Uma orquestra sem maestro pode se tornar um caos sonoro. No mundo das marcas, o risco é o mesmo quando a comunicação não tem direção. Esse foi o tema do comentário desta semana no quadro Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, apresentado por Jaime Troiano e Cecília Russo no Jornal da CBN.
A Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP) serviu de metáfora para a construção e gestão de marcas. Segundo Jaime Troiano, assim como os músicos precisam seguir a regência para alcançar a harmonia, as empresas precisam de um maestro para integrar os diversos canais de comunicação. “Cada instrumento tem um papel, uma partitura que precisa obedecer à regência do maestro”, afirmou. Sem essa coordenação, o resultado pode ser o mesmo dos momentos iniciais de uma apresentação, quando os instrumentos ainda estão sendo afinados.
Cecília Russo destacou o equilíbrio necessário entre virtuosidade e humildade, tanto na música quanto na gestão de marcas. “A contribuição de cada instrumento está a serviço do protagonismo de uma coisa maior, da obra que está sendo executada como um todo”, explicou. No universo das marcas, isso significa que cada ponto de contato com o público – da fachada de uma loja ao post no Instagram – precisa estar alinhado a uma comunicação integrada e coesa.
A marca do Sua Marca
A lição desta edição foi clara: no branding, não basta se encantar com um único instrumento de comunicação, mas sim com a sinergia do conjunto. Marcas bem-sucedidas funcionam como uma orquestra: cada peça tem seu momento, mas é a harmonia que constrói a identidade forte e duradoura.
Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso
O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após as 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.
Eu e minhas irmãs crescemos ouvindo minha mãe contar que, por ocasião de sua formatura do curso primário, em 1932, num grupo escolar na rua Augusta, ela cantou um hino composto, letra e música, por um maestro. Dona Lydia – Lydia Yolanda Meira – apesar de não lembrar mais o nome do maestro, sabia que ele havia pedido às alunas que não deixarem o hino cair no esquecimento.
Muitos anos passaram e já com idade avançada perseguiu o objetivo de ver o hino em partitura. O único material que tinha era um CD, gravado por um neto, onde cantou a letra que estava guardada em sua memória.
A busca continuou até que um maestro da Guarda Civil Metropolitana de São Paulo se sensibilizou e presenteou-a com a partitura do Hino a São Paulo que tinha essa letra:
Letra
I
São Paulo berço formoso
De nobre gente imortal
É o meu torrão generoso
É a minha terra natal !
II
Os meus avós denodados
Vivem gigantes na história
Com seus nomes honrados
Resplandecentes de glória !
Coro:
Glória ao heroi bandeirante
Ao paulista varonil
Pioneiro, vigilante
Da grandeza do Brasil….
Hei de amar-te ó minha terra
Hei de amar-te até morrer
Quer na paz ou quer na guerra
O teu nome enaltecer !
III
Deus me conserve esta graça
De ser paulista altaneiro
E justo orgulho de raça
E do torrão brasileiro!
IV
Filho de um povo valente
Sou franco, altivo, leal
Sempre serei combatente
Da justiça e do ideal!
Ouça o Conte Sua História de São Paulo
Vera Mantovani e a mãe dela, Lydia Yolanda Meira, são personagens do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também a sua história, escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br.
Prezado leitor, escrevo essas linhas informando que sou fã da Madonna, mas que esse texto não é exatamente sobre isso, e sim, sobre reflexões que nos últimos dias me tiraram o sono, no sentido literal da palavra. Portanto, tento conter meu lado apaixonado pela artista, e me debruço sobre pensamentos a cerca do envelhecimento e velhice que me inquietam. Boa leitura!
Reprodução do X
No show de encerramento da turnê *Celebration*, em 4 de maio de 2024, em Copacabana, Madonna celebrou seus 40 anos de carreira. A diva do pop não pisava no Brasil há 12 anos, e o clima pré-show no Rio de Janeiro era de réveillon, com programas especiais, documentários e entrevistas aumentando a curiosidade sobre o que viria.
Mesmo acompanhando pela televisão, era possível sentir a energia e a emoção dos fãs. Entre discos de vinil e objetos raros, todos compartilhavam histórias com carinho e devoção. Mas uma pergunta ecoava: de onde vinha essa admiração?
