De vó Clélia

 

Por Maria Lucia Solla

 

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Hoje, 22 de dezembro de 2014, nasceu para uma nova vida, a minha mãe, a Dona Clélia Calò Solla. Eu sentia ter duas mães, a minha verdadeira e a minha sogra, e as duas resolveram partir quase quase juntas.

 

Dona Ruth, minha sogra, que se foi há dois dias, era uma mulher de estrutura e estatura grande e forte, decidida e independente. Ao contrário dela, minha mãe sempre foi recatada, de estrutura e estatura delicadas, e de fala mansa. Artista e cozinheira de mão cheia.

 

Tenho quase quase certeza de que a vó Ruth se desligou do corpo que a prendia ao leito e foi, como vão as almas quando se soltam da prisão do corpo, até onde estava a mamãe. Já chegou lá animada, chamou a mamãe e disse: segura na minha mão, Clélia, e vem comigo para a liberdade.

 

A mamãe, que pouca intimidade teve com a liberdade, durante toda a vida, sorriu ao rever a amiga distante, em quem confiava, deu a ela a mão, e se foram. Soltaram as amarras que ainda as prendiam a este planeta e saíram voejando, como voejam as almas.

 

A mamãe faria, em 28 de março, 88 anos. Casou-se aos dezoito, com seu primeiro e grande amor, e foi a ele e à família que dedicou cada dia da sua vida. Começaram a namorar num baile, dançando ‘ Eu sonhei que tu estavas tão linda, de Altemar Dutra. A mamãe era muito bonita: olhos verdes, com os quais presenteou meu filho mais novo, alourada, pele branquinha e muito, muito delicada. Falava baixinho e era discretíssima. Nem poderia ser diferente, com meu pai sempre controlando cada detalhe da vida.

 

A mamãe casou menina, e eu nasci quando ela ainda não tinha deixado a meninice. Deve ter cortado um doze comigo, que sempre fui, como dizer, um pouco diferente da maioria das meninas da minha idade. Ela encarou o desafio. E qual seria a outra alternativa? Depois, bem depois, 14 anos depois chegou meu irmão Oswaldo, mesmo nome do meu pai, e foi aí que se deu o encontro de duas almas gêmeas. Ela e meu irmão.

 

Desde o primeiro contato foram unidos, cúmplices, apoio um para o outro. Sempre! E meu irmão foi dedicado a ela, sem trégua, até o derradeiro momento.

 

Obrigada, mãe, pela minha vida, por seus cuidados e pelo exemplo de generosidade, humildade e o trato amoroso a todos que passaram por tua vida.

 

Paz, Luz, Amor de verdade e muita alegria junto ao vovô Vito Calò, à vovó Grazia, ao papai e todos os que formarão o teu novo mundo.

 

Gratidão! Amor!

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

2 comentários sobre “De vó Clélia

    • Saudade de você também, amiga querida, que subia a Teodoro Sampaio comigo, parávamos um taxi, com os braços abertos no meio da rua e perguntávamos ao taxista: Tá livre? Ele dizia Sim, e nós saíamos saltitando e gritando: Viva a Liberdade, Viva a Liberdade! Lembra?

      Beijo, lu

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