De vó Clélia

 

Por Maria Lucia Solla

 

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Hoje, 22 de dezembro de 2014, nasceu para uma nova vida, a minha mãe, a Dona Clélia Calò Solla. Eu sentia ter duas mães, a minha verdadeira e a minha sogra, e as duas resolveram partir quase quase juntas.

 

Dona Ruth, minha sogra, que se foi há dois dias, era uma mulher de estrutura e estatura grande e forte, decidida e independente. Ao contrário dela, minha mãe sempre foi recatada, de estrutura e estatura delicadas, e de fala mansa. Artista e cozinheira de mão cheia.

 

Tenho quase quase certeza de que a vó Ruth se desligou do corpo que a prendia ao leito e foi, como vão as almas quando se soltam da prisão do corpo, até onde estava a mamãe. Já chegou lá animada, chamou a mamãe e disse: segura na minha mão, Clélia, e vem comigo para a liberdade.

 

A mamãe, que pouca intimidade teve com a liberdade, durante toda a vida, sorriu ao rever a amiga distante, em quem confiava, deu a ela a mão, e se foram. Soltaram as amarras que ainda as prendiam a este planeta e saíram voejando, como voejam as almas.

 

A mamãe faria, em 28 de março, 88 anos. Casou-se aos dezoito, com seu primeiro e grande amor, e foi a ele e à família que dedicou cada dia da sua vida. Começaram a namorar num baile, dançando ‘ Eu sonhei que tu estavas tão linda, de Altemar Dutra. A mamãe era muito bonita: olhos verdes, com os quais presenteou meu filho mais novo, alourada, pele branquinha e muito, muito delicada. Falava baixinho e era discretíssima. Nem poderia ser diferente, com meu pai sempre controlando cada detalhe da vida.

 

A mamãe casou menina, e eu nasci quando ela ainda não tinha deixado a meninice. Deve ter cortado um doze comigo, que sempre fui, como dizer, um pouco diferente da maioria das meninas da minha idade. Ela encarou o desafio. E qual seria a outra alternativa? Depois, bem depois, 14 anos depois chegou meu irmão Oswaldo, mesmo nome do meu pai, e foi aí que se deu o encontro de duas almas gêmeas. Ela e meu irmão.

 

Desde o primeiro contato foram unidos, cúmplices, apoio um para o outro. Sempre! E meu irmão foi dedicado a ela, sem trégua, até o derradeiro momento.

 

Obrigada, mãe, pela minha vida, por seus cuidados e pelo exemplo de generosidade, humildade e o trato amoroso a todos que passaram por tua vida.

 

Paz, Luz, Amor de verdade e muita alegria junto ao vovô Vito Calò, à vovó Grazia, ao papai e todos os que formarão o teu novo mundo.

 

Gratidão! Amor!

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De vó Ruth

 

Por Maria Lucia Solla

 

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Agora há pouco, sábado, dia vinte de Dezembro de dois mil e quatorze, nasceu para mais uma vida, a minha sogra, a Dona Ruth Kroeff.

 

Nem se preocupe pensando que este texto será um texto triste.

 

Absolutamente!

 

Da Dona Ruth só memórias boas e principalmente apetitosas, porque ela cozinhou a vida toda, como ninguém! E para um batalhão de locais e agregados, como se diz por lá. Ela sempre perguntava: ‘quantos dezoito somos para o almoço?’ Era a senha para a sua entrada na cozinha.

 

A cozinha dela, aquela diária e corriqueira, sempre incluía um assado, que era uma de suas especialidades, uma linda salada, (quando eu andava por lá, ela sempre me chamava para enfeitar o prato da salada), arroz, feijão, alguns tipos de misturas e muita, mas muita sobremesa.

 

Tive outros maridos, mas uma sogra só a quem sempre amei = admirei e respeitei. E com esse seu novo nascimento, não muda nada. Ela continuará, para sempre, a minha sogra querida, e eu para ela, a sua norinha querida. A sua Lu, a sua Luzinha.
Aprendi tanto com ela! Do seu vocabulário único e delicioso e só dela, mesmo morando na cidade há anos e anos, aprendi que carteira era guaiaca e dentadura cremalheira. Só para dar uma amostrinha.