Cada resposta era única, mas uma, em particular, me perturbou. Um rapaz de cerca de 35 anos disse: “Ela é uma mãe para mim.” Como poderia alguém atribuir a uma artista um título tão romantizado e nobre quanto “mãe”?
Seu semblante emocionado me prendeu à tela, atento à sua história. Ele contou que Madonna fez parte de sua adolescência e, por meio de sua poética, apresentou-lhe um mundo onde ele poderia ser ele mesmo, sem medo de ser feliz. Sua declaração me inquietou profundamente. Passei a noite ansioso para assistir ao show, mesmo que pela TV.
A fala sobre o sentimento materno daquele rapaz ainda estava latente em mim na manhã seguinte.
Vou reescrever o trecho “O show, a velhice e a minha história” com base nas observações feitas anteriormente, visando torná-lo mais conciso, mas mantendo a lógica e a estrutura do pensamento.
O show de Madonna, a velhice e a minha história
Na noite de sábado, o show começou, e ao me deparar com Madonna envelhecida e com movimentos corporais mais contidos do que em outras oportunidades, fui confrontado com meu próprio processo de envelhecimento. Por alguns minutos, meus pensamentos se desviaram do show para outra questão: quando conheci Madonna?
Minha memória é vaga, mas acredito que foi aos três ou quatro anos, quando vi a capa azul-marinho do disco de vinil com uma mulher loira de perfil, demonstrando no rosto uma sensação gostosa de brisa leve e fria numa noite de calor. A combinação de cores e sua postura esbanjavam elegância.
Lembro-me de adorar ouvir o refrão “true blue, baby I love you” e de sentir vontade de dançar celebrando a energia incrível de “where’s the party, I want to free my soul”. Perdi-me nessas lembranças, e após 35 anos, compreendi que na minha primeira infância, mesmo sem entender inglês, eu só queria ter uma alma livre, como se já sentisse as dificuldades que viriam por ser quem sou.
Naquela época, Madonna já parecia velha — pelo menos na perspectiva de uma criança de três ou quatro anos — mas continuou embalando hits e videoclipes que, na minha adolescência, mostraram a possibilidade de ser quem sou, sem medo. Posso dizer que compartilho o mesmo sentimento materno que aquele rapaz expressou na entrevista.
Madonna me encorajou a ser forte, resiliente e resistente diante das ameaças do mundo, mesmo com as incertezas que permeiam essa fase da vida tão importante, quando precisamos de apoio sincero e incondicional das pessoas que integram nossa família sanguínea. Contudo, nem sempre temos esse apoio na intensidade que precisamos para nos sentir protegidos e aceitos.
Somos filhas de Madonna
Madonna tem personificado uma alma materna, especialmente ao defender corajosamente as minorias sociais—pessoas frequentemente vulneráveis, marginalizadas e até mesmo ameaçadas de morte. Sua escolha de abraçar, acolher e apoiar se destaca em contraste com muitas famílias consanguíneas que falham em transcender barreiras socioculturais e acabam se voltando contra seus próprios membros.
A dedicação da cantora às suas lutas destaca o envelhecimento e a velhice de grupos frequentemente invisibilizados pelo machismo, racismo, LGBTfobia e conservadorismo social. Em seu show em Copacabana, que refletiu sua biografia no repertório, Madonna se apresentou como uma mulher que desafia os papéis impostos, lutando por igualdade de poder, justiça social, liberdade sexual, e contra a violência e o feminicídio.
Além disso, ela traz visibilidade para questões críticas, como a violência contra mulheres trans e travestis, cujo envelhecimento é frequentemente marcado por hostilidade ou é tragicamente cortado pela morte precoce. Vivemos em um país que lidera estatísticas de violência contra a comunidade LGBTQIA+, onde pessoas trans têm uma expectativa de vida reduzida. Madonna uniu sua voz à de milhares durante a crise da AIDS nos anos 80 e 90, desafiando a marginalização e promovendo acesso a tratamentos.
Importante também é seu posicionamento contra o idadismo, ao insistir em viver plenamente em uma sociedade que muitas vezes tenta suprimir os idosos. Seja por suas escolhas estéticas ou por suas habilidades físicas adaptadas à idade, ela quebra estereótipos sobre o que idosos podem e devem fazer—como uma mulher de 65 anos que não teme expressar sua sexualidade e desejos abertamente.
