Conte Sua História de São Paulo: o pão doce do meu lanche, na Mooca

 

Por Marlene Ayres Bicudo
Ouvinte da CBN

 

 

Nossa família é aquela chamada quarto centenária paulistana, família de professores. Castilho Amaral é o sobrenome por parte de mãe. Ela contava que eram em 17 irmãos, mas com o tempo as fotos contavam com apenas oito: Joaquim, João Miguel, Nelson, Olavo e as mulheres Noemia, Cida, Benedita e Roquellina. Aos três anos, mudamos para o bairro da Mooca, onde vivi por 17 anos. Nossa casa na rua Cassandoca, travessa da Taquari, ficava em meio a outras casas e diversas fábricas de tecelagem, pastifícios, metalúrgicas e indústria Matarazzo. Eu tinha bronquite e o passeio de toda semana era ir ao gasômetro, pois diziam que aquele cheiro de gás fazia muito bem aos problemas respiratórios.

 

As casas eram térreas, com terrenos compridos que tinham quintais de cimento e terra, e quase todas tinham porões. Na parte de terra dos quintais haviam árvores frutíferas, hortas e galinhas. Os porões tinham muitas histórias; além de moradia, tinham espaço para brincadeiras e a parte sombria, parte irregular na altura do porão, desabitada, que para nós era bastante assustadora

 

Na continuação da nossa rua estava o antigo hipódromo que virou o lindo parque da Mooca. Ali frequentei o parquinho — assim era chamada a creche. Com nossos uniformes de calção vermelho, conguinha branco, camisa branca, boné e mochila de tecido vermelho. Tenho boas lembranças, principalmente da hora do lanche. Canecas para cima para tomar leite com café, canequinhas viradas para baixo para quem fosse esperar o Toddy gelado, meu preferido. O lanchinho era quase sempre pão com manteiga, pão com goiabada e pão com banana.

 

Minha mãe ficou viúva quando eu fiz um ano de idade, então logo começou a trabalhar, nada muito comum naqueles anos 1960. Era maravilhoso quando ela deixava um pão doce para o meu lanche, deixado quando passava em frente ao parque a caminho do trabalho. Era uma surpresa deliciosa.

 

O parque da Mooca fez parte da minha vida, ali frequentei a escola modelo primária Dr .Fabio da Silva Prado. Era a única escola que cada sala de aula tinha um espaço individual de recreio. Os alunos não compartilhavam o recreio comum, que era reservado aos mais velhos. Era lindo porque ao redor das salas tinha o bosque. Antes de entrarmos na escola, em seu pátio externo de entrada era estendida a bandeira e todos cantávamos o hino nacional.

 

Foi no parque da Mooca que aprendi a nadar. Tinha uma enorme piscina, com uma boa parte rasa e outra funda, além do espaço com trampolim. A piscina era dividida com uma faixa azul, pois havia o lado feminino e o lado masculino, não podiam se misturar. O vestiário era bastante controlado; nada de biquíni; chuveirada antes de acessar a piscina; e os dedos dos pés eram vistoriados e rigorosamente examinados; todos tinham que abrir os dedos para não esconder nenhuma micose. A incumbência de levar-me à piscina ficava a cargo dos meus irmãos mais velhos, Luis, cinco anos mais velho que eu, e Carlos, cinco anos mais velho que o Luis. E como fazer para tomar conta da irmãzinha sem poder se misturar? Ficávamos lado a lado na faixa separadora. Aprendi a nadar rápido , pois meus irmãos paqueravam as meninas e pediam para elas me ensinarem a nadar e tomar conta de mim.

 

Não lembro de bondes, já estavam no fim de circulação. Nosso passeios eram as visitas aos parentes e eles visitarem nossa casa, era a farra dos primos. Não havia tédio, principalmente na Mooca, em meio a tantos imigrantes italianos, portugueses e tantas outras pessoas maravilhosas que se ajudavam mutuamente tornando a vida mais tranquila e segura.

 

Muitas pessoas gostariam de viver em lugares mais tranquilos, mas confesso que ao retornar de qualquer viagem, sempre digo que adoro esta São Paulo, esse agito, esse movimento que dificilmente você se sente sozinha. Pode passear na Paulista, tem lindos parques, museus, teatros, lojas, igrejas e tudo de montão. Acho o máximo. Aqui tem de tudo, pessoas gentis e educadas que prezam a limpeza, a urbanidade e digo que os paulistanos são generosos.

