Vereadores vão pedir vagão só para mulheres

 

A Câmara Municipal de São Paulo vai sugerir ao secretário estadual de Transportes Metropolitanos que reserve para as mulheres um vagão em cada composição do metrô e da CPTM. A proposta foi enviada pelo Movimento Voto Consciente e aceita pelos vereadores da Comissão de Constituição e Justiça. A intenção é proteger as mulheres que reclamam de assédio sexual e moral devido a superlotação dos trens.

Várias iniciativas já foram realizadas com o objetivo de conter os abusos. Em Brasília, tem projeto de lei querendo impor vagões femininos em todo transporte ferroviário. Em Pernambuco e no Rio, as assembleias legislativas aprovaram lei reservando um vagão para as mulheres, a falta de fiscalização, porém, e o excesso de passageiros levaram ao desrespeito da determinação.

Mesmo na capital paulista, em 2007, a Câmara Municipal chegou a aprovar projeto de lei que obrigava as empresas de ônibus a terem carros exclusivos para as passageiras, medida que não foi a frente. No metrô se ensaiou esta determinação, sem sucesso. Como este modelo de transporte é do Estado, o legislativo municipal tem pouca possibilidade de interferir, por isso aceitou a proposta da ONG e vai apenas levar ao secretário José Luiz Portella o pedido.

Hoje, o público feminino é maioria no metrô, segundo pesquisa da própria companhia.

De resgate do feminino

 

Por Maria Lucia Solla

Ouça De resgate do feminino na voz e sonorizado pela autora

yin yang

Desde o final da década de 1990, o resgate e reequilíbrio da energia feminina na mulher é pano de fundo da minha vida; cenografia do palco onde vivo drama e comédia, romance e suspense.

Nos idos dos anos 1960 e 70, as mulheres se rebelaram para valer. Saíram às ruas, exigiram direitos iguais como cidadãs, queimaram seus soutiens em praça pública, fizeram muito barulho, falaram grosso e, na realidade de hoje, 40 anos depois, suas exigências parecem estar bastante satisfeitas.

Falo delas assim, na terceira pessoa do plural, porque nunca tive nada a ver com isso. Sempre estudei, trabalhei e fui profissional respeitada nas áreas onde atuei; portanto, esse era um problema que eu não sentia na pele.

Tenho dois filhos, passei pelo aperto de ser mulher separada e divorciada, nos anos 1980, e dei conta do recado com algum sacrifício e muita satisfação. Privilégio meu.

Entendo o movimento feminista, mas sempre abordo o assunto com muito cuidado porque defender direitos não dá à mulher o direito de abrir mão da sua porção mulher.

Sair para ganhar a vida, literalmente é coisa de homem. Calma, não tem aí nem uma pitada de machismo. É a pura realidade. Poucas mulheres conseguem se dedicar ao trabalho, alcançar o sucesso, mantê-lo, regá-lo e cultivá-lo, sem deixar de fazer uma comidinha para o seu homem e para os seus rebentos.

Só para registro, vivemos num planeta dual. Tudo contem o seu oposto e é contido por ele.

aí mora o segredo do equilíbrio
da harmonia
do bem-estar
do bem-viver
e é isso que não pode faltar.

Temos descoberto e desenvolvido nossas habilidades, desde o início dos tempos.

o homem executivo da época
que só conseguia manusear um porrete
para prover o sustento
arrastava para a caverna-doce-caverna
a mulher que desejava levar
e ela ia de bom-grado
na maioria das vezes
quero acreditar

Hoje lhe dá joia, manda e-mail apaixonado e acaricia os mesmos cabelos que quase lhe arrancava do couro.

Não há ainda, que eu saiba, aparelho para medir a proporção entre as energias feminina
e masculina em nós, mas todos as temos, homens e mulheres, feministas ou não.

Animus e anima.

Anima, o lado feminino no homem e animus, o lado masculino na mulher.

