Avalanche Tricolor: emoção, sofrimento e lágrima como verdadeiros gremistas que somos

 

Grêmio 1×0 Pachuca MEX
Mundial – Estádio Haza bin Zayed/Al Ain

 

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É madrugada em Abu Dhabi! Voltei para cá depois de assistir à vitória que colocou o Grêmio na final do Mundial de Clubes, em Al Ain, que fica há cerca de uma hora e meia daqui. Temo que esta madrugada se estenda ainda mais, pois está difícil acalmar o coração e a excitação após partida tensa, disputada e sofrida como a desta estreia do Grêmio na competição.

 

Havia pedido 2 a 0 nas entrevistas que concedi para emissoras de rádio brasileiras, entre as quais duas CBNs, em Porto Alegre e São Paulo. Era muito mais um desejo de tranquilidade do que uma crença. Conhecedor das façanhas gremistas por que esperar que a classificação à final viesse com um passeio, como alguns quiseram dar a entender que seria obrigação do campeão da Libertadores? Fomos forjados no sofrimento e assim construímos nossas conquistas. Não seria diferente em um Mundial.

 

Ainda sinto o impacto da tensão provocada todas às vezes que o adversário ameaçava nosso time em desenfreados ataques. Nas bolas que Marcelo Grohe defendeu, nas que desviaram por força do destino ou nas que sequer chegaram ao nosso gol graças aos mitológicos Geromel e Kannemann. Ou às roubadas cirúrgicas de Cortez, que encarnou nessa noite Everaldo, Arce e todos os laterais que passaram por nossa história.

 

Tenho presente no corpo o resultado do sofrimento diante de ataques mal engendrados, de lances forçados e de jogadas inacabadas, que se repetiram em boa parte do jogo. Sem contar os gols desperdiçados em cobranças de faltas que chegaram a tocar a rede ou rasparam o travessão, mas sempre pelo lado de fora. Ou em lances como aquele em que Luan estava livre dentro da pequena área. Era só tocar na bola que ela entrava, gritavam na arquibancada. A gente sabe que lá dentro é tudo muito diferente, mas enquanto os nossos não conseguiam fazer a diferença só nos restava sofrer.

 

As marcas desta semifinal que me tiram o sono não estão apenas no peito e na alma. Estão na memória, também. Nas cenas que tenho vivenciado desde que desembarquei na Terra do Mundial. Na caminhada ao estádio ao lado dos filhos, na torcida cantando nosso hino e nossas cores, nos olhares que trocamos a cada minuto que se passava sem que o gol saísse. Na imagem dos guris aplaudindo, lamentando, gritando por este jogador, praguejando por aquele outro, vibrando e sofrendo como eu sempre vibrei e sofri.

 

E, claro, não me sai da cabeça o instante mágico em que Renato redivivo e incorporado em Everton disparou em velocidade pelo lado esquerdo em direção à área, balançou entres marcadores, abriu espaço e disparou com o pé direito para marcar o único e necessário gol que nos levaria à final do Mundial. Foi tudo ali, na nossa frente, diante de nossos olhos, bem pertinho de onde estávamos assistindo ao jogo. Parecia ter sido feito para nós. E tenho certeza que o foi.

 

Um momento único a ser vivido por mim que passei infância e adolescência dentro do saudoso estádio Olímpico e aqui realizo o sonho de ver meu time mais uma vez no Mundial. Um momento que pude dividir com as devidas emoção e lágrimas abraçado aos meus dois filhos, que viveram longe de Porto Alegre. Emoção e lágrimas devidamente retribuídas por eles como verdadeiros gremistas que são. Gremistas forjados por mim – sem dúvida – mas, especialmente, pela nossa história!

 

E que história experimentamos juntos nessa noite que não vai acabar tão cedo!

Avalanche Tricolor: um sonho se realiza na Terra do Mundial

 

Direto de Abu Dhabi

 

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Foram dias agitados esses últimos. Com menos de duas semanas entre a final da Libertadores e o início do Mundial, os trâmites burocráticos e a montagem da estrutura mínima para viajar ocorrem no limite do tempo. A passagem fica mais cara, o hotel com menos vagas, os ingressos desaparecem a cada dia e a concessão do visto gera ansiedade: a autorização da Embaixada dos Emirados Árabes para entrar na região chegou no fim da quinta-feira, último prazo para quem pretendia embarcar no fim de semana (soube de quem a recebeu no saguão do aeroporto).

 

Com uma viagem de cerca de nove horas até Nova Iorque e mais de 16 horas para Abu Dhabi, com direito a três fusos horários – para trás e para frente -, escala em aeroportos internacionais, despacho de malas e outros quetais, tudo que eu queria era chegar nos Emirados a tempo de ver a primeira partida.