 

Como paulistana parabenizo minha cidade e convido a todos a amá-la muito mais, preservando e participando de sua zeladoria.

 

Marlene Ayres Bicudo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: locais para conhecer

 

Por Paula Bueno

 

 

Nasci no bairro da Mooca, na década de 1970 e ainda muito menina nos mudamos para a zona norte da cidade, num condomínio de casas chamado Parque Residencial Santa Teresinha, com muita área verde e até um clube. O condomínio era totalmente murado com guaritas. Hoje, penso que a proposta era até muito moderna para a época. No fundo do condomínio tinha um córrego não canalizado. O engraçado é que para nós, crianças, aquilo era como se fosse o fim do mundo mesmo, o limite do planeta. Depois do muro tem o córrego e mais nada, acabou… Todo nosso universo se restringia aquelas ruas e a passar horas e horas brincando de esconde-esconde, pega-pega, barra manteiga, amarelinha e a andar de bicicleta.

 

Meus avós tinham ficado lá na Mooca e nós os visitávamos com muita frequência. Eu particularmente adorava quando ficávamos para o jantar, pois assim só voltaríamos para casa à noite o que significava que eu ia poder ver as luzes da cidade! Eu amava ficar olhando pela janela do carro de papai as luzes dos postes e a iluminação dos prédios, pontes, construções e outdoors (que eram permitidos). Meu momento favorito era passar na Av. Tiradentes e avistar o imenso lustre da Pinacoteca aceso (hoje infelizmente ele não fica mais).

 

Então fui estudar no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo e uma das disciplinas era História da Arquitetura. Tornei-me uma aluna assídua, daquelas que não cede a carteira na primeira fila nem para a melhor amiga! O professor trazia muitas fotos e a descrição detalhada de pontos inimagináveis da cidade com uma riqueza arquitetônica incrível e que infelizmente na maioria das vezes nem nos damos conta, passando por esses pontos sem saber de sua história e sem ao menos enxergá-los, como o Castelinho da Brigadeiro, o Solar da Marquesa de Santos ou o Edifício Martinelli.

 

Uma ocasião, eu já era moça, tive a oportunidade de fazer uma viagem para Buenos Aires. Passamos cinco dias conhecendo a capital, percorrendo suas ruas, observando a arquitetura, a cultura, a gastronomia, os museus, lojas e pontos turísticos. De volta a São Paulo me perguntei: “Por que pagamos para conhecermos a cidade dos outros e não conhecemos a nossa?” Naquele momento me dei conta que gastamos fortunas para conhecermos os principais pontos turísticos de Buenos Aires, Montevideo, Nova York ou Paris sem antes termos dado uma única volta no Parque do Ibirapuera ou ter entrado no MASP.

 

Então comecei a fazer listas de locais em São Paulo com o status: para conhecer! E todos os anos passei a reservar alguns dias das minhas férias para esses passeios.

 

Alguns foram muito marcantes. O pavilhão japonês no parque do Ibirapuera, por exemplo, foi uma grata surpresa. Estávamos andando a esmo pelo parque quando avistamos a construção, entramos e uau! Que lindo! O Museu do Imigrante que me emocionou profundamente quando vi pela primeira vez uma réplica do quadro de Bertha Worms – Saudades de Nápoles. A festa de Nossa Senhora Achiropita, onde além das barraquinhas havia na garagem de uma casa, logo no início da rua, o melhor macarrão com porpeta que já comi na minha vida (com perdão da minha avó). A escultura de Willian Zadig – O Beijo Eterno, localizada no largo São Francisco e que já ficou guardada nos depósitos da prefeitura por mais de dez anos por ser considerada imoral. Subir a 23 de Maio a pé, isso mesmo, a pé, no aniversário de 450 anos da cidade. Foi Incrível! Ou passar um réveillon na Paulista com um mar de gente pra todo lado onde mal se consegue respirar, mas mesmo assim você não quer ir embora!