Faz tempo que redescobrimos que não somos tão diferentes assim e não chegamos ao extremo de virmos de Vênus, e eles de Marte. Na verdade, o que temos em comum supera com vantagem as diferenças.

Homem que é homem…, mulher que é mulher… são expressões que se ainda não foram, já passou da hora de serem substituídas por: gente que é gente…

gente que é gente respeita
gente que é gente não mata
não rouba não estupra
não tortura o físico nem o psicologico
gente que é gente não destrói outra gente
com palavra mortal
e crítica mirada no mal

Até aí eu diria que concordamos todos.

Mas, e sempre tem um mas em toda história, é preciso dar um zoom na vida do ser mulher. Era ela a arrastada para a caverna quando o homem a desejava.

hoje é ela
a mulher
que arrasta musculosa e poderosa
o homem que ela quer


Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung explorando suas múltiplas versões.

De onde vem esta força ?

 

Por Abigail Costa

Uma das maiores recompensas da minha profissão de jornalista é conhecer pessoas. Em todos os lugares, gente interessante com histórias para contar. Isso, histórias. Conhecimento.

Nem sempre você vai para uma reportagem de entrega de Oscar. Nem tudo são flores, ainda mais morando e trabalhando nesta cidade chamada São Paulo.

Esses últimos dias tem sido de um enorme aprendizado. Tenho conhecido mulheres, mães. Diferentes do que tinha visto antes.

Entro na casa delas para ouvi-las. Elas falam de dor, de perda. Choram, pedem justiça, não cruzam os braços. E num dado momento a conversa ganha um rumo diferente. A voz continua embargada, mas decidida.

Encontrei com Márcia numa manifestação no centro. Ela veio do Rio de Janeiro para contar que o filho foi morto. Vítima de uma “troca de tiros com policiais”.

Márcia passou quatro anos trabalhando para mostrar a inocência do garoto de 16 anos. Conseguiu provar que os assassinos do filho eram dois PMs. Hoje, condenados e expulsos da corporação.

Já Maria Aparecida, mãe de Alexandre, descreve o que aconteceu: o filho foi morto no começo do mês na frente da família. Apesar dos apelos da mãe, do irmão de 13 anos, a cena de espancamento só parou quando Alexandre já não oferecia mais “resistência”. O crime dele: a moto estaca sem placas, disseram os policiais.

Ouvir essas histórias tristes contadas por quem mais sofreu e sofre pela falta dos filhos é difícil. Mas no meio de tanta tristeza, elas têm uma força inacreditável. No caso da Márcia, incansável. Lutaram para provar que os filhos que criaram não são bandidos.

Elas são mulheres simples.
Elas são mulheres fortes.
Elas são mães.

Abigail Costa é jornalista, mãe de dois meninos e escreve às quintas-feiras no Blog do Mílton Jung

De lua

 

Por Maria Lucia Solla

Ouça De lua na voz e sonorizado pela autora

Galeria de Eduardo Amorim no Fliuckr

Mulher é lua, tem fase. Incha, fica plena, regozija, depois murcha, murcha, diminui. Muda a forma: escurece, emagrece, emudece, quase desaparece.

Um dia, invadida pelo calor solar, volta aos poucos a inchar.

Só me parece importante lembrar que tudo isso – fase, forma, luz, escuridão – é ilusão.

eu mulher
eu lua
lua mulher

tenho fase de alegria
colorida como fantasia
onde o riso brota fácil sem regar
tudo vai e vem
em pacote envolto em linda fita

tenho outra porém
de tristeza infinita
dura seca escura maldita
lágrimas rolam
feito folhas no outono
e me vejo sozinha
no amargo abandono

É mais fácil falar de tudo isso quando se está no quarto-crescente porque é aí mesmo, é desse lugar que a gente pode perceber uma nesga da realidade, um vislumbrar da sanidade.