Madonna nos apresenta a uma Velhice Libertária, frequentemente oculta porque desafia convenções sociais confortáveis, mas restritivas. Esta perspectiva de velhice, rica em autonomia e diversidade, alimenta minha paixão pela Gerontologia, uma ciência que nos incentiva a reconhecer a diversidade para além de nossa compreensão habitual e a questionar as zonas de conforto que limitam a expressão plena da vida.
Diego Felix Miguel, doutorando em Saúde Pública pela USP, membro da diretoria da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia – Seção São Paulo e Gerente do Convita – serviço de referência para atendimento de pessoas idosas imigrantes e descendentes de italianos. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.
Nasci na maternidade de Vila Maria, na zona norte de São Paulo no dia 21 de abril de 1959.
No início dos anos 70, Giberto Gil, Bezerra da Silva, Jorge Bem Jor, Tony Tornado, Jackson Five, Billy Paul, Al Green, Stylistics, Barry White, Diana Ross, Stevie Wonder, Donna Summer, Aretha Franklin, Marvin Gaye, Roberta Flack, , entre outros cantores negros, regavam nossos bailes com suas músicas.
Dançávamos Samba Rock, hip hop, música lenta etc., chamávamos esses bailes de “Baile Black ou Baile de Preto”.
Na Vila Sabrina também zona norte de São Paulo onde eu morava, existiam os “Bailes de Garagem” que eram feitos na garagem de um amigo e nos salões de festa de nome: Sociedade Amigos de Vila Sabrina, Maracanã e Cafona. Eu participava desses bailes até nas quartas feiras, que terminavam sempre as 11 e meia da noite, pois todos tínhamos que trabalhar no outro dia.
Naquela época estava na moda calça boca de sino, sapato bicolor, camisa de tergal, uma corrente de bijuteria da mais grossa possível e o cabelo Black Power.
Apesar de eu ser pardo e meu cabelo liso, eu usava o Garfo ou Pente Africano para moldar meu cabelo para virar o famoso Black Power.
Muito raramente meus amigos e eu, participávamos de bailes em outros bairros, somente íamos quando quem convidava era o dono do baile, pois do contrário corríamos riscos.
Atualmente somente o salão da Sociedade ainda existe, mas não tem mais bailes, os outros foram demolidos, até a garagem do meu amigo não existe mais.
Quando se aprende a dançar Samba Rock, nunca se esquece, ainda danço com minha esposa, minha sobrinha e minha neta que estou ensinando.
Ouça o Conte Sua História de São Paulo
Odnides Pereira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Juliano Fonseca. Seja você também personagem dos 470 anos da nossa cidade. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos leia o meu blog miltonjung.com.br e ouça o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
O ano era 1987. Na época, eu com 23 anos e meu namorado, hoje meu marido, com 26. Éramos estudantes da Faculdade Cásper Líbero e usávamos os fins de semana para passear, namorar e fotografar.
Um de nossos lugares preferidos era o Parque da Água Branca, na Barra Funda. Fácil de chegar e relativamente perto de nossas residências, nos encontrávamos lá quase todos os sábados para fazer fotos com uma máquina Nikon emprestada e depois revelaríamos o filme no laboratório da faculdade.
Foram tantas e lindas fotos!
Dentre elas um menino que trabalhava como pipoqueiro que não devia ter mais de 10 anos; idosos pensativos sentados nos bancos; e muitos animais atravessando as alamedas.
Aprendemos a olhar com os olhos da alma, a admirar a beleza daquelas imensas árvores e ouvir os cantos dos galos. Tantas crianças, com pedaços de pão, correndo atrás das galinhas, patos e gatos, habitantes que viviam livres no Parque!
No mini zoológico, alguns bois, bezerros e bodes ouviam desatentos os insistentes chamados das crianças penduradas nas cercas. Caminhando em direção a rua Turiassú, sempre parávamos no Pergolado. Lá, cantos de pássaros podiam ser ouvidos, e o local nos convidava a reflexão e quietude. Podia até imaginar esse sossego quando os portões se fechavam, depois de um dia intenso de sol. Os bichos se aninhando nas gramas, nas árvores, nos cantos. Em paz, enfim!
Andando pelo parque, no meio de tantas árvores, parecia que não estávamos em São Paulo. O Água Branca era um oásis no barulho da Avenida Francisco Matarazzo.