 

Me lembro do tempo em que a Dona Ruth já dizia que não iria a festa nenhuma, porque estava com tremedeira miúda. Eu entendia tão bem a minha sogra! Somos muito parecidas (hoje eu tenho tremedeira miúda!). Ela me ensinava do seu próprio manual de sobrevivência e estava sempre sempre do meu lado, principalmente quando algum perrenguezinho desandava.

 

Sogra de olhar de cumplicidade, que bota paninhos quentes em lugares que estavam gritando por eles, mas ninguém mais percebia; que sorri com os lábios e com o olhar quando a gente chegava, só gente muito sortuda como eu, para ter.

 

Vai em paz, Dona Ruth, que seu posto já está sendo preparado desde há muito.

 

Nós ainda ficamos mais um tanto, com o coração apertadinho agora, mas cheios de gratidão por ter participado da tua vida aqui e por tê-la compartilhada, pela senhora, com todos nós, os locais e os agregados, fossem eles quem fossem.

 

Meu amor continua com a senhora. Intocado.

 

Com meus filhos e netos e com todos os familiares e amigos, faço parte da corrente que vai conduzi-la, quem sabe, até o portal da sua nova morada.

 

Vó Ruth, eu te amo!

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

Leis para evitar tragédias têm de ser drásticas e rápidas

 

Por Milton Ferretti Jung

 

O incêndio da Boate Kiss ficou marcado por ter sido a maior tragédia a enlutar uma cidade brasileira,a gaúcha Santa Maria. O fogo,que matou e mutilou inúmeras pessoas,a maioria composta por jovens que imaginavam passar o sábado se divertindo,nunca será esquecido. Mãe e irmã de sócio da boate depuseram,recentemente,durante mais de três horas,a portas fechadas,na 1ª Vara do Júri,no Foro Central de Porto Alegre. O processo está em fase de instrução e tudo indica que ainda ouviremos fala dele por muito tempo. Era de se acreditar que o incêndio da Boate Kiss,entre outras coisas,servisse de dura lição às autoridades de todos os níveis,capazes de produzir leis que evitem a repetição do terrível acidente.

 

Eis,entretanto,que uma notícia divulgada pela mídia,referindo-se ao ocorrido,em Porto Alegre, na Stuttgart Danceteria, de Porto Alegre – suposta briga de gangues com troca de tiros – provocou a morte de um jovem e mais 17 feridos. Este tipo de ocorrência,dependendo da zona da capital e dos hábitos dos frequentadores de casas noturnas,não me causa espécie. Espanta-me,isso sim,que os proprietários da boate ainda não foram ouvidos sobre o tiroteio. Pior ainda,está aberta,desde 2012,graças a uma liminar.Foram várias as tentativas frustradas visando à proibição de sua abertura. A Stuttgart possui um processo numa Vara da Fazenda Pública,contra a prefeitura da Capital gaúcha,exigindo a liberação do local,desde 2010. Ainda não houve sentença nesse processo.A danceteria tem capacidade para 700 pessoas,mas o número de presentes,por sorte, era bem menor na hora da troca de tiros. É inadmissível que as leis que visam evitar tragédias como a da Boate Kiss não sejam mais drásticas e se arrastem durante anos. Repito o que escrevi faz pouco:as autoridades de todas espécies têm de fazer valer as leis em vigor,que pelo jeito não são levadas muito a sério.

 

Bem ao contrário agem as autoridades que cuidam do trânsito. Quem não quiser pagar caro por conduzir o seu veículo fora das leis deve ter ficado arrepiado ao tomar conhecimento de que as multas,agora,ficaram 900% mais caras. Era mesmo imprescindível que esta drástica providência fosse tomada. Basta olhar para o percentual do aumento para que se perceba que os motoristas têm de se dar conta do custo altíssimo das infrações mais graves e tratem de ser comportar corretamente,algo que muitos,principalmente os mais jovens,costumam não levar a sério. É possível que,com o aumento e o peso deste no bolso,os moços corram menos e deixem de representar 25% dos mortos em acidentes no ano de 2014. E prestem atenção,estou me referindo somente aos gaúchos. Conforme Diza Gonzaga,presidente da Fundação Thiago de Moraes Gonzaga,queixa-se,com razão,que campanhas pontuais,como essas que são feitas em vésperas de feriados prolongados. Sempre que falo em trânsito,lembro que é de pequenino que se torce o pepino. O trânsito deve ser matéria obrigatória nos colégios. Eu disse,OBRIGATÓRIA.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, publica seu texto no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