“Na verdade, somos tão voltados para nós mesmos, para o nosso umbigo, para a imensa muralha que é o nosso ego, que somos, na verdade, absolutamente cegos.

Todos.”

Eu disse isso na semana passada, e ouvi bem o que eu mesma disse. A velha história dos ouvidos que estão mais próximos da boca que fala ou, a gente só tenta ensinar o que precisa aprender.

Pois agora, na fase ascendente, percebo ainda melhor que não são os grandes acontecimentos, os presentes caros, os momentos de fogos de artifício e de champanhe francês que vêm nos resgatar da escuridão da dor, do breu da solidão.

São coisas prosaicas: pequenos sorrisos que só arqueiam os cantos da boca, a mão que se estende e os braços que se abrem no gesto que te aconchega, que oferece conforto, que alivia tanto a descida quanto a subida. É o brilho intenso do olhar que vem certeiro na tua direção, a palavra quase dita, o telefonema inesperado, o doar-se, o oferecer de si mesmo, um pedacinho que seja, que dão o impulso para o passar de fase.

é cada pequeno evento que faz que eu
mulher que anseia
trilhe de novo a via que leva
a mais uma fase cheia

eu mulher lua
vestida nua
no quarto na rua

é cada pequeno gesto
percebido reconhecido recebido
que me ajuda a recolher
os fragmentos da fase vazia
que me deixa
contente
e me faz de novo
gente

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira, realiza curso de comunicação e expressão e escreve aos domingos no Blog do Mílton Jung em todas fases da lua


Imagem da galeria de Eduardo Amorim, no Flickr

Muito além de um elegante vestido preto

 

Por Rosana Jatobá
Vestido preto em tela por Bertrand Eberhard

Ela surgiu para esconder as vergonhas, mas hoje em dia revela o íntimo de cada um. A roupa é o sinal instantâneo da auto-imagem que queremos exibir. E, na visão da grande dama da moda, ela pode ser uma arma poderosa e infalível:

“Vista-se mal, e notarão o vestido. Vista-se bem, e notarão a mulher.”

Mademoiselle Chanel revolucionou, não apenas porque libertou a mulher dos trajes desconfortáveis e rígidos do fim do século 19. Mas porque valorizou o senso crítico:

“O mais corajoso dos atos ainda é pensar com a própria cabeça”.

Se os tempos modernos desafiam nossas escolhas em nome da Sustentabilidade, invocar a genialidade de Coco Chanel pode ser norteador. Foi o que eu fiz quando recebi um presente, que chegou cheio de recomendações:

– Tenha muito cuidado, guarde-o em lugar fresco e escuro, e, se sujar, leve a um especialista. Esta pele pertenceu à sua avó. É um vison!

Vesti e imediatamente senti o poder de transformação do visual. A peça macia e felpuda de cor castanha tinha a pelagem espessa, brilhante e vistosa. Embora com mais de meio século, mantinha um design atemporal. Envolta na altura dos ombros, proporcionava uma sensação de conforto e proteção. Era a mais perfeita tradução do luxo, o acessório que permitia a metáfora: os diamantes estão para as orelhas, assim como a pele está para o corpo.

Chegou o dia de exibi-la. A noite do casamento estava mesmo fria em São Paulo, coisa rara nos últimos invernos. A festa era de gala, num endereço tradicional da cidade, o Jockey Clube. Escolhi um vestido de seda preto, me enrolei no vison e me perfumei,
afinal, segundo nossa musa:

 “Uma mulher sem perfume , não tem futuro!”

 Mas a última olhada no espelho, em vez de glamour, revelava inquietação:

Eu sabia que o animal havia sido morto numa época em que não existia o risco de extinção da espécie. Tinha certeza de que ninguém iria me hostilizar na festa , pois grande parte das mulheres estaria ostentando a sua estola ou casaco de pele. Possuía o aval da papisa da moda, Anna Wintour, editora da vogue americana, fã incondicional de peles e uma das responsáveis pela “fur mania” atual, um boom que não se via desde os anos 80.

