Avalanche Tricolor: cantas por quê?

São Paulo 3×0 Grêmio

Brasileiro – Morumbi, São Paulo/SP

Foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

A experiência do estádio ainda me surpreende. Os muitos anos de arquibancadas no Olímpico Monumental não foram suficientes para me oferecer todas as sensações que o futebol pode proporcionar — e quantas emoções eu lá vivi! Falo do Olímpico porque, quando a Era Arena se iniciou, já não vivia mais em Porto Alegre, o que me fez diminuir drasticamente a presença, ao vivo, nas partidas. Transformei-me em torcedor de sofá — que isso não seja visto como demérito, apenas como circunstâncias da vida.

Hoje, porém, dei-me o direito de assistir ao Grêmio no Morumbi. É aqui na vizinhança, pouco menos de 2,5 quilômetros de casa e a 10 minutos de carro. Tinha uma razão especial para ver a partida do estádio: Luis Suárez, nosso atacante que se encaminha para o fim da jornada com a camisa tricolor. É um privilégio ser torcedor de um time que tem um dos quatro maiores goleadores do mundo na ativa a lhe representar. Não canso de admirar o esforço deste gigante que faz o que está a seu alcance para tornar o Grêmio um pouco melhor do que é — não bastasse o talento com que toca na bola e chuta a gol, tem uma raça e uma forma de liderar exemplares.

De Suárez vi o que foi possível a medida que o time faz pouco para que ele apresente todo seu potencial em campo. Por mais que corra desesperadamente em busca de uma boa jogada, a companhia não colabora muito com a sequência do lance. O que me fez feliz em uma noite de infelicidade no futebol jogado no campo esteve na arquibancada do Morumbi, no pequeno e desconfortável espaço reservado à torcida adversária. 

No embalo da banda da Geral do Grêmio, os torcedores, mesmo descrentes em relação ao desempenho do time, entoavam cânticos de exaltação pelos feitos do Imortal. Faltava harmonia entre as letras que falavam de vitórias e conquistas e a performance da equipe. Essa dessintonia fazia do som emitido pelos torcedores algo ainda mais impressionante. Sinalizava o quanto eles (nós) têm noção da relevância daquele distintivo que carregamos no peito, do que representamos e alcançamos nessa longa jornada. 

O melhor foi reservado para depois do jogo. Após um jogo que jogamos abaixo da crítica, tão sem méritos quanto sem organização. Enquanto esperávamos a liberação policial para deixamos o estádio, a banda tocava de forma eletrizante. Dentre os torcedores que pulavam no ritmo das músicas, um menino de cabelos longos, nos ombros do pai, com a camisa de Suárez nas mãos, vibrava como se tivéssemos conquistado um título. Uma alegria contaminante! 

Foi na imagem daquele guri que me encontrei em sintonia com a história do Grêmio mais uma vez. A felicidade dele lembrou-me porque sou um apaixonado por este time. Por que cantamos mesmo quando em campo o time não encanta.

Pensamento à toa

Abigail Costa

@abigailcosta

“O pensamento parece uma coisa à toa

 mas como é que a gente voa

 quando começa a pensar?”

Lupicínio Rodrigues

Quando a música de Lupicinio, cantada por Caetano, começou a tocar na Rádio Nacional, no começo dos anos de 1970, eu era uma menina que acreditava no que diziam as canções e fascinada pelas palavras de felicidade. Viajei nos pensamentos! Lembro-me de ter ido parar numa loja de brinquedos enorme na região da Teodoro Sampaio, no bairro de Pinheiro, em São Paulo. Nunca havia conhecido a loja pessoalmente mas de tanto ouvir histórias das meninas do meu bairro, construí uma imagem e passeei pelos corredores até chegar a seção de bonecas. Lá peguei uma “Dorminhoca”, aquela boneca molenga de cor lilás. Linda de viver!

Também incentivada pela letra da música, comprei um saco bem grande, recheado de coisas quase proibitivas em casa, doces antes das refeições — tinha maria-mole, uma variedade de chocolates e um monte de balas Juquinha, sabor frutas de mentirinha. Ao contrário do que minha mãe jurava que aconteceria, nem uma coisa nem outra foi verdade nos meus pensamentos: não perdia o apetite do sagrado arroz e feijão mais bife, muito menos que sentia dor de barriga.

Junto com o meu crescimento, os pensamentos também perderam a inocência, ganharam maioridade, maturidade, ficaram mais chatos,  desconfortáveis e passaram a voar mais perigosamente.

Num determinado momento, tive que confrontar as palavras da música quando fiquei sabendo que certos pensamentos são bem-vindos enquanto outros, Ave Maria!

Comecei a ouvir que pensamentos não são ações. Como assim? E as minhas histórias? A visita a loja, a boneca Dorminhoca, o saco de guloseimas?

Foi estudando que aprendi que certos pensamentos deixam a gente doente, que podem ser negativos, acelerados; e pra voar nos bons pensamentos é preciso me certificar que estou com os dois pés fincados nos chão. 

A simplicidade de só pensar é objeto de estudo.

Fico eu aqui pensando no Lupicínio, no Caetano…

“felicidade foi-se embora

 e a saudade no meu peito inda mora, 

porque eu sei que a falsidade não demora.”

Abigail Costa é jornalista, tem MBA em Gestão de Luxo, é estudante de Psicologia na FMU, faz pós-graduação em Gerontologia, no Hospital Albert Einstein, e escreve como colaboradora a convite do Blog do Mílton Jung.

Conte Sua História de São Paulo: o Tchaikovsky de Perus

Por Flávio Cruz

Ouvinte da CBN

Quando você fica um certo tempo longe de sua terra, as imagens, os aromas, as visões e as lembranças se tornam ainda mais fortes. Por isso, é que, às vezes, me lembro do vilarejo onde passei minha infância, com especial intensidade. 

Perus, norte da Grande São Paulo, não era, como agora, um aglomerado de casas e comércio. Ao contrário, era então, uma paisagem quase bucólica. A estrada de ferro, antes chamada de Santos—Jundiaí, ainda corta o local bem no meio e tem, como acompanhante, um rio que vai serpenteando ao seu lado e, no caminho, divide a praça principal. 

O rio e a ferrovia formam, assim, uma espécie de vale cercado de elevações — ou morros, como dizíamos. Na minha infância ainda era tudo muito espalhado, não havia tantas casas e estavam como que semeadas pelas elevações; enquanto o comércio, os bancos, o cinema e tudo mais, estavam no centro do bairro, em volta da praça. 

De um dos  lados saía uma rua, na verdade uma rampa íngreme, que chamávamos de Morro do Cartório, e que levava a algumas habitações mais para cima, inclusive a casa onde eu morava. O cartório – o Tabelionato Farias – ficava no meio desta rua, que subia, subia e continuava subindo. 

Lá embaixo, no começo, estava a igreja católica, cuja padroeira era a Santa Rosa de Lima. 

E antes de continuar a andar pela “cidade”, quero parar um pouco por aí. Era uma igreja como outra qualquer, branca, com uma torre, sino. Sei que mudou, desde então. Toda tarde, às seis horas, algo muito especial acontecia. 

Nessa época, a essa altura do dia, as pessoas estavam encerrando as atividades, fechando o comércio, voltando para casa. Então, com uma pompa e força inusitadas para todos, soava o “Concerto no. 1 para Piano e Orquestra de Tchaikovsky”. 

O som saía das torres da pequena igreja e ecoava pelas montanhas, pelas ruas, entrava nas casas, ia, ia, para além das fronteiras do nosso bairro. Era vibrante, imponente, poderoso, sensacional. Enchia os ouvidos, o ar e a alma. 

Depois de algum tempo, o som baixava, sem desaparecer. Entrava então  a voz de um locutor, altivo e pomposo: 

“Ao som deste prefixo musical, vai ao ar o Serviço de Alto-Falantes da Paróquia da Santa Rosa de Lima de Perus”. 

Não podia haver nada mais solene do que isso. Naquele momento, Perus e sua paróquia eram mais importantes que o Vaticano, que Roma, que Aparecida do Norte, Brasília ou Rio de Janeiro. Éramos insuperáveis. Tudo parava por alguns segundos, pelo menos na minha imaginação. Nem sei o que o locutor falava depois. Talvez banalidades, anúncios locais… Não importa. Naquela hora era Tchaikovsky.  E  Tchaikovsky  era o papa. Ele nos aproximava de Deus, mais do que qualquer sermão, livro, exortação. Era um momento simplesmente lindo, majestoso…

O locutor era meu irmão, o Bonifácio. Ele faleceu há alguns anos e entre as inúmeras coisas boas e bonitas de que me recordo a seu respeito, essa foi a mais apropriada que achei para homenageá-lo.

Como dizem meus filhos, “era a sua cara”… Tchaikovsky em Perus, São Paulo.