A página de jornal que não gosto de ler

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Se existe uma página de jornal que leio a contragosto é a que trata dos óbitos. É quase como se fosse uma doença tipo ebola. Ultimamente,porém,quer queira quer não queira,sinto-me obrigado a lê-la. Caso faça de conta que esqueci de,no mínimo,passar os olhos pela página maldita,Maria Helena,minha mulher, faz questão de bancar o porta-voz da ou das notícias do falecimento de algum amigo ou de alguém importante,mesmo que o morto seja,por exemplo,um artista de cinema de quem sequer fui fã. A infausta informação dessa terça-feira foi daquelas surpreendentes. Jayme Ricardo Machado Keunecke é mais um ex-colega e amigo que nos deixa e com o qual trabalhamos juntos na Rádio Guaíba,onde,além de outras atividades,assessorava Flávio Alcaraz Gomes no programa Guerrilheiros da Notícia,na Rede Pampa.

 

Se não me falha a memória,chegamos a trabalhar no Jornal do Dia,extinto faz muito,de onde apresentávamos o jornal noturno da Rádio Clube Metrópole que ia ao ar usando notícias do periódico católico,com sede na Avenida Duque de Caxias. Por coincidência,começamos a pegar gosto por microfone em serviços de alto-falantes,eu nas quermesses da Igreja do Sagrado Coração de Jesus,em Porto Alegre, ele em Guaporé. JK,como ficou conhecido nos diversos veículos da mídia nos quais trabalhou, atuou por 18 anos na Rádio Guaíba.Foi funcionário, também, do Diário de Notícias,TV Piratini e do Grupo RBS. Jayme Keunecke estava com 78 anos. Ficou internado desde 3 de setembro na UTI do Hospital Santa Casa,com problema nos brônquios.

 

Esta notícia de óbitos não está na Zero Hora. Nessa se lê,abaixo da manchete “Juntos até o fim”,uma rara história de amor em que dois anciões,o homem de 89 anos, a mulher com 80,morreram com uma hora de diferença,no leito do Hospital São Lucas,da PUC porto-alegrense. Italvino Possa e sua esposa Diva,encerraram uma casamento que durou 65 anos e lhes rendeu 10 filhos e 14 netos, juntinhos, exatamente como pediram a Deus. Coroaram com sucesso a sua vida marital. Uma enfermeira colocou o casal em camas paralelas. Italvino morreu primeiro,Dona Diva, apenas 49 minutos depois. Com certeza,ambos partiram felizes desta vida. Imagino,que a história de amor de Italvino e Diva,dificilmente tem similar.

 

Bem diferente foi ou está sendo o drama de Paulo Roberto Costa,ex-diretor da Petrobras,cuja ganância – que outra explicação pode ser dada para a sua atitude – vai ter de devolver 23 milhões de dólares mal havidos. Não consigo entender a razão que leva um alto funcionário a desviar quantia tão grande,cujo sumiço,como geralmente acontece,não pode passar despercebido. Seja lá como for,a delação premiada vai permitir que Costa,apesar da tornozeleira eletrônica presa em sua perna,morar durante um ano em um condomínio de luxo na Barra da Tijuca.

 

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung, o filho dele.