Tinha, portanto, razões de sobra para usar o bicho, mas nenhuma tão contundente quanto a deixada pelo legado de Chanel :

“A moda não é algo presente apenas nas roupas. A moda está no céu, nas ruas, a moda tem a ver com ideias, a forma como vivemos, o que está acontecendo.”

Não poderia ignorar que, se usasse o vison, vestiria a capa da indiferença diante de um mercado cruel e fútil, que não para de crescer. De acordo com a Peta (Pessoas pela Ética no Tratamento de Animais), a indústria da pele mata 50 milhões de animais por ano no mundo. Só na China, a produção atingiu números entre 20 e 25 milhões em 2010, ao passo que no ano 2000, oscilava entre 8 e 10 milhões de peles. A organização beneficente invade desfiles de moda e aterroriza as donas do acessório, jogando baldes de tinta para inutilizar a peça. É uma forma de protestar contra os maltratos dispensados aos bichos, que passam suas vidas confinados em minúsculas gaiolas.

Para a extração da pele, são eletrocutados, asfixiados, envenenados, afogados ou estrangulados. Nem todos morrem imediatamente, alguns são esfolados ainda vivos! Em alguns locais, para que as peles fiquem intactas, corta-se a língua do animal, deixando-o sangrar até morrer.

A voz da consciência soprou mais uma vez ao meu ouvido e ouvi o conselho da mestra das agulhas:

“Elegância é recusar.”

Abri mão da gostosa sensacão térmica da pele morta do vison e fui às bodas.

No salão ricamente enfeitado, a fauna mórbida desfilava à minha frente. Era uma profusão de visons, chinchilas, raposas, zibelinas, cabras e cordeiros. Bichos montados, pendurados, entrelaçados em mulheres superproduzidas. …e bem agasalhadas.

Toda concessão tem seu preço.

O ar gelado entrava pelas janelas e resfriava até a minha alma, obrigando-me a contorcer os músculos.

Mas toda renúncia, a sua recompensa.

O desconforto em pouco tempo desapareceu, quando me senti envolvida pelo calor dos braços de um certo alguém. Como dizia Gabrielle Coco Chanel:

“Uma mulher precisa de apenas duas coisas na vida: um vestido preto e um homem que a ame”.

Rosana Jatobá é jornalistas da TV Globo, advogada e mestranda em gestão e tecnologias ambientais da USP.


Veja mais imagens da galeria de Leemox, no Flickr

Mulher trabalhadora, homem ciumento

 

Por Dora Estevam
Tais e Marcos, Viver a Vida

É impressionante como ainda tem muito homem que não deixa a mulher trabalhar fora. As promessas são sempre as mesmas: fique em casa e eu te darei tudo.

A mulher que fica em casa se dedica aos filhos, casa e marido.Esquece que dentro dela tem um potencial que aos poucos se esconde, perde espaço. Sem trabalhar, sem pensar, sem se motivar; no mínimo o cérebro atrofia Depois de alguns anos – quando a vida a dois já está desgastada pela rotina – a mulher tenta se recolocar no mercado. O resultado você pode imaginar, enormes e várias dificuldades.

A menina, 22 anos, engravidou aos 17, resolveu quebrar a rotina, enfrentar o marido e procurar emprego. Encontrou: um mês depois, incomodado com as saídas da esposa, o marido exige que ela deixe o emprego. Sim, para ela trabalhar tem todo um ritual de beleza e arrumação que incomoda o sujeito.

A outra pula de casa em casa. De 40 em 40 dias está numa casa diferente porque o marido é quem sempre decide, a palavra é sempre dele: saia para cuidar das suas filhas.

Na Paraisópolis, comunidade popular de São Paulo, no Dia Internacional da Mulher, a porta da floricultura estava cheia de homens. A florista ficou na expectativa de boas vendas, mas, nada aconteceu. Eram somente maridos falando mal das mulheres, relata uma moradora.