Caminhávamos de mãos dadas, máquina pendurada no ombro, sem sentir as subidas que faziam parte dos diversos caminhos que nos levavam para as ruas Ministro de Godói e Turiassú. Parando ora aqui, ora ali, para uma foto, um comentário, um beijo!
Muita coisa mudou na cidade e o Parque da Água Branca acompanhou essa transformação: envelheceu e soube manter seu frescor. Como todos na cidade, teve que se adaptar aos tempos: hoje tem aparelhos para ginástica, mesas e cadeiras para o café na feira orgânica, o Revelando SP, que apresenta comidas e artesanato de várias cidades do interior de São Paulo.
O modo de fazer fotos também mudou. Hoje, os visitantes têm celulares e não precisam economizar o filme. Saem fazendo diversos cliques e fotos de tudo o que veem, muitas vezes se esquecendo de só olhar, de registrar a lembrança na memória e de andarem de mãos dadas pelas alamedas.
O Parque continua majestoso, recebendo de braços abertos pessoas de todos os locais da cidade e do mundo.
Dora del Mercato é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Daniel Mesquita. Seja você também uma personagem da nossa cidade. Venha participar da edição especial do Conte Sua História de São Paulo, em homenagem ao aniversário da cidade. Escreva seu texto agora e nvie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite o meu blog miltonjung.com.br ou ouça o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
Sou paulista e paulistano. Nasci na noite de Natal, no bairro da Consolação. Eram 25 de dezembro de 1963. Sou filho de migrantes pernambucanos. Meu pai, Antonino Dionísio Marques, de Vitória de Santo Antão, terra da Pitu, uma das mais conhecidas cachaças do Brasil. Minha mãe, Maria do Carmo. Natural de Correntes, na época distrito de Garanhuns.
Papai era era alfaiate e foi para São Paulo, em 1957, após trabalhar com Seu Bruno Perrelli, no Recife. Na capital paulistana, acompanhou a agitação política no fim dos anos de 1950 e início de 1960.
Ele assistiu à partida inaugural do Estádio do Morumbi. Além do fato de ter acompanhado a construção do estádio, decidiu ver o jogo de estreia porque era torcedor ferrenho do rubro-negro Sport Recife. Não que seu time estivesse em campo, mas o anfitrião São Paulo receberia o Sporting de Lisboa, jogo que a equipe da casa venceu por 1 a 0, com gol de Peixinho. Foi o que bastou para que Seu Antonino se transformasse em torcedor do tricolor paulista. Falava com entusiasmo de tudo que presenciou naquele dia.
Após os eventos de 31 de março de 1964 e se sentindo inseguro, enviou para o Recife, sua esposa, minha mãe, e eu, no fim de abril. Ele e o irmão, João Dionísio, deixaram São Paulo, no mês de Sant’Ana, como o nordestino chama o mês de junho.
Religiosamente, meu pai retornava à capital paulista para rever os amigos. Por várias vezes, eu o acompanhei. Ficávamos na casa de um cunhado dele que também era migrante e morava na rua Cuiabá, número 96, bairro da Mooca. Chegávamos a ficar até 20 dias.
Ao me formar no ensino superior, fiz um estágio, para aprimorar os conhecimentos em voleibol, no Esporte Clube Banespa e morei um tempo no bairro de Santo Amaro, na zona Sul. Quando a grana permitia, visitava o centro da cida e almoçava pastel com caldo de cana, no Mercado Público.
Hoje, viajo menos a São Paulo, devido os afazeres. Vou eventualmente, a cada dois, três anos. Sempre que vou me emociono andando a pé pelo centro. Assim admiro melhor suas ruas, monumentos, parques, museus, exposições e tudo de bom que essa megalópole oferece.
Por restrições financeiras, faz uns seis anos que não saboreio aquele caldo de cana acompanhado de pastel, uma parada obrigatória sempre que assistia a um jogo da Taça São Paulo de Futebol Junior.
Por uma dessas coincidências que o destino nos apronta, meu pai morreu na manhã de um 25 de dezembro, quando eu estava completando 43 anos. Preparava um churrasco para comemorar meu aniversário e havia convidado seus parentes de Vitória de Santo Antão e os da minha mãe, da cidade de Correntes. A presença deles naquela data, ao menos serviu para que todos pudessem prestar uma homenagem ao Seu Antonino que, assim, como eu, adorava a cidade de São Paulo.