 

Cheguei …. e não cheguei em um dia qualquer. Cheguei em um 11 de dezembro, data histórica na qual comemoramos a primeira vez que o Grêmio conquistou o Mundo ao vencer o Hamburgo da Alemanha, por 2 a 1, em Tóquio, em 1983. Quis o destino que depois de tudo certo e arranjado, eu desembarcasse na Terra do Mundial exatamente nesse dia em que lembramos um dos maiores feitos de nossa história. Pode ser um sinal, pode ser coincidência ou pode ser coisa alguma. Mas fiquei ainda mais feliz com a conspiração do calendário.

 

Lá se foram 34 anos desde que alcançamos o topo do mundo em uma competição da Fifa – sim, meu senhor, sim, minha senhora, tinha a assinatura da federação internacional, basta ver as imagens da época – que era disputada em uma só partida e sempre no Japão.

 

Eu era apenas um guri de 20 anos, universitário, jogador de basquete do Grêmio e sem um tostão no bolso para viajar até o outro lado do mundo. Estar ao lado do Grêmio era um sonho impossível de ser realizado. Assisti ao jogo em Porto Alegre mesmo. E tenho certeza que você, caro e raro leitor desta Avalanche, se gremista for, também haverá de lembrar onde estava. Eu estava ao lado do meu pai – boa parte das nossas grandes conquistas, estive na companhia dele. Estávamos junto com alguns amigos do basquete gremista no apartamento do técnico Edson Rezeznik.

 

Vibramos entre amigos cada drible e cada gol de Renato, aplaudimos a bravura (e braveza) de nossos jogadores e comemoramos a grandeza do Grêmio que fez os alemães e a Europa se renderem ao nosso futebol. Voltei para casa de carona com o pai, buzinamos no meio do caminho para cada torcedor que corria pelas ruas extravasando sua alegria na madrugada de Porto Alegre. Uma enorme festa que se estenderia até o retorno da delegação ao Brasil.

 

Tanto tempo passou e tantas coisas aconteceram na minha vida desde então. Pessoas que estavam comigo se foram, muitas outras vieram. Eu mesmo fui embora. Troquei Porto Alegre por São Paulo para construir minha própria família e carreira profissional. Cresci, chorei, amadureci, sofri, envelheci, comemorei … e sempre estive com o Grêmio onde o Grêmio estivesse.

 

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Neste 11 de dezembro, 34 anos depois de conquistamos o Mundo, desembarquei em Abu Dhabi ao lado de meus dois filhos. Por onde passamos, nos aeroportos que andamos e nos aviões que embarcamos, no Brasil e fora dele, o Grêmio esteve conosco. Torcedores enrolados em bandeiras, trapos esticados sob as mesas de bar, camisetas novas, antigas e retrôs vestidas com orgulho. Quem não se falava, trocava olhares cúmplices. De quem sabia o que carregava na mala, no que sonhava naquele momento …

 

Um sonho que é muito mais complicado hoje do que foi em 1983. As diferenças financeiras e técnicas entre o futebol da Europa e da América do Sul aumentaram desproporcionalmente. Etapas e times encardidos se meteram no meio desta disputa e entram em campo dispostos a fazer sua própria história e desconstruir a nossa.

 

Independentemente das diferenças e dificuldades impostas no nosso caminho, aconteça o que acontecer amanhã e depois, quero aqui deixar registrado: 34 anos depois de o Grêmio me dar o prazer de gritar “Campeão do Mundo”, o Grêmio volta a me dar o direito de sonhar o maior de todos os sonhos que o futebol pode proporcionar.

 

Eu estou aqui na Terra do Mundial, sonhando e orgulhoso de ser gremista!

O Corinthians é bi e o Mundo não vai acabar

 

 

Assistir ao Corinthians bi campeão mundial à distância torna a tarefa mais fácil, pois não somos provocados pelos amigos nem incomodados com vizinhos fogueteiros, além de nos oferecer a dimensão exata do feito. O mundo não para para ver a final nem o mundo acaba, como ironizou o site do diário Daily Mail, refletindo a frustração e surpresa dos britânicos com a derrota do Chelsea. Nesta pequena e rica cidade de Ridgefield, no estado americano de Connecticut, onde aproveito as férias, ninguém acordou as cinco e meia da manhã como eu, encarou a madrugada com frio próximo de zero, prenunciando uma semana com neve, para ver uma partida de futebol, por mais importante que esta seja no calendário esportivo. O noticiário por aqui está ocupado pelo trágico ataque às crianças de uma escola a duas cidades de distância. Amanhã, quando os jornais da região circularem, provavelmente, darão nota em roda pé para o resultado da final, se tanto.