 

Quando adulta fui trabalhar com hotelaria, o que me permitiu viajar bastante e conhecer lugares incríveis, mas o sentimento de casa, de estar em casa, aquele suspiro que se dá ao sentir um calor gostoso como se fosse um abraço apertado não sai do meu coração quando ponho os pés na área de desembarque do aeroporto da minha amada São Paulo.

 

Paula Bueno é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe da série em homenagem aos 465 anos da nossa cidade: envie seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br. Para conhecer outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br

Conte Sua História de São Paulo: orgulho de ter nascido, crescido e envelhecido na cidade

 

Por Sérgio Paulo Böemer

 

 

Em junho de 1963, uma jovem parturiente, moradora do longínquo bairro de Arthur Alvim, dá à luz a um menino do hospital conveniado com o antigo IAPETC – Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Empregados em Transportes e Cargas, localizado no Ipiranga, hoje Hospital Leão XIII. Nascia um dos maiores amantes da cidade de São Paulo.

 

Posteriormente, a família se mudou para o bairro do Brás, quase divisa com o da Mooca —- era na Mooca que ficava a escola estadual – a E.E.P.S.G. “Antonio Firmino de Proença”, até hoje em atividade – a qual frequentou do jardim da infância a sua formatura no colegial — ou seja, por mais de 14 anos.

 

Um detalhe: ao adentrar na adolescência, por força de mudança do emprego de seu pai, a família mudou-se para o bairro da Casa Verde, na zona Norte, ele continuou a estudar no colégio na Mooca, tendo que se utilizar de duas conduções para ir e duas para voltar à casa, pois naquela época não havia metrô em atividade — estava em construção. Ele e seu irmão eram os únicos alunos a morarem tão longe do colégio. Com a separação de seus pais, o garoto, o irmão e a mãe, retornaram a viver no Brás, para sua alegria.

 

Mais tarde, esse amante da cidade, frequentou as faculdades da Mooca, do Ipiranga, da Liberdade, da avenida Brigadeiro Luis Antônio, na Bela Vista … Forçado mais uma vez a se mudar, seu destino foi Sorocaba, no interior, mas tendo uma namorada nesta cidade, semanalmente, se encontrava feliz em sua amada São Paulo. Na primeira oportunidade, retornou ao Brás.

 

Por amar o centro velho dessa capital, sempre andava pelas ruas Senador Feijó, Barão de Paranapiacaba, Direita, Boa Vista, Líbero Badaró, Xavier de Toledo. Tem orgulho ao falar do Teatro Municipal, dos antigos prédios do Mappin, Light e Votorantin. Se vangloria ao citar as arquiteturas do Palácio da Justiça, na Praça Clóvis Bevilácqua, do Viaduto do Chá, do Minhocão –- hoje elevado Presidente João Goulart, que já foi Presidente Costa e Silva — da Pinacoteca e do Museu de Arte Sacra, ambos na avenida Tiradentes.

 

Tal amante da cidade, sempre que pode, exalta os padres Manuel de Nóbrega e José de Anchieta, que, em 25 de janeiro de 1554, fundaram um colégio para ser o centro de educação e formação dos indígenas para se adequarem ao modo de vida dos jesuítas portugueses. Eles jamais imaginariam que estariam fundando uma das maiores megalópoles do mundo.

 

Bem, pode haver muitos amantes de São Paulo, mas esse menino que tem Paulo no nome, e orgulho de ter nascido, crescido e envelhecido nesta cidade maravilhosa, crê que o lema lançado no brasão do Estado de São Paulo “pro brasilia fiant eximia” (‘pelo Brasil, faça-se o melhor’), sempre será empunhado, por primeiro, por esta cidade.

 

Sérgio Paulo Böemer é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também outros capítulos da nossa cidade: escreva para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: da rua da Mooca sai para conhecer minha cidade

 

Por Paula Bueno
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

 

Nasci no bairro da Mooca, na década de 70 e ainda muito menina nos mudamos para a zona norte da cidade, num condomínio de casas chamado Parque Residencial Santa Teresinha, com muita área verde e até um clube. O condomínio era totalmente murado com guaritas. Hoje, penso que a proposta era até muito moderna para a época. No fundo do condomínio tinha um córrego não canalizado. O engraçado é que para nós, crianças, aquilo era como se fosse o fim do mundo mesmo, o limite do planeta. Depois do muro tem o córrego e mais nada, acabou… Todo nosso universo se restringia aquelas ruas e a passar horas e horas brincando de esconde-esconde, pega-pega, barra manteiga, amarelinha e a andar de bicicleta.
 