São empregadas domésticas, babás, faxineiras, vendedoras….

Todos estes casos são de pessoas, de mulheres que moram na Paraisópolis e segunda-feira passada não tiveram o que comemorar.

Do outro lado do universo – o lado fantasioso – também existe um machista que não aceita a condição da mulher exercer a profissão dela. Eu falo do personagem Marcos, que tem José Mayer como protagonista, da novela “Viver a Vida”, da Rede Globo. Helena, a modelo, esposa, [mega-über] famosa fica entre o casamento e a profissão.

O empresário Marcos é o tipo que dá tudo pra mulher, do luxo ao glamour. Mas impede a moça de exibir a liberdade que conquistou há anos, com muita luta.

O que explica este comportamento? Que machismo é esse que acontece em todas as camadas sociais?

Sabemos que com a revolução sexual a mulher deixou de ser Amélia e conquistou o mercado de trabalho. Há mulheres com altos cargos nas empresas, mulheres que ganham uma fortuna, que dirigem grandes corporações. Há um mercado todo voltado para elas. Sem dúvida, enfrentaram e enfrentam um longo caminho para a conquista da dignidade pessoal, social e profissional.

A mulher é capaz de dar conta do recado, sim, cuida da casa, dos filhos, do marido, do trabalho, e ainda sobra tempo para se cuidar, se tratar – esteticamente falando. Sem contar as muitas que estudam sem parar, mestrado, doutorado, o que exige muito tempo de leitura.

Nada contra as que preferem ficar em casa, nada contra as que optaram por exercer as tarefas domésticas. Sei que esta opção exige muito trabalho delas, além da conta, muitas vezes.

Falo é dos homens ciumentos que impedem o crescimento profissional e intelectual da mulher, que exigem que ela fique em casa por puro machismo.

O Dia Internacional da Mulher foi criado para lembrar a morte de mulheres que, em frente a uma fábrica em Nova York, lutaram pela redução da carga de trabalho para dez horas, equiparação de salários com os homens e tratamento digno no ambiente de trabalho.

Foi-se o tempo em que as mulheres eram criadas para procriar e embelezar o marido. No século 19, as mulheres eram consideradas probleminha para a sociedade; hoje, o probleminha pode ser você, homem ciumento.

Dora Estevam é jornalista e escreve no Blog do Mílton Jung aos sábados sobre moda e estilo de vida

Homens fazem ‘ajoelhaço’ pelo perdão das mulheres

 

ajoelhaço+2010+-+43

Centenas de homens ajoelhados pedindo perdão. A cena se repetiu pelo quarto ano no Sarau da Cooperifa em comemoração ao Dia Internacional da Mulher. Sérgio Vaz explica que o “ajoelhaço” é uma forma de os homens se desculparem por anos de injustiça e preconceito.

No Blog Colecionador de Pedras escreve que não basta o ato simbólico, é preciso mudança de comportamento. Acredita que os frequentadores da Cooperifa tem um perfil menos machista e se ajoelham porque sabem o quanto a mulher é humilhada em seu cotidiano. “Respeito não é apenas uma palavra, é um sentimento”.

Deusas do cotidiano

Por Sérgio Vaz

“De todos os hinos entoados em louvor às revoluções nos campos de batalhas, nenhum, por mais belo que seja, tem a força das canções de ninar cantada no colo das mães.’

O nome dessas mulheres eu não sei, não lembro e nem preciso saber. São nomes comuns em meio a tantos outros espalhados por esse chão duro chamado Brasil.

Mas a maioria delas eu conheço bem, são donas de um mesmo destino: as miseráveis que roubam remédios para aliviar as angústias dos filhos. É quando a pobreza não é dor, é angústia também. São as ladras de Victor Hugo.