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Antonio Dionísio é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Claudio Antonio. Seja você também uma personagem da nossa cidade. Escreva seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite o meu blog miltonjung.com.br ou ouça o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
Reprodução de imagem da transmissão oficial do GP Brasil da F1
A psicanalista clínica Jassanan Amoroso Dias Pastore, em seu artigo “Quem é o Culpado,” escreveu:
“O ideal de perfeição, característica do contemporâneo, contribui para o desenvolvimento da culpa, na medida em que o aparecimento de qualquer erro, inerente a todo processo de aprendizagem, é sentido como um fracasso.”
Na nossa sociedade, o erro é visto como falha, incapacidade e até mesmo incompetência! Somos tão cobrados pela eficiência que cometemos julgamentos, jogamos a empatia para debaixo do tapete e prontamente apontamos o dedo!
Refiro-me ao “erro” neste artigo — e já falei sobre os meus como MC em solenidades em outra oportunidade — pelo ocorrido nos últimos dias com a cantora Ludmilla, no GP de São Paulo de Fórmula 1. Ela teria esquecido a letra do Hino Nacional. Negou o esquecimento e alegou que houve uma falha no som do microfone. Independentemente do que tenha acontecido, de imediato, o tribunal das redes sociais já lhe atribuiu o julgamento de gafe, desrespeito ao símbolo nacional, falta de preparo, enfim, uma série de adjetivos negativos que colocam em dúvida a capacidade do ser humano.
Não me canso de falar, ao vivo tudo é muito diferente. Tudo pode acontecer, até mesmo quando nos sentimos extremamente preparados e capacitados para tal. O que nos permite ser melhores que a inteligência artificial em matéria de sentimentos e humanidade, por outro lado, nos torna cruéis em não admitir que nem tudo que se faz é por querer e que os erros podem sim acontecer.
Pode ter sido excesso de confiança? Pode! Pode ela ter ensaiado várias vezes e não ter errado nenhuma? Pode! Poderia ela ter utilizado o recurso da leitura para acompanhar e não dar chance ao erro? Sim, tudo isso pode! Mas aconteceu! Ou, aparentemente, aconteceu! E, mais do que o nosso constrangimento, para Ludmilla, talentosa na arte de cantar, o julgamento interno deve estar cobrando a cada instante que se lembra do ocorrido, ainda que tenha se tornado uma estrela nesse caldeirão cultural que consome artistas de uma hora pra outra.
De origem humilde, filha de dançarina que teve o pai preso quando tinha apenas um mês e treze dias, não pode errar. Sim, ela deve se cobrar muito mais do que dizem as redes sociais, entre um copo e outro de cerveja na mesa do bar. Somos perfeitos e imbatíveis, mas, na maioria das vezes, não colocamos a cara para bater.
E amanhã, quem será o próximo? O nosso Hino Nacional não tem uma letra fácil, e certamente você já ficou só mexendo os lábios durante uma execução ou já trocou alguma estrofe. É natural. Mas a menina que um dia foi pobre não pode errar.
Acompanho o trabalho da fonoaudióloga Thays Vaiano, que cuida de inúmeros talentos, entre eles a cantora Ludmilla. O que demonstra, por parte da artista, o respeito e responsabilidade que tem com o seu instrumento de trabalho, a voz e com a própria carreira! Aliás, é da Thays o termo que gosto de utilizar de “ATLETAS DA VOZ!” Sim, porque é isso que nós que usamos essa ferramenta de comunicação somos. Ainda sim, seremos eternamente dependentes da nossa memória. E são inúmeros os pensamentos na hora do “AO VIVO” e os atrativos visuais que podem nos tirar da linha de raciocínio e nos levar à falha.
E, certamente, ouviremos do Ipiranga às margens FLÁCIDAS (como dito pelo ex-presidente da República em vídeo que pode ser conferido na internet), se erguer a clava forte da justiça e aí entenderemos que errar o Hino não é descaso nem desrespeito, é humano, assim como aconteceu com a Cantora Fafá de Belém, Vanusa, Luan Santana e Carlinhos Brow. Diga-se de passagem, já vi um cantor de ópera errar e um secretário de cultura que também é cantor se atrapalhar com a letra!
Talvez, um dia (não creio), veremos que um filho teu não foge à luta, nem teme, quem te adora, a própria morte, terra adorada, entre outras mil, os filhos deste solo tentam, mas não conseguem assim como tu ser mãe gentil, Pátria amada, Brasil!