 

Se o isolamento do sofá que encontrei para ver o jogo no único canal que transmitia a partida diminui o impacto da conquista alcançada pelo Corinthians, também ficamos menos propenso a secar o concorrente do futebol brasileiro, exercício comum e saudável entre nós torcedores. E talvez este tenha sido um dos motivos que me levaram a admirar a vitória corintiana muito mais do que admiraria a oportunidade de brincar com a cara de derrota dos meus amigos. No jogo jogado, o Corinthians mereceu a vitória, mesmo que para isto tenha se destacado o goleiro Cássio, aquele guri que fazia suas defesas lá na Azenha, antes de ganhar o mundo. O desempenho dele serviu para ressaltar a força do adversário que os brasileiros enfrentavam. E não me venham com este papo de que os ingleses desdenhavam a competição, basta ver a cara de alguns de seus jogadores após a derrota. Eles não tiveram é capacidade de superar a marcação e conter as investidas do Corinthians, que reproduziu em campo muito do que sua direção e comando técnico fizeram durante estes últimos anos.

 

Independentemente de qualquer avaliação mais invejosa que você possa fazer sobre o título mundial do Corinthians, impossível não enxergar que o clube está bem mais organizado que a maioria dos seus adversários no Brasil. Houve investimento na infraestrutura – o primeiro estádio está em construção – e planejamento de longo prazo. Apostou no equilíbrio do elenco, no qual estão jovens talentos e experientes jogadores, e reuniu gente de toque de bola apurada e atletas de muita determinação para conquistar o título. Soube capitalizar a força de seus torcedores tanto quanto soube conter a pressão desses mesmos que, há pouco mais de um ano, queriam a saída de Tite logo após a desclassificação contra o Tolima, na Libertadores. E sobre o técnico uma menção especial: é criativo e inteligente, e usa estas habilidades com a mesma coragem que demonstra desde que foi campeão da Copa do Brasil, em 2001, a frente do meu Grêmio contra o Corinthians, no estádio Morumbi.

 

O título mundial é importante também para os demais clubes brasileiros, pois reduz, ao menos temporariamente, a sensação de inferioridade que muitos temos em relação a Europa – sentimento curioso para quem mais conquistou títulos mundiais de seleção e tem espalhado craques por todos os cantos onde se jogue bola. Ratifica a ideia de que administração bem organizada forja campeões tanto quanto futebol não é apenas emoção. E, como o mundo não vai acabar mesmo, levará torcedores a cobrar mais competência dos cartolas de seus times.

 

De minha parte, sigo as férias e aproveito o intenso frio para tomar um chimarrão, saudar o Corinthians e lembrar os “gremistas” que fizeram parte desta conquista.

Aristóteles, Platão, Juvenal e o Itaquerão

 

Por Carlos Magno Gibrail

Que a democracia nasceu na Grécia todos sabem, embora muitos desconheçam que Aristóteles e Platão eram contra o regime do povo. Aristocratas, assim como Juvenal. Os intelectuais gregos não conseguiram barrar a democracia. Juvenal conseguiu.

Juvenal Juvêncio, presidente do São Paulo, clube originalmente democrata, encabeçou o retrocesso político. Aumentou o mandato enquanto presidente e usufruiu da própria mudança para se manter no poder durante três períodos então aumentados, alegando que o novo estatuto zerava o passado. A partir daí o enredo é similar a todas as ditaduras. Embora convencional por estar inserido no futebol. Atividade apaixonante, mas eivada de instituições autocráticas, com frios cartolas e vivida no momento de Copa do Mundo.

Juvenal após destratar o maior cliente tenta o confronto com Ricardo Teixeira e se dá mal. Fica sem Andrés Sanches, o cliente maltratado, sem a Globo, sem a FIFA e acreditando em Kassab e Lula.

A FIFA, que já sinalizara seguir o COI na preferência pelos BRICS quando fez a China, emergente poderosa, gastar fortunas , deixava claro o indício da estratégia de exigir os mais altos investimentos nos eventos a serem realizados. A Rússia na preparação para a Copa 2018 já faz os maiores gastos da história em preparativos. O estádio Luzhniki de Moscou, de acordo com o Estadão de domingo, cinco estrelas pela UEFA, terá que investir 2 bilhões de reais para atender a FIFA.

Juvenal somava aos desafetos o estádio do Morumbi, um entrave nas pretensões da FIFA e da classe política, ávidas por maciços gastos públicos. Restava apenas o trunfo da cidade de São Paulo, única capaz de receber a abertura. Eis que o “inculto”, mas certamente experiente Andrés Sanches, já habilitado nas lides com os russos e Kia, e, evidentemente apadrinhado pelo “iletrado” Lula, equacionam o Itaquerão. De graça para o Corinthians, o inimigo numero 1 do Juvenal.

Aristóteles e Platão, embora aristocratas, deram à humanidade seus conhecimentos. Juvenal perdeu a chance de fincar a bandeira da democracia nesta aristocracia do futebol. O esporte mais popular do mundo.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e, às quartas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung