Conte Sua História de São Paulo: a porteira da República da Mooca

Renato Spandri

Ouvinte da CBN

Nasci num centro interplanetário chamado Mooca. Fica em São Paulo, a uns tantos metros do marco de fundação desta minha cidade. Dentre muitas outras, uma recordação da minha infância é a velha porteira da Mooca — aquele ponto onde a rua da Mooca cruzava a linha de trem da antiga São Paulo Railway. A porteira era um grande portão deslizante que um funcionário empurrava para fechar o trânsito e dar passagem aos trens. Era também o nome do cruzamento: a internacional porteira da Mooca!

Havia nesse ponto uma passarela de aço para os pedestres: alta, escadaria abundante, com vista para todos os lados da cidade. Sentados nos degraus mais acima, crianças, eu e meus primos, jogávamos adivinhações sobre os próximos trens que passariam pela porteira: locomotivas vermelhas da rede, composição metálica do suburbano, vagões de carga de toda geometria e todo formato, numerados ao acaso.

Era um brinquedo parecido com o que já foi do gosto dos meninos ingleses: o trainspotting, em que se adivinhava ou memorizava o número do trem que passaria na estação. Brincadeira que nos unia em semelhanças – mooquenses e londrinos – por uma coincidência inconsciente e coletiva infantil. Era genial!

Hoje, a porteira da Mooca foi substituída por um viaduto, professor Alberto Mesquita de Camargo — ícone do bairro, fundador da escola São Judas, uma grife da Mooca, e professor de Português e Latim de minha mãe Marina Stella, no tempo em que ela fez ginásio numa pequena escola na rua Clark: berço da Universidade São Judas. Marina Stella ( ou Stella Maris, como lembrava sempre o latinista Mesquita) era paulistana da gema e viveu com meu pai, Giancarlo, no tempo jovem guarda da Mooca – lambretas, saias rodadas, cinemas dominicais (o Patriarca, o Ouro Verde, o Roma), bailes no Juventus…

Ah, Juventus. Grandioso! Status de corporação, da Mooca para o mundo, um jeito de ser em branco e grená. Uma espécie de exército do bem, de uma espécie de república universal: a República da Mooca!

Renato Spandri é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Venha participar deste quadro, registre aqui as suas lembranças da cidade. Escreva e envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidades, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

4 comentários sobre “Conte Sua História de São Paulo: a porteira da República da Mooca

  1. Parabéns Renato Spandri, que história linda, viva nossa Mooca , nosso bairro da Z.L ., Emocionante , Stelinha, ou Stelita sua mãe, está muito orgulhosa de ser seu filho . Bjus Rose Brunhara

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