Flávio Cruz é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Envie você também seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Sua Marca: a lição de branding deixada por Charlie Watts e os Rolling Stones

“Obedecer com cuidado os dois ensinamentos de Dawar e Bagga  não é fácil, mas gera muito mais vantagem competitiva” 

Cecília Russo

Charlie Watts é único, singular. Baterista da maior banda de rock de todos os tempos —- perdão, caro e cada vez mais raro amigo leitor deste blog que insiste em admirar os Beatles, mas Rolling Stones é maior —-, morreu aos 80 anos, nesta semana, e motivou uma série de análises e olhares para justificar o sucesso que fazia ao ser contraponto de Mick Jagger e sua trupe. Comedido nos atos, elegante no agir e genial no controle das baquetas, Watts deixa um legado inigualável e lições que podem ser aprendidas em diferentes ciências. Aqui neste espaço, por óbvio que seja, vamos conversar de uma em especial: o branding.

Ao ser a maior das bandas —- e aqui conta a opinião do redator —, Rolling Stones personificou dois conceitos essenciais para o sucesso entre as marcas: centralidade e diferenciação —- assunto de Jaime Troiano e Cecília Russo, no Sua Marca Vai Ser Um Sucesso. Nossos especialista em branding lembram que, em artigo publicado na Harvard Business Review, em 2015, os indianos Niraj Dawar e Charan K. Bagga apresentam os desafios dos profissionais de marketing que precisam posicionar suas marcas nessas duas dimensões. Para que a marca se sobressaia no mercado e tenha sucesso —- como sucesso têm os Rolling Stones — é preciso ser central em sua categoria de produtos, o que a leva ter maior market share, e ao menos tempo ser distinta, para diferenciar-se da concorrência. 

Para explicar essa estratégia, Jaime traz o assunto para mais próximo da gente:

“Você vai a uma festa onde quer conversar com algumas pessoas e quer que elas saibam que você está lá. A primeira coisa que precisa fazer é se vestir de uma forma que se adapte àquela festa; mas para não ser apenas mais um, terá de se apresentar e se comportar de uma forma um pouco especial para ser visto além da multidão”

Jaime Troiano

De volta às marcas: o conceito da centralidade pede que você seja percebido como uma marca que opera dentro de uma categoria de produtos — e isso tem de ser feito de forma muito clara. Com isso a marca está em condições de disputar espaço com as concorrentes do mesmo segmento. De acordo com os autores indianos, porém, isso só não basta. É preciso acrescentar alguma coisa, que o faça se destacar naquele grupo

“Os Stones, de Charlie Watts, respeitam rigorosamente esses dois conceitos. Têm centralidade: nunca ninguém pôs em dúvida a existência dos Rolling Stones como uma banda que disputa esse mercado há muitas décadas. Mas eles têm ingredientes de diferenciação que os faz engolirem as outras bandas nos grandes shows”

Cecília Russo

Muitas marcas entram no mercado para disputar espaço, usam os códigos e o estilo da categoria a que pertecem mas são apenas um copycat, uma imitação das que chegaram antes. Falta a elas diferenciação. Há outras que querem se diferenciar a todo custo e rompem com os códigos e estilo da categoria e ficam deslocadas.

Se no início desta conversa ilustramos a importância de saber trabalhar a marca nas duas dimensões, centralidade e diferenciação, com os Rollings Stones e seu baterista Charlie Watts — que mesmo sendo um Stones como os outros, era diferente —, vamos encerrar nosso papo com uma lembrança bem nacional de Jaime Troiano, que decidiu recitar Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Morais:

“olha que coisa mais linda

 mais cheia de graça

 que vem que passa 

num doce balanço 

a caminho do mar”

A letra de Garota de Ipanema fez Jaime lembrar que de tantas mulheres lindas e cheia de graça que passavam pela praia, uma delas em especial chamou a atenção dos dois compositores brasileiros: uma que tinha um “doce balanço” que a diferenciava das demais: 

“É isso que a gente espera das grandes marcas. Que estejam passeando pela praia, que sejam bonitas, atraentes, mas que tenham uma coisa a mais, também: pode ser um sorriso, um jeito de andar, um olhar e assim por diante. Não basta estar na categoria, precisa ser diferente dos outros”

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, com Jaime Troiano e Cecília Russo:

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, às 7h55 da manhã, no Jornal da CBN. A sonorização é do Paschoal Junior. 

Conte Sua História de São Paulo: as novidades musicais chegavam na Hi-Fi

 

Por Douglas de Paula e Silva
Ouvinte da CBN

 

 

 

Nasci na Lapa, em 1955, na Rua Faustolo. A casa existe até hoje. Meus pais, Antonia e Rubens, sempre foram muito musicais: cantando, dançando, tocando piano. Ele com sua voz de tenor, cantava árias de óperas sem nunca ter estudado música, tocava piano de ouvido e dançava muito bem. Papai era da Aeronáutica, tinha muito contato com pilotos americanos, que traziam discos de jazz, blues, música clássica. Mesmo criança já ouvia Glenn Miller, Dave Brubeck, Miles Davis. Adorava “Take Five” do Brubeck.

 

Quando nos mudamos para o Planalto Paulista, em 1960, um lugar bem isolado naquela época, minha mãe logo me colocou para aprender a tocar piano com a Dna. Maria Expedito, perto de casa. Fiz seis anos de piano meio que por obrigação. Gostava mesmo era de bateria. Minha mãe, disse que aquilo só fazia barulho.

 

Tudo mudou quando, com oito anos, em 1964, minha tia me levou para assistir ao “Os Reis do Ié Ié Ié”, o primeiro filme dos Beatles. Fomos no Cine Nacional, na Rua Clélia, um dos maiores cinemas do Brasil. Quando vi os Beatles tocando, aqueles jovens gritando, dançando no corredor do cinema, percebi que o rock era a minha música.

 

Rádios FM eram raras bem como os aparelhos para ouvi-las. Ouvia as músicas no AM. Por falta de dinheiro, comprava apenas os discos compactos. Os LPs eram caros e demoravam para chegar por aqui. Costumava pegar emprestado os LPs de amigos mais abonados da escola.

 

As novidades chegavam primeiro na loja da “HI-FI” da Rua Augusta, trazidas diretamente dos Estados Unidos pelo dono Hélcio Serrano. Na visita à loja, além das novidades, você encontrava Rita Lee, Raul Seixas, Caetano … Em uma época em que tudo era proibido, as embalagens da HI-FI eram bem ousadas. Lembro de uma delas onde o Serrano aparecia nu com uma capa de disco tapando o que não poderia ser mostrado.

 

Os shows de rock não vinham para o Brasil. O mais famoso a se aventurar por aqui foi Alice Cooper num show caótico no Anhembi, em 1974. Em 1977, veio o Genesis, com Phil Collins no vocal. Um show maravilhoso no ibirapuera. Épico foi o do Queen no Morumbi, com Freddie Mercury comandando mais de 100 mil pessoas no “Love of my life”…

 

No rádio, duas emissoras se destacavam tocando rock: a Difusora e a Excelsior. Vasculhando o dial, descobri na madrugada, o programa Kaleidoscópio, que tocava rock progressivo e discutia temas como drogas, liberdade, teatro … e tocava discos na íntegra.

 

Vieram os CDs, em 1985. E com eles novos grupos como The Police e Nirvana.

 

Tive oportunidade de assistir a muitos shows de grupos que gostava desde a juventude.

 

Há quatro anos fui ver o cover do Led Zeppelin e fiquei impressionado com o baterista, que lembrava em tudo John Bonham. Conversei com ele e desde então, eu e meu filho de 15 anos, Daniel, estamos tendo aulas de bateria. Até nos apresentamos juntos. Foi inesquecível.

 

Falei para minha mãe, agora com 94 anos. E ela, ao contrário do meu tempo de criança, gostou muito. Felizmente!

 

Douglas de Paula e Silva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br

Conte Sua História de São Paulo: quando escutei a primeira música dos Beatles

 

Por Reinaldo Carmo Milito

 

 

Quando nasci em maio de 1952, minha família morava no Bom Retiro, na rua José Paulino, 752. É de lá que tenho as minhas lembranças mais remotas –- uma espingardinha de rolha, presente de Natal; minha bisavó Angela; e os meus primeiros heróis, Maurício e o irmão dele de quem eu não lembro o nome — dois garotos judeus que eram nossos vizinhos.

 

Lá por 1955, mudamos para a Casa Verde, numa casa próxima à ponte sobre o Rio Tietê. Ainda não existia a Avenida Braz Leme e no local ficava o nosso campo de futebol e uma enorme área que era nosso cenário imaginário para as inúmeras batalhas com espadas de madeira, inspirados por Ivanhoé, ou de tiroteios com falsos rifles e revólveres a la Bat Masterson, Daniel Boone, ou pelo falso Zorro, que na verdade era o Cavaleiro Solitário e seu amigo Tonto!