Atropelando o bom senso e a língua portuguesa

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Invejo os colunistas de jornais diários que necessitam encontrar a cada dia assuntos capazes de satisfazer aos seus leitores e sempre descobrem um tema. Houve uma época na qual eu escrevia aos domingos sobre futebol,dividindo com Ibsen Pinheiro meia página do Correio do Povo. Ele tratava do Internacional e eu,do Grêmio. Quem não está a par da rivalidade que reina absoluta no futebol do Rio Grande do Sul talvez desconheça que os meios de comunicação gaúchos devem cuidar para não fazer diferença entre os dois times. Hoje,o meu compromisso com o blog do Mílton me permite escrever sobre assuntos variados,inclusive futebol. Nem por isso,entretanto,fico menos agoniado quando chega a terça-feira,dia em que entrego o meu trabalhinho para o âncora deste blog.E não há nada a me inspirar. Não é,felizmente,o caso de hoje.

 

Chamou-me a atenção matéria publicada pela Zero Hora dessa segunda-feira. Trata de trânsito,assunto com o qual preenchi muitos dos meus textos de quinta. O jornal começa assustando quem tem de enfrentar,especialmente,as rodovias deste país,ao lembrar que,”em uma década,meio milhão de pessoas tiveram as vidas interrompidas em ruas e estradas do Brasil,enquanto outros 2 milhões ficaram feridos”.Os dados foram compilados pela UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro. Na proporção para cada 100 mil habitantes,o Brasil ganha – acho melhor dizer que perde – de goleada para os Estados Unidos,Finlândia,China e Reino Unido. As estatísticas não tratam de quantos desses acidentes fatais tiveram caminhões como participantes. É incompreensível que,em uma terra como a nossa as ferrovias sejam as filhas desprezadas. Por quê? Seria interessante que essa pergunta fosse feita para a candidata à reeleição,Dona Dilma,em cujo governo nada foi feito em prol do transporte ferroviário,muito menos poluente e pouco sujeito a acidentes. Pelo menos,não se encontra,entre os maquinistas,bêbados e drogados.

 

Os números que acabei de repetir,retirados da reportagem sobre acidentes de trânsito,deveriam preocupar,por exemplo,os nossos senadores. Mas não é o que ocorre. Pelo jeito,resolveram imitar os linguistas e assemelhados,eis que estão estudando modificar,novamente,as regras ortográficas que,segundo imagino,não é assunto para curiosos. Ou eles são doutos em ortografia? O último acordo ortográfico,droga contestada por professores de português,que retirou o hífen de várias palavras,ainda nem foi assimilado pelos viventes de todas as idades,e já querem nos impor mudanças ainda mais estúpidas do que a última. Os portugueses,simplesmente,não ligaram para a reforma,eis que ainda chamam meninos de putinhos e insistem em meter um “c” em facto,além de outras idiossincrasias que vão impedir por “saecula seaculorum” que falemos todos a mesma língua,sem tirar nem por.

 

Imaginem que o “H” desapareça,o “G”fique com som de “GUE”,o “CH” seja substituído por “X”e outras asneiras que as alterações trarão no seu bojo. A vontade que eu tenho é de “EZECUTAR”os nossos senadores e todo e qualquer defensor de nova reforma ortográfica. Como cantaria Roberto Carlos,”quero que vá tudo pro inferno”!!!

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele).

Eduardo Campos e a imprevisibilidade da vida

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A queda de um helicóptero, no litoral paulista, foi a primeira notícia que chegou à redação. No Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo, um dos nossos repórteres avisa que o governador Geraldo Alckmin havia abandonado às pressas a cerimônia da qual acabara de participar. Sem confirmação, surge a suspeita: Eduardo Campos estaria envolvido no acidente. Assessores diretos do líder do PSB foram procurados por telefone. Os celulares não atenderam. De Brasília, soube-se que Campos não voava de helicóptero. Era a esperança de que tudo não passaria de boato. A Aeronáutica envia a primeira informação oficial sobre o acidente: não era um helicóptero, era um Cessna, jato executivo, mesmo modelo do usado pelo ex-governador. No local do acidente, nenhuma informação  e repórteres mantidos à distância. No hospital, notícias desencontradas sobre quantas pessoas feridas estavam sendo socorridas. De volta à Brasília: deputados e colegas de partido perplexos já sinalizavam o drama. Havia pessoas chorando e assustadas ao telefone. Todos tentavam saber a verdade. A mãe de Eduardo Campos deixa o compromisso que estava, no prédio do TCU, onde é conselheira. No seu gabinete, pouco tempo depois é vista aos prantos.  O pior cenário se desenhava: Eduardo Campos, 49 anos, estava morto.