 

Meus avós tinham ficado lá na Mooca e nós os visitávamos com muita frequência. Eu particularmente adorava quando ficávamos para o jantar, pois assim só voltaríamos para casa à noite o que significava que eu ia poder ver as luzes da cidade! Eu amava ficar olhando pela janela do carro de papai as luzes dos postes e a iluminação dos prédios, pontes, construções e outdoors. Meu momento favorito era passar na Av. Tiradentes e avistar o imenso lustre da Pinacoteca aceso (hoje infelizmente ele não fica mais).
 

 

Então fui estudar no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo e uma das disciplinas era História da Arquitetura. Tornei-me uma aluna assídua, daquelas que não cede a carteira na primeira fila nem para a melhor amiga! O professor trazia muitas fotos e a descrição detalhada de pontos inimagináveis da cidade com uma riqueza arquitetônica incrível e que infelizmente na maioria das vezes nem nos damos conta, passando por esses pontos sem saber de sua história e sem ao menos enxerga-los, como o Castelinho da Brigadeiro, o Solar da Marquesa de Santos ou o Edifício Martinelli.
 

 

Uma ocasião, eu já era moça, tive a oportunidade de fazer uma viagem para Buenos Aires. Passamos cinco dias conhecendo a capital, percorrendo suas ruas, observando a arquitetura, a cultura, a gastronomia, os museus, lojas e pontos turísticos. De volta a São Paulo me perguntei: “por que pagamos para conhecermos a cidade dos outros e não conhecemos a nossa?” Naquele momento me dei conta que gastamos fortunas para conhecermos os principais pontos turísticos de Buenos Aires, Montevideo, Nova York ou Paris sem antes termos dado uma única volta no Parque do Ibirapuera ou ter entrado no MASP.
 

 

Então comecei a fazer listas de locais em São Paulo com o status: Para conhecer! E todos os anos passei a reservar alguns dias das minhas férias para esses passeios.
 

 

Alguns foram muito marcantes. O pavilhão japonês no parque do Ibirapuera, por exemplo, foi uma grata surpresa. Estávamos andando a esmo pelo parque quando avistamos a construção, entramos e uau! Que lindo! O Museu do Imigrante que me emocionou profundamente quando vi pela primeira vez uma réplica do quadro de Bertha Worms – Saudades de Nápoles. A festa de Nossa Senhora Achiropita, onde além das barraquinhas havia na garagem de uma casa, logo no início da rua, o melhor macarrão com porpeta que já comi na minha vida (com perdão da minha avó). A escultura de Willian Zadig – O Beijo Eterno, localizada no largo São Francisco e que já ficou guardada nos depósitos da prefeitura por mais de dez anos por ser considerada imoral. Subir a 23 de Maio a pé, isso mesmo, a pé, no aniversário de 450 anos da cidade. Foi Incrível! Ou passar um réveillon na Paulista com um mar de gente pra todo lado onde mal se consegue respirar, mas mesmo assim você não quer ir embora!
 

 

Quando adulta fui trabalhar com hotelaria, o que me permitiu viajar bastante e conhecer lugares incríveis, mas o sentimento de casa, de estar em casa, aquele suspiro que se dá ao sentir um calor gostoso como se fosse um abraço apertado não sai do meu coração quando ponho os pés na área de desembarque do aeroporto da minha amada São Paulo.
 

 

Paula Bueno é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio e a narração de Mílton Jung. Envie seu texto sobre a cidade para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de SP: os valores de meu pai

 


Por Luciano Ribeiro
Ouvinte-internauta da Rádio CBN

 

 

Em 1986, éramos sócios do Clube Juventus, no Bairro da Mooca, zona leste, mas morávamos no Cangaíba, distrito da Penha, bem longe dali. Eu, no auge dos meus 14 anos, me sentia muito orgulhoso em poder ir desde a minha casa até ao clube sozinho. Pegava um ônibus na Avenida Cangaíba, descia na Penha, embarcava no Vila Limoeiro, próximo ao Cemitério. Ali seguia em uma longa viagem de quase hora e meia até descer na portaria do clube, e aproveitar o dia quente de férias nas piscinas.

 

Certo dia, ao sair do Clube, deparei-me com a seguinte situação: tinha uma nota de Cz$ 5.000,00 (na época a moeda era o cruzado) e o valor da passagem era de Cz$ 120,00. No ônibus havia uma placa que dizia: troco máximo Cz$ 1.000,00 (posso estar equivocado com os valores exatos). Bem, fui até uma Padaria na redondeza e comprei um “Freshen up”, um chiclete que tinha um recheio líquido refrescante. Cz$ 180,00. Ao fazer o troco, a mocinha do caixa cometeu um equívoco, em vez do troco de Cr$ 4.820,00, ela me entregou Cz$ 5.320,00, e pior, a minha nota de Cz$ 5.000,00 veio junto embaixo de todas. Mais que depressa dobrei aquela pequena fortuna, a coloquei no bolso e segui para minha casa.

 

No ônibus, fazia planos … estava praticamente rico, quantas fichas de fliperama eu iria comprar. Ah! Aquele tênis que eu pedi para a minha mãe, se eu quiser comprar vou poder também! Nossa! Eu estava extasiado. O fim de semana estava garantido: shopping, cinema, sanduíche naquela famosa lanchonete do M amarelo… Uau!! Ao chegar em casa, cometi o “pior erro da minha vida” (ao menos eu enxerguei assim por alguns bons anos). Coloquei a mão no bolso, saquei aquele monte de dinheiro e mostrei, orgulhosamente, ao meu pai: – “Pai, olha o que eu consegui. Estou rico!”. Meu pai, com o semblante sempre sereno fechou a cara, e um pesar imenso tomou conta do rosto dele. O tom grave da voz dizia tudo: – “Onde você conseguiu este dinheiro?”. Expliquei, já não tão orgulho assim, a minha epopeia. Meu braço franzino sentiu a enorme pressão das mãos dele me levando até o carro. Já começava a anoitecer, deviam ser próximo das 7 da noite, estava calor, e nosso carro não tinha ar condicionado. Levamos cerca de uma hora e meia até chegar a padaria. Meu Pai fazia o costumeiro sermão (ele costumava gastar horas em uma conversa, que era pior que vinte surras). Durante todo o caminho, eu o ouvi dizer sobre o que era pegar uma coisa que não era minha, que ele nunca tinha me ensinado que isto era motivo de glória, que… ahhh… Porque eu não fiquei quieto??? Por que tive que mostrar a ele? Como fui burro…

 

Ao chegar a padaria encontramos um Sr. Grande, de cabelos brancos (ele era bem maior que meu pai). O homem apontava e falava alto para a moça, com olhos vermelhos de tanto chorar… Ela tinha uma barriga enorme, estava grávida… Meu pai interrompeu a conversa e ainda com aquela pressão no meu braço, disse que eu tinha algo para dizer… Entreguei a nota de Cz$ 5.000,00, e a de Cz$ 500,00. Com a voz embargada, pedi desculpas, e meu Pai emendou: – “O pior, é que ele percebeu o engano, pegou o dinheiro, e foi embora. Eu não ensinei isto a ele. Por isso está aqui, devolvendo.” A moça não agradeceu, não olhou na minha cara. O homem grande, agradeceu ao meu Pai, e lhe apertou a mão, que então lhe pediu que não punisse a funcionário pelo engano.

 

Demorou algum tempo para eu compreender perfeitamente aquilo tudo, e hoje devo meu caráter à forma como fui criado e educado por minha família. Com uma filha de sete anos, entendo de forma tão clara qual o legado desta, e de várias outras situações, em que meu pai me passou ao longo da minha infância e adolescência.

 

Valores… Não cabem nos bolsos.

 

Luciano Ribeiro (e o pai dele) foram personagens do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode contar outros capítulos da nossa cidade aqui na CBN: envie seu texto para milton@cbn.com.br. Ou agende entrevista no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Você vai lá, grava o depoimento e ainda ganha um DVD com suas memórias registradas. Se quiser outras histórias de São Paulo visite o meu blog, o Blog do Mílton Jung

Conte Sua História de SP: os pirilampos da Mooca

 

Por Cleide Cais
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Era 1954. Eu tinha sete anos. Morávamos na Mooca, bairro de preferência dos descendentes de italianos que haviam imigrado em busca de terras férteis. Minha avó, que viera de Mantova, tinha sua chácara naquele mesmo bairro, onde cultivou por muitos anos verduras que vendia e com cujo produto criou seus quatro filhos.

