Avalanche Tricolor: a volta do Imortal!

Grêmio 1×0 Mirassol
Copa do Brasil – Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)

Gremio x Mirassol

Pavón comemora o gol da vitória. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Se não for na bola, que seja na raça. Foi o que ouvi nesta noite de Copa, após conquistarmos a vaga às quartas de final. A frase é potente e inspiradora, mas não explica tudo o que o Grêmio fez na partida de hoje.

Houve, sim, muita entrega, marcação forte, botes certeiros e um esforço além do limite de cada um que esteve em campo. Pensar, porém, que a vitória se fez apenas dessa forma é esquecer a estratégia montada por Luís Castro, a postura do meio-campo e a velocidade e a precisão na troca de passes, em especial pelo lado direito do time.

Foi esse conjunto de ações que fez o Grêmio dominar o jogo a partir dos 15 minutos do primeiro tempo.

Na defesa, Wallace tem feito apresentações seguras. Dá sinais de que pode ser o zagueiro que estamos buscando há algum tempo. Funciona bem ao lado de Gustavo Martins.

Os volantes deram um passo à frente em relação à posição que vinham ocupando nas partidas anteriores. Assim, impediram que o adversário armasse suas jogadas. Noriega e Nardoni desarmaram. Villasanti também, e foi além. Organizou o jogo ao se aproximar dos atacantes.

Pelo lado direito, Diego Caito voltou a jogar bem na lateral. Tem feito boas apresentações desde que chegou ao time. E conseguiu se entender com Pavón, que ocupou a ponta em substituição ao lesionado Tetê. O argentino fez absolutamente toda a diferença.

Foi de Pavón o gol de falta — o raro gol de falta marcado pelo Grêmio — que nos deu a vitória. Nos amistosos durante a Copa do Mundo, ele já havia marcado em uma cobrança na entrada da área. Desta vez, foi com força e categoria. A bola passou pelo lado de fora da barreira e, em curva, seguiu em direção às redes.

Com a entrega que já conhecemos e um apuro maior nos dribles, passes e cruzamentos, Pavón mereceu todos os abraços e aplausos que recebeu. Assim como Marlon, que, do outro lado do campo, na lateral esquerda, anulou as tentativas de ataque do adversário, conduziu a bola à frente e simbolizou, com sua determinação, o que foi o Grêmio na noite desta quarta-feira.

No segundo tempo, sim, a raça foi maior do que a bola. O Grêmio e os gremistas sofremos, corremos riscos. Apesar disso, resistimos. E quem acompanha a trajetória do nosso time nesta temporada sabe o quanto isso nos fez falta em muitos momentos decisivos.

Passar à próxima fase da Copa do Brasil é importante para as pretensões do Grêmio — inclusive financeiras. Muito mais importante, porém, foi o time ter dado uma resposta ao torcedor que, há algum tempo, está à espera de uma mensagem de alento que o faça voltar a acreditar no mito da imortalidade que sempre nos moveu.

Nesta noite, vamos todos dormir acreditando: o Grêmio volta a ser Imortal!

Avalanche Tricolor: casca dura, esperança viva

Mirassol 1×1 Grêmio
Copa do Brasil – Maião, Mirassol (SP)

Gremio x Mirassol

Amuzu comemora com equipe o gol de empate. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

O hino do Grêmio soou na caixa de som instalada na Praça Miguel Torda, no Jardim Londrina, na zona oeste de São Paulo. Foi um carinho da associação de moradores, que havia me convidado, ao lado de minha esposa, para participar de uma cerimônia cujo objetivo era inspirar as pessoas a plantarem árvores. Plantamos um ipê-rosa, árvore nativa do Brasil que se adapta bem ao clima tropical. Ipê vem do tupi-guarani e significa “casca dura”, enquanto sua versão em rosa nos remete à ideia de renovação.

No ato de encobrir as raízes do ipê com terra adubada e bem preparada para fortalecê-lo e torná-lo resistente às intempéries da natureza, ouvi algumas vozes que alertavam para o momento de dificuldade que o Grêmio atravessa. Eram amigos, ouvintes e vizinhos comentando os maus resultados do Tricolor. Preferi não contrapô-los. Não havia por quê. Estou consciente do momento difícil que estamos vivendo. O caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche é testemunha do que penso sobre os problemas atuais.

Apesar da lucidez em relação ao momento que vivemos, sou casca dura como o ipê que plantei. Resisto ao desalento, por mais que ele tenha tomado conta de mim. Estou sempre à procura de um sinal de que algo pode mudar nosso destino. Agarro-me à esperança de que aquilo que nunca foi um dia venha a ser. De forma concreta: o time sem organização se entenderá; a movimentação desajeitada dos jogadores encontrará seu rumo; os passes imprecisos serão trabalhados com esmero; e os chutes fortuitos passarão a ter direção.

Um dia depois de plantar a árvore na praça da vizinhança e comemorar mais um ano de vida — já se foram 63 —, lá estava eu prestes a acreditar que seríamos capazes de superar um adversário para o qual havíamos perdido todos os jogos disputados nesta curta história de confrontos, iniciada em 2022. Imaginei a possibilidade de surpreendermos no interior paulista e vencermos a primeira partida das oitavas de final da Copa do Brasil. Quem sabe ganhar um respiro para que Luís Castro fizesse os arranjos necessários contando com os novos reforços — e a pressão sobre ele e o time arrefecesse.