 

Eleito duas vezes Governador do Estado de Pernambuco, três vezes deputado federal, deputado estadual, ministro do Governo Lula e candidato à presidência da República pelo PSB, Eduardo Campos, havia transformado-se na maior novidade desta corrida eleitoral ao fechar aliança com Marina Silva, assim que a ideia da criação da Rede Sustentabilidade foi frustrada, no ano passado. Quando todos se voltavam para as estratégias da batalha publicitária que se iniciaria no rádio e na TV e ainda repercutiam sua presença no Jornal Nacional, Campos volta a nos surpreender, agora definitiva e tristemente. Uma tragédia que abortou a jovem carreira de um político que parece ter surgido para viver intensamente, pois teve pressa para ascender, assumiu compromissos e foi protagonista em todas essas etapas. Ninguém perde mais do que sua família, mas se é verdade que sua morte impacta a política e, mais diretamente, a eleição que está em andamento, muito mais nos choca por despejar sobre todos a dura lição da imprevisibilidade da vida.

Protestando contra os protestos

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

Segunda-feira, no momento em que o Jornal Nacional publicava o editorial sobre a morte cerebral do cinegrafista Santiago Andrade e a Band o homenageava, as demais emissoras, comovidas, externavam pesares e revoltas, ao mesmo tempo em que mostravam no centro do Rio, no mesmo local, a mesma violência que gerou a barbárie então condenada. Sinal evidente de que nada mudou e nada mudará, a não ser que surjam competência e moral novas para romper a anarquia implantada.

 

Nada contra as manifestações, entretanto quando se evidencia que não se consegue neutralizar a ação de bandidos que usam máscaras e armas nem mesmo as suas origens, é hora de pensar seriamente. O ministro do STF Marco Aurélio Mello, em entrevista à Veja, diz que a culpa é da sociedade, pois é ela quem vota. Segundo ele ao invés de ir para a rua o povo deveria ir para a urna, embora reconheça que há ajustes a fazer. O financiamento das eleições permitindo a doação de empresas, a compostura dos debates políticos focando em ataques pessoais enquanto os reais problemas não são analisados, são alguns itens que precisarão ser ajustados. Eis aí um caminho que poderá ser aperfeiçoado com o voto não obrigatório, que deverá tirar parte dos eleitores que não entendem e/ou não gostam de política. Sistema, aliás, que é usado na maioria dos países mais civilizados do mundo.

 

Para iniciar e completar a receita civilizatória se deveria exigir do Poder Legislativo uma postura mínima de convivência no trabalho que lhes compete, em forma e conteúdo. Obrigando deputados e senadores, a sentar em suas cadeiras, na metáfora e na realidade, e educadamente prestar atenção aos oradores. A semelhança das imagens entre as sessões do Congresso e as manifestações de rua é evidente. Todos de pé, em grupos, uns gritando outros assistindo. Alguns mais afastados mexendo em eletrônicos. Ninguém atento ao principal.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Milton Jung, às quartas-feiras.

A morte de Santiago não pode se resumir às palavras

 

 

O cinegrafista Santiago Andrade, da TV Bandeirantes, está morto. Foi vítima de um rojão disparado por uma das pessoas que participaram do protesto contra o reajuste das tarifas do ônibus no Rio de Janeiro. Hoje seu nome está na boca de todo brasileiro minimanente informado, é usado para defender e atacar ideologias, é explorado pelos mais diversos e opostos grupos políticos representados no país. Autoridades se pronunciam, entidades de classe criticam com veemência a violência. Inúmeras manifestações de solidariedade foram feitas até agora. Jornais, televisão, as nossas rádios estão tomadas por reportagem que tratam da morte de Santiago. Palavras, por enquanto, apenas palavras. E palavras são substituídas por outras já na próxima notícia que teremos de contar. Portanto, são efêmeras. Se não servirem para contaminar a sociedade brasileira, levar a ações efetivas pela justiça social, à punição daqueles que cometem crimes, à mudança de comportamento dos que receberam a delegação popular para promover as políticas públicas, serão sempre apenas palavras. Você pode não concordar com nada que este jornalista diz, você pode se indignar com as reportagens que assiste, criticar quem pensa diferente de você (ou aparenta pensar diferente de você). Mas se impor pela violência, seja arremessando um rojão contra um profissional, seja estrangulando um garoto com tranca de bicicleta, seja colocando fogo em ônibus, é apostar na barbárie. A morte de Santiago, como disse a companheira dele, Arlita Andrade, não pode ser em vão. Que ao menos sirva para que se repense as atitudes que adotamos e se busque a cultura da paz e da tolerância.