 

A Mooca era mágica para mim. Naquela época eu já revelava a semente de leitora contumaz, que sou. Aprendera a ler com seis anos e sempre estava procurando leitura, me recordo de que minha diversão era ler o que quer que fosse que estivesse em placas de ruas do bairro.
Meus horizontes eram a Mooca. A Rua Florianópolis onde estava nossa casa no número 629 não tinha asfalto, muito menos calçadas. Era um lamaçal quando chovia; um lamaçal lindo, onde eu afundava minhas alpargatas para horror da minha mãe.

 

Adorava a chuva, que continua até hoje a ser alvo de minha extrema paixão. Tinha uma ligação mágica com um limoeiro que estava plantado no terreno daquela modesta casa: seus frutos eram alaranjados e sua polpa também. Mas a magia vinha dos pirilampos que nele tinham sua morada.
À noite, além das estrelas e da lua, quando presente, eu tinha as luzes multi-coloridas dos pirilampos.

 

Porém uma noite foi especial: a noite do 25 de janeiro de 1954: a Cidade de São Paulo fazia 400 anos. Uma grande festa foi programada a ser realizada em um parque muito distante do Bairro da Mooca.

 

Minha mãe colocou em mim e na minha irmã, então com cinco anos, nossos melhores vestidos, meias brancas e o par de sapatos brancos de dias de festas. Fomos nós quatro: minha mãe, linda, brilhando em sua modéstia, meu pai, belo e magnífico, elegante em seu único terno.
Fizemos uma longa viagem em duas linhas de ônibus, até chegarmos ao local da festa do quarto centenário da Cidade.

 

São Paulo era, na ocasião, a maior cidade da América Latina com 2,5 milhões de habitantes. Os preparativos para as comemorações tiveram início três anos antes da data, culminando com a entrega aos paulistanos do Parque do Ibirapuera espaço com cerca de um milhão e meio de metros quadrados, cujo projeto arquitetônico foi feito por Oscar Niemeyer e o paisagismo por Roberto Burle Marx.

 

O parque foi o presente para a Cidade destinado a ser um símbolo do patrimônio coletivo e ponto de referência obrigatório da Cidade de São Paulo como constou do “Boletim Informativo da Comissão do IV Centenário da Cidade de São Paulo, n. 02 – São Paulo – Brasil – Junho 1953, Arquivo Edgard Leuenroth”.

 

Chegando ao local, após a longa viagem, eu estava encantada com tudo o que via, automóveis, muita gente alegre, luzes, fogos, porém, o clímax de repente me atingiu: de um aviãozinho chovia do céu milhares e milhares de estrelas de papel prateado sobre todos nós! Eram estrelas comemorando o IV Centenário da minha Cidade! Quanta emoção ao notar todas as crianças correndo para tentar pegar aqueles lindos pedaços de papel prateado, aquelas magníficas estrelas que brilhavam como a luz dos pirilampos do meu limoeiro.

 

Por muitos anos guardei a minha estrela de papel laminado dentro de um livro. Porém, o tempo passou, para chegar aos meus 67 anos fui perdendo coisas, perdendo pessoas, perdendo bichos, perdendo amigos, perdendo até a mim mesma, e, com essas perdas se foi a estrela do quarto centenário da minha Cidade.

 

Mas a emoção eu não perdi , hoje, lembro de tudo, como se a festa estivesse se repetindo e todas as pessoas amadas estivessem ao meu lado, correndo para catar as estrelas de papel prateado que o aviãozinho derramava.

 


O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, aos sábados, no CBN SP. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode participar enviando seu texto para milton@cbn.com.br ou agendando entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa (contesuahistoria@museudapessoa.net).

Conte Sua História de SP 460: o bonde que levava à zona do meretrício

Por Antonio Favano Neto

 

 

Estudava no Liceu Coração de Jesus, nos Campos Elíseos, e morava no Alto da Mooca. Para estudar, ia de de ônibus cujo ponto inicial era na rua do Oratório com Fernando Falcão e o ponto final, na praça Clóvis Bevilacqua. Caminhava até o Largo do Tesouro e tomava o bonde Júlio Conceição, próximo do Liceu, porém muito mais perto da zona do meretrício, que existia oficialmente em São Paulo: as famosas ruas Iaboca e Aimorés, hoje o maior centro comercial de confecções do Brasil. O mais curioso é que o bonde saía do Largo do Tesouro apinhado de homens nos estribos, completamente lotado, e ao chegar no segundo ponto de parada, na rua José Paulino, parecia que a tropa de choque da antiga Força Pública com seus meganhas prenderia a todos. Não ficava um passageiro nos estribos, desciam correndo como crianças para dentro da zona.

 

Quando o dinheiro dava, eu pegava o ônibus Estações que fazia o rodízio das estações do Norte, Sorocabana e Luz, fazendo um contorno por todo o centro expandido de São Paulo da época. Defronte a Caixa Econômica Federal, ao lado do relógio da Praça da Sé, saía o ônibus circular Linha 1, que passava pelo Largo São Bento, Paissandu, Viaduto do Chá, Largo São Francisco, Praça João Mendes e Sé. Eram ônibus americanos de última geração, Thin Coach, com breque a ar que fazia barulho ao ser acionado, que mais parecia um aviso aos pedestres: estou perto, cuidado.

 

Das coisas mais pitorescas, eram as mães que acordavam de madrugada para levar os filhos na rua do Gasômetro para as crianças respirarem a fumaça do gás que saía dos bueiros. Na rua Santa Rosa existia o trenzinho da Companhia de Gás de São Paulo com cinco vagões, que partia do Largo do Pari com destino à rua da Figueira para descarregar o carvão que chegava da Europa, via Porto de Santos. Isto tudo na contra-mão do trânsito.

 

Antonio Favano Neto é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade, mande seu texto para milton@cbn.com.br ou agende entrevista no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Outras histórias de São Paulo você encontra no meu blog, o Blog do Mílton Jung

 
 
 
 

Conte Sua História de SP: pegar umas minas na Mooca

 

Por Jaime Diniz
Ouvinte-internauta da CBN

 

Nasci em Belo Horizonte, estou com 52 anos e me considero desde sempre “Mooquense”. Cheguei em São Paulo no início da década de 1970. Estava com 11 anos. O bairro escolhido pelo s meus pais não poderia ter sido melhor. Verdade que a primeira impressão não foi das mais animadoras.

 

Os dias em São Paulo pareciam sempre nublados. A garoa insistia em não sair de minha porta. Da fresta de minha janela, num antigo sobrado da rua Borges de Figueiredo, pelejava para ver uma bola rolando entre pés da molecada, mas isso não era comum de se ver nas ruas do bairro. Onde estavam os campos de várzea? Por que meus vizinhos eram apenas galpões e fábricas?

 

Foi aí que meu pai me explicou: “Filho, a Móoca é um bairro único, aqui nós temos muitas fábricas e galpões mas temos também a tradição de um povo acolhedor e trabalhador. Você vai se acostumar”. E não é que meu pai tinha razão? Aos poucos comecei a entender e a me apaixonar pelo bairro. A diversão era sempre garantida. Tínhamos o saudoso “Desafio ao Galo” na Javari. Era o melhor futebol de todos os tempos. 

 

À noite podia-se comer uma bela pizza de balcão da São Pedro. As matinês do cine Ouro Verde e do velho Patriarca eram imperdíveis. o Teatro Arthur Azevedo oferecia peças e shows para todos os gostos. As domingueiras do Juventus eram o melhor lugar para se pegar umas minas. Nas missas de domingo da São Rafael podia-se ouvir sem custo os melhores tenores e sopranos da cidade, oriundos de familias Italianas que aqui residiam.

 

Para se conseguir um emprego bastava visitar às fábricas da Henry Ford. Para os muitos que ainda não conhecem este bairro vai uma dica: a Móoca continua até hoje a mexer com os corações paulistanos!   