Nem tanto ao céu, nem tanto ao inferno. Conseguimos um inédito empate contra o Mirassol, ainda mais valorizado pelo fato de termos saído atrás no placar. Tomamos o gol logo depois de chegarmos ao ataque adversário, desperdiçarmos a oportunidade e sermos incapazes de recompor a defesa a tempo de evitar o revés. Não fizemos nada muito especial para empatar. Resistimos na defesa o quanto foi possível, pressionamos minimamente à frente e, em uma roubada de bola, entramos na área adversária e concluímos nas redes, após cruzamento de Tetê e finalização de Amuzu.

Considerados os últimos desastres, ficou de bom tamanho. Levamos a decisão para a Arena, na quarta-feira, e temos chances de passar às quartas de final da Copa do Brasil. Luís Castro ganha sobrevida e terá mais uma oportunidade para ajustar o time e encontrar a escalação ideal diante do elenco que tem à disposição.

Quero crer que, assim como o ipê-rosa sinaliza um período de renovação, o resultado deste domingo tenha o mesmo significado para o Grêmio nesta temporada.

Por via das dúvidas, amanhã vou passar na praça para regar a minha árvore.

Avalanche Tricolor: a esperança do torcedor que ignora a realidade

Mirassol 2×1 Grêmio
Brasileiro – Campos Maia, Mirassol (SP)

Brasileirão - Mirassol x Grêmio - 17/07/2026
Carlos Vinícius marca o único gol do Grêmio. Foto: Rapha Marques / Grêmio FBPA

Os quatro melhores jogadores do Grêmio no primeiro semestre deste ano foram Viery, Arthur, Gabriel Mec e Carlos Vinícius.

Viery já está na Itália, onde defenderá a Fiorentina na temporada europeia que começa agora. Em troca, o Grêmio arrecadará R$ 108 milhões — a terceira maior venda de um zagueiro brasileiro da história. Na noite desta sexta-feira, em Mirassol, Luis Castro precisou recorrer a Kannemann que, infelizmente, já não consegue entregar o futebol que o transformou em um dos grandes ídolos da torcida gremista.

Arthur havia retornado para realizar o sonho de vestir novamente a camisa tricolor. O contrato de empréstimo com a Juventus terminou em junho. O volante aceitava abrir mão de valores que tinha a receber do clube italiano para permanecer no Brasil, mas pedia um contrato de cerca de R$ 100 milhões por três temporadas. O Grêmio preferiu não seguir adiante. Desde então, o time não encontrou quem cumpra a função de conduzir a bola e organizar, ainda que minimamente, o meio de campo. Hoje, vimos o retorno de Villasanti ao time titular, depois de quase 11 meses afastado por lesão.

Gabriel Mec estreou na equipe principal no ano passado e conquistou espaço entre os titulares nesta temporada. Disputou 30 partidas, marcou três gols e deu duas assistências. O Shakhtar Donetsk, da Ucrânia, quer contratá-lo por R$ 70 milhões. O jogador ainda não aceitou a proposta porque o país segue em guerra com a Rússia. Em conversa com jornalistas nesta semana, a direção gremista admitiu que o meia deseja sair. Pela atuação desta noite, ficou a impressão de que ele já começou a partir.

Carlos Vinícius é quem faz os gols do Grêmio. Contra o Mirassol, marcou o décimo dele neste Campeonato Brasileiro. Ainda assim, não atingiu as metas que garantiriam a renovação automática de seu contrato: ser convocado para a Copa do Mundo e participar de 70% dos jogos da equipe. A direção afirma que só pretende renovar se o atacante aceitar o teto salarial estabelecido pelo clube. Sim, pode piorar!

Olhando para esse cenário, fica difícil entender de onde surgiu a minha confiança de que o Grêmio voltaria da pausa da Copa do Mundo jogando um futebol minimamente competitivo. A resposta talvez seja simples: a esperança do torcedor costuma ignorar aquilo que a realidade escancara. Enquanto o elenco perdia seus principais jogadores — ou já convivia com a perspectiva de perdê-los —, eu insistia em acreditar que o time sairia mais forte. Não era análise. Era apenas a velha e conhecida alucinação que acompanha quem torce.

Avalanche Tricolor: o zodíaco não explica o Grêmio

Grêmio 0x1 Mirassol
Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre/RS

Arhur comanda o meio de campo em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Sou do tempo em que Zora Yonara era a autoridade em assuntos astrológicos — hoje seria chamada de influencer zodíaca ou algo do tipo. Suas análises eram motivo de conversa nas rodas de amigos, e o melhor a se fazer era prestar atenção no horóscopo do dia, mesmo que eu fosse um descrente. Cada um adaptava o que ouvia à sua circunstância. Fui tentar esse exercício na Avalanche de hoje para explicar o que vem acontecendo com o Grêmio, que voltou a perder em casa e, nesta segunda-feira, dia 15 de setembro, completará 122 anos.