Esquiar é bem menos perigoso do que as notícias contam

 


Tropecei no esqui há dois anos quando tirei férias no Chile. Foi um desafio interessante, pois jamais imaginei ficar em pé sobre aquelas duas prancha deslizantes. Descer uma pista por mais simples que esta fosse me parecia impossível. Nos tempos de guri, por exemplo, mantive distância prudente do skate, preferindo apenas aplaudir as manobras que meu irmão mais novo, o Christian, fazia na calçada da Saldanha Marinho ou na pista do Parque Marinha do Brasil, ambos em Porto Alegre. A experiência chilena me mostrou que com um pouco de esforço e coragem se vai ao longe. Depois de alguns dias de aula já me sentia à vontade e com capacidade para desviar de obstáculos, encarar algumas curvas e realizar manobras mais simples. Foi quando aprendi, também, que na neve não tem vez para a prepotência, pois, confiante, fiz uma descida descuidada, caí no chão e desloquei o ombro.

 

Nos dois anos que se seguiram aquela queda, treinei em academia, me preparei fisicamente, reforcei o ombro e me senti pronto para voltar a pista de neve. Era a meta das última férias, passadas nos Estados Unidos, para desespero de amigos que não se cansaram de me alertar para os riscos do esporte. Não bastassem os alarmistas, assim que desembarquei em Nova York, me deparei com a triste notícia do acidente de Michael Schumacher, que completou esta semana um mês internado no Centro Hospitalar Universitário de Grenoble, na França, para onde foi levado após sofrer sérias lesões no cérebro, resultado de queda que teve ao descer fora da trilha normal da pista da estação de esqui de Meribel. Na sequência, veio o tombo da chanceler alemã Angela Merkel quando praticava esqui cross-country na estação em Engadina, na Suiça, com fratura na pélvis, que apesar de não ser grave reforçou a pressão contra minha nova aventura. Mesmo assim tentei mostrar que eu jamais me arriscaria como eles, pois estava ciente da minha capacidade (ou incapacidade). Somaram-se aos acidentes com celebridades barreiras naturais que me impediram de chegar ao Estado de Vermont onde me aguardavam as pistas de Stowe. Primeiro foi a Delta que cancelou o voo quando estava na porta do avião, conforme já contei para você neste blog, e depois uma nevasca que não deixou que eu saísse de carro pelas estradas americanas. Com tantos percalços no caminho e pedidos de desistência, me restou viajar 40 minutos até Patterson, no estado de Nova York, e no último dia de férias brincar no pé da montanha de Thunder Ridge e sob orientação de um instrutor. O risco era tão baixo quanto a emoção de esquiar naquele ambiente e velocidade, que estavam aquem da minha expectativa. Por outro lado, economizei doses de estresse nos meus companheiros de viagem e na parte da família que ficou no Brasil.

 

Trago essas lembranças pessoais provocado pelo choque com a notícia de mais um acidente grave no esporte, desta vez envolvendo a atleta brasileira Laís Souza que treinava, nos Estados Unidos, para participar das provas de esqui aéreo, nos Jogos Olímpico de Inverno, em Sochi, na Rússia. Ela está internada em estado grave no Hospital da Universidade de Utah, em Salt Lake City, onde foi submetida à cirurgia para realinhar a terceira vértebra da coluna cervical, que foi deslocada na queda que sofreu. Ao contrário do que se imagina, Lais não se acidentou quando fazia manobras arriscadas, mas ao descer a pista com seu treinador e a colega de esporte Josi Santos, também atleta da equipe brasileira. Fico na torcida de que ela se recupere o mais breve possível e com o mínimo de sequela que as lesões permitirem e a medicina ajudar.