Christian Müller Jung é publicitário de formação, mestre de cerimônia por profissão. Colabora com o blog do Mílton Jung — o irmão dele, com muito orgulho.
A experiência do estádio ainda me surpreende. Os muitos anos de arquibancadas no Olímpico Monumental não foram suficientes para me oferecer todas as sensações que o futebol pode proporcionar — e quantas emoções eu lá vivi! Falo do Olímpico porque, quando a Era Arena se iniciou, já não vivia mais em Porto Alegre, o que me fez diminuir drasticamente a presença, ao vivo, nas partidas. Transformei-me em torcedor de sofá — que isso não seja visto como demérito, apenas como circunstâncias da vida.
Hoje, porém, dei-me o direito de assistir ao Grêmio no Morumbi. É aqui na vizinhança, pouco menos de 2,5 quilômetros de casa e a 10 minutos de carro. Tinha uma razão especial para ver a partida do estádio: Luis Suárez, nosso atacante que se encaminha para o fim da jornada com a camisa tricolor. É um privilégio ser torcedor de um time que tem um dos quatro maiores goleadores do mundo na ativa a lhe representar. Não canso de admirar o esforço deste gigante que faz o que está a seu alcance para tornar o Grêmio um pouco melhor do que é — não bastasse o talento com que toca na bola e chuta a gol, tem uma raça e uma forma de liderar exemplares.
De Suárez vi o que foi possível a medida que o time faz pouco para que ele apresente todo seu potencial em campo. Por mais que corra desesperadamente em busca de uma boa jogada, a companhia não colabora muito com a sequência do lance. O que me fez feliz em uma noite de infelicidade no futebol jogado no campo esteve na arquibancada do Morumbi, no pequeno e desconfortável espaço reservado à torcida adversária.
No embalo da banda da Geral do Grêmio, os torcedores, mesmo descrentes em relação ao desempenho do time, entoavam cânticos de exaltação pelos feitos do Imortal. Faltava harmonia entre as letras que falavam de vitórias e conquistas e a performance da equipe. Essa dessintonia fazia do som emitido pelos torcedores algo ainda mais impressionante. Sinalizava o quanto eles (nós) têm noção da relevância daquele distintivo que carregamos no peito, do que representamos e alcançamos nessa longa jornada.
O melhor foi reservado para depois do jogo. Após um jogo que jogamos abaixo da crítica, tão sem méritos quanto sem organização. Enquanto esperávamos a liberação policial para deixamos o estádio, a banda tocava de forma eletrizante. Dentre os torcedores que pulavam no ritmo das músicas, um menino de cabelos longos, nos ombros do pai, com a camisa de Suárez nas mãos, vibrava como se tivéssemos conquistado um título. Uma alegria contaminante!
Foi na imagem daquele guri que me encontrei em sintonia com a história do Grêmio mais uma vez. A felicidade dele lembrou-me porque sou um apaixonado por este time. Por que cantamos mesmo quando em campo o time não encanta.
Quando a música de Lupicinio, cantada por Caetano, começou a tocar na Rádio Nacional, no começo dos anos de 1970, eu era uma menina que acreditava no que diziam as canções e fascinada pelas palavras de felicidade. Viajei nos pensamentos! Lembro-me de ter ido parar numa loja de brinquedos enorme na região da Teodoro Sampaio, no bairro de Pinheiro, em São Paulo. Nunca havia conhecido a loja pessoalmente mas de tanto ouvir histórias das meninas do meu bairro, construí uma imagem e passeei pelos corredores até chegar a seção de bonecas. Lá peguei uma “Dorminhoca”, aquela boneca molenga de cor lilás. Linda de viver!
Também incentivada pela letra da música, comprei um saco bem grande, recheado de coisas quase proibitivas em casa, doces antes das refeições — tinha maria-mole, uma variedade de chocolates e um monte de balas Juquinha, sabor frutas de mentirinha. Ao contrário do que minha mãe jurava que aconteceria, nem uma coisa nem outra foi verdade nos meus pensamentos: não perdia o apetite do sagrado arroz e feijão mais bife, muito menos que sentia dor de barriga.
Junto com o meu crescimento, os pensamentos também perderam a inocência, ganharam maioridade, maturidade, ficaram mais chatos, desconfortáveis e passaram a voar mais perigosamente.
