pode ter achado meu nariz. Procuro até dentro de seus cabelos e nada. Ela, igual a mim, também começa a ficar preocupada. E o rostinho dela fica realmente.

Achei! Achei! Estava ali, perto da lixeira. Como é que eu não vi ? Olho e ela está sorrindo lindamente com cara de aliviada. Comemoro o meu achado. Tanto que meu nariz acaba escapando da minha mão e caindo nas dela. Que menina cuidadosa, segurou firme. E um lindo sorriso de quem acaba de salvar o mundo surge no seu rosto.

Peço que me jogue o nariz. Afinal de contas, é imoral ficar andando por aí sem nariz, não é verdade Wellington? Ela se prepara e joga o nariz.

– (em slow) Nããããão!

Lá se vai meu nariz de novo. Alguém muito distraído esqueceu a janela do ônibus aberta. De dentro do ônibus eu vi meu nariz pingando como bolinha de borracha no chão da Avenida Rebouças.

Olho e ela está com uma carinha de preocupação que mal cabe em seus quatro anos. Deve pensar: o que eu fiz com o nariz do Tony, meu Deus? Serei presa e castigada por isso.

Como eu sou uma alma bondosa, além de muito vergonhosa pra ficar lá nu de nariz imaginário, digo em silêncio que vou resolver. Alguém lá em cima ouve, e o ônibus para em seguida para subida de um passageiro. Dou uma piscada pra ela. E enquanto o passageiro entra no ônibus, eu estico meu corpo pro lado de fora e…e…e…pego meu nariz! Volto eufórico, antes que a porta feche e eu perca também a parte de cima do corpo. Ela sorri aliviada! Um sorriso sincero e lindo!

Ficamos intermináveis horas de segundos comemorando meu ato heróico. E o sorriso da Maria Eduarda mal cabia nela mesma. Até ameaçar uma dança de comemoração ela ameaçou, mas os buracos da Avenida Rebouças mostraram que precisamos repensar sobre cinto de segurança nos ônibus.

E as brincadeiras seguiram, Wellington. Quase todas em silêncio. Próximo à Avenida Paulista, ela se vira totalmente pra mim. Depois olha pra mãe e diz:

– Ele é engraçado, né, Mãe?
– É, né?!
– É. Muito.

E assim, com espírito de quem vai contar o maior segredo do mundo, coloca as mãos em forma de concha. As alinha junto à boca. Assim, deve pensar ela, ninguém ouve o que vou dizer. Respira fundo. Olha pros lados. Olha pra mim. Com voz de sussuro, diz:

– Tony?
– O quê?
– Porque você não vira um palhaço?
– Virar um palhaço? Você acha que ia ser legal?
– Ia. Você é muito engraçado, sabia?
– Hum! Então eu vou virar um, tá?
– Tá.

As mãos se desfizeram do segredo. E o sorriso dela também por alguns instantes. Sua mãe a pegou, e a fez descer do banco. Pela porta dianteira, foram saindo. Maria Eduarda se virou. Me deu tchau. Com um sorriso lindo de quem aprontou uma daquelas.

– Dá tchau pro seu amigo, filha?
– Tchau, Tony.
– Tchau, Maria Eduarda. Foi um prazer te conhecer.
– Imagina. O prazer foi meu.

E foi se sumindo. Sumindo. E a Avenida Paulista, em meio ao caos, fez silêncio nascer. Somente para acompanhar esta história. Somente para acompanhar esta história.


Você pode participar do Conte Sua História de São Paulo enviando texto ou arquivo de áudio para contesuahistoria@cbn.com.br. O programa vai ao ar sábados, às 10 e meia da manhã, no CBN SP.