 

Apesar da sequência de notícias ruins envolvendo o esporte, o esqui está distante de ser das práticas mais perigosas, como mostram as estatísticas. O “Postugraduate Medical Journal” ensina que as chances de alguém morrer esquiando é de uma em 1,4 milhão, sendo muito mais perigoso correr (uma em 1 milhão) e pedalar (uma em 140,8 mil). Não tenho os dados do legado deixado em sobreviventes dos acidentes nesses esportes, mas devem ter relação semelhante ao número de mortes. Usar equipamentos corretos, seguir as normas de segurança, andar nas pistas sinalizadas de acordo com a sua habilidade reduzem de forma considerável os perigos nesta e em todas as demais atividades da vida.

 

Dito isso e sem esquecer a máxima “no creo em las brujas, pelo que las hay, las hay” decidi recomeçar, sábado, os treinos de golfe.

As vítimas do trânsito somos todos nós

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Escrevi, na semana passada, que muitíssimos de nós,inclusive eu,sabe-se lá por que,somos felizes,mas duvidamos disso e nos queixamos da vida. Na primeira quinzena de novembro,lembrei o trágico tufão que assolou o arquipélago das Filipinas munido de ventos ferozes,para exemplificar episódio que,entre outros menos letais, desqualificam os resmungos de quem,como eu, é feliz e contradiz,assim mesmo,as benesses que Deus concede gratuitamente,porquanto não fazemos por merecê-las.

 

Na coluna anterior,além de citar os meus conterrâneos que,por força de enchente que atingiu cidades gaúchas,perderam seus parcos pertences e,inúmeros deles,viram ruir as suas casas,pensando já no feriado prolongado, comemorativo à proclamação da República – começou na quinta-feira e se estendeu até domingo – salientei que,geralmente,nesse tipo de folga,o número de acidentes de trânsito é bem maior do que nos fins de semana comuns.

 

Não deu outra. Em ocorrências nas rodovias do Rio Grande do Sul e em zonas urbanas,houve 20 óbitos,mais de 400 pessoas ficaram feridas e o número de motoristas embriagados seguiu sendo assustador, apesar das campanhas e da Balada Segura,que visa a flagrar esse tipo de infração. Um dos mais dolorosos dos acidentes com vítimas fatais não aconteceu, nas estradas gaúchas,mas no cruzamento de duas ruas de Porto Alegre,onde segundo se imagina,os motoristas respeitem um pouquinho mais a velocidade máxima permitida em vias urbanas.

 

Nesse,de nada adiantou o cuidado de pais que,preocupados com as suas filhas,revezavam-se para as buscar após inocentes baladas noturnas. Na madrugada do último sábado,tocou a Francisco Capaverde levar sua filha Bruna e as suas amigas,para a sua casa,onde dormiriam. Porém,não chegou lá. No cruzamento das Avenidas Pernambuco e Brasil,um Corsa colidiu violentamente com a EcoSport dirigida por Capaverde,que capotou. Bruna morreu na hora e as suas duas amigas ficaram feridas. Diego Alberto Joaquim da Silva,motorista do Corsa,fugiu pela Avenida Pernambuco,na contramão,mas foi localizado por agentes da EPTC. O pai de Bruna quer transformar a morte da filha em uma bandeira para os que lutam contra a imprudência no trânsito. Vai juntar os seus esforços ao da arquiteta Diza Gonzales,que criou a Fundação Thiago de Moraes Gonzaga,depois que o seu filho perdeu a vida no trânsito.

 

Ambos e os seus familiares,isso sim,têm sobradas razões para se queixar da vida. No caso que relatei,tivemos não uma,mas duas vítimas: os pais de Bruna e os de Diego,que defendem o filho ao dizer que “ele não é um monstro”. Seja lá como for,as vidas dessas duas famílias,daqui para a frente,nunca serão as mesas vividas até sábado passado.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)