De emburramento

 

Por Maria Lucia Solla

 

IMG_7276 (1)

 

Quando eu era menina, ficava ‘emburrada’. Não falava com ninguém e ficava de ‘cara feia’. E não era só eu. Éramos uma legião de crianças emburradas. Longe de ser moda, era nossa expressão de descontentamento. Não vamos nos esquecer de que quando eu era ‘menina, o ‘emburramento’ era o máximo de expressão de revolta permitida a nós, os pequenos.

 

Não falava à mesa, não dava palpite, jamais interrompia quando um adulto falava, estudava e tirava notas excelentes, porque era o que se esperava de mim, e pronto. Meu pai dizia que eu não fazia nada além da minha obrigação. Ele tinha razão, e nesse ponto eu me dava bem porque sempre gostei muito de estudar. Agora, a parte do ficar quieta era a mais difícil. Engolia em seco o tempo todo, ‘tirava letra’ das músicas, e cantava, cantava, já que não podia falar. E escrevia. Diário, carta e desabafo. De lá para cá, vocabulário e regras podem ter mudado e evoluído, mas o homem.…

 

E fazer o quê, emburrar? Enredar pela via da crítica virulenta? Aquela do eu estou sempre certo, e você errado? Falar o tempo todo do descontrole e da selvageria que assola o planeta? E olha que não sei da missa um terço!

 

Tem solução? Está tudo errado? Não. Apesar do descontentamento individual e geral, nada está errado. A Natureza segue o seu caminho, de ação e reação, apesar de nós, e da nossa agressão a ela. Só isso. Há algum tempo, nós a violentávamos e assaltávamos, na calada da noite. Hoje, à luz do dia.

 

Selvagens, brincamos de cidadãos. Temos sempre uma palavra de crítica ao outro, e espantosamente sabemos a receita para todos os problemas. Do outro. Filho mata mãe, mãe não fica atrás. Rico come bem, estuda e saqueia o semelhante. Pobre passa fome, não estuda e faz o mesmo. Apesar do preconceito que devasta qualquer possibilidade de entendimento, de acordo e paz.

 

Tem juiz que se degrada, condenado que se recupera. Tem justiça e seu avesso. Em todo lugar, em todo posto. A qualquer preço.

 

E eu? Se tenho receita? Vivo como posso, me aninho como fazia quando criança , me acomodo na solidão que se acomoda em mim, reconheço no espelho a tristeza nos sulcos que não havia ali, e entendo que tenho ainda muito a aprender.

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Escreve no Blog do Mílton Jung

5 comentários sobre “De emburramento

  1. Milton Jung, já afirmei que você é o paulista mais carioca que conheço. Sou seu ouvinte assíduo. Estou lhe enviando alguns artigos, e se você puder postar no seu blog, ou repassar pessoalmente vou me sentir honrado.

    COTIDIANO EM SEGUNDOS: GOVERNO DILMA II X PRODUÇÃO http://alvoradaeconomica.blogspot.com.br/2015/05/o-cotidiano-em-segundos-o-governo-dilma.html

    RESULTADO PRIMÁRIO DO GOVERNO http://alvoradaeconomica.blogspot.com.br/2015/05/cenario-nacional-resultado-primario-do.html

    MEDIDAS RECESSIVAS http://alvoradaeconomica.blogspot.com.br/2015/05/cenario-nacional-medidas-recessivas.html

    Milton Jung, desculpe pela brincadeira por afirmar que você é o paulista mais carioca que conheço…

  2. Nossa fachada de descontentamento muitas vezes vem nessa forma de carranca, né? A gente esquece do “aceita, que dói menos” e segue o resto do dia (ou da semana, ou mês, ou ano) com a cara amarrada, fechada e trancada com um cadeado cuja chave faz questão de esquecer em qual prateleira colocou. Provavelmente naquela em que “colocamos as coisas que não queremos ver”, como diria Frankie.
    Emburrado é a mesma coisa de estar burro? De fingir não conhecer as receitas pra se livrar daquilo que incomoda o humor? Ou de se permitir ser ignorante em relação a algo que perturba a alma?
    Sem respostas para o domingo, desemburremos-nos para não repetir de ano.
    Bjos

    • Sim, Bruno, sim!

      Emburrar, além de manter uma cara sisuda, é empacar! Não podemos esquecer desse detalhe. E empacando…
      aprender sempre!

      Beijo, obrigada pela companhia incondicional (com emburramento ou sem) e boa semana

  3. Adorei isso Bruno “aceita que dói menos”. Como quando a gente vai tomar uma injeção. Se contrair dói muito mais. Malu, um passinho a cada dia né? As vezes maior, as vezes pequenininho, mas sempre pra frente. Assim vamos desfazendo os nós… desemburrando. Bjim goiano

    • Elizabeth querida,

      desfazer os nós, nesta altura dos acontecimentos, desmancha o trabalho todo…, mas você está certa. A gente começa de novo, ué!

      Beijo, e não tem como não repetir o que disse para o Bruno: obrigada pela companhia incondicional (com emburramento ou sem) e boa semana

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s