Descubro que nem a astrologia dá conta de explicar o futebol que deixamos de jogar e a sequência de azares que nos perseguem. Pensei que fosse o tal do inferno astral, mas nem isso explica. Esse período, que antecede o aniversário e costuma ser sinônimo de confusão, não daria conta de justificar 18 meses de futebol capenga e resultados inconsistentes.

A última verdadeira alegria que os gremistas tiveram foi o título do Campeonato Gaúcho, em março de 2024. Alguém lembrará da felicidade recente de assumirmos a gestão da Arena, o que já nos garantiu um gramado de qualidade. Vamos convir, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, que por melhor que isso seja — e acredito que seja —, não influenciou em nada na qualidade do futebol apresentado.

O inferno futebolístico do Grêmio atravessa um tempo que nenhuma sabedoria extraterrena poderia prever. Nesse um ano e meio, uma penca de jogadores foi contratada e já estamos no terceiro técnico. Quando nos iludimos com uma contratação, uma lesão frustra as expectativas — caso mais recente do zagueiro Balbuena. Até mesmo jogadores contestados, mas necessários, como Braithwaite, caem vítimas dessa sina de contusões.

Se conseguimos um resultado mais animador, como na rodada anterior contra o Flamengo, logo a realidade nos joga ao chão com uma derrota caseira. Hoje, tivemos de suportar até jogador sendo substituído por engano.

Adoraria estar aqui comemorando a estreia de Arthur que, claramente, tem qualidade para mudar qualquer meio de campo. Mesmo sem entrosamento, mostrou como conduzir a bola com categoria e fazer o passe com precisão. Seria capaz de contagiar seus colegas de trabalho? Já não sei mais. E chega a me dar arrepio sobrenatural imaginar que ele também possa ser abatido por algum problema físico.

Apesar de tudo, insisto em negar a falência da esperança. Tento crer que, ao comemorarmos mais um aniversário nesta segunda-feira e diante de um clássico Gre-Nal — aquele jogo que dizem poder mudar o destino de qualquer clube —, no próximo domingo, sejamos capazes de iniciar um novo e vitorioso ciclo.

No fim, esperar é o que nos resta — e esperar, para o gremista, nunca foi pouco.

Avalanche Tricolor: devolvam o meu Grêmio!

Mirassol 4×1 Grêmio
Brasileiro – Campos Maia, Mirassol (SP)

Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Uma vergonha! Uma vergonha atrás da outra.

Despindo-me de qualquer romantismo, a campanha do Grêmio na atual temporada é medíocre — a despeito de tudo que, apaixonadamente, já escrevi até aqui.

Fui logrado pela ilusão, levado pela história de superação que sempre foi motivo de orgulho do nosso torcedor. Enxerguei heroísmo e bravura em resultados que deveriam ter sido alcançados com facilidade — como nos dois primeiros jogos da Copa do Brasil, contra equipes sem nenhuma expressão.

No Gaúcho, fechei os olhos para o fato de que nossos melhores desempenhos foram contra times de categorias inferiores. Diante dos dois clubes da Série A, primeiro quase perdemos a classificação à final e, depois, fomos superados com extrema facilidade — especialmente diante da nossa torcida.

Na Sul-Americana, onde sustentamos uma campanha invicta e com duas vitórias, minhas alegrias esconderam a fragilidade dos adversários que enfrentamos. O principal teste ainda está por vir, na próxima semana.

No Brasileiro, após uma vitória improvável na estreia — considerando as falhas cometidas no início da partida — acumulamos uma sequência de derrotas. A mais vexaminosa aconteceu na noite desta quarta-feira, no interior paulista: uma goleada sofrida contra um time estreante na Série A, que ainda não havia vencido nenhum jogo na competição.

Minha paixão cega pelo Grêmio não me permitiu entender o que estava acontecendo na (des)construção do time. Bastavam alguns rompantes individuais de jogadores mais comprometidos com o clube para que eu acreditasse que, a partir dali, viria uma reação. Entusiasmo fugaz!

Hoje, os erros do Grêmio foram escancarados. A marcação é frouxa, feita à distância. O posicionamento defensivo é frágil. Bastam alguns toques de bola para o adversário aparecer na frente do gol. No instante em que recuperamos a bola, a desarticulação se manifesta em passes errados e movimentos sem sintonia. A impressão é de que cada jogador busca uma solução por conta própria. Até nas bolas paradas, como nos escanteios, percebe-se que não há uma ideia a ser executada: cruza-se na área e torce-se para que algo dê certo. Nada dá certo!

O Grêmio que estamos vendo nesta temporada não merece a presença do seu torcedor no estádio — o que explica muito do que falamos na edição dominical desta Avalanche. Parece um time qualquer, irreconhecível, que sequestrou o manto tricolor para entrar em campo. Veste nossa camisa tradicional, mas se despiu da nossa história.

Por favor, devolvam o meu Grêmio!
Antes que a torcida esqueça como é vestir a alma junto com a camisa.
Antes que a paixão silencie.
Antes que a imortalidade vire apenas uma lenda esquecida nos muros da Arena.