Donas da insustentável leveza do ser, as infantes guerreiras enfrentam a lei da gravidade. Permanecem de pé ante aos dragões comedores de sonhos que escondem na gravidade da lei.

Das trincheiras do ninho enfrentam moinhos de mós afiadas para protegerem a pança dos pequeninos. São as Quixotes de Miguel de Cervantes.

Místicas, não raro, estão sempre nuas em sentimentos. Quando precisam, cruas, esmolam com o corpo, e se postam à espera do punhal do prazer que cravam no seu ventre. È quando o prazer humilha. São as habitantes do inferno de Dante.

Rainhas de castelos de madeiras, sustentam os filhos como príncipes, e os protegem da fome, do frio, e da vida dura e cruel que insiste em bater na porta das mulheres de panela vazia. Quanto aos reis, também são os mesmos: os covardes dos vinhos da ira.

Mágicas, esses anjos se transformam em rochas, quando a vida pede grão de areia. Em flores quando rastejam, em espinhos quando protegem.

Essas mulheres são aquelas que limpam tapetes, mas não admitem serem pisadas.

Riscam papéis, limpam máquinas e consertam crianças que nascem com o sonho quebrado.

São domésticas, mas não admitem serem domesticadas.

E riem quando suam sob lágrimas e sangram o perfume da violeta impune estampada no rosto, que de rosa, não tem nada.

Sim, elas são as deusas do dia a dia.

Sérgio Vaz é poeta e criador da Cooperifa

De bem com a TPM

 

FRISO VERMELHO

 

Por Abigail Costa

TPM, uma companheira de décadas.
Chegou assim, CHEGANDO, nem pediu licença, entrou e ficou.
Por diversas vezes tentei deixá-la de fora da minha vida, mas se tem alguém fiel a mim, é a bendita.

No começo me desesperava.
Meu Deus, até ontem estava tudo bem! Agora estou me sentindo péssima.

E a coitada da mamãe que mesmo fazendo “de um tudo” pra me agradar, nada estava bom. Sem falar da sensação de vítima, coitada, rejeitada e INCHADA de fato!

Resumi o que se pode escrever sobre ela. Tem tantos outras impublicáveis.

Se o conselho é “procure um médico”, “terapias complementares”, “blá-blá-blá…” já procurei, já tomei, já fiz.

Com o passar do tempo resolvi tirar proveito, sim, até o ruim, se espremer do lado certo, vinga. Sei quando minha amiga-mensal está se aproximando. Primeiro aviso aos mais chegados. Segundo não sou, estou me sentindo coitada. Agora vem a parte melhor. Faço uso dela, LITERALMENTE.

O que poderia passar por mais um incomodozinho, resolvo, falo, deixo bem claro.
Interessante é a vontade de botar pra fora o que me incomoda, sem medo….
O que antes poderia ser um “isso nem vale a pena retrucar”, com a minha fiel escudeira vale.

É mais que um anti-qualquer-coisa que sara a gente.
É seguro, é legitímo.
É uma coragem que você não sabe de onde vem.
Às vezes o som da própria voz surpreende.

Como me sinto depois?
De alma lavada.
Sem pedido de desculpas, pra mim é claro.

Em tempo: já me despedi da minha… mês que vem tem mais.

Abigail Costa é jornalista e escreve no Blog do Mílton Jung, ao menos uma vez por mês sob o efeito da TPM.

Se ninguém faz, ela faz

 

O nome não se sabe, mas a consciência que ela tem do seu papel na sociedade fica evidente no flagrante feito por Devanir Amâncio da ONG EducaSP, colaborador do Blog do Mílton Jung. Essa mulher preocupada com o risco provocado pelo enorme buraco na avenida Nove de Julho decidiu fazer o que as autoridades esquecem. Com alguns pedaços de pau e papelão sinalizou o enorme buraco, perigo para pedestres e motoristas. Simples como seu ato, explicou a atitude: “É para evitar acidente”.