Num determinado momento, tive que confrontar as palavras da música quando fiquei sabendo que certos pensamentos são bem-vindos enquanto outros, Ave Maria!
Comecei a ouvir que pensamentos não são ações. Como assim? E as minhas histórias? A visita a loja, a boneca Dorminhoca, o saco de guloseimas?
Foi estudando que aprendi que certos pensamentos deixam a gente doente, que podem ser negativos, acelerados; e pra voar nos bons pensamentos é preciso me certificar que estou com os dois pés fincados nos chão.
A simplicidade de só pensar é objeto de estudo.
Fico eu aqui pensando no Lupicínio, no Caetano…
“felicidade foi-se embora
e a saudade no meu peito inda mora,
porque eu sei que a falsidade não demora.”
Abigail Costa é jornalista, tem MBA em Gestão de Luxo, é estudante de Psicologia na FMU, faz pós-graduação em Gerontologia, no Hospital Albert Einstein, e escreve como colaboradora a convite do Blog do Mílton Jung.
Quando você fica um certo tempo longe de sua terra, as imagens, os aromas, as visões e as lembranças se tornam ainda mais fortes. Por isso, é que, às vezes, me lembro do vilarejo onde passei minha infância, com especial intensidade.
Perus, norte da Grande São Paulo, não era, como agora, um aglomerado de casas e comércio. Ao contrário, era então, uma paisagem quase bucólica. A estrada de ferro, antes chamada de Santos—Jundiaí, ainda corta o local bem no meio e tem, como acompanhante, um rio que vai serpenteando ao seu lado e, no caminho, divide a praça principal.
O rio e a ferrovia formam, assim, uma espécie de vale cercado de elevações — ou morros, como dizíamos. Na minha infância ainda era tudo muito espalhado, não havia tantas casas e estavam como que semeadas pelas elevações; enquanto o comércio, os bancos, o cinema e tudo mais, estavam no centro do bairro, em volta da praça.
De um dos lados saía uma rua, na verdade uma rampa íngreme, que chamávamos de Morro do Cartório, e que levava a algumas habitações mais para cima, inclusive a casa onde eu morava. O cartório – o Tabelionato Farias – ficava no meio desta rua, que subia, subia e continuava subindo.
Lá embaixo, no começo, estava a igreja católica, cuja padroeira era a Santa Rosa de Lima.
E antes de continuar a andar pela “cidade”, quero parar um pouco por aí. Era uma igreja como outra qualquer, branca, com uma torre, sino. Sei que mudou, desde então. Toda tarde, às seis horas, algo muito especial acontecia.
Nessa época, a essa altura do dia, as pessoas estavam encerrando as atividades, fechando o comércio, voltando para casa. Então, com uma pompa e força inusitadas para todos, soava o “Concerto no. 1 para Piano e Orquestra de Tchaikovsky”.
O som saía das torres da pequena igreja e ecoava pelas montanhas, pelas ruas, entrava nas casas, ia, ia, para além das fronteiras do nosso bairro. Era vibrante, imponente, poderoso, sensacional. Enchia os ouvidos, o ar e a alma.
Depois de algum tempo, o som baixava, sem desaparecer. Entrava então a voz de um locutor, altivo e pomposo:
“Ao som deste prefixo musical, vai ao ar o Serviço de Alto-Falantes da Paróquia da Santa Rosa de Lima de Perus”.
Não podia haver nada mais solene do que isso. Naquele momento, Perus e sua paróquia eram mais importantes que o Vaticano, que Roma, que Aparecida do Norte, Brasília ou Rio de Janeiro. Éramos insuperáveis. Tudo parava por alguns segundos, pelo menos na minha imaginação. Nem sei o que o locutor falava depois. Talvez banalidades, anúncios locais… Não importa. Naquela hora era Tchaikovsky. E Tchaikovsky era o papa. Ele nos aproximava de Deus, mais do que qualquer sermão, livro, exortação. Era um momento simplesmente lindo, majestoso…
O locutor era meu irmão, o Bonifácio. Ele faleceu há alguns anos e entre as inúmeras coisas boas e bonitas de que me recordo a seu respeito, essa foi a mais apropriada que achei para homenageá-lo.
Como dizem meus filhos, “era a sua cara”… Tchaikovsky em Perus, São Paulo.
Flávio Cruz é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Envie você também seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.