 


 

Conte Sua História de SP: moradora e turista da nossa cidade

 

Por Adriana Yamamoto Christofolete
Ouvinte-internet da CBN

 

Sou uma paulistana que aprendeu a ver nossa Sampa com olhos de turista. Cresci na região Oeste de São Paulo, no bairro do Bonfiglioli. Vivi até os 21 anos nessa região, a vi crescer e passei grande parte da adolescência passeando no meu quintal: a USP. Naquela época era aberta ao público, andava de bicicleta pela FAU, perto do MAM, empinava pipa, fazia yoga e namorava comendo pipoca com queijo na Praça do Relógio. Fazia parte do Grupo Escoteiro Paineiras que tinha sua sede dentro do campus. Não tinha ideia de como era um privilégio estar nesses espaços!

 

Ouça este texto que foi ao ar no CBN SP e sonorizado pelo Cláudio Antônio.

 

Em 1991, quando entrei na psicologia do Mackenzie – apaixonei-me pelos prédios de tijolinho aparente. Adotei o campus do Mackenzie e seu entorno, onde conheci meus melhores amigos e meu marido, passei a frequentar e conhecer mais a região do centro e da Avenida Paulista. 

 

Em 1993, casei e passei a viver na Móoca, meu! Nunca tinha imaginado que o bairrismo fosse tão forte. Fui adotada pela Moóca e pelos mooquenses, com os quais  criei meus filhos passeando pelos Parques do Piqueri, Ibirapuera e do Carmo.

 

Contudo, em 2004, tivemos que ir embora para a cidade de Bertioga, litoral de São Paulo. E, além das saudades de todos e dos lugares cotidianos, passamos a sentir falta de algo que é tão óbvio para quem nasceu e vive em São Paulo desde sempre: ter de tudo à mão, desde um simples café expresso a qualquer hora até a enorme diversidade cultural. É quase absurda, mas até a visão do traçado de luzes dos carros, à noite, na Marginal, faz falta! Sem falar no acolhimento dos prédios por toda a cidade. E o pôr de sol nas tarde de outono? Devido à poluição é um vermelhão lindo! Fazer o quê nem tudo é perfeito!

 

A angústia do afastamento, nos fez, nos últimos anos, passear mais em São Paulo. Sempre que podemos, visitamos nossos amigos e familiares. Aproveitamos a variedade gastronômica para todos os bolsos (pastel de feira, coxinha na padaria, jantar na Rua da Consolação, almoçar em Cantina na Moóca, comida mineira, japonesa ou árabe no shopping, ou comida chinesa delivery. Fizemos quase todos os roteiros do TurisMetrô, só se paga o bilhete da passagem e somos guiados por pontos turísticos e históricos de nossa cidade, inclusive parques e museus; frequentamos o da Língua Portuguesa, o do Futebol, o da Imagem, o MASP, o MAM, o MAC, a Pinacoteca, o Centro Cultural do Banco do Brasil, a Sala São Paulo junto à Estação Julio Prestes, o Pátio do Colégio,o Mosteiro São Bento, o prédio do Banespa, os teatros FAAP, Tuca, entre tantos outros. Sou associada ao SESC e curtimos suas instalações e maravilhosos shows e peças teatrais a preços acessíveis. Ou, simplesmente, viemos caminhar pelas avenidas Paulista e São João para tomar um sorvete, café, comer quebra queixo ou pamonha numa tarde de domingo!

 

Atualmente, moro e trabalho em Bertioga e São Paulo, mas não abro mão de passar os fins de semana por aqui. Definitivamente, minha alma é paulistana!

 


Você pode participar do Conte Sua História de São Paulo enviando um texto para milton@cbn.com.br ou marcando uma entrevista, em áudio e vídeo, no site Museu da Pessoa.

Foto-ouvinte: a cara de São Paulo aos 459 anos

 

O sol nasce na Mooca

 

Um céu colorido pelo dia que começa na Mooca, dos mais tradicionais bairros da capital paulista, foi escolhido pela ouvinte-internauta Ana Lucia Vieira Santos para representar a “Cara de São Paulo aos 459 anos”. Esta vista, ela tem do terraço do prédio onde mora.

 

Veja o álbum completo com fotos enviadas pelos ouvintes-internautas e nossos colegas da CBN com a “Cara de São Paulo aos 459 anos”.