 

Em 1962, fomos morar no centro – esquina da Avenida Rio Branco com Ipiranga. Morávamos no 12º andar do Edifício Agulhas Negras e a vista me fascinava porque até então eu só tinha visto a cidade no plano do chão!

 

Levei comigo as empolgações das brincadeiras de rua; e a lateral da banca do Adão, um ex-boxeador, era o nosso gol. É lógico que o jogo sempre terminava no 1 X 0. A primeira bolada na banca, o Adão, um negro sarado com mais de 1,80 de altura e um físico avantajado, botava medo em qualquer um, imediatamente apitava o final do jogo!

 

Meu parceiro de artes era o Edson, filho do Sr Francisco que era o zelador do prédio. Curtíamos também subir no terraço que ficava no 22º andar e de lá soltar aviõezinhos de papel para disputar qual o que chegava mais longe!

 

Fazia parte do meu mundo maravilhoso, a garagem de onde saíam as lotações para Santos – Expresso Zefir – que ficava na Avenida Ipiranga. Eu era maluco pelo Simca Chambord e era ali que eu me realizava, pois a frota era formada por Simcas e Aero Willys.

 

Um pouco mais adiante, quase na famosa esquina cantada pelo Caetano em Sampa, tinha uma loja de disco e foi onde escutei a primeira música dos Beatles. Posso dizer sem sombra de dúvidas que a minha vida mudou depois daquele dia! Todo dia eu passava lá e pedia para o rapaz: — “por favor, coloque aquela música”. A música era “I Wanna Hold Your Hand”!

 

As matinês de domingo do Cine Metro, com Festival de Tom e Jerry, o cachorro quente da Salada Record, o pudim de leite do Bar Cinelândia na esquina da São João com a Dom José de Barros, o mate gelado, o pão francês da Padaria Irradiação, os doces da Dulca e os pastéis com caldo de cana das pastelarias que ficavam em frente ao prédio onde eu morava são inesquecíveis. Sem falar da pizza brotinho da Casa Italiana, na Rua Antonio de Godoy, em frente ao Cine Boulevard.

 

Ainda não existia a Galeria do Rock porque ele, o rock, estava gatinhando! Ela era a Grande Galeria, ao lado do Cine Art Palácio. Conheci cada pedaço do centro de São Paulo e meu local preferido era a Galeria Prestes Maia por causa das escadas rolantes! O Anhangabaú era o palco para os desfiles de fanfarras e militares, nas datas comemorativas à Independência, Proclamação da República, e outros eventos cívicos. Era ali que se viam os “papa filas” e onde ficava o famoso “buraco do Ademar”.

 

Tudo me fascinava no centro. O som da sirene da Gazeta, que informava o meio-dia, o presépio do Largo Paiçandu, nos dezembros, as lojas Mesbla e Mappin e a quantidade de cinemas que existiam num raio de 200 metros da minha casa. Conheci quase todos os porteiros dos cinemas porque eu os perturbava para me deixarem entrar sem pagar o ingresso!

 

Minha família mantinha uma pequena indústria na Casa Verde e o colégio que eu estudava também ficava lá. Todo dia eu ia e voltava de bonde. Ficava eufórico quando eu vinha no bonde do “bailarino”, apelido do motorneiro mais simpático e conhecido de São Paulo. Eu vinha ao lado dele prestando atenção em tudo e perturbando-o para me deixar pisar no pino localizado no assoalho que era a buzina do bonde – “délém, délém, délém…”

 

Durante os dois anos que morei no centro tive a oportunidade de ver de perto o desfile do time campeão da Copa de 62, a passagem do presidente francês Charles De Gaulle e o movimento que levou à Revolução de 1964, dentre tantos outros eventos. Vi a São Silvestre com partida e chegada na Cásper Líbero, na virada do ano, e a construção do Monumento ao Duque de Caxias, na Praça Princesa Izabel, desde o seu início até a inauguração.

 

Uma experiência ímpar vivida, dando uma ideia de certa inocência popular naquela época, eu vivi na Praça da Sé. A praça toda tomada de gente, assistindo ao jogo da seleção brasileira contra a Tchecoslováquia, pela Copa de 62, num telão enorme que simulava um campo de futebol. Ouvia-se a narração pelos alto falantes espalhados nos postes da praça e o telão mostrava a suposta localização da bola através de uma luz acesa. Aquilo era o máximo. Nunca vou esquecer o momento do gol do Brasil!

 

Enfim, eu trago vivas essas lembranças com uma felicidade imensa e ao mesmo tempo muita tristeza por ver no que se transformou o centro de São Paulo, a cidade que eu amo de paixão!

 

Apesar de ter morado só os primeiros três anos no Bom Retiro, foi lá que eu passei os melhores momentos da minha adolescência e foi durante um fórum entre amigos, ex-alunos do Colégio Alarico Silveira, que, embalado pelas lembranças que cada um trouxe, me inspirei a escrever esse poema:

AS NOSSAS “PENNY LANES”

As ruas do Bom Retiro são as nossas “Penny Lanes”,
Cada uma com seu cheiro cada uma com seu jeito
Infelizmente nada mais está como antes,
Lá nas bandas da Bandeirantes.

 

Por onde ando e para onde olho não canso de ver desgraça
Até o Luso Brasileiro foi demolido na Rua da Graça.
Muita saudade do Jardim da Luz, do bonde e da Salada Record.

 

Hoje vejo o olhar sofrido estampado em rosto latino
Dos muitos que trabalham na José Paulino.
Judeu virou coreano, grego virou chinês,
italiano virou boliviano só o pãozinho ainda é francês
apesar do português ter virado nordestino,
pois agora é do Evanilson a padaria que era do Jacinto, lá na Rua Silva Pinto.

 

Já não tem mais Cine Paris, nem a fábrica de canetas Sheaffer
Muito menos a da Ford e tampouco o Radar Tantã.
Nem a Casa Walter funciona mais ali, na Barra do Tibagi.

 

O Marechal ainda resiste ao tempo, assim como a Igreja Santo Eduardo.
A barbearia do Oswaldo ainda existe só que agora é o Belizário que faz barbas e cabelos de velhos e novos freqüentadores do bairro, ao lado do bar do “Pinga”.

 

A padaria ainda está lá na esquina só que a turma não vai mais lá
Ah, ainda é a mesma, a feira da Rua Jaraguá.
Ainda tem “Antonio Coruja”, “Javaés” e “Newton Prado”,
“Guarani”, “3 Rios” e “Mamoré”,
“General Flores”, “Anhaia e “Solon”
E também “Ribeiro de Lima”, “Prates” e “Julio Conceição”,

 

Mas se um dia a Rua dos Italianos virar Rua dos Coreanos
Juro que morro do coração!

Reinaldo Milito é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br.

Adote um Vereador: músicas e dúvidas, acordes e lições

 

 

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O rádio de válvula American Bosch decorava o Pateo

  

 

O rádio antigo estava sob uma das mesas —- um das poucas desocupadas de gente. A maior parte delas tinha brasileiros, mas se ouvia também o francês, o alemão e o espanhol. Eram famílias, amigos, namorados e conhecidos que almoçavam e conversavam, enquanto o show programado para o início da tarde de sábado não começava, no café do Pateo do Collegio, centro de São Paulo.
 

 

 

De repente, a voz de locutor antigo soou entre os presentes e fez com que todos baixassem o tom. Era o sinal de que algo especial estaria para acontecer. Desde o mês passado, a administração do Pateo tem levado música para o local onde a cidade foi fundada. Começou com chorinho —- e já soube que o estilo voltará em breve, provavelmente ganhando espaço permanente no calendário.

 
 

 

Nesse sábado — o segundo do mês —- a homenagem era a Garoto, compositor e violonista, nascido em São Paulo, que ganhou o mundo com sua qualidade musical. Autor de Lamentos do Morro, Gente Humilde e Duas Contas, Aníbal Augusto Sardinha —- nome de batismo —- é apontado como o pai do violão moderno.

  

 

Na apresentação do violonista Will Winkler-Thor entremeadas pelas histórias contadas por um locutor de rádio, que lembrava as narrações musicais dos anos de 1930 a 1950, os convivas daquela tarde de sábado conheceram um pouco mais do talento de Garoto.

  

 

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Violonista e locutor de rádio fizeram o show no café do Pateo

  

 

Foi nesse clima que a nossa turma foi se aprochegando, puxando uma cadeira, encostando uma mesa, pedindo um café, uma água, um suco — querendo falar muito e trocar ideias como sempre fazemos no segundo sábado do mês, independentemente do número de pessoas que participam do nosso encontro.

 
 

 

Conforme a mesa foi ficando cheia, nos voltávamos aos assuntos do cotidiano: prefeitura, subprefeitura e falta de prefeitura; câmara, política e ausência de políticas públicas.

  

 

Um lembrou das emendas parlamentares e lamentou a nossa falta de estrutura —- nossa, do Adote um Vereador, claro — para fiscalizar com mais rigor o dinheiro que sai do cofre da prefeitura (ou seja, do nosso bolso) e vai parar na conta de gente nem sempre comprometida com as necessidades de São Paulo. Como se consegue monitorar o caminho que esse dinheiro percorre? Será que tem um GPS do dinheiro público?

  

 

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A turma do Adote que ouviu a música até o último acorde

  

 

Nem bem alguém arriscou uma resposta, do outro lado da mesa, ouvi outra pergunta capciosa: quem manda nas subprefeituras? O subprefeito ou o vereador que o indicou?

  

 

O olhar de desconfiança e a expressão de dúvida só se transformaram porque o foco da conversa se esvaiu, dada a música de qualidade que soou mais alto no Pateo. Eu tendia a olhar para o rádio, de onde tinha a ilusão de que o programa estava sendo apresentado. Meus companheiros e companheiras, mais céticos olhavam para o palco improvisado no final das mesas.

  

 

Conforme corria o bate-papo do locutor, retomávamos a conversa na pretensão de que chegaríamos a uma resposta para todas as perguntas que costumamos nos fazer. Sim, porque nada chega a ser novidade para nós que há mais de 10 anos acreditamos no poder do cidadão e decidimos acompanhar as coisas que acontecem na nossa cidade. Mudou o prefeito, mudam alguns vereadores, mudam os cidadãos, mas a prática política é muito parecida. Tem até quem faça um discurso diferente, mas de tão diferente que quer ser, acaba repetindo o mesmo de sempre.

 
 

 

Verdade que nessa última década ganhamos algumas ferramentas de fiscalização que não tínhamos quando o Adote se iniciou. E uma delas é a Lei de Acesso à Informação que permite que o cidadão —- eu, você e toda a torcida paulistana — possamos pedir informações de nosso interesse aos prestadores de serviço público no Executivo, no Legislativo e no Judiciário, tanto quanto na União, no Estado e nos municípios.

 
 

 

Aliás, foi o que o Ricardo Viana, um dos participantes do Adote, fez enquanto a música ainda embalava a tarde de sábado, no Pateo. Ali mesmo, entre o violão e suas dúvidas, aprendeu como usar a LAI.

 

 

Sob a orientação da Gabriela Pereira, advogada, estudiosa da lei de acesso à informação e nossa colega de Adote, ele usou o Sistema eletrônico de Informação ao Cidadão — e-SIC da prefeitura de São Paulo para saber da Secretaria Especial de Comunicação qual o motivo da mudança feita nos logotipos e símbolos das secretarias municipais, algo comum sempre que uma nova administração assume, mas com custo para o bolso do cidadão.

 

 

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A própria Gabriela ainda tenta entender como funciona a regra que determina o layout das placas informativas de obras e serviços públicos realizados pela prefeitura —- tema de uma das solicitações feitas por ela através do e-SIC. Na troca de informações e na insistência para chegar a uma explicação, soube que existe um Manual de Identidade Visual. Agora, ela questiona quem “desenhou” o manual, já que discorda da maneira como os dados estão publicados nessas placas, pois não são claros o suficiente para o cidadão comum.

 

 

Entre dúvidas, solicitações e aprendizados seguimos com um ouvido no rádio antigo —- ops, no palco —- e outro nas discussões do Adote. O murmurinho das demais mesas completava o ambiente musical ao qual estávamos envolvidos. No fim, todos nós, do Adote ou não, nos unimos para aplaudir a boa música que soava do violão solitário de Will Winkler-Thor.

 

 

Até o próximo show!

Conte Sua História de SP: o dia em que Chico Buarque recebeu meu cravo branco

 

Maria Antônia Vargas de Faria
Ouvinte-internauta da Rádio CBN

 

 

Vinda de Socorro, estância hidromineral do Estado de São Paulo, de ônibus, sozinha, a convite das três irmãs mais velhas que já residiam na capital,  eu aos 13 anos estava mais feliz do que nunca, na expectativa de assistir a um show do meu grande ídolo Chico Buarque.

 

No show estariam todos os expoentes da Música Popular Brasileira daquela época, ano de 1967, e seria realizado no velho Teatro Paramount, na Rua Brigadeiro Luiz Antonio, que depois virou Teatro Abril e hoje é Teatro Renault.

 

Fomos de ônibus do pensionato onde elas moravam, no Bixiga, até o Largo São Francisco, onde havia uma floricultura enorme chamada Dierberger, em que uma das minhas irmãs comprou-me um cravo branco, dizendo: “quem sabe você oferece esse cravo ao Chico”.

 

Elas eram universitárias e para minha sorte bastante antenadas com a então efervescente MPB. Do Largo São Francisco até o teatro, fomos caminhando. 

 

Vale aqui um parêntese: meu encantamento por Chico Buarque já vinha desde os 11 anos quando o ouvi no rádio cantando ‘Olê olá’. Daí em diante, só foi crescendo a minha admiração por ele. E eu era a única fã de Chico Buarque no meio das amigas. Todas só queriam saber da turma da Jovem Guarda.

 

Ao chegar ao teatro, meu coração pulava e no início do show, já disparava. E vieram os outros cantores: Edu Lobo, MPB-4, Elis Regina, Elisete Cardoso, Nara Leão, Jair Rodrigues, Wilson Simonal, Márcia, Geraldo Vandré, Sérgio Ricardo, até que chegou a vez do Chico. Ele foi o último. Imaginem o meu deslumbramento. Estava em completo êxtase.

 

Chico cantou “A Rita” e “Pedro Pedreiro”. O público aplaudia muito. Nessa hora eu parei de bater palmas, me levantei e atirei, da sétima fila em que estávamos sentadas, o cravo pra ele. O cravo caiu na sua frente. Ele se abaixou e o pegou. Eu gritava: “Ele pegou meu cravo! Ele pegou meu cravo! Ele pegou meu cravo!”

 

As pessoas que estavam por ali riam de mim, de tamanha tietagem.

 

Depois que Chico Buarque cantou, voltaram todos os artistas para o palco para receber os aplausos finais de despedida e agradecimento e o Chico Buarque, sempre com o meu cravo na mão. Até fecharem as cortinas.

 

Na minha ilusão adolescente, eu respondia: “tomara que seja pra mãe dele: Dona Maria Amélia”.
 

 

Maria Antonio Vargas de Faria é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Conte você também mais um capitulo da nossa cidade: escreva para milton@cbn.com.br.

Noel Rosa sabia mesmo das coisas

 

 

Os 80 anos da morte de Noel Rosa, lembrados em reportagem especial no Jornal da CBN, produzida pelo colega Gabriel Sabóia, desta quinta-feira (4/5), trouxeram à memória algumas das mais belas músicas produzidas pelo ‘Poeta da Vila’, que fez muito e fez bem, apesar de ter vivido pouco. Foram mais de 200 letras compostas com tom de poesia, em um dos maiores legados do samba brasileiro. A boemia e seus excessos, porém, deixaram-lhe doente, e de tuberculose Noel morreu aos 27 anos, no auge da carreira.

 

Gosto de uma música em especial, talvez sem a mesma fama de “Conversa de Botequim”, “Fita Amarela” e “Com Que Roupa?”, que levaram o samba para o rádio e até hoje tocam nas emissoras que dão preferência à qualidade. Gosto de “Seja Breve”, que teria sido gravada em 1932 e me foi apresentada por um ouvinte da CBN há cerca de cinco ou seis anos.

 

O ouvinte acabara de acompanhar uma entrevista que tentei fazer com um médico. Era coisa importante. O doutor havia publicado pesquisa em revista científica no exterior. Mestre da ciência, porém, exagerou nas explicações e em seis minutos de entrevista foi incapaz de descrever para mim e para o público o significado de seu trabalho. Era craque na saúde. Não tinha o mesmo desempenho na oratória.

 

Perdemos a oportunidade de esclarecer o assunto, mas ganhei um ‘causo’ para minhas palestras. Pelo Twitter, o caro ouvinte – lamentavelmente não guardei o nome dele – me sugeriu Noel Rosa e a letra a seguir:

 

Seja breve, seja breve
Não percebi porque você se atreve
A prolongar sua conversa mole
(E não adianta)
Seja breve (conversa de teso)
Não amole
Senão acabo perdendo o controle
E vou cobrar o tempo que você me deve

 

A letra reforça a genialidade de Noel. Lá nos anos de 1930, ele já nos ensinava como nos comunicarmos de maneira eficiente nos tempos de agora em que o excesso de mensagem deixa tudo nebuloso e sem relevância.